domingo, 24 de junho de 2018

Dom Casmurro!

"Estilo, meus senhores, deitem estilo nas descrições e comentários; os jornalistas de 1944 poderão muito bem transcrevê-los, e não é bonito aparecer despenteado aos olhos do futuro." - Machado de Assis. "A semana". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1895.
 


         A gravação que acompanha este texto é a feita em 2009, com os erros e acertos no limite do que eu no alto de meus dezenove anos era capaz de fazer. Gravei primeiro o violão e tentei cantar de fôlego com alguma dificuldade. O "Ah Capitu" soa antinatural por ter sido inserido depois. Á época me era difícil cantar tocando a letra inteira. Letra essa que surgiu em meio à rota das cobranças como office-boy. Num dia inespecífico comecei a cantar "De minha infância lembro muito meu tio, minha mãe, o quanto isso hoje me diz é pouco" depois os jogos de palavras "quem captava a linha direta de minha rotina, por quem meu corpo perto optava por parar, tu captas que diziam: ela é coisa do capeta. Teus olhos de ressaca: Capitu". Algumas brincadeiras como o "europou" eram influência dos neologismos de Guimarães Rosa. Autor que só me lembro de ter prestado atenção à existência por influência dos professores na universidade. Mas pensemos na música.
       Dom Casmurro! surgiu no mesmo ano em que compus A Hora da Estrela. Não é coincidência. 2009, para efeitos deste texto, ficou marcado por dois eventos: minha incursão na faculdade de Letras e o fim da banda Falsa Modéstia.    
        Ambos eventos parecem carregados de coincidências. Desenho, então poderia ter feito Artes Plásticas. Navegando o sonho de perder a timidez e me libertar no palco poderia fazer Artes Cênicas. Compondo há alguns anos e já tendo a indicação de um técnico em estúdio para aprender a tocar com metrônomo, Música era a escolha certa. O gosto pela análise interpessoal parecia sugerir trilhar o caminho da Psicologia. Apreciando escrever, Jornalismo era para mim. Por menos opinativos fossem os textos naquele período - ou em qualquer um posterior. Memorialista que sou, poderia ser me desse bem estudando História. Por crer a Língua Portuguesa base para quaisquer estudos que fizesse acabei optando por Letras. 
           A banda também poderia ter seguido? Sim, de certo modo, ela o fez. Se durante um período a troca de um integrante era capaz de gerar uma banda com conceito completamente distinto (Falsa Modéstia/Cangaço) a banda Vacina seguiu com os integrantes levando a música, energia e vibração para todos os lugares e segui com as composições de dentro de meu quarto. Diria Anitelli: as claves na gaveta. Algumas como Para o Adeus (tributo a Michael Jackson) já tinham parte desenvolvida. Outras como Dom Casmurro! já estavam prontas e eram ensaiadas buscando um arranjo que as vestisse bem. Seguindo o exemplo d'O Teatro Mágico em Cidadão de Papelão comprei uma escaleta num passeio com Fabio pela Rua do Seminário enquanto levávamos os instrumentos para uma revisão com o luthier Erlon Alves.
        O caráter memorialista teria sido herdado de Machado? Os textos de 2007 ficaram conhecidos pelos poucos que os viram como "Memórias de um doceiro". Seguindo o exemplo das Póstumas de Brás Cubas, do Memorial de Aires, do próprio Dom Casmurro. Notei no último sábado, enquanto lia sobre a narrativa de Bento Santiago como há relação entre o momento em que ele vê os olhos de Capitu pela primeira vez com a forma descrita na narrativa de Sobre um dia de junho. Este blog, em si, são memórias. Mal se fala do futuro, senão, aquele vivido enquanto presente. A banda Falsa Modéstia flutua de memória em memória.

Dom Casmurro (2009)
Letra e Música: Thales Salgado

De minha infância lembro muito
Meu tio minha mãe
O quanto isso hoje me diz é pouco
Quem captava a linha direta de minha retina
Por quem meu corpo perto optava por travar
Tu captas que diziam:
Ela é coisa do capeta
Teus olhos de ressaca Capitu

O Pádua ficou louco
José Dias não europou
Mesmo com todos os superlativos
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana obliqua e dissimulada Capitu

Fui para o seminário
Pra São Paulo me mudei
Voltei formado como advogado
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana obliqua e dissimulada Capitu

Ah Capitu...

Ezequiel meu filho
Era a cara de Escobar
Os movimentos, o furor o brilho
No funeral Capitu
Dama negra desaguou
Chorava mais que a perda de um amigo

Ah Capitu...

Viajou para a Europa
Tão mais logo não a vi
Guardei em mente só uma certeza
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana Obliqua e Dissimulada Capitu

Ah Capitu...


          

sábado, 16 de junho de 2018

Sobre um Dia de Junho

"Recordemos, ao menos por um instante, o que merece ser lembrado, ficamos esperando que cada um dos lembradores não realize o projeto de buscar uma rua, uma casa, uma árvore guardada na memória, pois sabemos que não irão encontrá-las nessa cidade onde os preconceitos da funcionalidade demoliram paisagens de uma vida inteira. Ao darmos palavras as vozes que foram silenciadas, uma voz fica no espaço, gritando, aqui nada podem tocar e nada podem destruir porque só restam memórias, lembranças dos últimos dias e o último dia é hoje." - Umbelina Ferreira Barbosa, Arujá: cidade natureza, 2004 João G. Machado
Página de caderno de 2008


         A frase que abre este texto fora pensada para abrir Milonga de Partida e, por descuido, acabou de fora. Sobre um dia de junho era uma das poucas composições que só entraria no blog dentro deste específico mês. Mais por uma questão de princípio que por outra coisa. Quando a escrevi, a intenção era a de tentar trabalhar um lado narrativo para as composições da banda Falsa Modéstia. Você cresce ouvindo narrativas e se pega pensando quais as possibilidades de fazê-lo. Para este caso não foi tão simples quanto imaginado, por mais que a cena em questão seja banal. Imagine a cena: duas pessoas numa praça, acima delas as arvores, acima dela, a lua. O junho no título vinha apenas para trabalhar a atmosfera entre algum ponto entre o outono e o inverno. 

         Sua melodia tem como ponto de partida a canção João e Maria de Chico Buarque, canção que eu ouvia muito tanto pelo álbum Seu Francisco de Oswaldo Montenegro quanto por influência dos devedês do mestre Robson Miguel. Suas outras duas partes não tem uma origem tão clara, eram, sim, parte da intenção de criar uma dinâmica diferente para a música, quebrando a expectativa de um possível ouvinte. Aconteceu que, enquanto gravava, o celular tocou e, por descuido, não estava no silencioso. Decidi usar a gravação antiga, pois, esse toque de meu antigo Nokia 5200 era o som do monstro de fumaça de Lost, diretamente do trigésimo quinto episódio da série O Salmo 23. Ainda que sem saber realizar harmonias vocais havia sempre uma vontade de ter outras vozes a cantar junto e assim dobrava minha própria voz na terceira parte da canção. Após o final, um interlúdio instrumental. Estava aí, Sobre um dia de junho.

Sobre um dia de junho (2008)
Letra e música: Thales Salgado

A luz da lua passando entre as arvores
Deixava mais inconfundível
O brilho de teu olhar,
Que havia sido até então
Observado de longe
O frio estava com medo de se aproximar
Dançava como uma brisa leve
Que fazia espalhar
Ainda mais o teu perfume

Pela noite que era bem-vinda
Tanto quanto teus cabelos
Escorrendo como água em minhas mãos
Fica a lembrança que me paralisa
Do momento em que a certeza
Foi criada em um mar de palavras

E em meio a nossas conversas
Nos calamos juntos
Fazendo daquele silêncio
O mais bonito que tivemos
Com as dúvidas sanadas
E o desejo saciado
Sem arrependimento
Sem vontade de partir

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Milonga de Partida

"Conheci um paulista que disse que depois que leu “A Estética do Frio” ele se deu conta de pensar nas coisas dele, de São Paulo, de como ele se via dentro do Brasil, dos preconceitos que ele tinha em relação a isso ou aquilo. Essa coisa de tu tirar o centro do lugar é muito legal, essa coisa do “não, não estou à margem do centro, isso aqui é um centro”. Tu pode determinar o teu centro em qualquer lugar: se tu é do Piauí, tu pode enxergar esse centro. Eu acho que todo mundo que cria, por mais que tu esteja ligado com o mundo — e eu acho que tu tem que estar ligado com o mundo, sabendo tudo — tu tem também que saber o que está acontecendo na tua rua; o universo passa na tua rua. Tu tem que estar ligado plenamente nas coisas." - Vitor Ramil em entrevista para o site Screamyell em maio de 2017

Gravação feita em 2013:

Milonga de Partida (2013)
Letra e música: Thales Salgado 


O rio que nunca cruzei 
Caudaloso vi findar 
Um fantasma do que sou 
A noite vem me lembrar 
Quando criança fui
O hino me fez jurar 
Que eu ficaria ali 
Por tanto amar o lugar
E agora que cresci 
Acabei por me mudar
Quanto de mim ficou 
Nas terras de Arujá? 

Estrelas, girassóis
E tulipas nos jardins 
A primeira canção 
Já é mais de uma em mim
Sem falsa modéstia
Eu penso em visitar
Numa memória distante
Me transportei para lá 
E hoje quem ficou 
E não mais me vê passar 
Apaga tudo o que fiz 
Das terras de Arujá


        Quando olho para as composições feitas entre 2007 e 2013 percebo não haver marcas geográficas aparentes. Ainda que, no início, o transporte das canções entre as cidades de Arujá e Itaquaquecetuba tenha sido representativo para o que viria depois, não houve necessidade para refletir sobre isso. Em 2007 Memórias Distantes menciona emprestar palavras “de algum lugar” mas não esclarece. Em 2008, Canção para ti versa “as asas multicoloridas da joaninha refletem pela mata o brilho dos vagalumes” ainda assim é mais um reflexo do deslumbramento com a faixa de abertura do álbum Matizes de Djavan.
Arujá é a cidade natureza mas, a mata na canção seria a mata arujaense? Teria o inseto sido avistado na estrada da P.L., nos arredores do ginásio no Jardim Rincão ou até mesmo nas proximidades do Macaxeira antes de erguidas suas grades? Apacresce, de 2009, inicia com “Eu a vejo passear graciosa, pela estrada vai sozinha” e, embora esse avistar tenha se dado em algum lugar entre a Santa Catarina, a Amapá e a Piauí o fato não influencia a letra.
         A letra de Meio-dia (2010) menciona um velho deitado no banco próximo à fonte na praça do coreto, alguém realmente avistado mas num espaço em comum com uma série de outras memórias. A questão de endereços foi parte do que constitui a letra de Pode Ser em que um eu-lírico declara “a cidade é nossa, nada se perdeu”. Morando numa cidade pequena, coincidências são lugar comum. Certamente alguém se esbarrará no centro.



       A mudança de cidade criou a necessidade de pontuar uma canção com algo mais concreto: quanto de mim ficou nas terras de Arujá? Assim, sem me valer de acrósticos era premente mencionar o rio Baquirivu, e o hino da cidade, composto por Toninho da Pamonha e oficializado em 1985. Em agosto de 2017 enquanto lia o livro Arujá: Cidade Natureza de João G. Machado talvez me tenha passado pela cabeça o Encontro das Nações e minhas interações com a festa. Primeiro a criança tomando noção da existência de outras culturas, passando pelo adolescente buscando estar “onde todos da cidade estavam”, mais tarde como músico se apresentando junto a meus amigos por dois anos seguidos e, hoje em dia, como o visitante da cidade vizinha. Assim, foi um alento saber no início da semana que a festa, como patrimônio municipal, não deixaria de ocorrer em eco resultante da greve dos caminhoneiros que a postergou.
         É provável que o espaço e o lugar influenciem o desenvolver da arte individual. Em 2013 ouvindo e lendo sobre a Satolep de Vitor Ramil fui tomado da vontade de escrever sobre onde era a casa, é por esta influência sulista que me veio a ideia de nomeá-la "milonga". A cada visita encontro algo novo por lá. Arujá é cidade mutante, mutável e até o que nasceu memória tem fim. Mas ela também vive em quem, por lá, passou.

domingo, 27 de maio de 2018

Referência

"Eu sou a soma de tudo o que vejo" - Meu Reino, Biquíni Cavadão




Referência (2011)
Letra: Kariny Cristina de Camargo
Música: Thales Salgado

De amores fui atenta
E por viver essa tormenta
É que sofri meus ais
Para trás na poesia
Augusta fui um dia
Flor bela, nunca mais!
Se mau agouro tive em vida
Hoje morro renascida 
Sem barcos no meus cais



         "Poderia ler esta insignificância que segue e me dizer que relações, intertextualidades, figuras de linguagem e poetas você encontra ao ler?" Com estas palavras Kariny iniciou uma conversa ao final de junho de 2011. A faculdade chegava em sua reta final e com ela o primeiro vislumbre do que viriam a ser as composições de 2013. Aquela altura poderia tomar como minhas as palavras de Lenine em Castanho: o que eu sou eu sou em par. Tirando o fato da composição ter saído em seu álbum de 2015. Ainda assim, uma consciência também já vista na convivência com a banda. A interação permite alcançar patamares não visíveis sozinho. Enquanto respondia, muitas das referências que encontrei em nada correspondiam às que ela tinha em mente ao escrever o poema. Quando o musiquei tinha em mente Shine on You Crazy Diamond. Embora, despida de solos a minha é uma canção curta. Algo que também seria explorado em De Amor Pequeno.

domingo, 20 de maio de 2018

Nos Olhos do Tempo

A MIRAGEM NO CAMINHO
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco,
(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).
Helena Kolody

Foto cedida do acervo de Kariny Camargo


Nos olhos do tempo (2011)
Letra e música: Thales Salgado

Olhou para trás e não se tornou
A estátua de sal que desejou
E ao deitar o que sonhou
O fez raiar, o exasperou

Viu um jardim de nuvens
E cisnes de papel
Esculpida em lava
Uma alada cascavel
Fênix de neblina
O caos da criação
Deparou-se com o tempo
Vindo em sua direção

Viu sua vida nos olhos do tempo
Num arrebol com poeira de estrelas
Viu tantos astros, tantos elementos
Unindo-se a seiva de luzes e trevas
Não se lembrava de nada quando acordou

         "De todos os mistérios da noite, os que mais me espantam são os vaga-lumes e os sonhos" essa frase do filme Fica comigo esta noite permanece desde a primeira vez em que assisti ao filme num longínquo 2006. As frases de posts anteriores tendo sido d'A Sociedade dos Sonhadores Involuntários de José Eduardo Agualusa me deram a impressão de que voltaria a trazê-lo aqui. Os sonhos sempre foram um tema de interesse. Dias atras, mesmo, sonhei em encontrar refúgio numa espécie de seminário ou mosteiro. Pouco recordo dos pormenores mas, enquanto eu sonhava, parecia tudo palpável e concreto. Como se o mero fato de despertar fosse uma afronta ao encontro propiciado pelo idílico. Melhor seria esquecer?
          As canções de Nada Há de Novo Sob o Sol traziam menções ao Eclesiastes. Nos Olhos do Tempo traz menção óbvia à esposa de Ló, numa das passagens que mais me assustavam na infância. Lembro de 2011 ser o ano do lançamento do álbum Chão de Lenine com sua circularidade concreta inconvencional, no entanto, não consigo me atinar a que me levou a escrever essa letra numa tentativa simbolista. "arrebol" é uma palavra que retirei do cancioneiro de Djavan, assim como a Fênix é uma forma delicada de inserir Ikki, uma de meus cavaleiros de bronze favoritos em canção. A alada cascavel é o Quetzalcóatl da cultura mesoamericana... Há uma série de alusões, e a espinha dorsal são os sonhos. Aqueles dos quais se acorda sem saber de nada.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Hey Menina

"Para uma pessoa com alguma imaginação o passado está em constante mudança. Você acha que o presente nasce do passado, mas é o contrário. O presente cria o passado. Uma pessoa com imaginação não fica presa ao passado e muito menos a fronteiras." José Eduardo Agualusa - A Sociedade dos Sonhadores Involuntários

Seu instrumento, seu território.


Hey Menina (2009)
Letra e Música: Fábio Kulakauskas

Hei menina!
Passa devagar
Pra eu contemplar
Teus passos

Aqueles passos
Que me fazem
Viver o passado.

Alguns passos,
Alguns passam.
Mas, você não ficou
Só no passado.

Hei guria!
Ah! Eu lembro
Do teu caminhar,
Leve feito pena.

Más não há “penas”,
Pois, sobre mim
Tu irás passar
E alcançar...

O teu futuro.
Pois, é esse
O destino
De nós dois.


         Foram-se os dias após o natalício e a canção não vinha à tona. No dia dez, enquanto conversava com Kariny ela comentou acerca do contraste entre minha versão (suave, breathy, raspy) e a gravação original (forward placement) de Fabio, com direito à um arranjo de violão clássico digno de Pachelbel.
         Assim como Desejo de um Rio, minha versão da música é pautada nos arranjos de Bill Callahan em seu álbum Sometimes I Wish We Were An Eagle. A delicadeza da execução das cordas desse álbum tornaram-se um norte. Você precisaria ouvir apenas Jim Cain para perceber a maneira como a voz de Bill percore os acordes como quem não se preocupa com o tempo. Por vezes me pego a pensar em quanto os arranjos poderiam ser modificados ou não. Esse pensar também esteve presente numa outra canção de Fabio de que falei: Noites Esfrias em que o foco foi na utilização da craviola de doze cordas.
      Esses contrastes não são forçados. Podendo analisar muito tempo após tudo ter ocorrido fica a noção das abordagens composicionais distintas e, por mais soe repetitivo, é um fator que agrega quando se pensa na Falsa Modéstia como a entidade coletiva de outrora. Algumas de minhas composições poderiam trazer os 'passos' como foco, e, ainda assim, seriam outros passos. Como um de meus rascunhos perdidos em tudo o que não foi e que dizia lá perto do ribeiro onde segui seus passos. A letra de Fabio é concisa e ao mesmo tempo evocativa e esse é um ótimo ponto. Não é preciso discutir acerca. Apenas sentir.

domingo, 6 de maio de 2018

Escarlate Saudade

"Os sonhos, ah, os sonhos! Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver, mas sem a grande mentira que é a vida. Talvez seja isso. Talvez seja o contrário disso. Nem sei. Acontece-me, por vezes, acreditar numa determinada ideia e no oposto dela com idêntica paixão, ou sem paixão nenhuma. Nos últimos anos, aliás, venho perdendo cabelos e paixão. Também venho perdendo ideias e ideais. Talvez seja a velhice, talvez seja o nirvana. O que você acha?" A sociedade dos sonhadores involuntários, José Eduardo Agualusa
Foto: LumineImages (iStockphoto)

Escarlate Saudade (2018)

Toda manhã
Sou despertado por sua canção
Dizendo quase poder ver
O sonho de sua escalada.
Passo o café
Do jeito que tu costumavas fazer
Não digo "eu lembro"
Pressupõe esquecer
E eu não me esqueci de nada.

Confesso que, às vezes,
Logo ao abrir a porta
A vejo ali, sentada,
Será Inês é morta?
Mas não vivo num filme
Aqui não é Hollywood!

Cada amanhã
Alimentando uma antiga paixão
Morrendo sem se perceber
Ilhando-me em sua morada
Lágrima, até
Avança a face
Dissipando meu ser
E já são tantas que se nada

Confesso que,às vezes,
Retraço nossas rotas
Você, já no futuro.
Será que ainda importa?
Quem dera estar num filme
Um final de Hollywood!

Mesmo não fosse assim
O orgulho impediria outra
Reação qualquer de nós
Agora, há tempos, não há par.
E as metades, desiguais.
Saudades são excessos.

O que se faz com o amor que sobrou?


         Se me fosse permitido usar o título de uma canção que desgosto para iniciar o texto, certamente seria "quase sem querer", afinal, a locução define bem a maneira como essa canção surgiu. Experimentava a afinação D-D-D-A-D-F# e decidi mantê-la desde o mês de abril. É quase como reaprender o violão. A menos eu enjoe, as próximas serão feitas nesse mesmo esquema.

       Escarlate Saudade é a primeira composição solo de 2018, uma vez que Enquanto Fizer Sentido iniciou com as palavras de Barbara Barduchi e Is This Poetry foi a musicalização de dois micro-poemas do perfil no Instagram @poetry_131 (veja aqui: https://youtu.be/yvxRwfk4aZg), e sua letra funciona como continuação de CCCLXV. A música funciona isolada? Provavelmente. A intenção da letra era fugir um pouco do críptico poético inserindo elementos cotidianos, como passar o café. 
Foi por um triz que alguma menção à Hollywood não permaneceu no título. As primeiras pessoas a ouvirem a música levaram a crer esse é o trecho mais marcante - talvez pela repetição?. Manter a palavra escondida era forma de seguir hermético como memória. Se uma década atrás se falava em paixões de cinema, abismos que, por amor, são superados, Escarlate Saudade aborda a questão sob outro ângulo: que importa a evocação de um cotidiano anterior? Estando alheio a ele. 
         Mesmo se canções favoritas "do outro", são mencionadas (leia-se The Climb de Miley Cyrus e  Alma Gêmea de Peninha eternizada por Fabio Jr.) a vida não segue uma estrutura de três atos, por mais sonhemos em emular a Trilogia do Antes (clique para um texto de Larissa Padron para o Cinema de Buteco). Até aí nada há de novo sob o sol. Essa canção só ilustra o que a poeta Joni Mitchell afirmara em seu primeiro álbum em 1971: todos os românticos encontram o mesmo fim algum dia: cínicos, amargos e chateando alguém na penumbra de uma cafeteria... Ei, você ainda tá aí?

terça-feira, 1 de maio de 2018

As Faixas Instrumentais

"Quando componho ou apresento músicas, o faço por ser o que está em minha alma. Nunca penso se as pessoas vão gostar ou desgostar de minha música, apenas componho e apresento a música que faz sentido para mim, a música que está dentro de mim. " Yanni em entrevista à revista NeeHao em 2014
Nuit celtique (Saint-Patrick): musiciens Foto: F.de la Mure

         A primeira lembrança que me vem quando penso em músicas instrumentais, é a de, com uns dez anos, talvez? Assistir às fitas VHS dos concertos de Yanni. Live at Acropolis e Tribute. Eram as músicas favoritas de minha mãe para trabalhar com seus diários escolares. Ainda que, num primeiro momento, eu não gostasse, com o passar dos anos e subsequentes audições do musicista grego ampliaram minha ideia sobre a música. Não era apenas sobre poder observar o grande compositor grego, e sim, a reunião de artistas engendrada por ele como a violinista norte-americana Karen Briggs, os sopros do multi-instrumentista  venezuelano Pedro Eustache, o tecladista taiwanês Ming Freeman, entre outros. Cada um com sua expertise em destaque em algum momento e somando para um todo que os ouvintes não podem imaginar ao ouvir as gravações em estúdio. Mencionei destaque para a nacionalidade de cada um, pois, Yanni é conhecido como "O Verdadeiro Artista Global". Então, assistir com meus pais a uma de suas apresentações em março de 2014 foi como fechar as pontas com a infância.
          Adotei o  hábito de realizar atividades ao som de música instrumental, primariamente, para leituras. Trilhas sonoras de filmes como as de Hans Zimmer costumam surgir. Ou o álbum Rasura do grupo curitibano ruído/mm. O problema em falar de música instrumental é a falta de entendimento teórico. Por conta de suas letras é mais fácil analisar o peso das canções. Com musicas instrumentais é diferente, elas também fazem sentir, remetem à outros eventos: um momento, um filme. Tomar emprestados os versos das canções como linha guia para a narrativa é uma forma de tentar me colocar no lugar do artista, se os versos mencionam poetas, se fazem referência às letras dos álbuns anteriores, outros artistas. Nem sempre é possível traça-las, por mais esforços e audições, mas parece concreto. Algo que não ocorre com faixas instrumentais.
         O fato de ser capaz de apreciar faixas instrumentais, no entanto, nunca permitiu que eu as compusesse. A primeira vez que utilizei uma melodia sem a letra foi em 2007. "A Última" nada mais era que Um Conto no Jardim sem a voz. Naquele momento, estava surpreso com as possibilidades de gravação caseira, sobreposição de faixas, efeitos. Ainda que a sincronia não estivesse perfeita.

     Levou alguns anos até que eu decidisse tentar algo inteiramente instrumental, Nothingless foi pautada por um cavaquinho fora de afinação e uma meia lua. Ao final, busquei aplicação de uma flauta de pan. Seria preciso um metrônomo para que ela funcionasse direito. A linha melódica realizada pelo violão foi pensada para uma letra. Não pude intuir o que seria possível dizer, então, assim ficou.

         No mesmo ano (2009) enquanto tentava praticar o uso do aplicativo Acid Pro passei a experimentar as possibilidades dos plugins VST num teclado virtual. A intenção, dessa vez, era a de preparar uma série de faixas mais eletrônicas com o intuito de serem a trilha antes/após uma apresentação da banda. De modo a tornar todo o conteúdo autoral. Quase sempre há uma trilha ambiente quando a apresentação não toma parte. 

      Um amigo apreciador de música eletrônica disse que ela não possui dinâmica suficiente para esse intento. Isso demonstrou que é preciso conhecer mais de um estilo musical antes de tentar se aventurar a ele. Após junho de 2009, a Falsa Modéstia não se apresentou mais então acabei por engavetar a ideia.

         Para Mosaico de Estrelas, em 2011, a cada duas faixas há um intervalo instrumental. Interregno 8689 poderia ter letra. Nazar Boncuk (mencionada no texto sobre Lives) é outra das composições sem letra desse ano. Passiflora Edulis leva o nome científico do maracujá e foi a primeira composição feita com a craviola de doze cordas. Foi apenas ao fim de 2016, com Vita Brevis que completei uma composição com ela e letra. Aqui, havia o interesse em tentar traduzir sensações.

        Se você chegou até este ponto na leitura, comente se sentiu alguma coisa. Em minhas leituras já reparei que há artistas que fazem uma cama sob a qual a voz se encaixará. Para alguns, é comum trabalhar desta maneira. Até onde vi. Desde que comecei a compor em 2007 essa atividade nunca foi realizada. A palavra. É sempre ela a motivadora dos textos, composições... Meus cadernos também não possuem letras aguardando por melodia. Será que um dia terão? 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Lives - Daron Malakian and Scars On Broadway

"Eu ainda escrevo. Tenho muito material. Tenho uma namorada, com família. Eu ainda estive focado em música nos últimos anos. Eu fiz uma música com o Linkin Park há alguns anos, também. Quando algo vem ao meu caminho, eu faço, mas meu foco ainda é a escrita. Só aconteceu de eu não ter lançado nada, principalmente por estar incerto sobre o que estava ocorrendo com a System. Acabei sem hesitante. No entanto, me ocupo escrevendo. Sou o tipo de cara que, mesmo se ninguém ouvir o que faço, ainda me divirto escrevendo, então eu faço." Daron Malakian em entrevista à revista Rolling Stone, abril 2018.
– Cara, você já ouviu a música nova do Scars on Broadway? 
– Hmm, não sei se lembro dessa banda não.
– É a outra bandado Daron Malakian, o guitarrista do System...
– Ah! Agora eu lembro, já faz uns anos, né?
– Sim, mas dá só uma olhada nisso.

Ele pega o celular, e em um movimento rápido ativa a visualização horizontal, pede que o amigo dê play para não perder nada.

 

– Esse cara é muito louco, adorei o visual e as danças.
– Isso que estou falando, estou mostrando a todos que encontro. Embora, a recepção ao novo material não parece tão partilhada assim, será que em 2008 foi assim?
– Provavelmente, eu também ouvia muito o som desses caras na época escolar mas não segui acompanhando. Nem sei como você ainda vai atrás. De onde vem essa vontade, interesse, curiosidade, não preguiça?
– Acho as melodias criativas, o peso das guitarras tem classe e aquele charme nas referências harmônicas do Oriente Médio. Tudo soa único e ao mesmo tempo familiar. Além do mais, há aquela mescla entre o surrealismo non-sense e o posicionamento político. Eu até tentei fazer uma instrumental com essa influência, ouve isso:



– Acho que se você colocasse umas vocalizações à la Serj, seria mais fácil a conexão.
– Até pensei em fazer algo assim, mas quando gravei não tinha conseguido fazer. Os anos foram passando e eu não revisitei o material, enfim.
– É, até gostei da música, mas você entrou num ponto sobre o Daron que me chamou a atenção. Essa questão política é um ponto. Tomar partido, sabe? Em 24 de abril O Grande Mal completou 103 anos. As manifestações em memória continuam.
– O Daron falou numa entrevista para a Rolling Stone que sua ideia era fazer uma música animada para impulsionar a moral do povo armênio. Algo como "respeitemos os que morreram, mas muitos sobreviveram e quão longe chegaram."
– Em São Paulo mesmo, há milhares de armênios e descendentes. Minha mãe já trabalhou com um. Na real, nem sempre prestamos atenção às origens de quem nos rodeia. A Aracy Balabanian é uma atriz de origem armênia. Os pais dela vieram para cá fugindo daquele sofrimento...
– Quando olhamos assim realmente faz sentido que o Daron tenha se unido com o Linkin Park justamente para uma canção cuja letra dizia que "nós somos os afortunados que nunca encararam a arma da opressão".
– Já faz uns trinta anos que trocaram o nome da estação de Ponte Pequena para Armênia, você é jovem para lembrar disso, mas a ação foi em homenagem e agradecimento aos imigrantes armênios em São Paulo.
– Eu achei o clipe hipnotizante. Vai ter mais?
– Pelo que li, o Daron já estava com essas músicas gravadas desde 2012. Ele levou foi tempo para lançar, parece que foi sua experiência gravando todos os instrumentos.
– É meio o que o Serj fez para o Elect the Dead, não? Gosto da versatilidade desses caras, você deveria investir tempo em outros instrumentos também. Se ele tivesse lançado antes não ficaria essa impressão de vazio composicional tanto tempo.
– Na mesma entrevista que te falei, ele disse que esperou por não saber se o SOAD voltaria a gravar. A banda poderia aproveitar esse material. Algumas músicas do Dictator soam como System.
– Então a banda não volta? Não li nada sobre.
– Difícil dizer parece que no momento os quatro não chegaram a um acordo para se comprometer com esse evento. Tocar juntos é uma coisa,a banda não está brigada, não rolou uma  rusga ou coisa assim. Mas, preparar um álbum novo requer outra especie de compromisso e, atualmente, o Daron é quem está investido na ideia de compor/gravar. Os outros tem outras prioridades agora.
– Vai escrever sobre o Dictator quando o álbum sair?
– Está nos planos. Em 2018 acho que só falei de um álbum. Vamos ver no que dá. Por enquanto é difícil dizer qualquer coisa concreta.

domingo, 22 de abril de 2018

Podia ouvir Drexler

"Então, (sobre Despedir a los glaciares) eu diria que essa e uma das canções mais duras que já escrevi. Porque ela fala sobre uma coisa que já não tem solução, sobre o que vai embora e o que vai se derreter. Quando você perde algo ou uma pessoa é preciso dizer adeus, e não deixar que o medo e a dor façam você esquecer de que também é importante se despedir. Mas há muitos sentimentos ali." - Jorge Drexler em entrevista à Nathália Pandeló Corrêa, para o Tenho Mais Discos que Amigos.

Jorge Drexler em foto postada em sua página no Facebook
Guarulhos, 22 de abril de 2018

         Era ano do macaco a última vez que nos vimos. Nos conhecemos num ano da serpente então, se houver janelas de oportunidade instituídas pelo ano chinês, pode ser nos vejamos em 2025. Dias atrás eu estive num show do Jorge Drexler. Acho que te falei dele no mesmo período em que vimos o Kevin Johansen. Há alguns anos, o Moska me colocou na cabeça que, brasileiros, costumamos dar as costas para nossos hermanos. Passei a ouvir alguns de seus parceiros: Nano Stern, Pedro Aznar... Em conformidade com isso meu pai chegou uma vez me perguntando de um cara ouvido na rádio dizendo hay tantas cosas yo solo preciso dos, mi mi guitarra y vos. Ali conheci o trabalho desse uruguaio, acho que já te falei isso. Pra tentar complementar algo posso dizer que busco essa autossuficiencia. O violão e a voz nunca me bastaram, será que eu demonstrei?
         Mas eu estou escrevendo, pois, creio você podia ouvir Drexler, teria gostado dessa apresentação seja quando calcado no violão ou com a banda completa. Ele contou várias histórias e interagiu com o público sempre que pode. Se ouvir os álbuns você consegue captar o bom humor, enfim, a Casa Natura fica bem próxima ao metrô então não haveriam aquelas longas caminhadas que você acabava fazendo, lembra? Eu gostava de irmos fazendo nosso mapa sem o auxílio veicular. Estávamos sempre em movimento.
    Mais de uma das músicas remeteu a conversas nossas. A música de abertura fala sobre sermos todos pais, netos e bisnetos de imigrantes. Falávamos do resultado da mistura dos lisos cabelos indígenas com o orgulho alemão ou meu sobrenome português e a falta de acesso ao sobrenome espanhol por ausência de documentação comprobatória. Assim como aquela vez à Bragança, poderíamos ir ao Uruguai de ônibus. Já ouviu falar do Cabo Polônio? Ele leva doze segundos para a luz fazer a volta completa, imagina só andar nestas condições numa noite!.. É, estou falando em andar de novo né? Que cabeça a minha. Espera, posso mudar de assunto. O Tó Brandileone do 5 a Seco subiu ao palco também. Eles cantaram Todo se Transforma. É meio Lavoisier a ideia, embora eu tenha dificuldade com isso de "nada se perde" quando a transformação não é do meu agrado. Ainda assim, falando do show, ele me deu vontade de ver algum filme de Eric Rohmer. Sempre víamos filmes mais agitados. Era escolha ou imposição do cinema hollywoodiano? Até vimos longas franceses, japoneses, nunca eram a maioria, todavia.
    Teve algo dito, não recordo se antes ou depois de Pongamos que hablo de Martinez, relativo a essa questão com o tempo levado para agradecer/homenagear alguém ser imposto pelas próprias canções. Ele levou cerca de vinte e dois anos  para desabrochasse uma. No meu caso não levei tanto tempo assim mas é inconveniente mesmo assim, afinal, você já havia mudado de cidade. Custava ter conseguido versos três meses antes? O Carpinejar disse que se não esquecemos alguém é por não termos sido sinceros quando deveríamos, o que você acha? Ter usado nosso nomes verdadeiros naquele texto não significaria nada. Você já informara de sua vida nova no dia de Iemanjá. Tem uma outra música, ele diz que embora todos creiam ter inventado algo seguem sendo as mesmas canções. É o tipo de insight que eu não alcanço. Isso me leva a assistir esses artistas que contam com seu empenho e sua pluma voadora. Inspiração, projeção, um pouco dos dois, creio. Te indicaria ouvir Telefonia mas há mais de um ano não vejo seu nome nas chamadas recebidas, vou tentar amar a trama mais que o desenlace.
     Se você se permitiu chegar aqui, podia ouvir Drexler. 
Beijos,         

Palpitar

"A questão talvez não deva ser analisada na base do certo e do errado. Há escolhas erradas que produzem resultados satisfatórios e escolhas corretas que levam a resultados catastróficos." Haruki Murakami, O Elefante Desaparece.



Palpitar (2013)

Se pacto não há
Resta-me retratar
Teus rastros como um mural de Rivera
Tocar na sua dor
Com a pureza da chama
E se quiser que atire no poema
Pois a canção é tudo
E se há coração
Ainda vive em permanente assombro

Padam Padam
Havemos de amanhecer

Meus versos sufocados
A nossa treva brilha
Eu ouço vozes, serão armadilhas?
Ainda que mal respondas
Quero tuas verdades
Pois que ninguém me rouba tua ausência!
Meus lamentos à parte
O que me importa a aurora,
Se você for mar aonde anda a onda?

Padam Padam
Havemos de amanhecer
Mas só no dia nunca igual

       Uma composição referencial. O padrão circular da melodia surgiu de uma incapacidade em sair do padrão tocado. Dessa maneira, a intenção foi tentar modular a voz inspirado em Hélio Flanders. A esta altura o terceiro álbum da Vanguart já havia saído? Se não, a proximidade com o fato tornava a ansiedade palpável. Edith Piaf possui uma famosa canção com Padam, meu uso advém da canção homônima de Benjamin Biolay. Há menções a Truth de Alexander Ebert, o que coloca esta composição na espera pelo fim de Breaking Bad. O solo de guitarra evoca brevemente John Mayer em sua fase Continuum. As conversas com minha amiga Kariny traziam poemas e, assim, algo de Quintana caiu na letra. O que trouxe Diego Rivera para a canção?

sábado, 14 de abril de 2018

A Idade da Alma

"Os objetivos que perseguimos são sempre velados. Uma garota que anseia pelo casamento anseia por algo do qual nada sabe. O garoto que intensamente deseja a fama não tem ideia do que ela seja. Aquilo que dá a cada um de nossos movimentos seu significado é sempre totalmente desconhecida para nós." - Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.


Funerais e Sepultura e o Modo de Chorar os seus Defuntos
 Jean de Léry

A Idade da Alma (2013)

Mas era outono:
Palavras em gravidade
Amargas horas sôfregas de Ser
Na chuva, sem nome
Sobrevoo a cidade
Uma sucessão de silêncios azuis
Tuas velas, tão serenas
Adornavam nuvens de Razão

A Idade da Alma desafia Cronos
Sem lastros transmuta a seu bel prazer
E o que é preciso é aceitar
O que é preciso?

Mas já me enganara:
Estranho na própria rota
Desenho sons em gotas de sabão
Nas trevas, sementes
Florescem minha tragédia
Indigno do tento almejar
Tantas pressas ladeavam!
Claro o pensar mas turva a ação;

domingo, 25 de março de 2018

O Amor Virá

Love Will Come Through foi o terceiro single lançado pela banda escocesa Travis para divulgar seu quarto álbum de estúdio: 12 Memories. O single estreou em 22 de março de 2004. Foi composta por Fran Healy. Ainda que conhecesse os singles Sing e Side, foi apenas quando conheci a faixa Re-Offender transmitida pela MTV Latina que a banda capturou minha atenção. Mesmo minha intenção de um dia conhecer algo de canto gregoriano no mosteiro de São Bento cresceu após ouvir a canção J. Smith. O Amor Virá surgiu de minha vontade de versionar uma das canções que tem uma alegria autocontida. Gosto muito das melodias dessa banda e é uma forma de poder homenageá-los à minha maneira.




O Amor Virá
Versão para Love Will Come Through da banda Travis

Se te conto um segredo
Você guardaria pra si
Sem dizer a viv'alma?
Está a me consumir
Não consigo dormir
E mentir, levou a minha calma

Pois então,
Pegue pra si
Só cuidado 
Com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

Mesmo na encruzilhada
Em meio a estradas
Eu sinto que certo está
Se o que sinto é verdade
Não há faz de conta
Na pomba que ouço voar

Olhe o céu, e tome pra si
Só cuidado com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

O amor virá...