terça-feira, 7 de setembro de 2021

Somos Resistência ou (ainda é Sete de Setembro)

 “Não tenho muito o que dizer. A primeira é crítica mesmo, para demonstrar a indignação com tanta injustiça e impotência de ser mulher nesse país, que não importa o quão errado e absurdo sejam os escândalos políticos, nada muda.” – Paula Lima em 04/12/2020

 



Somos Resistência (2020)
Letra: Paula Lima

Fomos lutar em Brasília
Pôr a tapa, o nosso rosto
Nossa briga por justiça
Sair do fundo do poço
Vamos expor o inimigo
Revelar nosso rancor
Confunde cérebro com intestino
Pátria armada e louvor

Somos a resistência
Mudamos o mundo ao nosso redor
Vivemos nessa decadência
Esperando que tudo seja melhor

Como pode ser culposo
Se viola outro corpo
Como pode o retrocesso
A Terra plana ser sucesso
Essa vida bagunçada
Desrespeito pela cor
Vítima estraçalhada
O show ao vivo do horror

Somos a resistência
Mudamos o mundo ao nosso redor
Vivemos nessa decadência
Esperando que tudo seja melhor
 

“Enquanto reflete a situação do país e sua tristeza com o último lançamento de Leoni, o single Sete de Setembro, outros versos que encapsularam uma série de situações distintas surgiu na mente de Thales. Ainda que ele os tivesse visto pela primeira vez nove meses e doze dias antes, sentiu que seguiam atuais. Mais relação ainda havia: Paula a escrevera durante o curso da oficina de composição ministrada pelo próprio Carlos Leoni Siqueira Junior. Ele decidiu que era hora de trazê-la ao blog.” - Prefácio por Jorge Luís Barros

    Em apenas algumas horas, a canção Sete de Setembro, de Leoni, alcançou mais de mil execuções. Considerando a população brasileira com mais de duzentos milhões de pessoas, dos quais, pelo menos trezentas mil o seguem no Facebook e sua carreira já contar com mais de quarenta anos, o número é expressivo, mas não impressiona. “Ain, mas você está falando sobre o que não sabe, hoje é feriado nacional, em um país cada vez mais polarizado. Há mais que música na vida, sabe? Duvido você lançar qualquer coisa e alcançar  de gente.” Antes mesmo eu pudesse replicar, você, leitor ou leitora tão perspicaz quanto voraz complementaria: “você já lançou algo repercutido pelo jornalista Mauro Ferreira? Ele comenta música desde antes você ter sequer nascido!” Diante de tais comentários, tudo o que eu poderia fazer seria dizer: “Sim, mas eu não estou escrevendo por despeito e sim por sentir que devo. Antes que você diga que perdi uma grande chance de ficar calado, são só palavras e o que eu sinto não mudará.

    O problema, claro, pode ter sido expectativas descompensadas:  quando vejo o artista compartilhando a coluna de José Eduardo Agualusa em que o jornalista compara o bolsonarismo ao talibanismo, projeto um alinhamento. Quando dias depois ele comenta acerca de que o Rio de Janeiro pode tornar-se um epicentro da pandemia por seus recordes de infecção, penso em bom-senso. Já ao ler, parafraseando “esse Sete de Setembro parece ameaçador no Brasil. Para quem vai ficar em casa, para não se arriscar (política e sanitariamente), tem o lançamento do meu novo single. Composta há uns 30 anos, com os Heróis da Resistência” meus sinais de alerta não despertaram naquele momento, primeiro pelo próprio compositor ter mudado neste período, e também pois, o cancioneiro brasileiro tem composições como Que País é Este, 1978, a qual fui apresentado formalmente quando a canção já tinha completado maioridade. A teatralidade ou, como diria Gessinger “o nome unidimensional e heroico” do título da banda me iludiu. Naquele momento não me veio a mente que um dos maiores sucessos deles era, justamente, “Só Pro Meu Prazer”, 1986, é claro que o compositor é especializado em pop, isso não está em discussão.

 

“O primeiro ato de violência que o patriarcado demanda dos homens não é a violência contra a mulher. Em lugar disso, o patriarcado demanda de todos os homens que se envolvam em atos de automutilação psíquica, que eles assassinem todas as partes emocionais deles. Se um indivíduo não tem sucesso em aleijar-se emocionalmente, ele poderá contar com homens patriarcais para pôr em prática rituais de poder que irão atacar sua autoestima.” A vontade para mudar: Homens, Masculinidade e Amor (2004), p.66 (tradução livre)

    Também não pensei na conturbada saída do Kid Abelha que em 1987 lançou Tomate, primeiro álbum sem Leoni, e que abre com Paula Toller cantando “Me Deixa Falar”, canção com versos tais “Brasileiros, marcianos/Fazem tanto pra agradar/Mas querem muito, querem tudo/Só não querem me escutar/Me deixa falar, me empresta um ouvido/Me deixa falar, me presta atenção” e que parecem uma indireta direta. Os relatos acerca do incidente que serviu como propulsor para a separação, inclusive, mencionam que houve mais de uma possibilidade de violência no dia. O escritor Jorge Wakabara descreve toda a situação e contexto com fotos, áudio, links e o que mais você quiser em O incidente no Estádio de Remo da Lagoa, publicado em novembro de 2020. Paula ainda iria compor uma série de sucessos, como Grand’ Hotel e Amanhã é 23 e mesmo pérolas lado B como Paris, Paris sem a sombra do compositor.

    Não quero com isso dizer que a música é ruim (sim, mesmo que se possa ouvir Oswaldo Montenegro cantando “embora não pareça”) foi curioso descobrir que ela foi inspirada no filme Não Amarás, 1988, dirigido pelo diretor polonês Krzysztof Kieslowski. Como uma série de outros dele, o filme pode ser visto atualmente no Telecine, mas, uma vez que não o assisti, parafrasearei a sinopse: “jovem espia sua vizinha pelo telescópio, lê suas cartas e faz chamadas anônimas... a música corresponde sua “tímida forma de demonstrar o amor” e passa a provocá-lo.” Sem querer problematizar – uma vez que não assisti AINDA – mas o próprio Telecine coloca: “o relacionamento entre os dois toma rumos complicados.” Se os rumos complicados forem os mesmos de As Duas Faces da Felicidade, 1965, de Agnés Varda, não sei não. De todo modo, descobri o filme devido ao lançamento, logo, não há como dizer que não aprendi nada com a canção.

“Aspirante a engenheira física e amante do mundo musical. Ainda no engatinhar da composição, do cantar e do tocar. Busco transparecer no que escrevo o que vivi, o que gostaria de ter vivido, minhas frustrações e revoltas.” Paula em minibiografia, 19/07/2021

    Mas, para mim, aprendi mais com os versos de Paula. A imagem que, temporariamente, ilustra esta postagem foi feita por mim em 2018, para redirecionar a um texto de 2016, discorrendo acerca de uma composição que ficou pronta em 2009, mas foi iniciada em 2007: Solipatria. Se você já viu o texto sobre Pequenas Conversas Levando ao Real, sabe que sou dado a saltos no tempo. Mas me recordo da empolgação que tive, alguns minutos depois de ler e reler os versos que Paula escreveu depois de ruminar as coisas em água quente e montar algumas frases com rimas. Ela comentou que, durante a aula, rascunhou no caderno e saiu a letra que encabeça a postagem.

    Ainda eu não soubesse durante a leitura qual era o ritmo que ela havia desenvolvido, a melodia que minha mente tocou para mim era um punk rock. Ainda eu pudesse citar nominalmente uma série de casos, tive a impressão de que, ao não o fazer nos versos, ela a tornou atemporal: os problemas estão além dos noticiários atuais, são chagas estruturais, frutos do patriarcado, do racismo... e ainda assim, há esperança nos versos do refrão; há mensagem. No fim das contas, conhecer as criações de pessoas que eu conheço é muito mais satisfatório.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

A segunda dose da Vacina

"É uma máxima universalmente admitida na geometria, e de fato em cada um dos ramos do conhecimento que, no processo de investigação, nós devemos proceder dos fatos conhecidos para o desconhecido. ... Desta maneira, de uma série de sensações, observações e análises, um sucessivo trem de ideias surge, tão conectadas, que um observador atento poderia rastrear de volta a um certo ponto a ordem e conexão de toda a soma do conhecimento humano." Elements of Chemistry, pp. xv-xvi., 1790, Antoine-Laurent de Lavoisier (tradução livre)

A Vacina planejando o pós show, salvo melhor juízo, em 28/08/2010

Você pode reviver outros momentos da banda aqui

   Há alguns meses, escrevi acerca de uma de minhas composições chamada Vacina. Embora possa parecer um nome incomum para uma canção que não versa sobre a saúde pública, ela fora encomendada por bob em 2013 para celebrar um de seus projetos musicais. Naquele momento eu ainda não havia sequer tomado a primeira dose da vacina então era um espaço mental de muita especulação e expectativa, de modo que acabei não discorrendo acerca de outros pormenores que envolviam àquela composição. Um deles era a breve história daquela banda que eu tinha a intenção de registar por aqui:
"Depois de várias tentativas, com outros personagens e outros nomes, nasceu a Banda Vacina. No entanto, apesar das variações ao longo do tempo, sempre existiu uma base representada pelos integrantes Fábio Kulakauskas e Bruno Oliveira, vulgo Bob. A última versão antes da atual formação foi a chamada banda “2 na Base”, apresentando uma duração “relâmpago” em meados de 2008. Sua constituição era a seguinte: Bruno Cortês na bateria, Fábio Kulakauskas na guitarra e voz e Bruno Oliveira no baixo.
Após essa experiência, que durou apenas alguns poucos eventos, foi criada a banda Vacina, tendo como integrantes: Cláudio França na guitarra, Bob no baixo, Fábio na voz e violão e mais um baterista. Pode-se dizer que dois bateristas (Clever e Saulo) foram “Vacinados” até chegar ao baterista atual: Lincoln, que também atua como backing vocal. Desta forma, os “Vacinados efetivos” são: Bob, Fábio, Cláudio e Lincoln."
    Tanto a banda Falsa Modéstia quanto eu estamos contidos naquele primeira frase "outros personagens e outros nomes". Ou muito me engano, mas me recordo de uma conversa com bob no Windows Live Messenger, em que ele mencionava como se deu a impossibilidade de fazer a menção nominal. O que faz todo o sentido: a Vacina sempre foi uma banda que acompanhei como público. Uma vigilância ativa da agenda da banda? Sim. Mas uma conduta expectante no sentido de que eu não fazia parte das discussões de repertório, não sabia o horário ou se os rapazes haviam ensaiado. A responsabilidade era apenas a de estar no local e hora certos. Se eu tivesse sorte, teria a companhia d'A Menina em Sépia. O que mais eu poderia querer?
     Afinal, há muita diferença entre a troca de um elemento humano em um conjunto. Um dia desses num desses encontros casuais estava ouvindo a enxuta discografia da Audioslave. Três álbuns, dos quais, apesar do sucesso do primeiro, prefiro os dois últimos, pensemos então como fosse um triângulo isósceles: o primeiro, com pérolas como Like a Stone e Show me How to Live é a base e os sucessores são os lados congruentes. Ainda que conte com quatro álbuns de estúdio e 3/4 do Audioslave a Rage Against the Machine é uma criatura completamente diferente. A visão política revolucionária de Zack de la Rocha é diametralmente oposta à potência melódica existencialista de Chris Cornell. Assim também era com diversas bandas em Arujá (ou qualquer lugar, essa parece uma constante no livro de Guga Magfra Como Ser um Rockstar) um elemento poderia alterar completamente a dinâmica de um grupo.
     Ainda assim, enquanto acompanhava enquanto fã, me perguntava como o nome da banda poderia ser empregado em uma canção. Foi assim que nasceu a "Vacina" original, com uma melodia que tentava emular Djavan e uma letra com referencias que iam de Saint Seiya à Interpretação de Sonhos de Freud passando pelos sacos de pão francês. Ela nasceu primeiro e, por muitos anos, ponderei se o post contaria a história das duas, o que não aconteceu. Assim, anacronicamente, surgiu a segunda dose:

Vacina (2011)

Letra e música: Thales Salgado


Acaso haja as escadas mar de rosas

Eu te carrego sem que precise pedir

Vou com teus olhos em prosa silenciosa

Se sirvo bem é para pra sempre te servir


Tudo na vida é sem medida

Tu andavas tão distraída

Não via nascer feridas

Nem as brasas que passou

Agora isso não importa

Vem, fecha atrás a porta.

Que a ânfora de anseios se quebrou


De tua vacina sou conhecedor

Sei do remédio que afasta-nos do tédio

Deste insuspirado amor

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Texto de 4 cm

"Quais foram as grandes lições que você aprendeu com esse período conturbado até o momento? Acredito que foi essa travessia para dentro de si. A gente se vê sozinho para não continuar vivendo sozinho. Para recuperar os laços. É um paradoxo." - Fabrício Carpinejar em entrevista para Jocé Rodrigues, Cândido - Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, 30/11/2020
Print do site do escritor Rodrigo Mutuca
Antes de seu site ser aposentado
Colega na oficina de crônicas de Carpinejar
Foi o primeiro a publicar um texto meu
(fora deste blog)

     Um dos aspectos que me interessavam nos tempos pré-pandemia era a possibilidade de realizar cursos/workshops por aí. É possível fazê-los em casa? #simecomcerteza mas não é a mesma coisa. Datando este post: estou vivendo a expectativa para o Tradução de literatura japonesa: reflexões e debates pela plataforma Momonoki, com a profª Rita Kohl. Mas não creio que haverá espaço para conversas paralelas entre colegas que me levem a descobrir que alguém no Centro Cultural b_arco, está ligado a mim por menos de seis graus de separação, como ocorreu com a escritora Valéria Rezende que já conhecia uma das pessoas mais recorrentes em menções neste espaço: o designer baixista bob que recentemente fez sua estreia enquanto roteirista, colorista, montador e diretor com o clipe para a canção Ressaca dos Olhos, parceria de Luan Magustero e Pedro Santos.
   As reuniões via Microsoft Teams e Google Meet são ótimas para momentos expositivos ou para conversas entre um conjunto pequeno de pessoas, mas, ou muito me engano, ou não favorecem a interação ao pensarmos em um grupo com algumas dezenas - é, sabe aquela coisa de cutucar a pessoa que está a seu lado apenas para mencionar algo, ou utilizar o bom e velho "msn paper" (citar MSN é cringe, gente? é noia minha? 😅) para fazer um comentário à caneta. As vozes não vão se sobrepor, é um outro tipo de interação e, se você tem aulas com algum modal virtual e acha que estou falando bobagem e há outras possibilidades, como usar o chat ou o WhatsApp Web na aba do lado, fique à vontade para mencionar nos comentários. Afinal, como é de costume, divago. O assunto deste texto é o mesmo da foto que ilustra o post, sim, tem a ver com o Danoninho mesmo.
   Em 2017 decidi repetir a dose em um curso com o escritor, jornalista e professor universitário Fabrício Carpinejar,

Spoilers do texto no Moleskine
A versão em 2016, Mentiras Libertárias, havia sido um tour-de-force-emocional-mezzo-terapêutico que levou do silêncio até pequenos versos e, como diria Forrest Gump "é tudo o que eu tenho a dizer sobre isso". A presença do autor já se fazia mostrar em minhas composições timidamente, como em Apesar de Nós, de 2013 e acompanhar seu programa A Máquina na TV Gazeta foi um programa familiar por algum tempo quando chegamos à Guarulhos.
     A segunda experiência foi bem menos intensa, mesmo considerando ter começado Escrito à luz de velas/Quase na escuridão/Longe da Multidão com um apagão em Pinheiros no dia 22/02. Talvez por eu já ter uma noção do que esperar. Mas gerou um texto que, à época, não veio para o blog. Diferente do "Nerdcast Proibido", minhas palavras encontraram um lar temporário no site de Rodrigo. Ainda o editor deste blog seja eu mesmo - antes eu pudesse criar um heterônimo ou outra personalidade para tal - parecia não ter relação com a "linha editorial" que eu buscava alcançar: composições autorais, entremeadas por relatos de shows ou pensares sobre álbuns de artistas conhecidos. Crônicas, nunca foram a minha praia nem mesmo como gênero para consumo e fruição pessoal, o interesse no curso era justamente sair da zona de conforto.
     Não consigo recordar qual foi a indicação do professor para a atividade, mas lembro que o subtítulo, por muito tempo era "sem meter a colher". Mas optei por Texto de 4cm para tentar obter uma característica cinestésica e, fica por isso mesmo, não é como cada frase tivesse sido escolhida com uma intenção específica. Chegamos ao quinto parágrafo não planejado e, em momento algum, minha intenção era investir tanto tempo no introito. Fica um salve para a escritora dançarina Jolie Cardoso, que ao comentar ter se inscrito no curso Escrever Cura, de Carpinejar, me colocou em mais um capítulo da "Saga das memórias involuntárias" que teve sua primeira parte em: Letras sobre decepções zodiacais. Se você chegou até aqui... fique com o texto:

Texto de 4 cm

(Escrito por Thales Salgado em 23/02/2017)


Rompo o lacre e me deparo com aquela perfeição rósea. Salivo indeciso com a ideia de pressionar com o indicador para sentir a consistência. Meter uma colher no Danoninho de morango é uma ofensa!
Alumínio, madeira, plástico, o material que for: subterfúgios violentos. É o sabor da colher e ninguém gosta disso. Há coisa melhor que o eco de um queijo francês - É um queijo mesmo, acredita que tem quem confunda com iogurte? - aromatizado artificialmente de morango na intimidade de seu músculo mais forte? Controlar os movimentos deveria ser a única linha de ação.
Cada potinho é um universo do alto de seus 4cm. Ninguém precisa da língua de um integrante do Kiss: não haverá resistência, por isso mesmo, comer Danoninho com a língua é uma arte da lentidão.
Conheço quem prefira usar os dedos, opção até digna; Haverá pele e unha, todavia. A língua veste todos os sabores, abandonar colheres é intuir a essência.

sábado, 31 de julho de 2021

Letras sobre decepções zodiacais

 "Você gosta de anime?" - A pacífica Aggretsuko de Oz, 29/07/2021

     Quando me disse estas palavras, ela certamente não pensou que colocaria uma série de lembranças em movimento. Ainda aquela pergunta despretensiosa tivesse a intenção de comentar a série homônima a ela, presente na Netflix desde 2018 a minha resposta foi para um rumo distinto: "Minha vida mudou no dia 1 de setembro de 1994 quando Cavaleiros estreou na Manchete. Quando reestreou em 1 de setembro de 2003 na Cartoon Network, eu fui atropelado enquanto corria da escola para casa para ver". Estas duas histórias poderiam ser alongadas, ou mesmo o dia em que, enquanto criança, caí em um golpe dos garotos do bairro que ofereceram um boneco original. Esta história foi transformada em diálogos em um exercício de escrever 100 palavras por dia proposto pelo escritor e professor de escrita criativa Tiago Novaes, em 2019:

- Última chance, você não quer?
- É claro que...
- Então! cinco reais, só.
Ficou olhando o amigo. Iam sempre para a escola juntos. Ele estava trazendo uma oferta de além dos portões. Fora da aula, ele não podia sair.
- A gente veio falar com você primeiro, tem um menino na rua de baixo que também quer.
- Tá bom! Eu já volto.
Desceu as escadas, atravessou para a casa da vó. Tirou do Budinha as moedas que vinha guardando. Teria, enfim, um boneco do desenho japonês. Sem perceber já estava no portão entregando sua fortuna.
- Espera aí que a gente já traz.

    O meu ano de 2019 guardou uma série de questões com a série. Não consigo me lembrar o que motivou isso. Reli o mangá, revi a animação, vi Saintia Shô, além da versão produzida pela Netflix para tentar renovar o público abarcando de uma só vez os norte-americanos, que não haviam vivido uma febre da série como o Brasil e outros países da América Latina. Aquele também foi o ano em que o Podcast Saint Seiya viria a publicar um programa com uma entrevista com o dublador Francisco Brêtas, e que vale cada minuto, afinal Sonhar é Fundamental. Durante o período em que estava acompanhando os vídeos do canal Katsu X regularmente, ouvi falar pela primeira vez acerca de um evento que parecia ser a epítome de toda aquela efervescência com a obra de Masami Kurumada a:

               
    Em comemoração aos 25 anos da estreia da animação na rede Manchete, o evento prometia ter tudo o que os fãs se acostumaram em duas décadas: música ao vivo, cosplay, meet & greet dubladores, exibição de longas-metragens da série, exposição de itens raros, palestras com os responsáveis por um game, enfim, o suficiente para que eu aproveitasse o cupom limitado disponibilizado ao final do vídeo e comprasse a minha credencial para visitar durante o final de semana inteiro. Conforme ainda pode ser visualizado no site da Sympla, ela dava direito a:
    
    De todo modo, pelo título desta postagem e a primeira história em que fala de minha ingenuidade infantil, algo não correu bem. Não por coincidência (elas existem mesmo?) o melhor resumo para a situação também nasceu em 2019:

O texto a seguir foi retirado ipsis literis de um comentário que fiz em uma postagem de Mara, do Mais de Oito Mil, sobre o evento e como, em uma bela analogia, ele foi o Fyre Festival dos fãs de Cavaleiros do Zodíaco. Essa postagem pode ser visualizada aqui. Sem mais delongas, as impressões de minha versão de 29 anos.

FLASHBACK

   Fiquei sabendo sobre o evento vendo o código promocional no canal Katsu X. Qual não foi minha expectativa? Eu que não tive interesse em ir às convenções renomadas, fiquei super empolgado ao ver que teria a possibilidade de conhecer o grande Gilberto Baroli. Todos os outros também, claro. Letícia Quinto, Élcio Sodré, Francisco Bretas. Nesses 25 anos de Cavaleiros na Manchete, foi esse elenco da Gota Mágica (posteriormente Álamo e Dubrasil) que fez muitos de nós conhecermos os artistas por nome e valorizar aquele trabalho. Decidi comprar de cara: credencial Big Bang! Ter acesso a tudo que tivesse direito ao mesmo tempo incentivando tal ação a ocorrer de novo. O sábado pareceu promissor, vi de longe, as dez da manhã um jovem Hyoga de cisne. Gosto quando o cosplay já chega ao evento agindo o personagem. (Imagino fosse Ronaldo seu nome). Rapaz divertido, contava na fila histórias sobre como tinha aproveitado o sono de Athena para levar seu báculo. Enquanto se via alguns calculando ascendentes, os minutos passavam. O atraso foi encarado com bom humor “talvez precisemos absorver os raios solares e entrar porta a dentro!”. Ah! As referências, Capitão América estaria orgulhoso (antes que perguntem a razão de colocar a Marvel no meio do santuário, lá na frente fará sentido).

   Quando finalmente pudemos entrar, houve alguma bagunça com credenciais (recebi a minha mas em momento algum o seu QR foi bipado, por exemplo) o importante era entrar: o térreo parecia promissor, o @woodxguitar desfilava vários sucessos, Pegasus Fantasy, Soldier Dream. O ponto mais alto foi quando chegou um pequeno Seiya com a caixa da armadura nas costas e ficou a dançar ao som da guitarra. Nem o próprio Saga, do alto de seus galácticos grisalhos diria algo contra. Ao fundo um artists alley com versões, mangas, sketches. Boa para os futuros mangakás brasileiros. Também havia um acervo pessoal de obras do Kurumada, sorte do colecionador. Mas era interessante olhar, fiquei me perguntando a que momento alguém viria para comentar o que fosse. Mas… Nada.

    Não haviam indicações precisas do que ocorreria no primeiro andar, então o fã ia tateando às cegas pela escadaria (ao fim de uma escada, nem mesmo uma decoração como fosse a casa de Áries, o simples, fãs de cavaleiros sabem apreciar uma boa e velha escadaria). A programação dizia que as 10h começariam as exibições dos filmes na dublagem clássica mas já passava muito e não parecia haver sinal. A palestra sobre Saint Seiya Online também não agregou muito, a maior parte dos presentes conhece as diferenças entre o mangá e o anime, e por mais a história seja cíclica, contar spoilers do jogo também tirou um pouco a graça.

"O interesse nas referências de Kurumada era tanto que, em agosto, cheguei a desenhar Mankichi Togawa da obra Otoko Ippiki Gaki Daishô, de Hiroshi Motomiya. O criador de Cavaleiros já comentou que, sem sua influência, talvez não se tornasse mangaká. Imagino que, sem Cavaleiros, no mínimo, meu entusiasmo pela mitologia grega seria menor."

   Quando finalmente pudemos assistir À Grande Batalha dos Deuses, qual não foi a surpresa ao ser apenas a exibição de um vídeo do YouTube (isso mesmo, não houve nem o trabalho de obter um .MKV HD!) mas o público tentava se satisfazer revendo a pose de deboche de Seiya ante os guerreiros deuses. Falando em dublagem Gota Mágica, como é bom ouvir Carlos Campanile como Durval. A questão é que todos já viram e não havia nenhuma reverência a forma como o material era apresentado. Antes de a armadura de sagitário surgir, os alto falantes comentam que os kits estão disponíveis. Isso mesmo, o desrespeito não era apenas com quem estava presente, com quem tinha se deslocado para a comemoração, era com a própria obra (!). Não custa esperar um vídeo acabar. Se a internet tivesse caído, o programa tinha acabado? As horas foram passando e nada de palestras ou dubladores. Era preciso se contentar com episódios de Lost Canvas. Bela animação, bom trabalho de dublagem mas… Sério? Eventualmente chegou ao ponto do concurso de Cosplay e foi bem legal. Revi o Hyoga da fila, vi um Poseidon que tinha realmente aura divina e, confesso, vi uma Shun que me fez pensar que a mudança era bem-vinda. Os cosplayers pareciam se divertir muito, as poses, as fotos, a sensação de ser um personagem querido é muito forte e eu (que já tive meus tempos como Joker há uns onze anos) fiquei contente em poder bater palmas para cada um ali. O prêmio maior era poder ser prestigiado. Mais uma vez parabéns a todos os cosplayers (até para o pequeno Harry Potter que se meteu no evento).

Com a palavra, Hyoga de Cisne

    Faltava o principal: palestras e dubladores. Em algum ponto da história, talvez até antes do desfile, o organizador apareceu e pediu desculpas, aí entra o que eu falei: estava lá com a camiseta da Marvel! (Nada contra, vi Ultimato três vezes no cinema) quando o próprio organizador não ‘veste a camisa’ de seu evento, você percebe que algo de errado não está certo. Houve uma falha no planejamento, ele concentrou tudo sozinho e dificultou a entrega, coisas saíram foram do controle. Até aí, tudo bem. Finalmente Ulisses Bezerra, Letícia Quinto e Élcio Sodré subiram ao palco. Não houve tempo para palestras e eles não poderiam ficar muito tempo, o Élcio tinha um avião para pegar, sabemos quão exigente é a profissão. Ao menos quem estava lá poderia pegar o autógrafo da Saori e o Shun. Ou isso era sonhar demais? Sabe quando você está zapeando a tv a cabo e, de repente, passam para o filme seguinte? “Por premissa de tempo passamos à frente em nossa programação”. Foi bem isso que aconteceu. A Letícia muito educadamente explicou que não poderiam atender a todos e iam delimitar um ponto x na fila. Pude sentir Athena falando comigo, aqueles momentos em que a deusa fala algo e todos os cavaleiros se prostram a ouvir. Algo nessa linha. Eu nem tinha levantado, um cosplay de grande mestre chegou, mas era tarde demais para ele. Ao menos conseguiu algumas fotos com fãs. Élcio, baita profissional que é, levantou e gritou seu característico CÓLERA DO DRAGÃO! Todo o santuário tremeu: o Shiryu, amigo.

Um dos desenhos que fiz em 2019, sinais da febre
    A questão é que já passava das 17h. A programação seguiria. O organizador pedia para que as pessoas se apressassem em pegar seus autógrafos, era só um sem tempo de foto. Quem pagou para o privilégio de conhecer os profissionais não pode. Então quando um soldado gritou “quero o meu dinheiro de volta” e ouviu a contraproposta de devolver todos os benefícios em troca, entendo a raiva. O cosmo dele estava borbulhando em nome da justiça. De que não havia como o pôster A3 ser controlado, de que faltava o carregador personalizado, faltavam os adesivos, faltavam palestras, vídeos, autógrafos. A reunião dos cavaleiros de Athena se mostrou mais decepcionante que vilão de seriado que aparece para morrer com um báculo no peito. Saí do local sem nem ao menos saber se o show chegou a se concretizar. O aluguel do palácio do trabalhador custava tanto assim? Depois do fiasco, alguém terá coragem de usar a camiseta do evento? Já era tarde demais. A ver três horas de vídeo do YouTube, podia ver em casa. Amizades se firmaram, diversos se reuniram, tudo em nome de Athena. Mas a que preço? R$180? Tomara que tenha valido a pena para quem embolsou. Não me dei ao trabalho de retornar no dia seguinte.