quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Louça Fina de Djavan

"Larga essa pose de literata
Diz que não ama Djavan
Cantar é tão bom
Entender pra quê?" 

Eu amo Djavan - Tó Brandileone e Ricardo Teté

       Ainda eu já conhecesse diversos singles de seu cancioneiro, voltei a atenção para Djavan apenas em 2007 quando do lançamento do álbum Matizes. A safra de composições iniciada nos anos 2000 é repleta da sofisticação característica do alagoano. Em meio a uma das conversas com Jean Reis surgiu o pedido de uma análise que escrevi em abril de 2010 e publico aqui praticamente sem revisões, de modo a manter cacoetes, referências bibliográficas e o espírito da época. Schopenhauer, Freud, Raduan Nassar eram alguns dos autores com quem eu tratava maior contato nos tempos da faculdade então qualquer revisão maior seria racionalização tardia. Sigamos para a letra e a análise!


Louça Fina
Djavan
  
Boa, meiga, franca
Justiceira, tu me gustas
Chantilly num pedaço de bolo
Louça fina, mãos do meu amparo
Luz acesa
Pra que eu possa seguir...
Diz-me aí, sou todo ouvido:
Que só quer comigo
Ninguém mais, nada mais que o querer
Que o contrário não põe mesa
Inda traz tristeza
... isso não se vai ver!
Tudo pra mim
É riqueza, é riqueza
Porque passo ao lado teu
E todo amor
Tem um sonho, tem um sonho:
Propagar-se por terras antes perdidas,
Dando vida a um viver
Boca-luva, rosa-vulva,
Insuficiente o ar;
Vertigem, só de pensar!
Cores se acabando de alegria
Onde nasça flor
Em qualquer ramo pálido que já foi dor
É o que eu desejo
Pra nós dois
Todo mês
Tudo em paz
Toda vez
Minha amada
Se eu sei bem
Sei que mais
Não se tem, não se tem!


Boa, meiga, franca
Justiceira, tu me gustas

      A canção começa com quatro adjetivos que podem entrar como segredos de polichinelo palavras com uma aura já desgastada, mas que ora ou outra podem ser ditas ao pé do ouvido num início de momento mais intimo, Chantilly num pedaço de bolo 
      Pensando em Freud e sua teoria do simbolismo nos sonhos (isso por ele ter citado o fator sonho posteriormente), os doces são geralmente representação de satisfação sexual. o chantilly também pode estar relacionado a um comum fetiche e que no final das contas, independente da área em que o mesmo for colocado tudo terá sido feito numa busca pela satisfação anteriormente citada.
      Louça fina,que pode simbolizar um casamento ou também um amor cheio de encantamento que parece ser o caso aqui, também pode estar tratando da pele da mulher em questão sendo branca, ou fria ou mesmo os três - no Novo Testamento a mulher é referida como o 'vaso mais frágil' - mãos do meu amparo confirma a idéia de que o frio seja o de suas mãos que apoiam neste momento inicial do ato em que a luz está acesa - ainda que haja para muitos na sociedade uma não conformidade com a idéia da luz acesa, tenhamos em mente, mais que um momento inicial, os instantes da iniciação propriamente dita, onde há menos pudores sobre como deve-se proceder - para que ele possa 'seguir' como diria José Simão "Mais direto impossível", até mesmo há reticências para criar o clima do que está implícito"Luz acesa pra que eu possa seguir..."

       Neste próximo trecho o eu-lírico deixa transparecer levemente uma aura possessivista, mas que é comum quando em vista de uma relação monogâmica. ele diz "Diz-me aí, sou todo ouvido:" ou seja é mais uma confirmação do que ele mesmo afirmou que ele quer. E o que ele afirma é "Que só quer comigo, ninguém mais, nada mais que o querer". Cabe a mulher deseja-lo e quere-lo apenas - ressaltando que em relação a si, nada é dito - e que o contrário traria problemas de diversas instancias, do ramo material ao psicológico

Que o contrário não põe mesa
Inda traz tristeza
... isso não se vai ver!

Tudo pra mim
É riqueza, é riqueza
Porque passo ao lado teu
E todo amor
Tem um sonho, tem um sonho:
Propagar-se por terras antes perdidas,
Dando vida a um viver
Boca-luva, rosa-vulva,
Insuficiente o ar;
Vertigem, só de pensar!
Cores se acabando de alegria

      Neste trecho o eu-lírico retoma as ideias elogiosas de outrora, nos momentos de amor ou de paixão, há compartilhada um sensação de que os melhores momentos da vida são passados junto com esta pessoa. depois que sua declaração firma a mulher como seu amor ele altera o curso da leveza ao dizer que o sonho do amor é 'propagar-se por terras antes perdidas' podemos tomar o termo perdidas como escondidas, e sendo o corpo humano como um mundo. as terras perdidas podem ter um paralelo com a região que as mulheres - na cultura ocidental - tem mais cuidado em esconder de outrem e que ao ser compartilhada com alguém do outro sexo cria a possibilidade de "dar vida a um viver", a criação de vida, de uma família talvez.
      Em seguida temos um jogo de palavras que é interessante também enquanto jogo linguístico: a palavra 'vulva' em português tem a pronuncia similar a 'vuva' criando 'boca-luva','rosa-vuva' uma rima pela terminação que dá a idéia de que os substantivos compostos tem a mesma quantidade de letras. Esse jogo também cria uma outra imagem: a de um beijo perfeito, entretanto, este na vulva, numa alusão ao sexo oral que é corroborada pelas idéias subseqüentes de falta de ar e da vertigem, um arrepio pela simples menção da ação que traria emoções arrebatadoras dignas de alterar a percepção de visão, independente das cores existentes sua existência estaria fadada a explodir em satisfação ao clímax.

Onde nasça flor
Em qualquer ramo pálido que já foi dor
É o que eu desejo
Pra nós dois
Todo mês
Tudo em paz
Toda vez
Minha amada
Se eu sei bem
Sei que mais
Não se tem não se tem!

      Botões e flores indicam os genitais femininos ou, em especial, a virgindade, mas quando analisamos os sonhos os valores por seres muitos, serem diversos e pouco exatos, eles também podem representar os masculinos. esta afirmação remeteu ao livro "Lavoura Arcaica" de Raduan Nassar em que há um trecho que diz "nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero" sendo este trecho uma metáfora a masturbação, sendo a 'flor branca do desespero' a representação do sêmen, a  'flor que nasce de qualquer ramo pálido que já foi dor' também o é, mas na canção, algo que nasce em companhia de alguém. o fim do ato também para o homem.
      O sonho que todo amor tem seria o sexo que é o meio que há para perpetuar a espécie, isto sim um desejo intenso que faz parte de todos os seres, esta idéia dentro dos ideais do filósofo Schopenhauer que acreditava que todas as juras de amor existiam apenas para 'mascarar' o instinto de perpetração da espécie o que dentro do que já foi colocado dentro da interpretação feita acerca desta letra. O que leva também a idéia de que o ato sexual tomou uma vida própria ligada ao prazer, não significando apenas procriação, por isto é que o eu-lírico afirma que deseja isso para os dois todas as vezes, todos os meses, sempre na paz que pode levar às maiores alterações dos sentidos e este ato, esta sensação, é tão real e possível de maneira natural que para ele não existe algo mais que isso em nenhum aspecto ou circunstância.


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