terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Falsa Modéstia - Tirinhas

Projeto idealizado por bob, que escreve a maior parte dos roteiros, alinha o enquadramento, trabalha com os balões e arte final. Cuido dos desenhos e cores. Outros roteiros foram feitos em 2020, mas, não foram publicadas até o momento. Ainda que ilustrações autorais surjam aqui e acolá neste blog, ter a dupla de criação vertida em história foi inesperado e permite aproveitar influências e referências que não funcionam em uma letra ou prosa.

Storyboard e roteiro 05/10/2020
Inspirado em A Equação do Hiato, post do dia 26/12/2020


Episódio 0 - 02/10/2020
Após receber a proposta, fiz uma tira metalinguística
Pode-se notar minha falta de concisão ao cuidar do roteiro.


Storyboard e Roteiro: 03/10/2020
Um post sobre Um Conto no Jardim foi feito em 14/08/2016
Um dos primeiros posts no blog

Storyboard e Roteiro: 03/10/2020
Sendo Um Conto no Jardim uma composição com quase 15 anos
Foi uma das primeiras a ser contemplada com uma segunda história

Storyboard e Roteiro: 05/10/2020
Inspirada na música que também nomeia ao blog e à banda
(Não necessariamente nesta ordem)
Também se relaciona à primeira postagem, em 25/06/2016

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Ikiryou EP

“Esse tipo de fantasma é chamado de ikiryou, ou seja, “espírito vivente”. Não sei quanto aos demais países, mas no Japão há muitos exemplos disso na literatura. A história de Genji está povoada de Ikiryou. Nesse período Heian (séculos IX a XII d.C), ou seja, no universo espiritual do povo desse período, as pessoas eram capazes de se transformar em espírito ainda em vida, viajar pelo espaço e realizar seus desejos.” Kafka A beira-mar de Haruki Murakami, capítulo 23, p. 276, tradução de Leiko Gotoda 
Ilustração: Thales Salgado

     Deparei-me com o conceito de “espírito vivente” pela primeira vez quando lia Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami e neste ano em que o distanciamento social é essencial ele me veio a mente. A metamorfose em espírito para pairar, intangível, sobre os pensamentos de outrem e retornar a mim pintado por outras vozes. Estas composições em voz e violão sempre estiveram sob o título Ikiryou EP. 
     O E.P. - Extended Play - no título surgiu em vontade de imitar os ídolos (como o Abbey Road EP dos Red Hot Chili Peppers) e sentindo, à época, que não passaria de cinco ou seis faixas. No decorrer de sete meses, o conceito foi fechado com as onze faixas a seguir, com links para cada uma delas: 

1. Beleza Parasita (letra de Fabíola Passos Almeida) 
2. Tudo Outro Agora (letra de Anderson Bezerra) 
3. Silêncio (sobre poema de Kariny Camargo) 
5. Ofício das Horas (sobre poema de Renato Bicudo) 
6. Concreto-Confronto (montada com um conto de Daiany Pontes)*
7. Identidade (letra de Fabíola Passos Almeida) 
8. Muitas em Mim (letra de Fabíola Passos Almeida) 

     No início, trabalharia apenas com textos com que tive contato de 2019 para cá, entretanto, quando me deparei com o poema de Kariny de 2011, não resisti musicá-lo. É sempre um exercício musicar versos de pessoas que conheço, independente do nível de intimidade. Mesmo se conheço os gostos musicais das pessoas com quem estou fazendo a parceria, não tenho como emulá-lo. A canção sempre se imporá como bem entende e caberá a mim, tentar traduzir uma parte na outra parte, como diria o poeta. 
  O pensamento para a capa era de mostrar uma alma pousando no corpo de um personagem deitado, como acabasse de retornar. No fim das contas, ainda que haja, no primeiro plano, uma figura deitada, a figura ao fundo, mesmo antropomórfica, ficou feia e em nada refletia o que eu tinha em mente (já subconscientemente, eu já não sei).

*As faixas marcadas contém ilustrações da artista Isabella Proença que emprestou sua sensibilidade para transpor ideias das canções em imagens. Por vezes, extrapolando o conceito inicial, todas elas são obras que merecem ser vistas mesmo sem a letra ou música.

sábado, 26 de dezembro de 2020

A Equação do Hiato

“Você não pode medir a afeição recíproca de dois seres humanos pela quantidade de palavras que trocam.” – Milan Kundera, A identidade

A Equação do Hiato (2020)
Letra e Música: Thales Salgado
Baixo: bob

Esta conversa começou
Somente há treze anos
Tenho para mim, não acabou
E, para isso, não há planos
Longe de mim, tentar prever
A sucessão dos fatos
Com o tempo, estamos à mercê
Urgir? É descompasso
Notícias quase disponíveis
Hiatos mezzo calculados
As redes, nem sempre, são críveis
Só iluminam um dos lados
Ilham segundos aprazíveis
Legam os gritos, enjaulados
Vem e vai: procrastinação
À morte digo: Hoje não"


     Uma mensagem em 26/08/2020 me fez começar a pensar em uma letra que comentasse “impossibilidades quânticas” dentro de minha visão no presente. 
     Já ouvi falar que qualquer previsão é falha (seria Kundera novamente?) e, seja quem for o autor, deve ter acertado. Como o verso “hoje eu sei só a mudança é permanente” que conheci com a Engenheiros do Hawaii. 
    Podemos acreditar que há certas verdades pétreas e, de repente, perceber que alguma chuva paulatinamente a esculpiu em formatos contrários à nossas intenções. Ainda assim, como criado pela ficção e me preparando para uma (possível, provável?) decepção com o próximo Matrix, me pego me ancorando também em alguns de seus temas como a “escolha” e a “crença”. Escolho acreditar que algumas coisas podem não ser eternas, mas nem por isso precisam acabar durante uma vida. 
     No dia 02/09 compus em minha craviola a melodia. Isso facilitou para que pudesse tentar encaixar os versos posteriormente. Como em 26/09 ainda me faltavam doze versos me coloquei a pescar referências na linha do tempo de uma rede social azul. 
    Terminei de escrevê-los na noite do dia 1/10 e, quando mostrei os versos a bob, ainda não tinha nome. Estruturalmente, os enxergo como um espelho/continuação temática de Canto de Duas Cidades De uma conversa com Kariny, veio a sugestão de chamá-la Hiato. Já havia musicado um de seus poemas de sugestivo nome Referência mas uma palavra apenas não bastaria para esta canção que viria a fechar o Ikiryou EP. Até haveria sentido, o álbum já continha uma Silêncio e uma chamada Identidade. 
Ilustração de Isabella Proença 
Sobre uma foto de 2011
(tempos pré-isolamento)

     No dia 03/10 me decidi por A Equação do Hiato, forma de homenagear conceitualmente ao compositor, produtor e multi-instrumentista Arjen Anthony Lucassen, criador de The Human Equation. A referência a frase de Syrio Forel surgiu na letra como uma negativa ao fim de uma conversa. Se pode se dizer “Hoje não” ao deus Morte, também se pode escolher que uma conversa vai continuar, enquanto seja de comum acordo de ambas as partes. 
    Sem acesso à melodia, a psicóloga Fabíola Passos comentou que a letra “sintetiza muito bem essa experiência que a gente vem vivendo de contato fragmentado, mediado pelas redes”. Foi curioso pois, só assisti ao Dilema das Redes finda a composição, no dia 04 de outubro. De todo modo, vinha conversando sobre as reações das pessoas a ele já há algum tempo. Sendo este um ano que praticamente obrigou os contatos a serem realizados na esfera virtual, todo este conceito do digital já vinha escoando em algumas letras como a de Tempo (que tem entre seus versos: Algoritmos sem verão/Algoritmos passarão/Darei vazão: A vida é um átimo!). 
     Ainda que eu tivesse intenção de manter a melodia em segredo por alguns meses (ela só seria postada em dezembro) a cantora e compositora Paula Lima pode ouvir uma versão voz e violão e, obviamente, bob teve acesso para que pudesse desenvolver a linha de baixo. 
     A ideia era, como vem sendo com as tirinhas, fazer um trabalho ‘just for fun’, a música fica no mesmo ciclo por praticamente sua duração total, saindo apenas no acorde final. Poucas horas depois ele veio com uma linha fluída, que não se fincava nas cabeças das notas que eu estava tocando. Sem essa experiência coletiva a música não existiria como se apresenta, afinal, coube a bob o trabalho não só de criar a linha de baixo como editar e sincronizar as duas faixas no vídeo de apresentação. Essa foi, provavelmente, a primeira união formal deste duo desde em onze anos, quando cometeram um cover de 3x4 que está perdido na rede.

domingo, 8 de novembro de 2020

Celebração

 “Pode não parecer. Há dez anos. Raramente tirava fotos. Os retratos, fazia com letra e música. Como este: celebração. A ideia do arranjo minimalista, quatro acordes, veio de Elephant Gun da Beirut. A época, ainda sob influência da microssérie Capitu. Então, em se tratando de dez anos de diferença. Antes, a letra. Hoje, um desenho. Fotos, para quê?” – 7 de fevereiro de 2019 em @fmodestia
Desenho feito em 2019
inspirado no mito grego subvertido na canção
    
    É difícil falar de “Celebração”. No fim das contas, ela parece resumir-se a um exercício breve na gravação da banda norte-americana Beirut, utilizam um ukelele. Pensei em como seria ter uma composição com acordes em uma outra ordem, mas despida da orquestração, por dois motivos: primeiro, me faltava a destreza técnica para tal e, em segundo, a ideia não era fazer uma versão nacional.


Celebração (2009)

Vamos celebrar o impulso cerebral
O pulso que não para
Para nos satisfazer
O culto ao oculto quando
Chove a chuva cheia de chagas

Esta noite serei teu Ícaro
E tu serás meu sol
Aposto que, isto posto,
Contrair-se-á teu rosto sem dó
Em contraste com meu rosto em dor

Não estou mais perdido agora não
Pois eu sei que o livre-arbítrio é ilusão
São aquele que não pensa como eu
E enxerga um mundo inteiro seu

   A gravação original tinha uma vocalização de diversas vozes sobrepostas durante a duração total (no vídeo atual, ela surge apenas no final) o que poderia alienar os possíveis dez ouvintes. Se você não sabe fazer uma segunda voz, mal conseguirá fazer uma terceira, então, já imaginou quão excruciante pode ter sido ouvir a tentativa.
    Sem ter habilidade técnica para criar harmonias vocais ou programar bateria, a ideia de tocar um projeto como o Elect the Dead de Serj Tankian, em que o artista toca guitarras, baixo, piano, vocais, sintetizadores, programação de bateria, escaleta e até sinos. Desse modo, a ação gregária, o apoio de outras pessoas com outros conhecimentos sobre música é essencial para fugir do formato “voz e violão” (ou voz e uke, como nesse vídeo).
     O primeiro verso parece retirado da canção Perfeição, lançada pela Legião Urbana quanto Renato Russo tinha 33. Assim como o segundo parece prestar tributo à “O Pulso”, lançada pelos Titãs quando Arnaldo Antunes tinha 30. Digo “parece” pois não sei se estava com estes artistas na cabeça quanto a letra foi escrita. Contava eu 19. Proporções à parte, todas estas comparações não levam a lugar algum. Ninguém precisa compor o que já foi composto, por mais que tenhamos grandes artistas que nos precederam como norte.
    Esse argumento surgiu recentemente enquanto conversava com a cantora Paula Lima. Ela me mostrou uma interpretação de uma composição minha e comentei que, dentro desta situação, eu era o Belchior e ela era a Elis Regina. Belchior lançou seu primeiro álbum aos 28 anos. Aos 30, nunca lancei nada. Medo, falta de interesse ou falsa modéstia? Em um desdobramento desta conversa, surgiu a questão de que as canções poderiam ser mais que um hobby se eu quisesse. Será? Fica a carta para o futuro, quem sabe eu chegue aos 70, me depare com este texto – considerando que eu alcance esta idade e não sofra de nenhuma forma de degeneração progressiva das células cerebrais – e pense: parece que ela estava certa e eu me enganei pelos últimos 50 anos. Quem sabe?
    É valido ressaltar, que os versos são repetidos duas vezes mostrando uma certa preguiça por parte de seu autor. Não foi intencional, mas... quando a compunha não senti que poderia ser de outra forma. Onze anos depois de sua composição, pude tocá-la no ukelele, de modo que o instrumento que inspirou a composição, encontrou a canção. Ciclos dentro dos ciclos ou o eterno retorno?