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segunda-feira, 5 de março de 2018

Vanguart em Santos

O mês de março está movimentado para a banda Vanguart. No dia 14 de março participarão de  m"Sessions 89" no Z Carniceria. Dia 17 estarão no Teatro Lauro Gomes em São Bernardo do Campo e dia 23 a banda tocará pela segunda vez no Lollapalooza Brasil, um evento com potencial para apresentar o trabalho para um novo público. Essa movimentação teve início no primeiro sábado do mês com um acústico na Arena Club na cidade de Santos. Diferente dos outros shows comentados, repassarei as canções por álbum, do último ao primeiro. Em tempo: Os títulos das composições levam à um clipe.. 
Foto de Renata Custódio @minutodoshow


Faz o que você não fez pela primeira vez

        Beijo Estranho fará um ano em abril. Com o lançamento do clipe Todas as Cores no fim de fevereiro esta se torna a terceira faixa do álbum a ganhar maior exposição. Após tocá-la, a banda relembrou de quando participaram da Virada Cultural Paulista em 2012. Àquela altura, contavam ainda dois álbuns em estúdio. Momentos dessa apresentação podem ser encontrados no YouTube. Em Eu Preciso de Você, Hélio tocou seu trompete com surdina para abrir e encerrar. Ele pontuou a presença de referências à poetas como Drummond, Walt Whitman e Hilda Hilst - se alguém souber qual é a de Hilda me contem, fiquei curioso* - e dedicou aos novos poetas que estivessem presentes. Fernanda Kostchak assumiu o microfone para agradecer a presença do público explicando as Felicidades de poder apresentar as músicas como elas surgiram. As "canções como a banda toca entre eles". Ou mesmo em Lives nas redes sociais como a recente Não Tá no Setlist ou uma em que Fernanda chegou a indicar compositores como Johannes Brahms e Gustav Mahler.
      Quando tocaram E o Meu Peito Mais Aberto Que o Mar da Bahia, houve grande comoção do público que percutiu cada um dos refrões com suas palmas. N'alguns momentos do canto, Hélio emulou um grave no melhor estilo Tim Maia. O quarteto admitiu que o "laralara", tão característico, foi a última coisa que gravaram para o disco e apenas depois de muitos conflitos sobre se deveria ou não entrar. Beijo Estranho encerrou a apresentação cantada à plenos pulmões. Com dois violões, violino e trompete a banda se mostrou em grande momento. A versão de estúdio tem um piano bem forte, no entanto, sua ausência não foi sentida. O violino seguiu causando arrepios coletivos numa música que ainda terá muito tempo de estrada.

O Que Seria de Nós?

         O álbum "divisor de águas" foi representado em peso. Muitos fãs de outrora acharam estranho o calor presente nas canções, outros tantos conheceram ali e se apaixonaram. Fato é, que em maior ou menor grau, muitos se renderam à Muito Mais que o Amor. A abertura foi com Estive. No pré-show, sucessos dos Beatles tomavam a casa. De acordo com a banda, a intenção era que entrassem no clima. O multi-instrumentista David Dafré foi apresentado como o músico que mais trocaria de instrumentos no show e com a sofisticação habitual (bandolins, violões de seis e doze cordas, lapsteel, clarinete, meia-lua, além de backing vocals! Versatilidade define). Quando tocam Demorou Pra Ser fica fácil perceber como essas canções lançadas em 2013 seguem angariando público. As letras evocam emoções identificáveis de cara. Como um casal em início de relação trocando juras: antes que eu soubesse já estava com você ou você é a vida da minha vida, por exemplo. Eu Sei Onde Você Está é sucedida por uma versão exclusiva de Reginaldo para a romântica Mesmo de Longe e ao final de Olha pra Mim, Hélio aconselha ao público guardar algumas fichas para apostar em si mesmos e não colocar todas as fichas no "outro alguém". Pelo Amor do Amor entregou à Santos dois grandes momentos. Um quase incidente no palco com Fernanda rendeu o alongamento do solo, como ouvido abaixo:


         As versões ao vivo são construções vivas e isso as torna um modelo ideal. Por mais a ouçamos nos discos, LP's ou streamings é no palco que as coisas se transformam. Como o poema declamado por Hélio em seguida:

"Um sinal do céu. Um telefone que podia tocar.
Como um dia em que, pela porta de trás da casa vazia,
Você ingressaria e me veria confuso por te ver.
Noites sozinho. Noites sozinha, lembra?
Tudo antes de ser. Eu tinha outro nome, você também.
Até que um dia te vi na rua e algo reconheci."

A menção à Valsa Brasileira de Chico Buarque dá mostras de quão abrangentes são as influências dos integrantes. Fechando os trabalhos do terceiro disco, entrou outra composição que figura na memória afetiva de muitos: Meu Sol.

O Que eu Não VIvi, eu Tô Indo Ver!

         No público, as mais diversas histórias. Haviam moradores da cidade ansiosos para rever o grupo. Havia quem estivesse à trabalho. Até mesmo quem já vivera na cidade e encontrou, no show, motivo para fazer as pazes com o lugar. Havia gente das proximidades: Itanhaém, Cubatão. Gente que precisaria correr para chegar à Praia Grande. No meu caso? Estava pela primeira vez na cidade que conhecia apenas por conta de Roberto e Erasmo, Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr. A questão é que centenas de pessoas estavam reunidas em virtude de admirar a arte daquele divertido quarteto no palco da Arena.


Proximidade da Plateia
         Outra parte da apresentação foi representada pelas composições do álbum Boa Parte de Mim Vai Embora. Para uns obra máxima do grupo, para outros "o disco deprê", que não deve ser nomeado.Começou com ...Das Lágrimas, primeira composição com as cintilantes linhas de Fernanda. Passando pela visceral Nessa Cidade que, como sempre, me colocou a refletir. Reginaldo comentou que no período "a gente não sofre mais nem por antecipação nem por amores que não valham a pena". Essa é justamente a questão.
        Quando se faz o juízo desse valor agregado? É preciso traçar rotas outras, forjar novas memórias em caminhos desconhecidos por aqueles que já não são dois? Além de divagar, talvez, me repito: quando do lançamento do segundo disco ela se mostrou uma das favoritas na apreciação melódico-poética. Anos depois, situações descritas na letra faziam parte de minha vida de forma que, mesmo presente no show de abertura da turnê atual no Teatro Paulo Autran, fui incapaz de escrever o que fosse relativo. Por ser, naquela noite, afetado emocionalmente. Já em Santos, o violão de doze cordas me manteve atento à nuances da música fluindo. 
         Numa matéria de Marie Eliis publicada no Medical News Today em 2013 dizia que pesquisadores no Japão concluíram que a audição de canções tristes pode levar os ouvintes a experimentar emoções ambivalentes. Uma vez que, a emoção induzida pela música, não é como a induzida por eventos pessoais. Esse pode ser um dos motivos para alguns artistas deixarem algumas composições de lado: uma vez que sua relação é direta e se entregar em canções surgidas de experiências traumáticas pode causar desconforto contrário ao êxtase do momento da criação. Voltando à Santos:
         Faixa melancólica contra a apatia generalizada Se Tiver Que Ser na Bala, Vai e ela responde muito bem ao formato, uma vez que a leveza do arranjo ressalta os três atos poéticos. As canções do segundo álbum tem daquela noção morriseyana de Rubber Ring e isso se amplifica a cada reencontro. Penúltima canção do show. Mi Vida Eres Tu é o caso da canção de melodia upbeat esperançosa e um refrão em espanhol de uma conclusão, não necessariamente, positiva. Um doce-amargo simples apenas se analisado superficialmente. Os versos de A Noite Mais Linda do Mundo de Odair José sempre surgem para nos colocar os pés no chão. Nem tudo são mágoas, tampouco flores.

O Que Importa é o Que te Faz Abrir os Olhos de Manhã

         O homônimo de estreia contou com apenas duas canções em meio ao repertório, mas não por isso menos significativas. Para Abrir os Olhos (o link é para uma gravação de 2007 do canal de Ricardo Spencer, que, entre outras afinidades dirigiu os clipes de "Mi Vida Eres Tu" e "Meu Sol".) e Semáforo. Sobre a última, Helio comentou ter sido a primeira canção que compuseram em português, antes, tinham mil motivos para não dizer a verdade. É isso. A verdade está em sempre seguirem seu caminho em frente. Como se olhar para trás os fosse transformar em estátuas de sal. A banda poderia ter investido num projeto revisionista pensando nos dez anos do primeiro de estúdio em 2017, entretanto, na contramão disso, comemoraram o pulsar da banda com um álbum que reuniu expoentes dos três primeiros e apontaram novas possibilidades sonoras. Terminar o evento em conversas informais com os integrantes da banda e do Sindicato, conhecer outros fãs (até uma próxima, Douglas) só tornou o evento mais especial. Naquela manhã todos os presentes abriram os olhos de manhã e aguardaram o anoitecer como fosse a noite do primeiro encontro. E, mais uma vez, era. 


Da Esquerda para a Direita: Reginaldo Lincoln, Claudia Almeida, Fernanda Kostchak, Thais Dias, David Dafré, Thales Salgado, Hélio Flanders e Renata Custódio

*Fui informado posteriormente pela Cláudia que o trecho de Felicidades faz menção à Do Desejo, uma série de dez poemas, lançada por Hilda em livro homônimo em 1992. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Nossos Sonhos a Caminho (Vanguart Acoustic Night)

Tenho só um coração
Canto a mesma canção
Vivo uma velha ilusão
Ando pelas ruas esperando
Que venha alguma louca
Mais louca ainda que eu
Alguém como eu...  

Mi Vida Eres Tu


Foto: Fabiana Nascimento
         Alguns textos parecem não ter um início definido, o dessa semana se encaixa nessa descrição: "Ah! O Fã Clube Sindicato Vanguart! " ou então "Gratidão!" foram as frases que mais rondaram o pensamento para esse parágrafo. Decidi então usar colocar as duas e seguir em frente. Último dia de janeiro. Um par de ingressos para uma sugestão para o nome do novo álbum - cada vez mais esperado, diga-se de passagem. Da melhor maneira que pude, acessei a página sem olhar nenhuma das propostas dos outros fãs, como se a pressão não existisse desconhecendo as ideias dos outros corações e mentes participantes. Dias depois, quando saiu o resultado, fui tomado de surpresa de que ganhara, este é um fato indissociável dessa apresentação, afinal, não imaginava poder estar lá. Quando chegamos ao Estúdio, não tínhamos dúvida de que nossa primeira ação seria nos dirigir à lojinha oficial em que fomos muito bem recebidos por Cláudia Almeida e Thais Dias. No dia seguinte, a página do fã clube no Facebook falou da história então a reproduzirei na íntegra:


Fã Clube Sindicato Vanguart
11 February at 13:21
"Gente, olha que demais essa história. O Thales foi o vencedor da promoção que fizemos aqui no sindicato pra ganhar um par de ingressos do show de ontem em SP. A Fabiana ficou em segundo lugar na promoção e acabou ficando sem ingresso, pois só tínhamos 1 par mesmo. Mas quando saiu o resultado da promoção, a Fabiana fez um comentário na postagem parabenizando o Thales. Thales respondeu. Aí comentamos que a sugestão dela tinha sido muito boa também e que ela tinha ficado em segundo lugar. Enfim, depois da troca de alguns comentários, o Thales teve a sensibilidade e a gentileza de convidar a Fabiana para ir com ele ao show já que ele tinha ganhado 2 ingressos. Não é demais?!?! Os fãs do Vanguart são muito especiais mesmo. Eles curtiram o Show e passaram pra falar com a gente na lojinha. Valeu queridos. Adoramos conhecer vocês dois e essa história inspiradora. Vida longa próspera pra essa amizade. Viva Vanguart."

Foto: Claudia Almeida

Vanguart Acoustic Night


"Na medida em que dou ao comum um sentido elevado, ao costumeiro um aspecto misterioso, ao conhecido a dignidade do desconhecido, ao finito um brilho infinito, eu os romantizo." Novalis, Polén, Fragmento nº 105

Nota do editor: Na transcrição os nomes de Hélio Flanders, Reginaldo Lincoln, David Dafré e Fernanda Kostchak serão referidos como: HF, RL, DD e FK, respectivamente.


HF: Muita gente no trânsito vindo, a gente segurou um pouquinho. Obrigado pela paciência.
RL: Obrigado por terem vindo!
HF: E... para os atrasos nós temos uma velha canção.
Demorou pra Ser
         Há aquelas perguntas que vem e vão como: com quanta antecedência a banda define o repertório? Por conta do pequeno atraso decidiram que a canção abriria o show ou foi uma feliz coincidência?
HF: Que bonito, que silêncio. Vou a muitos shows de rock desde os onze anos de idade. Obrigado pelo respeito, vocês sabiam cantar essa?
RL: Eles cantaram!
HF: Devo estar com o fone muito para dentro aqui.
RL: Por mim podem cantar até mais alto ainda.
...Das Lágrimas
         Vem sempre a mente o "que trouxe você pra mim". Há o conforto do estúdio, claro, mas algumas palavras que se espera são encontradas apenas em meio ao calor da proximidade, veja shows de uma banda o bastante e as versões ao vivo sempre ecoarão na cabeça. Como as palmas marcando o tempo. O primeiro álbum surge pela primeira vez  representado por:
Para Abrir os Olhos
         Nossos sonhos a caminho, Hélio canta ao final. Hoje já me pergunto se seria o nome do quarto disco. Quão interessante seria se o título estivesse sendo propagando em meio aos shows sem que ninguém de fora soubesse? Uma transição curiosa. Certamente se a vida fosse um livro, esse movimento faria sentido.
RL: Está calor aqui. Não que isso seja ruim.
HF: Somos de Cuiabá e lá é um lugar frio.
RL: Estamos acostumados com neve! Vamos fazer uma canção agora do Muito Mais que o Amor.
HF: Uma das minhas favoritas. Eu lembro quando ele me mostrou a ideia da música, quase pronta no ukelele
RL: A gente destrata a música para quebrar as expectativas, vai que... pode ser o melhor jeito.
         É curioso pensar em Cuiabá, como ela pode ser mencionada como quente e ao mesmo tempo tem um inverno que pode trazer temperaturas abaixo de 10° C, quem sabe um dia, a passear pela cidade seja possível entender melhor. Guiada pelo piano vem:
Mesmo de Longe
         E em seguida o lapsteel de David cria uma dimensão espacial para:

Todo Fim é Bom
         Quanto tempo leva até que uma música deixe de ser "nova"? Essa está em período de gestação, entretanto a vejo desde o lançamento do DVD em Santo Amaro quase dez meses atrás. Não filmei a apresentação mas há registros no YouTube nota-se que versos como "Então vem e me abala a fé que eu tenho no amor" já foi "vem e me bate até que eu sangre o seu amor"... belos versos de maneira distinta.Alguns anos depois do lançamento oficial talvez seja a resposta de minha pergunta , se ao início da apresentação Demorou pra ser foi adjetivada como 'velha'. Hélio continua:
HF: Essa já está gravada. Pode cair o avião, pode morrer que está tudo certo. Desde o primeiro disco, se cair tá tudo certo.
RL: É um pensamento positivista...
HF: Existencialista, realista.
RL: Super pé no chão.
HF: Me lembrou uma vez saí de carona com alguém que era muito doido dirigindo a gente ainda ia gravar o primeiro disco  olhei pra ele e falei "ainda não gravei as vozes" semana que vem a gente vai pro role e você pode fazer o que você quiser.
Nessa Cidade
         Surge com violão de doze cordas e bandolim., alguns diálogos propostos entre o violino e o trompete de Hélio numa ligeira troca de fraseados. A certa altura Hélio transforma sem querer os versos "tem uma casa de pálida agonia" em vez de "cheia de flores pra você" há um riso e aceitação pela autenticidade nascida da inexistência de playbacks. Ao final a memória evoca Engole, como seria caso estivesse a ouvir o segundo CD as palmas ao redor me fazem retornar ao momento, todavia.
RL: A gente já começou música de novo por minha causa. Entrei sozinho numa música e a banda inteira entrou em outra. Eu ganho sempre nessas.
HF: Nesse dia foi louco, a gente contou até quatro, mais ou menos assim. Ele entrou e seguiu.
RL: Tem uma coisa no palco, vocês tem que aprender (se dirigindo ao público) é cara de paisagem sempre. "Tô certo". Tem que ter confiança. Eu entrei em Los Chicos de Ayer "Sooouth..." super alto e os caras estavam numa música do Velvet Underground!

         É quase participar de uma longa entrevista, conhecemos mais da banda e suas vivências. Quebra da quarta parede do espetáculo. Cada canção do repertório, constrói um pensamento, você sente como as histórias surgem automáticas, o grupo está sempre à vontade e essa entrega cria uma envolvente atmosfera de amor.
RL:Terá de tudo hoje!
HF:A gente vai tocar uma música que a gente não toca desde 2009
HF: Eu não gosto dela mas tem gente que gosta... mentira, eu gosto sim, não tanto a ponto de tocar. Inclusive a gente gravou aqui nosso DVD Registro Multishow. Nesse lugar, nesse palco. Essa canção está lá e só lá.
Hemisfério
        O violino assume o encerramento da canção. Pensando em retrospecto na utilização de cordas nesse primeiro registro, fica a impressão de que a entrada de Fernanda era um passo natural para a banda. Mesmo depois de anos assistindo eu não tinha me atentado de que estava no local em que o show fora gravado. Ali surgiria uma de minhas canções favoritas Promessas de Navegação então quando Hélio pergunta:
HF: alguém conhecia essa?
         Parece uma pergunta retórica, é mais fácil perguntar quem "não conhecia", embora cada show é sempre o primeiro de alguém. Ou o terceiro. Quem estava na primeira apresentação da banda no Teatro Paulo Autran lembra que a canção também fora tocada lá, mas divago. HF: eu tinha uma banda glam (Valium) quando era jovem. Usava umas roupas da minha irmã. A letra reflete esse tempo. Usar o teu vestido. Ela vai embora, deixa o vestido e um dia você assiste o futebolzão  só pra vestir aquela dor. Quem nunca?
RL: Está cada vez mais normal
HF: Quem nunca usou é porque não tinha um vestido.
HF: Por anos quando perguntaram qual a música favorita, todo mundo falava "acho que é essa":
Se tiver que ser na bala, vai.
         Que começa e acaba com a gaita de Hélio.
HF: Muito obrigado. Fernanda, eu tive um insight! No meio da música lembrei da gente. A Fernanda entrou no segundo álbum. Eu lembro da gente gravando em Cuiabá. Liguei para ela no hotel de madrugada "Fernanda, posso ir aí?". Calma. Aí eu cheguei lá com a bíblia. Falei, Fernanda, sei que tu curte e tal - que o velho testamento eu curto muito, quando chega JC é tão foda que... lindo - então falei, sabe esse verso da "palavra, do conselho do vento", vem ver de onde que é. Eclesiastes. Muito diferente. Provérbios, o cara é bom, o Salomão. Tudo que Deus dá é bom, tudo o que é natural está aí para ser consumido.
         De minha leitura de Eclesiastes, encontrei algumas menções ao vento em 2:11,17,26 e 5:10 que reproduzirei: "Mas há ainda outro mal doloroso: concluir ao final da vida que simplesmente correu atrás do vento; do mesmo modo como veio; assim vai." Hélio é conciso ao anunciar a música que vem para exorcizar tudo:
HF: Essa canção escrevi quando estava muito, muito só
Olha pra mim
         Enquanto David executa um solo de clarinete, na canção construída ao redor de Bb7M e Gm Hélio insere me espera até o fim. É uma das canções que seriam entoada A capella, em um show de 2015 no Teatro Mars, David estava sem o clarinete e o público "solou" o instrumento para se ter uma ideia. Essa é a força de uma banda que cria trilhas sonoras para a vida de muitas pessoas.
Então, um desconhecido gritou: Vangbeats!

HF: Só alegria. Não quero soar arrogante. Esse novo disco vai sair em abril/maio. Conseguimos!
Enquanto ele fala pode se ouvir acordes com a afinação Sol Aberto, antecipando a canção seguinte, Hélio prossegue:
Não quero soar arrogante, prepotente ou algo assim mas vocês vão gostar.
Como o último disco, a gente quis fazer o negócio tão apaixonado. Ele intensifica na forma de falar a última palavra. Sem meias medidas, David Dafré sentencia:
DD: Vai ser do caralho!
         No ano de 2013, antes do lançamento do terceiro cd, a banda divulgou capa, título e algumas faixas com cerca de um mês de antecedência. 2017 também será assim?
HF: Essa próxima canção é sobre amor e é sobre isso que a gente tem que passar pros outros. Sobre respeito, enfim, a gente vai mudar o Brasil! Assim como vocês contam comigo para isso eu conto com vocês. E a gente vai junto. Fora Temer pelo amor de Deus. è uma parada diferente, estou falando de respeito. É uma questão de respeito com a população, respeito com todo o mundo que trabalha no Brasil, com todo mundo que vai se aposentar. Fora! Não só ele mas todo mundo que não respeita o trabalhador brasileiro. Viva a liberdade individual, que cada um sabe o que faz da sua vida. Seja pintar o meu cabelo de roxo ou namorar um rapaz, ou uma mulher que tem as questões dela e ela pode escolher sim, se ela vai fazer um aborto ou não. É tão óbvio! Se alguém não acha isso é uma decepção... Obrigado por me darem o espaço de falar, essa canção é isso, sobre o amor. Eu acho que as escolhas de cada um são baseadas no amor. Só isso.
Meu Sol

HF: A gente vai fazer uma música que a gente nunca tocou inteira desse jeito. Essa música eu pedi hoje pro Reginaldo cantar, que outro dia em casa ele cantou e eu falei "Pô, bem mais bonita!"
RL: Vamos fazer diferente então!
HF: Dois violões? Sempre tem umas coisas que a gente improvisa senão fica uma coisa muito bunda mole. Aquele show todo igual. Claro que existem riscos. Foi uma das primeiras canções do Muito Mais que o Amor essa. Uma que o Reginaldo me mostrou, falou "me ajuda a terminar" e a gente fez basicamente pelo Skype. Eu falei "Nossa, você me leu completamente".
Pra Onde eu Devo Ir?
         Reginaldo canta a seu próprio modo a balada country em um dos momentos mais memoráveis dessa apresentação, quantas oportunidades há para ver algo assim? Fernanda assume o microfone:
FK: Eles estavam falando de correr riscos mas o maior de todos foi eu ter entrado na banda. Mudaram o tom, eu fui quaaase não cheguei;
RL: Foi lindo!
HF: O bom do violino é isso, você não afina fala que é rabeca
RL: O violino não tem traste por isso
FK: Tem um traste só...
          Os risos da banda e do público cessam para permitir a entrada da canção:
Pelo Amor do Amor
HF: Vamos triscar umas botinhas agora
         David Dafré se dirige ao piano, não me recordo de vê-lo no instrumento antes. Hélio o chama de "o cara mais musical da banda" violão, piano, clarinete, lapsteel, bandolim...
Estive
         Canção que por tantas vezes foi a primeira da lista, espelhando o terceiro disco. Até mesmo alterações na ordem do repertório são sutis surpresas.
RL: Faremos mais uma música do disco novo
HF: Igual ao disco só que diferente
Quente é o medo
RL: Com a banda é bem diferente, viu?!
         A primeira vez que a ouvi, no show de lançamento do último DVD no Sesc Santo Amaro, lembro de estar aos arredores próximo a passagem de som e tentar entender a qual música pertencia a batida. Será que na versão do disco ela terá trompete como naquele dia?
HF: Rapaz só de lembrar daqueles shows que começavam as duas da manhã... tinha uma época que a gente chamava todo mundo para subir no palco, não era "sobe cinco" era "será que a gente consegue botar todo mundo?" Aí nossa equipe técnica gentilmente disse "Olha, quebraram três pedais, quatro cabos, chutaram não sei o quê e bateram a carteira do Lazzaroto." Aí a gente seguiu chamando, mas passou a botar a carteira no bolso da frente. Vamos tocar uma do primeiro álbum agora.
Enquanto Isso na Lanchonete
         O bandolim e o violino casam perfeitamente com a música, é praticamente um pleonasmo. Canções antigas tornam-se ouro escondido pelas novas canções. Ainda que não hajam lágrimas é uma tremedeira, uma vibração em meio a apresentação. Em seguida Hélio continua:
HF: Essa eu queria dedicar especialmente para um "casal que vai casar!" Eles fizeram o clipe dessa música, são criadores do  Around The World in 80 Music Videos. São incríveis e maravilhosos. Leo, Diana essa canção é para vocês:
Eu Sei onde Você Está
         Assim que termina o passeio de bicicleta pelas velhas construções Piracicabanas e Hélio anuncia que o show está chegando ao fim, os fãs  sedentos começam a gritar como numa torcida: Cachaça! Cachaça! Antes que mais vozes adiram ao clamor Hélio explica que Cachaça é uma música com guitarra e não ficaria boa no formato. "Acreditem, vai ficar caída. Não é nada pessoal com vocês" diz em tom conciliador. (Como outro pedido fosse formado tão logo a primeira recusa, começam a surgir pedidos para Mi Vida Eres Tu.) Hélio conta que a pessoa que está a menos tempo na equipe está a minimamente quatro ou cinco anos, ele aproveita o ensejo e agradece:
Direção de Palco - Calil Barros
No Som - Anderson Chames
Produção - Patrícia Pierro
Loja: Cláudia Almeida
HF: "Chicos, buenas noches!"
         O Hélio que fala em español seria um heterônimo nascido na temporada fora de si em autoexílio na Bolívia? O publico recebe as palavras com empolgação, não sou completamente fluente em español mas me arrisquei no Google Tradutor para manter o texto da maneira como foi dito:
HF: Ya hace doce años. La primera vez que tocamos en São Paulo. Doce años! No teníamos ni vinte años, éramos muy chicos ¡pero ya muy locos! En la primera noche... no, no puedo contar. En la segunda noche... también no puedo contar. ¡No puedo contar! La unica certeza és: Se tenemos alguna dignidad es porque en aquel tiempo no habían smartphones. No havía cámara por todo lado. Esto Incluye una viaje para el Acre en que fuímos conocidos como Los Salvajes de Mato Grosso. Porque éramos libres. Solo por esto. Porque nos besamos en la boca. Porque besamos las chicas y los chicos en la boca. Porque éramos felices y somos felices. Éramos libres y somos libres. Porque besamos los chicos en la boca. Por que ser libre, y solo ser libre, no es muy lejos, no es muy longe. Está muy cerca, muito perto ser libre. Solo tien que hacer una cosa: ¡Ser!
Mi Vida Eres Tu

         Antes que Hélio comece a contar a história seguinte surgem os acordes Em e B7/4  e todos percebem o que está por vir...
HF: Me lembro eu pelo meu quarto, bem pequeno, em Cuiabá. Só escrevia canções em inglês naquela época, ouvia muito Bob Dylan, e o Renato Russo era o cara que era tão gênio para mim que eu não conseguia nem tentar fazer algo parecido com o que ele fazia. Eu olhava... Aí um dia eu falei vou tentar escrever em português e eu fiz essa música: Semáforo
No meio da canção ele continua
HF: Essa canção virou uma crônica daqueles dias naquela cidade quente e pequena, onde a gente não tinha muito o que fazer. Mas a gente se amava tanto! E a gente amava tanto o que a gente estava fazendo: as canções, as bandas, os sonhos. Numa época em que a gente não ouvia um ao outro ainda. A gente ficava muito tempo em silêncio pois sempre tinha alguém mais velho, alguém mais "vivido". Que sempre tinha algo a contar.
         A jam no meio da canção é exemplo de como músicas podem mudar para melhor ao vivo com mudanças na instrumentação, é como o clarinete e o violino tivessem estado ali desde que a música nasceu.
HF:E tinha um amigo nosso, ele dizia que nas horas vagas ele tinha o hábito de voar. Ele dizia e ninguém acreditava. Até que um dia à beira do rio Cuiabá, a uns duzentos metros de casa. Depois de uma sessão ma-ra-vi-lho-sa. Duas infusões, duas horas, duas vezes ao dia ele abriu os braços, saiu correndo em direção à água e começou a voar! E a gente gritava VOA, VOA! JORGE, VOA! Traz uma estrela pra mim!!!
Antes do fim da canção surgem os versos:

"Minha alma se expande
Ao ver-te fremir...
Mas se um dia você precisar de mim
Me procura debaixo da sombra
Do seu sapato
Em algum lugar então
Eu te espero
Quando eu conheci a mim
Nunca mais me senti só"

HF: Boa noite! Obrigado. Que vocês voltem para casa se sentindo mais próximos. Não da gente, mas de vocês. Obrigado!
         David entrega as folhas com o repertório que eu pedira gesticulando antes do início de Semáforo e então a banda se retira do palco. Mais uma vez todos os presentes se unem em uma só voz pedindo "mais um":RL: Curtindo essa noite? chiquérrimos estes garotos de Cuiabá. "An acoustic night". Temos que ser nós mesmos.
HF: Agora essa, a gente tocava no início de carreira é em inglês, não é nossa mas fala sobre a gente, se alguém fez mal a gente só tem uma coisa a dizer: Foda-se!
Tinha que dizer, enfim, eu estava muito no discurso do bem-estar.

         A banda se rende a uma versão do hino que se tornou sucesso na voz de Gloria Gaynor
I Will Survive

Repertório gentilmente cedido por David Dafré
      Para muitos, a noite acabara ali. O prazer da música, tão somente, saciara a permanente busca. Para outros, no entanto, havia ainda o vislumbre de uma possibilidade: encontrar a banda pessoalmente por instantes. Há quem seja contrário à prática, lembro de um texto de Mara Menachem descrevendo suas desventuras ao conhecer o poeta Allen Ginsberg. Sua conclusão era de que saber de mais pode transparecer as imperfeições, revelando a humanidade do artista. E se o caso fosse justamente travar esse contato com o humano?
"Todos possuímos mundos interiores que estão, em graus variados, em conflito com o mundo exterior, e o conteúdo desses mundos interiores e das tensões geradas por eles tem muito em comum. Por suas tensões serem importações universais e não pessoais, os grandes criadores conseguem nos atrair quando encontram em sua obra um novo caminho de reconciliação" p.412, A Dinâmica da Criação - Anthony Storr
         Por instantes conseguimos falar com Reginaldo que explicou eles a banda abriria o camarim em algum tempo e seria uma oportunidade legal. A informação se espalha por outros fãs e começa a espera, embalada pela discotecagem que começou em Cara Estranho do Los Hermanos, Somebody Told Me do Killers, Lua Vai do Katinguelê, Camarote do Wesley Safadão, Cinquenta Reais da Naiara Azevedo, 10 % de Maiara e Maraísa, Pimpolho do Art Popular, A Dança da Vassoura... Quando passou por outra do Molejão, Cilada, me fez pensar que as canções eram escolhas da própria banda dado seu histórico de covers. Qual teria sido a trilha a guiar cada um dos fãs ao camarim naquela noite fatídica em que Fabiana pode confessar para Hélio quão apaixonante é sua voz, declaração recebida por ele com gratidão? Contamos nossa história a ele que se disse surpreso com os títulos escolhidos por Cláudia e Reginaldo na promoção: Pelos Olhos do Tempo e Mar de Mim e confidenciou que já teve uma música chamada "Trem do Tempo" mas ela não vingou e se perdeu. Há um apreço pelo futuro e por conta disso não se encontra tantas canções avulsas fora do cancioneiro oficial. Ele explica que no terceiro disco entrou uma faixa que fora composta para o segundo mas essa é uma ação rara na carreira da banda.
         Fernanda Kostchak contou que na próxima turnê não poderá usar seus estilosos saltos pois as canções estão intensas. Estar com os integrantes pessoalmente é mágico e a simplicidade e alegria com que recebem o público mexe de uma forma capaz de ligar ainda mais os fãs ao trabalho da banda. Algo assim não acontece todos os dias. Depois de fotos com a banda Reginaldo pergunta: Vocês estarão no próximo show, no CCSP, em março?
        Não era preciso prever o futuro para saber que a resposta era positiva!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Vanguart Acoustic Night

Mal passei a catraca e a vi pela janela. Se eu me concentrasse o motorista se deteria até que eu a visse seguir seu próprio caminho? Aquelas mãos desenlaçaram do que parecia um nó tão perfeito nas minhas. Eu via o riacho negro preso a altura de suas costas e me perguntava se ela se viraria e me veria ali; inerte. Se perder de um amor doía tanto por não ser erro de ninguém e isso me fez sentir nas veias a urgência trágica do violino envolvida pelo trompete, a guitarra lacrimosa. Como era possível o teclado se manter tão dócil, ao que o baixo nunca esteve tão grave seguindo a bateria a conduzir crescente a um estancar seco, como a voz que me rasga a noção de tempo pensando tudo "O que a gente podia ser" - Adaptado da participação numa promoção promovida pelo Fã Clube Sindicato Vanguart promovido no dia 23 de novembro.
Foto: Helen Moraes

        Parte: Antes que pisasse no palco, nunca tinha ouvido falar no trabalho de Rodrigo Alarcon e surge aquela presença com pegada mezzo-reggae-mezzo-samba. Uma levada que, na falta de âncoras ao trabalho dele me levou ao 5 a Seco de alguma maneira. Muito simpático e desenvolto, apresentou letras repletas de bom amor e humor. Suas brincadeiras com o coração e a razão, personificações e a mescla de registros formais e informais (armaria muié cadequê...) o puseram em meu radar. O formato voz e violão foi deixando o público em sintonia com a ideia de um acústico. Embora, assim que ele partiu ainda houvesse nas cercanias da pista premium quem se espantasse: nossa! quantos instrumentos de corda!

       Entre as palmas surge o primeiro de vários gritos, "lindos". Surge também a banda ao que Hélio Flanders agradece a presença do público Que presente, hein? Mal sabiam eles que eram presente de meu natalício. Nesse sentido, quando surge Estive a sensação de familiraridade não poderia ser maior. Se aos nove eu era apresentado ao formato unplugged com o lançamento da incursão da Legião Urbana no formato, estar no Estúdio, dezoito anos depois tinha inominável sabor. A banda que me fez descobrir a existência de Cuiabá viria a contar histórias, parte dos shows que mais gosto por torná-los próximos, na sempre doce intimidade que temos para com nossos ídolos sem que muitas vezes eles saibam. ...Das lágrimas encerra com a vocalização do empolgada do público. Reginaldo acrescenta que haveriam surpresinhas, as músicas a ser tocadas não seriam as mesmas que a banda sempre tocava. Essa afirmação atiçava a curiosidade, afinal, antes mesmo da banda entrar os mais próximos do palco já haviam registrado mentalmente as dezoito canções presentes no repertório. A narrativa de Hélio corta meu divagar. "Essa próxima canção é do primeiro álbum (...) lembro que fiquei umas cinco horas trabalhando numa canção épica que se chamava Para um Marinheiro Grego. Depois dessas horas percebi que aquilo era uma porcaria. E, em três minutos, fiz essa música que ficou para o disco." Para abrir os olhos, além de um solo de David ao bandolim é arrematada com os versos nossos sonhos a caminho, menção a Bridge over troubled water? Quem vai saber?!
        Enquanto Hélio alterna do violão para o piano, a violinista Fernanda Kostchak aproveita para assumir os microfones e pede uma salva de para os companheiros de banda. Ela diz quão legal é poder olhar nos olhos, o coração, do público. O formato do show também permitiu a ela estar presente no palco o tempo todo. Reginaldo oferece a música seguinte à amiga. Helio confidencia que ainda a autoria seja partilhada a música foi essencialmente feita pelo baixista. Mesmo de Longe vem como balada lenta, num dos vários momentos em que David Dafré performou com o lap steel. Todo fim é bom pode estar no próximo álbum. Quanta expectativa. A cada audição crescem os sentidos e significados dela. Versos tais hoje já não tens a chave podiam soar como adaga a acariciar o músculo que nenhuma vez descansa. Talvez seja possível viver sem descontextualizar os versos. Não naquela hora. Outra voz se sobressai no meio da casa lotada: quando sai o próximo disco? Reginaldo sorri um "Por mim saía agora, mas não é demora; é o carinho e o cuidado com a feitura". Anunciam uma canção antiga, do tempo em que cantavam em inglês. O público cria a bateria com suas mãos em Hey yo Silver se houve instante para se sentir num saloon foi esse.
         A primeira meia hora do show encerra com uma canção "menos conhecida". Hélio a dedica a "alguém que está sempre nos shows, ele carrega o pessoal de lá pra cá, para todos os lugares" Ivan. Fica o agradecimento a ele também, afinal, não surge todos os dias uma oportunidade de ouvir Robert. Ainda mais depois de ter ouvido no show de outubro no Sesc Bom Retiro que a tão pedida canção não apareceria mais. As narrativas vanguartianas sempre oferecem possibilidades tanto aos neófitos quanto aos seguidores de longa data. Assim, o revesamento é inevitável: do segundo registro em estúdio vem Se tiver que ser na bala, vai,agora com arranjos de gaita, e depois Olha pra mim quando Hélio diz que quando a fez estava mal mas as vezes isso possibilita o nascimento de coisas boas. Canções-declaração como a que tocariam em seguida, tão logo Reginaldo chegasse ao piano. Na era da impermanência de universos compartilhados; a cidade seria a mesma dos versos de Todo fim é bom? Nessa cidade conserva as características catárticas há anos, ainda arrepia o violino. Para além disso, perceber o conforto no trompete em se permitir mais passa a impressão de ser uma música nova. Reginaldo convoca palmas para Claudinha Almeida da lojinha e para todos do sindicato. Ao fim de Pra onde eu devo ir? e Pelo amor do amor vem mais gritos do público: Hemisfério, Enquanto isso na lanchonete, Engole... A banda se abre em relação ao trabalho envolvido na preparação do repertório desnudado. Nem todas as canções pedidas virão.Quente é o medo, nova composição de Reginaldo Lincoln aparece logo depois de Demorou pra ser. 
          A décima quarta canção é um cover de David Bowie Space Oddity e o Vanguart expressa sempre ter tido vontade de tocá-la. Podemos acompanhar mais uma camada de referência dos ídolos fora das esferas Dylanescas e Beatlemaníacas normalmente evidenciadas pela mídia. A banda agradece a presença de Calil Barros, parte da equipe desde o início da banda. Há sempre um zelo com a citação nominal da equipe e impressiona por não soar protocolar como se vê muitas vezes. Hélio dedica a canção seguinte aos cônjuges e vice-versa. Ao primeiro acorde, todos sabem que Meu Sol raiará na noite. 

Foto: Helen Moraes

         Faço então, caro leitor ou leitora, um parentese do espetáculo - que contava já cerca de uma hora e dezessete condensadas nos quatro parágrafos anteriores - para agradecer à mesma Helen Moraes autora das fotos presentes neste post por ela ter me reapresentado ao Vanguart. Já ouvia a banda desde ver o clipe de Semáforo a primeira vez. Passei a brincar com as sétimas maiores em composições como Exaustão e Veneno e Meio-dia.  Ansiei pelo segundo álbum ouvindo a banda Major Luciana e vendo qualquer canção que sugeria um caminho que nunca se seguiu com as canções em inglês. Até mesmo abri uma conta no Facebook quando descobri que Boa parte de mim vai embora seria lançado primeiro na rede social. A melancolia misteriosa das metáforas sempre me tragou. De modo que quando Muito mais que o amor ganhou o mundo a única canção a ressoar em mim foi A escalada das montanhas de mim mesmo. Era como os fãs de Tucker Crowe repudiando o lançamento de So, where was I que não julgavam a altura de sua obra-prima trágica Juliet. Tanto sol era demais para mim. Até que, como diria o poeta, antes que eu soubesse, estávamos juntos. A ideia de ver um show no Cine Jóia a meia noite fez com que eu a apresentasse a banda. Amor à primeira audição. Ela não chegou a levar dois dias para decorar as onze faixas. O que era para ser um evento único se tornou algo mais quando, após o show, ela perguntou: quando será o próximo?! Fomos então, ao Sesc Carmo, pudemos conversar com a banda no Sesc Santo André quando avisaram da gravação do segundo DVD da banda, o que nos levou ao CCSP. Era quase como uma bola de algodão doce em que cada show levava a outro com novas nuances. Hélio ainda chegou a comentar na gravação de como casais que estavam na gravação se separavam, e o destino do disco ficava perdido. Aquele tipo de conversa que faz tanta falta quanto David Dafré cantando Get Back no bis desse mesmo show. Passamos ao Blood on the Tracks em Santana, escolhemos canções para o show no Teatro Mars, e mais! Há casais que tem uma música, quantos podem dizer essa é a nossa banda? Mesmo quando não são mais um, as reminiscências desse mapa conjunto pelas estradas de São Paulo seguirá de algum modo. Ter sentido o que é muito mais que o amor tornou meu olhar um outro. El caminho es largo, pero tenemos que seguir.
Repertório cedido gentilmente por Reginaldo Lincoln
           Mi vida eres tu diz Hélio, conta a história de "um garotinho, um mancebo em Cuiabá sofrendo e procurando alguém como ele". Além da já esperada citação à Odair José, houve a inserção do "So you think you're gonna hit me but now I'm gonna hit you back" da banda mexicana Molotov e os versos finais de Perfeição, da Legião Urbana. A banda se apresenta e Reginaldo confessa que em Cuiabá, em meados de 2002, era quase impossível encontrar gente que estivesse compondo e o encontro com Hélio foi maravilhoso, mudando a vida de todos eles. Hélio prossegue a agradecer ao público: "um show sem bateria mais alta que a voz, sem a música alta." Tanto o de Rodrigo Alarcon quanto o acústico em si "é um formato que privilegia a palavra, a canção; e isso fez o Brasil existir na música com Caetano, Caymmi, Chico, Renato (...)" e a presença do público ali, ouvindo e cantando era indescritível. Então, conta que quando estava em Cuiabá aos dezesseis, dezessete anos. Sem nada para fazer eles se tinham. Fosse para mudar o Brasil, para tratar bem as pessoas, respeitar as diferenças. No fim das contas, o amor ainda era mais importante. O violino e o clarinete recriam Semáforo numa versão que merecia ser lançada. 
        Ouvir a banda tocar algo dos Beatles, para mim, é sempre uma justiça poético-retroativa por nunca ter conseguido ver uma apresentação do projeto Vangbeats. All my loving é a penúltima canção do Acústico. Violões de seis e doze cordas, clarinete, bandolim, violino. A instrumentação da banda não deixou a desejar em relação a suas performances "plugadas". Sentir cada um dos novos arranjos permitiu um show memorável. Ainda que o texto não contemple detalhes dos fraseados novos, as canções mantiveram sua identidade com uma roupagem envolvente. Eu sei onde você está encerra a apresentação e o ano de 2016 para o Vanguart. Que venha o quarto disco!

POSFÁCIO

         Que conste nos autos o agradecimento as meninas da lojinha do Vanguart que, sempre muito solícitas, nos ajudaram a alcançar David Dafré que, por sua vez, trouxe Fernanda Kostchak para que entregássemos uma lembrancinha. Essa sinergia é muito boa e nada há que se possa dizer além reafirmar o Muito Obrigado!!!