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sábado, 22 de outubro de 2022

C.P.T.M. , da ilustração e demo

 "Atravesso as calçadas pra ter avenidas inteiras só pra mim. Às vezes, evitar as pessoas me faz bem. Quando eu estou numa multidão, cada pessoa, cada frase direcionada a mim, uma pergunta mais específica que me faça falar me suga a energia, me arranca de um curso natural. Eu queria estar junto, mas estar junto seria uma coisa excepcional, me cansaria. Eu sempre acabo querendo ir embora antes da hora de cortar o bolo." - Contos de mentira, Luisa Geisler - Rio de Janeiro: Record, 2011. p.82 e 83


Arte por @ellaproenca


   Na manhã do ducentésimo nonagésimo dia de 2022, rememoro e acho graça no positivismo do Thales de quatro anos, três meses e vinte e dois dias atrás. Num post neste mesmo blog, C.P.T.M., da letra, eu concluía após reflexões preliminares: "Surge "Caminham Pelos Trilhos do Mundo" e, após isso, concluo que a melhor forma para começar a letra seria usar, como tantas outras vezes, um acróstico. Desta vez para Metrô e Trem. Objetos inanimados tomando parte de uma canção. Que, até o fim de julho, não foi gravada. Mas o será, em breve." quatro anos ainda se enquadra na categoria de "em breve?" Em se considerar que a gravação da demo foi ocorrer em algum ponto de 2021, sim. Se, como versa Lirinha em Meu Mundo de Otto, o desejo é um tempo parado, o desejo de escrever acerca dessa letra demanda que isso seja realizado em partes. Para todos os efeitos, não é como existisse um prazo fixo. Já escreveu Vitor Ramil: "nascer leva tempo".
    Foi apenas após assistir ao show de lançamento de Oceano Rubi da Vanguart no Sesc Santo Amaro, que me ocorreu colocar, uma vez mais, essa canção sob análise. E, foi assim, que entrei em contato com a multiartista Isabella Proença falando acerca desta canção e de minha postagem anterior embebida em wishful thinking. Agora, o termo em esperanto "Aliloke" já estava atravessando a compilação de canções feitas após o Ikyriou EP. Ele já havia, inclusive, sido utilizado na canção Impressões Antes de Olvidar Memórias Pacíficas, composta após uma imersão em Belo Horizonte conhecendo o Sarau Tranquilo, enfim, como diria Maz Kanata, essa é uma história para um outro momento.
   O receio de que o tom mezzo-mórbido da canção fosse um impeditivo, se desmanchou quando Isabella comentou não só gostar do mórbido quanto ter a vontade de explorar sua criação pelo meio digital. E foi assim que surgiu o painel, com um terceiro lugar, entre eu que passei diversas vezes na estação da Luz, Isabella, que ainda não esteve nela, e todas as histórias que perpassam os versos.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Distante, razoavelmente inquieta, e, acima de tudo: lenta e livremente, em torno de si.

"É uma luta permanecer presente onde quer que eu esteja, porque minha mente viaja no tempo e no espaço, não apenas até o passado e o futuro, mas também até as casas que nos cercam neste condomínio, até os corpos que habitam esta cidade." - Açucar Queimado, Avni Doshi; tradução Adriana Lisboa. - Porto Alegre: Dublinense, 2021. p.118

 

Arte por @ellaproenca

Distante, razoavelmente inquieta, e, acima de tudo: lenta e livremente, em torno de si. (2022)
Letra e Música: Thales Salgado

Quantas vozes há em ti?
São elas suas vidas passadas
Ou o que está por vir?
Há tantas interrogações!

Cale aquelas que puder
Ouça as que lhe façam bem
Se forem só ilusão
Dissipe com o coração

Sua voz é bem maior
Que qualquer barulho.

     Por muitos dias, esses versos não tiveram nome. Cheguei até a me perguntar se assim ficariam. Há uma década já me vali do expediente de nomear uma composição como "Sem um Nome". Batizar - e eu provavelmente já repeti isso diversas vezes desde 2016, é, muitas vezes, mais difícil do que escrever todos os versos. Agora, qual o motivo de um título tão extenso? (Não que já não haja precedente com Tudo Depende de Conforme For (ou A Balada de Raul e Júlia) de 2017) pode ser influência do título do álbum de Jair Naves: E Você Se Sente numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas que está completando dez anos em 2022.
    "Se eu tentar, ser mais direto, vou me perder... melhor deixar quieto" cantaria o duo Pouca Vogal.
     Composta no dia 6/09 quase que de forma inconsciente, a última coisa que ela recebeu foi o nome (justamente agora, no dia 27/09). Quando entrei em contato com a multiartista Isabella Proença para propor mais uma parceria para ilustração, a canção seguia sem nome. Abertura maior para que ela mergulhasse nas diversas camadas para seu realismo abstrato não poderia existir. Aquarela e digital, dois mundos, distintos são, mas ela soube, uma vez mais, uni-los e fazer com que trabalhassem em uma mesma intenção. A versão que se encontra em @fmodestia tem cores, qual é o antes e qual o depois? São o fim de um ciclo ou a promessa de renovação? Interrogações para um outro momento.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Incêndios na Alma

    Mal havia começado a leitura do texto Ser Egocêntrica, de Natália Nodari, no site da R.Nott Magazine me deparei com o seguinte trecho:

“Qualquer um que queira escrever algo decente precisa viver dentro de si. Quem falou isso foi poeta austríaco Rainer Maria Rilke, não eu. De qualquer forma, vou evitar ficar citando Rilke. Tem gente que cita autor inteligente para parecer mais inteligente, e eu acho isso péssimo. Quando alguém começa a falar de grandes autores eu começo a pensar em como eles são grandes e em como a pessoa que está citando parece pequena, minúscula, ao lado de gênios.”

Os trechos no Moleskine de 2011
    Ele me chamou atenção pois, desde o início, o blog contou com citações. O motivo eu já não sei. Talvez fosse referenciar autores que eu goste. O primeiro texto tem uma citação de Milan Kundera. Com o passar do tempo, a citação tornou-se uma obrigação, e, por vezes, me pego na Wikiquote procurando por alguma que tenha relação temática. Outras, como as recentes menções a Jeff Tweedy surgiram durante a leitura de seu livro sobre composição. Era coerente. Este trecho de Natália ressoou comigo, particularmente, por ser o que motivou essa letra. 
    Ela era a quarta em um conjunto de dezesseis composições que eu tentava completar em 2011. A única finalizada naquele ano, nem consta neste registro, foi a décima sexta: Referência, feita com versos da poeta do passeio azul: Kariny Camargo. Outras seguiram com o passar dos anos, mas creio que não chegam, até o momento, a dez. A ideia de falar em “heróis” partiu do refrão de Ideologia, de Frejat e Cazuza. Quem seriam meus heróis? E heroínas? Várias dessas pessoas ainda estão vivas! Em 2018, Frejat comentou com a Rolling Stone a razão de ter evitado cantá-la por anos: 
“Eu não tenho heróis, não tenho relação de idolatria com ninguém. Mesmo as pessoas que eu mais admiro – seja na área humana, na história da civilização, ou na música, os guitarristas que adoro –, não tenho relação de idolatria com nenhum deles. O Cazuza, sim, ele tinha essa relação de idolatria, então ele se sentia muito à vontade de cantar”.
    A ideia de utilizar os incêndios partiu de duas partes, tanto a Sra. Ezzzausta que havia me passado o livro Pequenos Incêndios por Toda a Parte de Celeste Ng quanto pela própria responsável pela arte que ilustra o post, Isabella Proença. Que publicara um trabalho em aquarela em que uma casa tomada por chamas surge em frente à uma grande figura. Esse foi, inclusive, um dos pontos que mencionei quando conversávamos possibilidades para a nova ilustração, em que ela empregou aquarela e giz pastel. 


Incêndios na Alma (2021)
Letra e música: Thales Salgado

Alguns de meus heróis se devoravam
Outros tomavam chimarrão
Alguns falavam sobre o tempo
Ou anteviam a revolução

Minhas heroínas, também,
Nunca deixaram calar
O sangue-quente, a cintilância,
De um infinito particular

Não são beatas, inamovíveis,
Mesmo assim, se erguem

Como seremos vistos amanhã
Se tudo o que fizermos
For sobreviver e fugir?

O que faremos quando
Até o espelho nos contra-atacar?

Quantos incêndios devem se alastrar
Por toda a nossa alma
Para ela poder descansar?


Cifra simples no Moleskine atual

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Que palavras atingem o poeta?

“Meu sincero desejo é para que pessoas sejam capazes de cultivar um pouco mais de licença para criar em suas próprias vidas. Eu sinceramente quero isso para todos. Entendo que haja considerações quanto ao tempo – as pessoas olham para mim e pensam que eu trabalho duro demais, talvez por ser inusual em termos da concepção das pessoas sobre um músico de rock, que eu teria uma carga horário de trabalho normal. Mas eu acredito que organizar tempo para gastar em um estado criativo – especialmente quando vejo quanto tempo é gasto nos celulares – é algo que você pode fazer todos os dias. Acho que essa sugestão é valiosa mesmo para pessoas que fazem malabarismos com uma atordoadora carga de obrigações, com filhos, trabalho ou o que quer que seja importante em suas vidas. Mesmo se você puder encontrar apenas cinco minutos – não leva tanto tempo assim. É apenas uma questão de dizer a si mesmo que sua criação é OK, não importa qual seja.” – How to Write One Song (Como Compor Uma Música) p.21 – Jeff Tweedy, Dutton Books, 1ª edição (13 outubro 2020), tradução livre.
Ilustração por Isabella Proença


O presente é todo meu (Ou "Que palavras atingem o poeta?") – (2021)
Letra: Fabíola Passos Almeida
Música: Thales Salgado

No dia que você nasceu
Uma voz sussurrou
"Serás poeta do que não se diz"
E foi você quem escreveu

No dia em que voltei a existir
Um olho escutou
O que era oculto na escuridão
E foi você quem traduziu

No dia em que morri
Pernas alcançaram
O que era imobilidade gélida
E foi você quem correu

No dia em que ouso te escrever
Meus dedos dançam
Sob o privilégio agradecido
E é você quem avança

    Tinha 32 anos recém-feitos quando me deparei com estes versos pela primeira vez. De acordo com o aplicativo de troca de mensagens instantâneas, foram recebidos às 12h20. Faz pouco mais que um mês. Independente de eu ter lido na mesma hora, sei que por volta das 14h a melodia estava composta. Minha intenção foi retornar aos acordes de Um Conto no Jardim e emular o solo que compus aos 17 e que, até hoje, não apareceu neste blog. Não por ele ser meticuloso, virtuoso ou algo do gênero e sim por, 14 anos depois, ele ainda fazer sentido como uma das primeiras coisas que tenho registro de ter criado.

   Em 2013 eu já havia tentado algo similar ao tentar simular a melodia do refrão de Memories da Within Temptation no refrão de Todas as Cores que Você Quiser fazer com uma composição própria não só evita problemas legais imaginários como legitima a autorreferência, expediente que sempre admirei nas obras de outrem – muito provavelmente influenciado por Engenheiros do Hawaii.

   Quando conversei com a multiartista Isabella Proença acerca do que imaginava – ou não imaginava – para a ilustração, eu estava influenciado por um estudo que ela postara temporariamente aos fins de novembro.  Recordo ser uma personagem nas sombras com um foco de luz que me fez pensar que poderia representar uma ideia ou alguém tendo uma ideia. Havia uma sensação cósmica de grandeza no que não está presente. Ocorreu que a letra também a remeteu a iluminação e ela se decidiu por uma temática da relação entre estrelas e universo com nascer e morrer. Olhando para a ilustração, me pego pensando em qual a relação da personagem com os versos: ela personifica o eu-lírico ou é a destinatária? Pode ser tudo ao mesmo tempo.

   Pensando especificamente no último dia do ano é como ela estivesse recepcionando o novo em suas mãos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A Voz

“Então, a última, que é A Voz, eu fico imaginando uma imagem assim: como se tivesse um recanto secreto, uma sala, um lugar, um espaço interno onde está residindo o meu eu autêntico a minha voz sábia, a minha essência. Mas eu imagino como se ela estivesse dentro de um quartinho que estivesse dentro de mim, sabe? Se você imaginar uma imagem seria abrir o peito e eu não sei bem se é ali no coração – acho que não – mas ali na região do peito, sabe? Por ser o core onde como houvesse uma salinha ali dentro onde este “eu” está e fala. E aí vou imaginando essa voz saindo desta salinha e encontrando um canal para ser ouvida e acho que por isso faço uso da imagem da espinha, imaginando aquele vazio onde a medula fica, mas fazendo uma espécie de caminho. E aí acho que essa frequência do som que está ali, escondidinha, atravessando e subindo até os ouvidos, chamando a minha atenção e, por isso, consigo sintonizar e ouvir essa voz que diz para eu não me limitar por que sou caçadora de jeitos de ser, mas acho que a imagem é essa.” – Transcrição do áudio de Fabíola Passos Almeida, sobre a canção em 17 de agosto de 2021.
Ilustração por Isabella Proença



A Voz (2021)
Letra: Fabíola Passos Almeida
Música: Thales Salgado

No fundo do meu pensar
Às vezes ouço um sussurro
Escondido em meio aos gritos
Tão familiares

Minha espinha alinhada
Se torna canal que transporta
Do esconderijo aos meus ouvidos
Tão exaustos

No leve silêncio que crio
Sintonizo na frequência vocal
Que sutilmente se configura
Tão autêntica

No centro da minha alma ouço:
“Não se limita caçadora de jeitos de ser”
Encontro refúgio nesse lugar
Tão criativo

    Acho que parte do que torna parte de minha experiência com este blog diferente de um diário é o tempo entre os acontecimentos. Quando compus a melodia para esta canção, em maio, eu não tinha como prever que ela existiria. Sei que recebi os versos no dia 19 para apreciação. Tendo perdido os registros das conversas, não consigo recordar ao certo qual foi a minha reação inicial, mas este conceito de uma outra voz me interessa há muito tempo. Nunca esqueci os versos da Linkin Park em Papercut: “I don't know what stressed me first/Or how the pressure was fed/But I know just what it feels like/To have a voice in the back of my head” e me interessou em “A Voz” foi esse ser interno não esteja presente antagonizando e sim incentivando o eu-lírico a prosseguir sua busca, expandindo suas ações.
    Não era minha intenção musicar os versos. Essa parceria que iniciou no fim de 2019 com Beleza Parasita foi se expandindo a ponto de, hoje, poder ser organizado um E.P. pautado apenas nelas. Eventualmente, poderá haver versos para os quais eu não me sinta compelido a melodiar, mas isso é coisa do futuro! A minha intenção mudou quando minha mãe me mostrou o vídeo de Elimor Chico com o pássaro Urutau. Pelo que consta na Wikipedia “o nome vem do tupi uruta'gwi "ave da família dos nictibiídeos, coruja", também adaptado ao português como jurutau e urutago. Não sou grande conhecedor de pássaros, como o ornitólogo Cláudio Rogério ou mesmo o Kronk, mas nunca tinha ouvido seu som ou mesmo seus apelidos: mãe da lua ou pássaro-fantasma. De acordo com o biólogo Milton Longo, o Urutau é uma ave típica do cerrado que busca se camuflar em tocos de árvore ou postes. Pois quando ouvi o canto presente no vídeo, fiquei me perguntando se estava dessincronizado, pensando como é que o som se propaga. Excetuando esse desconhecimento tateei o violão buscando emular seu canto e encontrei as notas C, Ab, G, F, Eb, D. Ao elencar os acordes Cm Cm/Ab F eu sabia que não poderia parar e, foi assim que a melodia acabou composta no dia seguinte.
Letra original - acervo da autora

    Finda a composição, eu sabia que entraria em contato com a artista multimídia Isabella Proença para uma ilustração, mas... o que deveria constar? O Urutau? Após a arte que ela desenvolveu para Águia em 2020 eu sabia ser possível, ainda assim, não faria jus. A ave me trouxe a canção, mas o significado dos versos era totalmente da psicóloga poetisa. Além do mais, eu ainda não havia me organizado para retirar o áudio do pássaro e inserir no áudio, será que ficava clara a relação como eu enxergava?
    O título do poema ficou batendo em minha mente e, claro, o que mais faria sentido era que partisse da voz dela o que ela via. Assim, foi como cheguei ao áudio de agosto que abre este post. Isabella foi o mais fiel possível às referências visuais e, mesmo que não houvesse nada relativo, ela conseguiu transmitir uma exaustão no olhar, algo perdido e que casa com uma melancolia que, normalmente, tinge minhas composições e também se encontra em meio aos gritos tão familiares. Certamente seria uma ilustração que vestiria muito bem uma camiseta!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Um Outro Conto no Jardim

“Então, pratique escrita livre. Escreva sem pensar. Tenho certeza haverá algumas coisas com as quais se surpreenderá, juntamente com algumas bobagens. Talvez você escreva algo que o lembrará de uma música que você já ouviu antes, mas será como você tivesse descoberto uma nova forma para dizer. Encontrar a sua própria voz é algo em que nos aprofundaremos depois, por ora, preste atenção em como você se sente ao cantar as palavras que você escreveu. Caso você se sinta levemente desconfortável, talvez até mesmo um tanto envergonhado, você está no caminho certo. Esse é o dilema em que todo mundo se encontra. Há apenas algumas coisas que qualquer um pode dizer. Então, em algum momento, seu foco terá que mudar de estar preocupado acerca de “temas” e “significados” e “sobre o que é uma música”. – How to Write One Song (Como Compor Uma Música) p.29/30 – Jeff Tweedy, Dutton Books, 1ª edição (13 outubro 2020), tradução livre.

Arte por Isabella Proença

    Enquanto reouvia a versão que Fabio Kulakauskas e Claudio Gregório trabalharam da canção, comecei a ouvir em minha mente o refrão de Sky is Over de Serj Tankian: “Even though we can’t afford/The sky is over/I don’t want to see you go/The Sky is over” ainda seja um artista que acompanho desde os tempos do System of a Down, nunca havia feito a associação entre a harmonia. Estavam ali os acordes “Gm Eb D”. Mais curioso foi pensar que o álbum de estreia solo de Serj se deu na mesma semana em que a banda Falsa Modéstia se apresentou na E.E. Esli Garcia Diniz (já falei mais disso em Interescolar). Ainda não existam registros físicos que embasem isto, não há inspiração direta. Até fui atrás do primeiro texto em que falei sobre Um Conto no Jardim no blog, há 5 anos, 3 meses e 28 dias, não há menção a esta canção.


   Não há menção nem mesmo à Juvenília, da RPM, a composição que me colocou interessado em trabalhar com o Sol Menor muito antes de eu pensar em compor a melodia para Um Caminho para o Céu, que, não por coincidência, também começou com ele. Não posso sequer dizer que foi proposital: foi a décima primeira postagem no geral e apenas a quinta em que eu falava de uma composição autoral. Uma pergunta pulsava naquele período da mesma forma que agora: a quem se destinam estas palavras? São como uma mensagem na garrafa virtual? É fácil entender o que leva alguém a visitar um blog do Humberto Gessinger, ou mesmo um livro do Jeff Tweedy, só para ficar em um exemplo nesta própria postagem, mas, quem chega até aqui, me conhece? Mais: se importa em saber os meandros de algumas composições independentes? Afinal, são coisas diferentes, há quem goste de consumir canções em playlists aleatórias, quem ligue apenas para a música, ou só para a letra, mas nem todas as pessoas se importam em saber, como canta Lenine: De onde vem a canção?

    Se há garantias de que este será o texto a explicar? eu poderia resumir como: alguns versos já com melodia vieram a minha mente, decidi expandi-los em um refrão e criar uma narrativa que desembocasse ali. Simples assim. O que é diferente do que eu mesmo disse aqui, em que tentei criar uma ordem cronológica de acontecimentos com um flashback de anos antes do ano em que os versos falam. Mas eu não sou o eu-lírico. Quando a compositora Paula Lima cantou estes versos pela primeira vez, em que ela pensava? Qual é a relação entre o material e o intérprete? Não faço ideia. Talvez o poema Autopsicografia contenha a resposta. Alguma.

    Em outubro, quando comentei com a multidisciplinar Isabella Proença sobre uma arte para esta composição, estava influenciado pela série da Marvel What If...? e em como O Vigia de Jeffrey Wright (dublado no Brasil pelo eterno Sesshomaru: Silvio Giraldi) falava no “prisma de possibilidades sem fim” e mencionei isso. No fim das contas, consigo enxergo a obra dela com uma potência particular. Quem é a personagem? Ela se inspirou em alguém ou se baseou em uma base de imagens para referência? Eu não sei. O cinza que a envolve é resultado do mesmo processo pelo qual a personagem na ilustração para Concreto-confronto viveu ou é um reflexo do verso que diz que o tempo parou? (Ou a personagem deparou-se com o escuto da Medusa?) Pode ser tudo isso e pode também não ser. A visão da artista, descolada do histórico dos versos, é capaz de transmitir uma série de outras ideias que não necessariamente estavam nos versos. Como diz a instrutora Mayu Ooba: Cada “arte” é uma “resposta” que ocorreu ao artista. A resposta que Ella encontrou é elegante.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Dança da Lira Perene

 “O que outrem poderia ter feito tão bem quanto você, não o faça. O que outrem poderia ter dito tão bem quanto você, não diga; o que outrem poderia ter escrito tão bem, não escreva. Seja fiel ao que existe em lugar algum além de ti – assim se fazendo indispensável.” – André Gide, Os Frutos da Terra (1897), tradução livre.
Ilustração de @ellaproenca


 
Dança da Lira Perene (2021)
Letra e música: Thales Salgado

Dei um passo e não te vi, resta agora descobrir: isto terá perdão?
Lembra a dama encantada? Lembra de tudo por um triz: Era nosso passado.
Lira conectando mundos: indelével precisão.
Réquiem para os vivos: afluentes, procissão.
Perdi a contagem do que vi: era uma energia só
Rindo da ignorância em si, engolindo tudo o que eu era:
Sagração do nosso caos.

    Semanas atrás ouvi a frase “eu apenas engoli quem eu era” e caí em um ciclo habitual de pensares: Quanto da existência é invenção, quanto é percebido pelos olhos de outras pessoas, quanto é a soma destes dois pontos. Senti que essa frase precisava se tornar um verso, e foi assim que improvisei esta canção. Isso ocorreu há 55 dias. Não sei dizer se é o menor espaço entre uma composição e o post. Esse respiro entre movimentos não é obrigatório, é, antes, um hábito, visto que havia um espaço de anos entre os primeiros posts e as composições. Ainda assim, esta tem a particularidade de me fazer refletir se ela estava completa ou não.
    Me peguei pensando: e se entre “isto terá perdão?” e “lembra a dama encantada?” houvesse uma frase aos moldes de “eu digo que sim, você diz que não”, talvez por ser um fã da prosa Gessingeriana que possui versos mais inspirados como “eu acho que sim, você finge que não” ou “os olhos dizem sim, e o olhar diz não”. Não é uma questão de ser uma continuação, mais uma piscadela à obra de um de meus ídolos. Quem sabe? Havendo uma gravação “oficial” essa adição pode ser concretizada. Ao mesmo tempo, se 108 Minutos precisou de 14 anos entre versões, isso pode não acontecer tão cedo.
    Quando entrei em contato com a artista multidisciplinar Isabella Proença a composição não tinha sequer nome. Passei a ela um esboço de como enxergava a imagem e ela a tornou concreta. Pensou em luz, sombra no tom do fundo. O máximo que fiz foi colocar algumas sugestões como “Rorschach”, mas, entre todos os briefings (outras colaborações podem ser vistas aqui) este, talvez, tenha sido o mais abstrato, ainda lidasse com peças concretas. E o resultado me agradou muito, justamente por estes passos além do que sou capaz de imaginar. Quem sabe, eventualmente, chegue o momento para uma parte 2?

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Mais 108 Minutos

" — Mesmo que você tenha escondido bem a memória, mesmo que a tenha mergulhado em um lugar bem profundo, você não pode apagar a história que causou tudo isso — disse Sara, fitando diretamente os olhos dele. — É bom você se lembrar disso. A história não pode ser apagada nem refeita. Isso equivale a matar a sua própria existência." - O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, p.40, tradução por Eunice Suenaga.  Objetiva, 2014

    Há cinco anos, um mês e vinte e dois dias escrevi pela primeira vez acerca de 108 Minutos. Naquela ocasião foi o 18º post no blog e, por destino ou coincidência, saiu no décimo segundo aniversário da estreia da série Lost. Esse é um assunto recorrente e, em maio desse ano, tive uma perspectiva incisiva em relação ao motivo. Em maio deste ano, o crítico de cinema PH Santos falou sobre a Reunião do elenco de Friends ele comentou como enxergava como marco temporal seu lado crítico ter "nascido" após o fim da série.
     Não levou tanto tempo para que eu conhecesse o trabalho do crítico. Pessoalmente? foi Lost meu divisor de águas. Sempre tive interesse em saber como a arte era produzida, quem escrevia, quem eram os atores, compositores. Mas essa foi a série em que tudo isso extrapolou: não adiantava apenas saber que Damon Lindelof e Carlton Cuse eram showrunners, era preciso saber em que instância J.J. Abrams, um dos criadores do conceito, tinha relação com o que era exibido (ele se afastou ao fim da primeira temporada devido ao envolvimento com Missão Impossível 3 e co-escreveu o episódio de abertura da terceira temporada A Tale of Two Cities - minha composição Canto de Duas Cidades deve seu nome à obra de Dickens, mas apenas por Lost tê-la me apresentado, mas divago). Também queria saber qual era a razão de Jeffrey Lieber ser creditado como co-criador. Quem era o compositor Michael Giacchino? com quais outras produções o elenco esteve envolvido. Se um episódio era ruim, do que se tratava? Expectativas? Ou poderia ter relação com quem escreveu o roteiro? O que torna Jack Bender um dos grandes diretores por trás de episódios? Claro, muitas destas questões tem respostas diversas, ramificações da célula rainha e o componente coletivo as torna ainda mais difusas, mas com a série reconheci este elemento questionador, e, disso, não é possível me livrar, mesmo que eu quisesse. É o tipo de obsessão que faz com que eu esteja, atualmente, mergulhado em ramificações da obra Duna, de Frank Herbert, enfim.

     Para além da obsessão, há o componente coletivo: se existe um clipe para 108 Minutos, é apenas por uma série de pessoas, desde os envolvidos com a série, passando pelo projeto escolar, os alunos, a banda Falsa Modéstia, para dizer o mínimo. Mesmo hoje, em que descrevo o trabalho como fruto da organização artística Falsa Modéstia, o faço por ter apreciado esta forma de descrição quando do lançamento e promoção do álbum da Fresno: sua alegria foi cancelada. Faz mais sentido, ainda que um bando de pessoas tenham se reunido com o propósito de fazer música, as pessoas que se reuniram foram mais que uma banda. A arte da multiartista Isabella Proença, por exemplo, traz as personagens de Clancy Brown e Henry Ian Cusick aos moldes do fim da segunda temporada de Lost, emulando a capa da segunda temporada de Breaking Bad, outra série da qual gosto muito, e que já foi referenciada na letra de Se ela não amanhecer. Pude imaginar a ilustração, mas a perspectiva da artista e suas próprias referências foram essenciais para a obra. Do mesmo modo que, ainda eu tivesse Desmond David Hume em mente quando ouvi de bob o pitch, apenas a atriz Barbara Barduchi sabe o que tinha em mente enquanto corria desesperada pelas areias (Duna?) seguindo suas intuições e os próprios referenciais artísticos e ideológicos. Isso tem um peso que eu não sei mensurar.


    O próprio Ivan, co-compositor comentou nunca ter imagino que algo que ele fez tornar-se ia um videoclipe. Ainda que eu esteja envolvido de forma amadora com composições há quatorze anos. Eu também não tinha.


Créditos do clipe:

Compositores: Thales Salgado e Ivan Carolino
Produção musical e arranjo: Luan Magustero
Bateria: Pedro Santos
Guitarra e piano: Luan Magustero
Voz: Thales Salgado
Baixo e violão: bob
Direção e roteiro: bob e Barbara Barduchi
Ilustração no thumbnail: Isabella Proença

Composta na cidade de Arujá em 2007 por Thales Salgado e Ivan Carolino para uma atividade da profª Marize Manopeli.

Filmado em 2021 nos Lençóis Maranhenses (Barreirinhas - MA) e com o áudio gravado no mesmo ano em diversos locais do estado de São Paulo, seguindo os protocolos de segurança. Gravado e mixado individualmente. A organização artística Falsa Modéstia estava dispersa, virtualmente unida, todavia. #aliloke

Livremente inspirada na série da ABC: Lost. Criada por Jeffrey Lieber, J. J. Abrams e Damon Lindelof. Pertencente à Walt Disney Television e disponível em streaming no Star+ e na Amazon Prime Video.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Somos Resistência ou (ainda é Sete de Setembro)

 “Não tenho muito o que dizer. A primeira é crítica mesmo, para demonstrar a indignação com tanta injustiça e impotência de ser mulher nesse país, que não importa o quão errado e absurdo sejam os escândalos políticos, nada muda.” – Paula Lima em 04/12/2020

 

Arte de @ellaproenca


Somos Resistência (2020)
Letra: Paula Lima

Fomos lutar em Brasília
Pôr a tapa, o nosso rosto
Nossa briga por justiça
Sair do fundo do poço
Vamos expor o inimigo
Revelar nosso rancor
Confunde cérebro com intestino
Pátria armada e louvor

Somos a resistência
Mudamos o mundo ao nosso redor
Vivemos nessa decadência
Esperando que tudo seja melhor

Como pode ser culposo
Se viola outro corpo
Como pode o retrocesso
A Terra plana ser sucesso
Essa vida bagunçada
Desrespeito pela cor
Vítima estraçalhada
O show ao vivo do horror

Somos a resistência
Mudamos o mundo ao nosso redor
Vivemos nessa decadência
Esperando que tudo seja melhor
 

“Enquanto reflete a situação do país e sua tristeza com o último lançamento de Leoni, o single Sete de Setembro, outros versos que encapsularam uma série de situações distintas surgiu na mente de Thales. Ainda que ele os tivesse visto pela primeira vez nove meses e doze dias antes, sentiu que seguiam atuais. Mais relação ainda havia: Paula a escrevera durante o curso da oficina de composição ministrada pelo próprio Carlos Leoni Siqueira Junior. Ele decidiu que era hora de trazê-la ao blog.” - Prefácio por Jorge Luís Barros

    Em apenas algumas horas, a canção Sete de Setembro, de Leoni, alcançou mais de mil execuções. Considerando a população brasileira com mais de duzentos milhões de pessoas, dos quais, pelo menos trezentas mil o seguem no Facebook e sua carreira já contar com mais de quarenta anos, o número é expressivo, mas não impressiona. “Ain, mas você está falando sobre o que não sabe, hoje é feriado nacional, em um país cada vez mais polarizado. Há mais que música na vida, sabe? Duvido você lançar qualquer coisa e alcançar  de gente.” Antes mesmo eu pudesse replicar, você, leitor ou leitora tão perspicaz quanto voraz complementaria: “você já lançou algo repercutido pelo jornalista Mauro Ferreira? Ele comenta música desde antes você ter sequer nascido!” Diante de tais comentários, tudo o que eu poderia fazer seria dizer: “Sim, mas eu não estou escrevendo por despeito e sim por sentir que devo. Antes que você diga que perdi uma grande chance de ficar calado, são só palavras e o que eu sinto não mudará.

    O problema, claro, pode ter sido expectativas descompensadas:  quando vejo o artista compartilhando a coluna de José Eduardo Agualusa em que o jornalista compara o bolsonarismo ao talibanismo, projeto um alinhamento. Quando dias depois ele comenta acerca de que o Rio de Janeiro pode tornar-se um epicentro da pandemia por seus recordes de infecção, penso em bom-senso. Já ao ler, parafraseando “esse Sete de Setembro parece ameaçador no Brasil. Para quem vai ficar em casa, para não se arriscar (política e sanitariamente), tem o lançamento do meu novo single. Composta há uns 30 anos, com os Heróis da Resistência” meus sinais de alerta não despertaram naquele momento, primeiro pelo próprio compositor ter mudado neste período, e também pois, o cancioneiro brasileiro tem composições como Que País é Este, 1978, a qual fui apresentado formalmente quando a canção já tinha completado maioridade. A teatralidade ou, como diria Gessinger “o nome unidimensional e heroico” do título da banda me iludiu. Naquele momento não me veio a mente que um dos maiores sucessos deles era, justamente, “Só Pro Meu Prazer”, 1986, é claro que o compositor é especializado em pop, isso não está em discussão.

 

“O primeiro ato de violência que o patriarcado demanda dos homens não é a violência contra a mulher. Em lugar disso, o patriarcado demanda de todos os homens que se envolvam em atos de automutilação psíquica, que eles assassinem todas as partes emocionais deles. Se um indivíduo não tem sucesso em aleijar-se emocionalmente, ele poderá contar com homens patriarcais para pôr em prática rituais de poder que irão atacar sua autoestima.” A vontade para mudar: Homens, Masculinidade e Amor (2004), p.66 (tradução livre)

    Também não pensei na conturbada saída do Kid Abelha que em 1987 lançou Tomate, primeiro álbum sem Leoni, e que abre com Paula Toller cantando “Me Deixa Falar”, canção com versos tais “Brasileiros, marcianos/Fazem tanto pra agradar/Mas querem muito, querem tudo/Só não querem me escutar/Me deixa falar, me empresta um ouvido/Me deixa falar, me presta atenção” e que parecem uma indireta direta. Os relatos acerca do incidente que serviu como propulsor para a separação, inclusive, mencionam que houve mais de uma possibilidade de violência no dia. O escritor Jorge Wakabara descreve toda a situação e contexto com fotos, áudio, links e o que mais você quiser em O incidente no Estádio de Remo da Lagoa, publicado em novembro de 2020. Paula ainda iria compor uma série de sucessos, como Grand’ Hotel e Amanhã é 23 e mesmo pérolas lado B como Paris, Paris sem a sombra do compositor.

    Não quero com isso dizer que a música é ruim (sim, mesmo que se possa ouvir Oswaldo Montenegro cantando “embora não pareça”) foi curioso descobrir que ela foi inspirada no filme Não Amarás, 1988, dirigido pelo diretor polonês Krzysztof Kieslowski. Como uma série de outros dele, o filme pode ser visto atualmente no Telecine, mas, uma vez que não o assisti, parafrasearei a sinopse: “jovem espia sua vizinha pelo telescópio, lê suas cartas e faz chamadas anônimas... a música corresponde sua “tímida forma de demonstrar o amor” e passa a provocá-lo.” Sem querer problematizar – uma vez que não assisti AINDA – mas o próprio Telecine coloca: “o relacionamento entre os dois toma rumos complicados.” Se os rumos complicados forem os mesmos de As Duas Faces da Felicidade, 1965, de Agnés Varda, não sei não. De todo modo, descobri o filme devido ao lançamento, logo, não há como dizer que não aprendi nada com a canção.

“Aspirante a engenheira física e amante do mundo musical. Ainda no engatinhar da composição, do cantar e do tocar. Busco transparecer no que escrevo o que vivi, o que gostaria de ter vivido, minhas frustrações e revoltas.” Paula em minibiografia, 19/07/2021

    Mas, para mim, aprendi mais com os versos de Paula. A imagem que, temporariamente, ilustra esta postagem foi feita por mim em 2018, para redirecionar a um texto de 2016, discorrendo acerca de uma composição que ficou pronta em 2009, mas foi iniciada em 2007: Solipatria. Se você já viu o texto sobre Pequenas Conversas Levando ao Real, sabe que sou dado a saltos no tempo. Mas me recordo da empolgação que tive, alguns minutos depois de ler e reler os versos que Paula escreveu depois de ruminar as coisas em água quente e montar algumas frases com rimas. Ela comentou que, durante a aula, rascunhou no caderno e saiu a letra que encabeça a postagem.

    Ainda eu não soubesse durante a leitura qual era o ritmo que ela havia desenvolvido, a melodia que minha mente tocou para mim era um punk rock. Ainda eu pudesse citar nominalmente uma série de casos, tive a impressão de que, ao não o fazer nos versos, ela a tornou atemporal: os problemas estão além dos noticiários atuais, são chagas estruturais, frutos do patriarcado, do racismo... e ainda assim, há esperança nos versos do refrão; há mensagem. No fim das contas, conhecer as criações de pessoas que eu conheço é muito mais satisfatório.

     Atualização: 11/10/2021

   Há muitos anos Gessinger comentou que tudo o que sentia era que algo lhe faltava. Comigo aconteceu o mesmo. Quando postei os versos da canção e a história na Independência não tinha a imagem que pudesse representá-los como imaginava. Era necessário que fosse algo atual, ainda que as tensões nacionais sejam constantes como capturar o ar dos acontecimentos? Normalmente sou o senhor das pautas frias. Era domingo quando comentei com a artista visual Isabella Proença acerca do desarranjo que havia entre a composição exalando o zeitgeist de Paula e o post. Diferente de outros briefings este foi breve: os versos deveriam bastar. Quando ela comentou sobre a silhueta do mapa de Brasília me peguei pensando em como as asas que compõe a cidade podem assemelhar-se a uma besta ou a um riso de escarnio. As figuras de resistência à frente como bradassem: "não quero mais nenhum direito à menos!". Todas as cores não se deixando apagar. É mais um belo trabalho.

     P.S: Poucos dias após o post, tive a oportunidade de, enfim, assistir ao filme supramencionado. Não Amarás. Me admira que este tipo de filme siga sendo trazido ao presente como representação de um amor romântico. Em um trabalho baseado no último álbum de Duda Beat, a psicóloga Fabíola Passos comentou aqui sobre a canção Melô da Ilusão e a forma como o ato de stalkear foi, com a ampliação do uso das redes sociais, normalizada, nem sempre de uma forma saudável. O filme me recordou da obra de Milan Kundera A Vida Está em Outro Lugar com a presença do jovem e inexperiente Jaromil. Com qual intuito trazer um filme em que um personagem passa trotes, rouba correspondências, escreve cartas falsas e observa uma mulher com uma luneta? Mais que isso, o filme parece apresentar estes comportamentos como galanteios aceitáveis e a personagem Magda o contrapõe em determinado momento, mas aceita a atenção do jovem, como se, aproximando-se e seduzindo seu algoz, encontra-se poder. Após assistir ao filme, os verbos que Leoni traz em sua canção: invade, rouba soam ainda mais violentos como a absolvição de André de Camargo Aranha. Sigo reforçando os versos de Paula e agregando ao coro: Vivemos nessa decadência esperando que tudo seja melhor!

sábado, 10 de julho de 2021

Letra sobre um evento lembrado.

 “Nascer leva tempo”.  Satolep, de Vitor Ramil, Editora Cosac Naify, 2008

No Banana’s (2020)
Letra e música: Thales Salgado

Três mil
Duzentos e noventa dias
Nos separam
Daquela fotografia

Instrumentais
Canções, assim se dizia
E o cantar
Com a melhor companhia

Era só vida
Se enlouquecia
Ao suco de maracujá

No Banana’s

“¡Los brasileños le gustan Banana’s!”

    Horas atrás, vi surgir em uma de minhas timelines uma foto foi adaptada pela multiartista Isabella Proença na ilustração para A Equação do Hiato em 2020. Ela retrata um evento ocorrido há dez anos e dois dias atrás, uma pequena reunião no karaokê de, como diria Lenine: gente bacana, amigos e o pretexto era fazer cantar música.

    Entre os registros visuais de tal dia, também surgiu a foto que utilizei para ilustrar o texto sobre a canção Solipatria, isso para manter tudo em apenas dois exemplos. Foi também inspirado nesse evento que nomeei, para o Mosaico de Estrelas, uma faixa instrumental Passiflora Edulis.

    A foto me colocou a pensar nas memórias episódicas, termo que ganhou popularidade após o início da pandemia. Coincidência ou não, esta semana ouvi o décimo episódio do Podcast Todavia em que entrevistam a doutoranda Glaupy Fontana acerca do tema. O programa me levou a seu texto “Continuísmo e Descontinuísmo em Mental Time Travel: A relação entre Memória e Imaginação” na esperança de encontrar um trecho que eu pudesse usar para abrir este texto, o que, apesar dos conceitos curiosos para alguém que lida com o tempo apenas na esfera do tempo comum, não aconteceu.

    Pensei, então, no livro O perigo de uma história única, de Chimamanda Adichie, adaptação da primeira fala da autora em um TED Talk em 2009. Sob o prisma de que posso falar apenas de meu lado da história. Não imagino quem foi que decidiu criar o evento, se a elucubração demandou muito tempo, como decidiram quem seria convidado, se os convidados poderiam estender o convite etc. Meu conhecimento se deu bem pouco tempo antes, como fica demonstrado no registro que pode ser encontrado em meu e-mail:

    Olhando hoje, ainda seja um episódio marcante, não consigo lembrar sequer uma música que eu tenha cantado na ocasião. Caso eu me ancorasse apenas nas palavras de minha versão dez anos mais jovem e não tivesse registros fotográficos empunhando um microfone eu poderia crer que sequer o fiz. De posse do Moleskine utilizado na ocasião, posso até transcrever palavra por palavra de alguns dos pensamentos que tive durante parte do evento. O que não quer dizer que eu me reconheça nestas palavras. Digamos que seja uma tentativa fugidia para citar a Autopsicografia de Pessoa e paremos por aí.

    Tendo apenas a história única de minha memória episódica, lembro como, ao ver a foto no ano passado, fui tomado por um impulso de compor uma música que encapsulasse a sensação daquele dia, com uma alegria que, naquele ano, eu não conseguia manifestar. Ainda que Estela tenha replicado em um chiste que a música foi composta apenas para jogar na cara dela a passagem de tempo em que ela não havia escrito, para mim, não se tratava disso e, tenho aqui para mim, que ela lá já soubesse disso. 

    O tema “canções alegres” sempre orbitou nossas conversas quando passamos a dialogar regularmente e, por razões que me escapam, sempre foi uma área na música em que não consegui atuar com desenvoltura. Como a melodia surgiu de improviso, não parei para pensar em que encadeamento de acordes estava trabalhando, é capaz até que ela seja um arremedo de parte da canção Plain Letters, da cantora e compositora americana Madison Cunningham.

    Hoje, já são três mil seiscentos e cinquenta e cinco dias após a letra, de modo que, posso dizer que, como muitas composições que fiz, está “datada”. Mesmo assim, e, ainda mais, se tratando de uma canção com ares de vinheta, composta para replicar a um comentário, penso em como é uma memória importante. Ainda mais em um período que as memórias episódicas estão tão prejudicadas por não termos uma marcação nítida de tempo e espaço pela semelhança dos dias. Quem sabe no futuro, possa haver outras fotos dignas de promessas para recorrência? O tempo dirá... ou, como costuma fazer, não dirá nada.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Vacina

"Quanto a ser um bom pai, prossegue a freira, ele vai descobrir que não é difícil. É bem simples. Tem que ensinar a criança a amar a vida. Isso é tudo. Amar a vida e todas as criaturas que existem, do homem até as coisas mais pequenas e frágeis. Passam por sua cabeça todas as razões pelas quais o desafio não é tão simples quanto diz a freira. Um grande estrago à sociedade e à existência de incontáveis criaturas, do homem às mais pequenas e frágeis, está sendo sancionado neste exato momento, tem vontade de dizer. Um estrago que pode levar anos, quem sabe uma vida inteira, para ser remediado. Que talvez seja irreversível. E que não raro é justificado por seus perpetradores nesses mesmos termos de amor à vida." - O deus das avencas: Três novelas, Daniel Galera, p.62-63, Companhia das Letras, 2021.

Arte por @ellaproenca


Vacina (2013)
Letra e música: Thales Salgado

De tantos caminhos escolhemos o mesmo
Na onda de um bonde chamado desejo
De recriar o dia a dia outra vez
Cheio de notas de acordes e arpejos
Fazendo o mundo girar num festejo
Ninguém a se arrepender do que fez

Com meus amigos prosseguindo na estrada
Seja com risos ou nas várias roubadas
Em noites eternas trazendo à vocês...

A Vacina
Pra todos os males da vida
Que já anda muito sofrida
Pra quê se deixar abater?
A Vacina
O amor que nos salva a vida
Toda a pessoa é bem vinda
A achar novas formas de ser

    Quando bob surgiu com a encomenda para esta composição, eu contava 24 anos recém-feitos (à título de comparação, contava 31 e alguns meses quando escrevi este post) e nem em um pesadelo, haveria uma pandemia. De 2020 para cá, ressurgiram web afora matérias de periódicos antigos que descreviam os acontecimentos atuais com grande fidelidade. Pode ser que eu tivesse até folheado um deles sem dar muita atenção. Recordo até não ter recebido bem o filme Contágio (2011), de Steven Soderbergh, apesar de seu elenco digno das calçadas da fama. Você a ler reviu o filme recentemente? Se sim, diga se vale a reprise. Enfim, divago. Não é muito difícil encontrar dados sobre como, por exemplo, 86,3% do público alvo, 26 milhões de pessoas, haviam recebido a vacina contra a gripe em 2012.
      Naquele período, não havia como pensar que, em poucos anos, o país passaria por uma crise sanitária e hospitalar com as proporções que passamos hoje. É claro, com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, era certo que passaríamos por tempos sombrios, sua necropolítica é aplicada em declarações como dizer que o efeito do novo coronavírus seria "uma gripezinha", que ele "não era coveiro", ou que o Brasil deveria "deixar de ser um país de maricas". Como comentou ao G1 o médico sanitarista e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão: " O governo federal rejeitou a ciência, rejeitou a saúde pública, brigou contra as evidências. Nós nunca tivemos uma política de comunicação pesada, orientando, esclarecendo, mobilizando. E o resultado macabro e dramático é essa crise humanitária que nós vivemos hoje". No meio desse turbilhão, 2021 veio como um ano em que perdi minha avó paterna devido a complicações da COVID 19. Conheço outras pessoas que perderam pais, avós, tios, primos... seus vizinhos, conhecidos, seus amores, mais de 500 mil pessoas. Tendo seus lutos e elaborações interrompidos na impossibilidade de despedirem-se com respeito e dignidade. Como bem resumiu uma pacífica amiga em outubro de 2020: "Isso me deixa triste, puta, irritada, tô muito chateada". Tudo ao mesmo tempo.
      Ainda que existam movimentos antivacina desde as primeiras campanhas de vacinação, é ainda mais revoltante quando, ao mesmo tempo em que o presidente passeia pelo país sem mascara e aglomerando apoiadores, as timelines são brindadas com uma série de agremiações, coletivos, brindes, como se nada estivesse acontecendo e já fosse mais que esperado retornar às ruas. Admiro quem tenha saído das redes sociais para conservar a saúde mental.
      Apesar dos pesares - segundo a Folha de São Paulo, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, representante da empresa Davati Medical Supply no Brasil, afirmou ter recebido do diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, um pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina em troca de assinatura de um contrato - a pandemia vem sendo controlada na Europa e nos EUA e temos acompanhado um aumento no número de doses de imunizantes contra a Covid-19 em nosso país. Na última terça-feira, 29, por exemplo, um avião com 528,8 mil doses da vacina da Pfizer/BioNTech chegou pelo Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas. Pensando nas notícias positivas (nunca me identifiquei tanto com a letra de Notícia Boa, da Nenhum de Nós) é que voltei a pensar nessa composição, pensada em um período tão distinto.
Em conversa com Estela,
provável primeira ouvinte em 2013

      Como eu dizia no primeiro parágrafo, a ideia era representar o significado de uma banda. A banda Vacina. Como bob comentou comigo no início de junho "Não existe uma cura definitiva para as coisas que te jogam para baixo, mas se você estiver se remediando, se cuidando, tomando a sua vacina, talvez você consiga se proteger melhor. Só que você precisa descobrir qual é a sua, já que o "mal" que você sofre é diferente do meu. A nossa vacina 'Preto, Fabio e bob', ao menos na época, era a banda, a música. Tocar." Como disse o psicólogo e doutor em saúde coletiva da Unicamp, Bruno Emerich, em matéria publicada na revista ComCiência do Laboratório de Jornalismo da Unicamp: "Há uma parte grande da sociedade brasileira que não tem o hábito de consumir cultura porque não consegue. Porque é caro, porque a cultura nem sempre está ao acesso, não está disponível em todos os bairros. A grande questão é como vamos aproveitar esse momento. E também temos que entender que tem gente que não está consumindo cultura neste momento, não porque não gosta ou não sabe, mas simplesmente porque está em uma situação muito difícil para sobreviver". Voltamo-nos para os filmes e séries em nossos streamings, e também à música (!) aos desenhos, pinturas... Cada um vai do jeito que pode, diria o poeta.
      A banda Vacina segue em hiato por tempo indeterminado, bob complementou: "Decidimos deixar mais parada ainda para não parecermos oportunistas. E tinha uns querendo show da Vacina ou Live, justamente por isso." nesse cenário, uma vez que havíamos trabalhado a composição pela primeira vez em 2021, houve algumas conversas quanto a se seria o momento certo para trazer uma canção com esse nome durante este período. E, ao fim, concluiu-se que sim: as vacinas, mais que palavras, são um compromisso coletivo de saúde pública visando o controle e erradicação de doenças. A ilustração da multiartista Isabella Proença conserva com delicadeza um pouco de tudo o que envolve a Vacina no antes e no agora: tanto a esperança e expectativa para um dia em que poderemos, novamente, sentir a música vibrar em nós, quanto uma homenagem para enfermeiras, técnicas de enfermagem, médicas, e todos os demais profissionais de saúde que seguem o combate incessante contra o vírus em todas as linhas possíveis. Convido à conhecer mais do trabalho dela em sua página no Instagram: