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domingo, 22 de abril de 2018

Podia ouvir Drexler

"Então, (sobre Despedir a los glaciares) eu diria que essa e uma das canções mais duras que já escrevi. Porque ela fala sobre uma coisa que já não tem solução, sobre o que vai embora e o que vai se derreter. Quando você perde algo ou uma pessoa é preciso dizer adeus, e não deixar que o medo e a dor façam você esquecer de que também é importante se despedir. Mas há muitos sentimentos ali." - Jorge Drexler em entrevista à Nathália Pandeló Corrêa, para o Tenho Mais Discos que Amigos.

Jorge Drexler em foto postada em sua página no Facebook
Guarulhos, 22 de abril de 2018

         Era ano do macaco a última vez que nos vimos. Nos conhecemos num ano da serpente então, se houver janelas de oportunidade instituídas pelo ano chinês, pode ser nos vejamos em 2025. Dias atrás eu estive num show do Jorge Drexler. Acho que te falei dele no mesmo período em que vimos o Kevin Johansen. Há alguns anos, o Moska me colocou na cabeça que, brasileiros, costumamos dar as costas para nossos hermanos. Passei a ouvir alguns de seus parceiros: Nano Stern, Pedro Aznar... Em conformidade com isso meu pai chegou uma vez me perguntando de um cara ouvido na rádio dizendo hay tantas cosas yo solo preciso dos, mi mi guitarra y vos. Ali conheci o trabalho desse uruguaio, acho que já te falei isso. Pra tentar complementar algo posso dizer que busco essa autossuficiencia. O violão e a voz nunca me bastaram, será que eu demonstrei?
         Mas eu estou escrevendo, pois, creio você podia ouvir Drexler, teria gostado dessa apresentação seja quando calcado no violão ou com a banda completa. Ele contou várias histórias e interagiu com o público sempre que pode. Se ouvir os álbuns você consegue captar o bom humor, enfim, a Casa Natura fica bem próxima ao metrô então não haveriam aquelas longas caminhadas que você acabava fazendo, lembra? Eu gostava de irmos fazendo nosso mapa sem o auxílio veicular. Estávamos sempre em movimento.
    Mais de uma das músicas remeteu a conversas nossas. A música de abertura fala sobre sermos todos pais, netos e bisnetos de imigrantes. Falávamos do resultado da mistura dos lisos cabelos indígenas com o orgulho alemão ou meu sobrenome português e a falta de acesso ao sobrenome espanhol por ausência de documentação comprobatória. Assim como aquela vez à Bragança, poderíamos ir ao Uruguai de ônibus. Já ouviu falar do Cabo Polônio? Ele leva doze segundos para a luz fazer a volta completa, imagina só andar nestas condições numa noite!.. É, estou falando em andar de novo né? Que cabeça a minha. Espera, posso mudar de assunto. O Tó Brandileone do 5 a Seco subiu ao palco também. Eles cantaram Todo se Transforma. É meio Lavoisier a ideia, embora eu tenha dificuldade com isso de "nada se perde" quando a transformação não é do meu agrado. Ainda assim, falando do show, ele me deu vontade de ver algum filme de Eric Rohmer. Sempre víamos filmes mais agitados. Era escolha ou imposição do cinema hollywoodiano? Até vimos longas franceses, japoneses, nunca eram a maioria, todavia.
    Teve algo dito, não recordo se antes ou depois de Pongamos que hablo de Martinez, relativo a essa questão com o tempo levado para agradecer/homenagear alguém ser imposto pelas próprias canções. Ele levou cerca de vinte e dois anos  para desabrochasse uma. No meu caso não levei tanto tempo assim mas é inconveniente mesmo assim, afinal, você já havia mudado de cidade. Custava ter conseguido versos três meses antes? O Carpinejar disse que se não esquecemos alguém é por não termos sido sinceros quando deveríamos, o que você acha? Ter usado nosso nomes verdadeiros naquele texto não significaria nada. Você já informara de sua vida nova no dia de Iemanjá. Tem uma outra música, ele diz que embora todos creiam ter inventado algo seguem sendo as mesmas canções. É o tipo de insight que eu não alcanço. Isso me leva a assistir esses artistas que contam com seu empenho e sua pluma voadora. Inspiração, projeção, um pouco dos dois, creio. Te indicaria ouvir Telefonia mas há mais de um ano não vejo seu nome nas chamadas recebidas, vou tentar amar a trama mais que o desenlace.
     Se você se permitiu chegar aqui, podia ouvir Drexler. 
Beijos,         

segunda-feira, 12 de março de 2018

Síntese - 5 a Seco

"Sou muito fã não só de 5 a Seco, mas de uma geração de criadores que está espalhada. Em São Paulo está muito evidente, tem uns dez ou doze de uma mesma geração compondo lindamente, fazendo uma música bacanérrima e tal, e isso está espalhado pelo Brasil, em todos os cantos, por isso que eu não acredito quando alguém reclama da música brasileira - a música brasileira vai muito bem, minha gente, eu tenho ouvido tanta coisa bacana, cara. O danado é que, com essa coisa do digital, tudo foi pulverizado, então não existe mais essa coisa de poucos que falam pra milhões. Não, agora é milhares falando pra milhares, é assim. Então, você tem uma dificuldade maior de achar as coisas, mas a tecnologia foi acessível demais pra todo mundo fazer seus trabalhos. Tem muita gente ali fazendo, o negócio é saber procurar” Lenine, em entrevista à André Medeiros para o Monkeybuzz em 2015


         Quando conheci o trabalho do 5 a Seco, minha primeira lembrança foi o show "Os 5 no palco" de 1998. Em que Chico César, Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Marcos Suzano reuniram suas individualidades musicais em uma série de apresentações declarando a força de uma, então, nova MPB. Cerca de uma década depois, a música brasileira apresentava outra renovação, essa, consolidada com Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni. Todos, cantores, compositores e instrumentistas. Cantautores na melhor definição, de modo que, não haja um centro, uma força que responda acima dos outros.
         Eles chegam em 2018 declarando a "Síntese" dos elementos que compuseram suas obras anteriores Ao Vivo no Ibirapuera (2012) e Policromo (2014). Se o primeiro trazia um repertório construído na estrada e calcado nos violões, instrumento de origem de cada um deles, o segundo, gravado em estúdio flertava mais com as possibilidades do estúdio, dos timbres, das guitarras. O que sobra ao terceiro? Extrapolar a construção dos arranjos de maneira minimalista, apostando teclados em teclados e sintetizadores inquietos nos quais os ouvintes (re) descobrem as líricas e o pensamento lógico nas letras dos cinco autores.
Várias das treze canções que compõe Síntese vinham sendo apresentadas pelo grupo, tanto nas apresentações, quanto em vídeos em que os protagonistas munidos de seus violões performavam as composições em seu mínimo múltiplo comum. Olhando a repercussão do álbum em comentários no YouTube, pode se notar, que isso causou um estranhamento para parcela dos ouvintes. Para aqueles que se deixaram surpreender com o lançamento pode haver reações mistas, ainda assim, o resultado é satisfatório.
         O álbum abre com a parceria de Leo Bianchini e Vinicius Calderoni: Na Onda. Com uma letra na qual a estrofe desabrocha como numa matroska triangular (Será/Será você/Será você a sucursal do céu) pode ser cantar o lado positivo de topar com alguém que te dá sorte na vida, e aí, você agarra e não larga. O preenchimento da bateria é um destaque aqui. Pelas tantas a palavra "pasmaceira" tem um quê de Não Tem Paz, do Policromo. Um dos grandes destaques vem em seguida: Ventos de Netuno (Pedro Altério e Pedro Viáfora). A primeira estrofe "Pra poder viver o amor/Tem primeiro que se amar/Se for de verdade/Há de prosperar" já carrega significados com múltiplos, partidas que não se desejam mas nos surpreendem na vida. A guitarra, as palmas e a programação transportam para o turbilhão dessa ventania. Há pesquisas científicas apontando que as rajadas de vento em Netuno podem alcançar velocidades mais de dez vezes mais fortes que as encontradas na Terra. Quantas vezes uma pessoa pode ter uma presença igual?
         Ela, Ele e Eu é uma balada de Ricardo Teté e Tó Brandileone aos moldes de Pra Você dar o Nome. Soa a hit. Brisa é Composição de Vinicius Calderoni que versa sensível sobre a "brisa" de uma companhia de tornar feliz sem motivo. A faixa solo de Pedro Viáfora, Lua Cheia, traz uma das letras mais atuais, sobre a importância de partilhar o bem em tempos que muros são levantados e há medo, falta de alegria e ódio. É um tema presente no cancioneiro brasileiro, talvez com proeminência no rock dos anos 80, a diferença é que a proposta feita ao final (Vem cá, a lua tá cheia, vamos contar histórias...) é carregada de uma boa intenção que pode soar inocente em tempos cínicos, mas é o contraposto preciso.
O Mar Dentro da Concha vem com Leo Bianchini à frente é um groove animado com uma letra com um eu-lírico que se atrasa ao olhar "coisas extraordinárias", tais, o ato de espirrar, o gelo derreter, um clips de papel. Como quem afirma que a tecnologia das presilhas para cabelo é tão impressionante quanto a física moderna ou o mito da caverna.
         De Pedro Altério e Tó Brandileone é a sétima canção: Pensando Bem. Canção discorrendo as faltas e os "se". (Me fez pensar em O Sonho, do Policromo, e é bom constatar que, as canções evocam composições do mesmo coletivo). Tempo de se Amar carrega o assobio da canção anterior e, conceitualmente, pode trazer uma elaboração de Lua Cheia quando o eu-lírico diz que quando enfim saltou no cais e ao invés de muros viu quintais vislumbrou a felicidade. Coisas Demais, de Leo Bianchini, Pedro Altério e Pedro Viáfora é outro ponto de alto do álbum, com uma letra concisa. Dá a impressão de ter sido criada como poema e músicada posteriormente. Discorre, sobre a solidão contemporânea de multidões e silêncios e a vida que nos escapa. Depois, canção de pai e filho, Celso e Pedro Viáfora vem O Dia de Encontrar Você. (Ou muito me engano ou há ecos de Épocas?) curiosamente tensa "Eu sei que era só chamar/Só que não sei seu nome/Tem vezes que ouço assim/Tão tim tim por tim tim/Seu passo atrás de mim/Mas quando eu me viro você some" a faixa tem o trabalho vocal característico e um instrumental que instiga. 
         A trinca final começa com Maneiras e Maneiras, uma canção que me lembrou a produção do álbum Despertador de Léo Cavalcanti, pela forma como trabalha com as intervenções eletrônicas. Tem um riff de guitarra com aquela cara de Ecos do Ão de Lenine. A bateria leva muito bem até o momento do pico com o falsete. Deve ser interessante de observar como é o andamento dela ao vivo. Outra faixa com às guitarras à frente: Antídoto é uma parceria de Pedro Altério e Vinicius Calderoni e também se coloca como Lua Cheia as malezas que nos cercam "Por onde começar, não sei/Simbora descobrir/Um antídoto pra dor feroz/Que quer nos consumir". A meu ver, essa canção é o verdadeiro final do álbum. Com o brado "onde o sonho estiver, estarei". Dessa forma, Canção de Lá, de Léo Bianchini e Vinicius Calderoni soa mais como um epílogo com seus versos construídos apenas com palavras soltas. Melodicamente, é claro, ela é capaz de acalmar os ânimos e concluir a Síntese.
         A soma final é positiva, embora, em primeiras audições, alguns elementos eletrônicos soem fora de lugar, a intenção dos integrantes era renovar um som que, não fosse a inquietude, poderia ficar apenas como uma reprise do primeiro trabalho em estúdio. Quando consideradas outras bandas com uma ou duas forças criativas, o 5 a Seco aparece praticamente como uma banda de "greatest hits". Cada um dos cantautores se potencializa no crescimento conjunto e permite que a identidade do som seja pautada pela mutação. Depois de tese, antítese e síntese, o que virá?

segunda-feira, 5 de março de 2018

Vanguart em Santos

O mês de março está movimentado para a banda Vanguart. No dia 14 de março participarão de  m"Sessions 89" no Z Carniceria. Dia 17 estarão no Teatro Lauro Gomes em São Bernardo do Campo e dia 23 a banda tocará pela segunda vez no Lollapalooza Brasil, um evento com potencial para apresentar o trabalho para um novo público. Essa movimentação teve início no primeiro sábado do mês com um acústico na Arena Club na cidade de Santos. Diferente dos outros shows comentados, repassarei as canções por álbum, do último ao primeiro. Em tempo: Os títulos das composições levam à um clipe.. 
Foto de Renata Custódio @minutodoshow


Faz o que você não fez pela primeira vez

        Beijo Estranho fará um ano em abril. Com o lançamento do clipe Todas as Cores no fim de fevereiro esta se torna a terceira faixa do álbum a ganhar maior exposição. Após tocá-la, a banda relembrou de quando participaram da Virada Cultural Paulista em 2012. Àquela altura, contavam ainda dois álbuns em estúdio. Momentos dessa apresentação podem ser encontrados no YouTube. Em Eu Preciso de Você, Hélio tocou seu trompete com surdina para abrir e encerrar. Ele pontuou a presença de referências à poetas como Drummond, Walt Whitman e Hilda Hilst - se alguém souber qual é a de Hilda me contem, fiquei curioso* - e dedicou aos novos poetas que estivessem presentes. Fernanda Kostchak assumiu o microfone para agradecer a presença do público explicando as Felicidades de poder apresentar as músicas como elas surgiram. As "canções como a banda toca entre eles". Ou mesmo em Lives nas redes sociais como a recente Não Tá no Setlist ou uma em que Fernanda chegou a indicar compositores como Johannes Brahms e Gustav Mahler.
      Quando tocaram E o Meu Peito Mais Aberto Que o Mar da Bahia, houve grande comoção do público que percutiu cada um dos refrões com suas palmas. N'alguns momentos do canto, Hélio emulou um grave no melhor estilo Tim Maia. O quarteto admitiu que o "laralara", tão característico, foi a última coisa que gravaram para o disco e apenas depois de muitos conflitos sobre se deveria ou não entrar. Beijo Estranho encerrou a apresentação cantada à plenos pulmões. Com dois violões, violino e trompete a banda se mostrou em grande momento. A versão de estúdio tem um piano bem forte, no entanto, sua ausência não foi sentida. O violino seguiu causando arrepios coletivos numa música que ainda terá muito tempo de estrada.

O Que Seria de Nós?

         O álbum "divisor de águas" foi representado em peso. Muitos fãs de outrora acharam estranho o calor presente nas canções, outros tantos conheceram ali e se apaixonaram. Fato é, que em maior ou menor grau, muitos se renderam à Muito Mais que o Amor. A abertura foi com Estive. No pré-show, sucessos dos Beatles tomavam a casa. De acordo com a banda, a intenção era que entrassem no clima. O multi-instrumentista David Dafré foi apresentado como o músico que mais trocaria de instrumentos no show e com a sofisticação habitual (bandolins, violões de seis e doze cordas, lapsteel, clarinete, meia-lua, além de backing vocals! Versatilidade define). Quando tocam Demorou Pra Ser fica fácil perceber como essas canções lançadas em 2013 seguem angariando público. As letras evocam emoções identificáveis de cara. Como um casal em início de relação trocando juras: antes que eu soubesse já estava com você ou você é a vida da minha vida, por exemplo. Eu Sei Onde Você Está é sucedida por uma versão exclusiva de Reginaldo para a romântica Mesmo de Longe e ao final de Olha pra Mim, Hélio aconselha ao público guardar algumas fichas para apostar em si mesmos e não colocar todas as fichas no "outro alguém". Pelo Amor do Amor entregou à Santos dois grandes momentos. Um quase incidente no palco com Fernanda rendeu o alongamento do solo, como ouvido abaixo:


         As versões ao vivo são construções vivas e isso as torna um modelo ideal. Por mais a ouçamos nos discos, LP's ou streamings é no palco que as coisas se transformam. Como o poema declamado por Hélio em seguida:

"Um sinal do céu. Um telefone que podia tocar.
Como um dia em que, pela porta de trás da casa vazia,
Você ingressaria e me veria confuso por te ver.
Noites sozinho. Noites sozinha, lembra?
Tudo antes de ser. Eu tinha outro nome, você também.
Até que um dia te vi na rua e algo reconheci."

A menção à Valsa Brasileira de Chico Buarque dá mostras de quão abrangentes são as influências dos integrantes. Fechando os trabalhos do terceiro disco, entrou outra composição que figura na memória afetiva de muitos: Meu Sol.

O Que eu Não VIvi, eu Tô Indo Ver!

         No público, as mais diversas histórias. Haviam moradores da cidade ansiosos para rever o grupo. Havia quem estivesse à trabalho. Até mesmo quem já vivera na cidade e encontrou, no show, motivo para fazer as pazes com o lugar. Havia gente das proximidades: Itanhaém, Cubatão. Gente que precisaria correr para chegar à Praia Grande. No meu caso? Estava pela primeira vez na cidade que conhecia apenas por conta de Roberto e Erasmo, Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr. A questão é que centenas de pessoas estavam reunidas em virtude de admirar a arte daquele divertido quarteto no palco da Arena.


Proximidade da Plateia
         Outra parte da apresentação foi representada pelas composições do álbum Boa Parte de Mim Vai Embora. Para uns obra máxima do grupo, para outros "o disco deprê", que não deve ser nomeado.Começou com ...Das Lágrimas, primeira composição com as cintilantes linhas de Fernanda. Passando pela visceral Nessa Cidade que, como sempre, me colocou a refletir. Reginaldo comentou que no período "a gente não sofre mais nem por antecipação nem por amores que não valham a pena". Essa é justamente a questão.
        Quando se faz o juízo desse valor agregado? É preciso traçar rotas outras, forjar novas memórias em caminhos desconhecidos por aqueles que já não são dois? Além de divagar, talvez, me repito: quando do lançamento do segundo disco ela se mostrou uma das favoritas na apreciação melódico-poética. Anos depois, situações descritas na letra faziam parte de minha vida de forma que, mesmo presente no show de abertura da turnê atual no Teatro Paulo Autran, fui incapaz de escrever o que fosse relativo. Por ser, naquela noite, afetado emocionalmente. Já em Santos, o violão de doze cordas me manteve atento à nuances da música fluindo. 
         Numa matéria de Marie Eliis publicada no Medical News Today em 2013 dizia que pesquisadores no Japão concluíram que a audição de canções tristes pode levar os ouvintes a experimentar emoções ambivalentes. Uma vez que, a emoção induzida pela música, não é como a induzida por eventos pessoais. Esse pode ser um dos motivos para alguns artistas deixarem algumas composições de lado: uma vez que sua relação é direta e se entregar em canções surgidas de experiências traumáticas pode causar desconforto contrário ao êxtase do momento da criação. Voltando à Santos:
         Faixa melancólica contra a apatia generalizada Se Tiver Que Ser na Bala, Vai e ela responde muito bem ao formato, uma vez que a leveza do arranjo ressalta os três atos poéticos. As canções do segundo álbum tem daquela noção morriseyana de Rubber Ring e isso se amplifica a cada reencontro. Penúltima canção do show. Mi Vida Eres Tu é o caso da canção de melodia upbeat esperançosa e um refrão em espanhol de uma conclusão, não necessariamente, positiva. Um doce-amargo simples apenas se analisado superficialmente. Os versos de A Noite Mais Linda do Mundo de Odair José sempre surgem para nos colocar os pés no chão. Nem tudo são mágoas, tampouco flores.

O Que Importa é o Que te Faz Abrir os Olhos de Manhã

         O homônimo de estreia contou com apenas duas canções em meio ao repertório, mas não por isso menos significativas. Para Abrir os Olhos (o link é para uma gravação de 2007 do canal de Ricardo Spencer, que, entre outras afinidades dirigiu os clipes de "Mi Vida Eres Tu" e "Meu Sol".) e Semáforo. Sobre a última, Helio comentou ter sido a primeira canção que compuseram em português, antes, tinham mil motivos para não dizer a verdade. É isso. A verdade está em sempre seguirem seu caminho em frente. Como se olhar para trás os fosse transformar em estátuas de sal. A banda poderia ter investido num projeto revisionista pensando nos dez anos do primeiro de estúdio em 2017, entretanto, na contramão disso, comemoraram o pulsar da banda com um álbum que reuniu expoentes dos três primeiros e apontaram novas possibilidades sonoras. Terminar o evento em conversas informais com os integrantes da banda e do Sindicato, conhecer outros fãs (até uma próxima, Douglas) só tornou o evento mais especial. Naquela manhã todos os presentes abriram os olhos de manhã e aguardaram o anoitecer como fosse a noite do primeiro encontro. E, mais uma vez, era. 


Da Esquerda para a Direita: Reginaldo Lincoln, Claudia Almeida, Fernanda Kostchak, Thais Dias, David Dafré, Thales Salgado, Hélio Flanders e Renata Custódio

*Fui informado posteriormente pela Cláudia que o trecho de Felicidades faz menção à Do Desejo, uma série de dez poemas, lançada por Hilda em livro homônimo em 1992. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

Victor & Leo - 25 Anos de Sucessos

"Beleza, juventude e vozes bonitas, que não agridem e penetram em espirais delicados em nossos ouvidos. Ouvindo Victor e Leo ninguém se sente abandonado nem constrangido porque a sensação é boa para todos. Nada é feio. (...) Percebo também um certo “espírito de Gonzagão” que ronda deliciosamente muitas das canções da dupla. Estão ali a estrada, o sertão, o fogão rústico, a lagoa e sempre alguém a esperar. (...) Victor e Leo é pra quem está de bem com a vida ou para quem está querendo chegar lá. “Boa Sorte Pra Você” é para as novas gerações de brasileiros que buscam os valores que definirão a estética dos próximos muitos anos.
Canções de felicidade são e sempre serão o melhor caminho."  Excertos do texto de Renato Teixeira sobre o álbum Boa Sorte Pra Você, 04/11/2010
Victor & Leo (foto da página oficial da dupla no Facebook)
          Se o texto passado ( Amor Infinito) falava de uma canção inspirada num personagem do livro No Colo dos Anjos de Leo Chaves, nada melhor que falar um pouco do show que permitiu que eu conhecesse o livro. Sem mais delongas:
         Qual a melhor forma para começar um show comemorativo que usar o material novo? Foi assim que a dupla Victor & Leo iniciaram o primeiro de dois shows realizados no Citibank Hall. A introdução instrumental, presente até em dvds da dupla, colocou o público em expectativa até surgirem os primeiros acordes de Senhorita, lançada em maio de 2017, e a maior parte da platéia passou a cantar na mesma energia nas canções seguintes. Com uma letra que se passa na imaginação do eu-lírico é interessante como a faixa mantém o clima 'pra cima'. Hoje não há como usar a palavra senhorita sem imitar a letra, ao menos no meu caso.
         A balada de Marcelo Martins e Sérgio Porto, Na Linha do Tempo, veio em seguida. Seu título caberia muito bem para essa nova tour. Há algo no arranjo dela que remete a Where is the Love? Sucesso do Black Eyed Peas de 2003. Com Fotos, a banda salta para 2007 e em seguida está em 2009 com Não Mais. Ainda que existam diferenças de direcionamento nos álbuns de estúdio, as composições da dupla transitam entre si tranquilamente, um atestado de sua  assinatura musical. De seu terceiro DVD ao vivo vem as canções seguintes: Quando Você Some e Não me Perdoei. Sempre me perguntei se Victor compôs a primeira tendo em mente que a gravaria com Zezé de Camargo e Luciano, afinal, a canção Dou a Vida por Um Beijo tem em seus versos "morro de saudades quando você some". A segunda teve um dos bons solos de guitarra na apresentação.

        As canções seguintes Nada Normal, O Jogo da Vida, Não Precisa (que em 2011 fez parte da trilha sonora da novela Morde e Assopra) trouxeram atmosfera próxima à do primeiro álbum ao vivo. Leo aproveitou Lembranças de Amor para cantar um refrão com a letra em espanhol como lançada em 2009. Sob os acordes introdutórios de Meu Eu em Você, Leo cumprimentou o público expressando sua gratidão pelo momento especial. "Obrigado São Paulo! Cantem, dancem. Quebrem tudo, no bom sentido.". A apresentação contava então pouco mais de meia hora. A maior parte dos álbuns de estúdio da dupla tem a duração de cerca de quarenta minutos. Dessa maneira era como ter ouvido um CD inteiro.
         Na tradição de coveres de canções de fora do universo sertanejo a dupla tocou Só Hoje, uma das mais famosas baladas da Jota Quest. As composições seguintes foram de Na Luz do Som: O Beijo que Eu Mais Quis tem um arranjo que remete ao acústico presente em Razão do Meu Astral. A letra carregando uma terna declaração de amor, retratando um eu-lírico tão tocado pelo sentimento real que pensa ser uma ilusão. A faixa que leva o nome do álbum e é seu segundo single tem um grande trabalho de guitarras e seus versos "na luz do som da sua voz/ em paz meu coração se vê/ a noite vem na escuridão/ de não ter você aqui outra vez" são um ótimo exemplo da sensibilidade artística da dupla para traduzir situações complexas sem pesar no drama. Isso também é percebido no medley de Boa Sorte pra Você e Ao Vivo e em Cores. Quando tocam um pequeno trecho de Tem que Ser Você há a comoção da platéia que tem o prazer de poder cantar junto com os ídolos, como quando tocam Fada. Logo depois, Leo saca seu smartphone perguntando se pode gravar um vídeo - claro que ninguém se opôs. Essa dinâmica de instagramar instantes permite uma identificação do público com os artistas num momento divertido do show.
         O Granfino e o Caipira surge no repertório em versão reduzida o que é uma pena por conta da narrativa da letra que vai evoluindo uma história. A seguir vem Anunciação, de Alceu Valença, num trecho do show capaz de transportar a todos para a atmosfera dos bares. Começando com Boteco de Esquina e seus "causos" sobre a vida de quem canta na noite e tem em sua letra a melhor deixa para trazer a canção seguinte: "Desligamos o som eram cinco pras seis, e um bebum pediu Fio de Cabelo outra vez. Vamô atender! Quando a gente ama qualquer coisa serve para relembrar." Depois da parceria de José Marciano e Darci Rossi vem os sucessos Telefone Mudo, 60 Dias Apaixonado e então Estrada da Vida de Milionário e José Rico. Outra homenagem da dupla às suas referências é com Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira. Curiosamente essa canção foi gravada por Gal Costa também quando ela comemorava vinte e cinco anos de carreira em 1990.
        Belo blues em homenagem à cidade em que cresceram (Abre-Campo, MG) Momentos traz uma bela mensagem para reflexão. Quando pesquisamos acerca das diferenças entre a música caipira e a sertaneja, a falta de variação temática da segunda sempre surge como um de seus pontos fracos. Por toda obra de Victor & Leo se pode perceber que vão além do "pop romântico". Várias de suas composições como Deus e Eu no Sertão, Vida Boa, Vou pra Roça, Lem Casa, Sem Trânsito, Sem Avião, Tudo Bem e, mais recentemente, Valsa do Vento tratam de temas rurais e existenciais sempre com qualidade. Falando em qualidade, ela já era perceptível para críticos de música, como nesse excerto do texto de Marcus Vinicius do Blognejo em outubro de 2008:
"As maiores críticas dos profissionais da música contra os sertanejos giram em torno das características mercadológicas do estilo. Nos anos 90, a música sertaneja era feita para dar dinheiro, acima de tudo. Qualidade não era o principal objetivo, apesar do talento dos cantores, que era fenomenal. O diferencial de Victor & Leo é o fato de que eles não fazem músicas boas para serem sucesso, mas são sucesso porque fizeram músicas boas."
      A divulgação recente da composição Cantor do Sertão segue a linha bucólica e aumenta a expectativa para o DVD de mesmo nome que tem previsão de lançamento para 2018. A assinatura musical da dupla permanece seja quando agregam elementos de reggae, rock ou eletrônica em sua música. Entre Deus e Eu no Sertão e Vida Boa, Victor assumiu o microfone para falar do período turbulento vivido no primeiro semestre e como foi acolhido por amigos próximos na travessia.
         O segundo blues da noite veio em outra composição do álbum mais recente: Louco por Você, que além de contar com mais um solo de guitarra inspirado tem em sua letra uma bela descrição de alguém apaixonado a ver seu amor dormindo. "E então você solta aquele sorriso seu/ se desperta pra mim/ E quem começa a sonhar/ Sou eu". O último cover da noite é o sucesso da dupla goiana Chrystian e Ralf: Nova York. Com direito a uma jam instrumental e Leo surgindo de chapéu para a interpretação enquanto o caminhão da letra era projetado no telão ao fundo. A parceria de Leo e Marcelo Martins, 10 Minutos Longe de Você vem e faz pensar se um show sem mesas não seria mais propício para as faixas mais dançantes. Apesar do número de execuções no decorrer dos anos, um de seus primeiros sucessos continua gostoso de ouvir, Amigo Apaixonado antecede a faixa de abertura do álbum Viva por Mim: Tudo com Você.
         Em meio às guitarras da introdução, Leo agradece ao Citibank Hall e à Gazeta FM , que divulgou o show em promoções, e seguiu apresentando a banda de apoio que recebeu os aplausos da platéia calorosa. Nas guitarras, Beto Rosa. Alexandre de Jesus na percussão. Thiago Correia no contrabaixo. Teclados e Sanfona, André Henriques e Jander Paiva, respectivamente e na bateria André Campagnani. O grupo acompanha a dupla há anos e dão o suporte essencial para os arranjos. Fechando a noite, uma das canções mais emblemáticas da dupla: Borboletas. Música que, entre outros feitos, recebeu o Prêmio Musica Digital na categoria música pop mais vendida. Ganhou uma versão da banda holandesa Kim e foi a cifra mais buscada nos vinte e um anos do site de música Cifraclub. O que demonstra o grande número de pessoas interessadas em aprender à tocá-la.
         Esse foi um ótimo show, a dupla passou por sua discografia, apresentou canções do novo trabalho, homenageou influências e ainda deixou dezenas de sucessos de fora. Tocar mais de trinta músicas em duas horas e ainda deixar um gosto de quero mais não é para qualquer um.

A arte de Victor & Leo e eu:

        Os irmãos criados em Abre-Campo (MG) estão unidos em música há um quarto de século. Embora, eu os tenha conhecido há dez anos. Em 2007 eu trabalhava numa banca de doces no terminal rodoviário de Arujá, com o ponto embaixo da caixa de som da loja de cds. Por conta disso os dias eram passados a ouvir as escolhas dos funcionários dela. Muitas das vezes o álbum Em Foco de Amado Batista, O Forró Cintura de mola. Mesmo o álbum Lovy Metal vol. II dificilmente era tocado além das primeiras faixas (Is this love? e Wind of Change). O álbum que era tocado na íntegra, era o primeiro Ao Vivo que havia sido relançado pela Sony BMG à época. 
         É importante salientar isso justamente por Victor & Leo ser um ponto fora da curva em minha apreciação musical. Naquele mesmo ano, haviam lançamentos de bandas que eu já ouvia como Capital Inicial (Eu Nunca Disse Adeus) e Engenheiros do Hawaii (Acústico Novos Horizontes) e também álbuns de artistas que eu passaria a acompanhar: Lobão (Acústico MTV), Nação Zumbi (Bossa Nostra) e Vanguart (o primeiro álbum, homônimo). A música sertaneja nunca fora foco de uma apreciação contínua. Haviam, sim, canções de Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano, Edson e Hudson que eu conhecia. No ensino médio uma das canções que os colegas cantavam com maior empolgação nas rodas de violão era Deixa (Bruno e Marrone). A proximidade com canções caipiras, mais próximas à raiz, era feita apenas ao assistir programas como o de Raul Gil e o Viola, Minha Viola. Dessa forma, meu maior referencial sempre foi a matriz romântica do estilo.
         O site oficial descreve os irmãos como uma dupla folk brasileira, com um estilo que mescla música sertaneja de raiz, pop e rock. Essa união provavelmente foi o que chamou atenção, unida a enorme carga autoral presente em seus álbuns. Depois do lançamento de
Borboletas - ainda hoje um de meus álbuns prediletos - tive certeza de que eram uma referência musical para mim. Além de servirem como porta de entrada para um estilo musical que carrega muito preconceito pela associação estigmatizada do termo caipira. No talento de ambos reside a universalidade da música e isso é inspirador.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

mãe! (ou O Princípio da Incerteza)

"Como espécie nossas pegadas são perigosamente insustentáveis e mesmo assim nós vivemos em estado de negação quanto a situação de nosso planeta e nosso lugar nele. Dessa sopa primordial de angústia e desamparo, acordei numa manhã e esse filme se derramou de mim como um sonho febril. Gestei todos os meus filmes anteriores por muitos anos mas escrevi o primeiro rascunho de mãe! em cinco dias. Dentro de um ano já operávamos as câmeras. E agora, dois anos depois, é uma honra poder retornar ao Lido para a estreia mundial. Imagino que as pessoas podem questionar o motivo de o filme carregar uma visão tão sombria. Hubert Selby Jr, o autor de Réquiem Para um Sonho, me ensinou que é encarando nossas partes mais sombrias que podemos encontrar a luz." Trecho de declaração de Darren Aronofsky em agosto de 2017



O Princípio da Incerteza (2017)

Talvez dizer
Mais do que devo
Pra não calar
Um sentimento
Que me vem
A cada estação

Pode ser perdição
Mas que venha a mim
Gritarei um trovão
Para que nasças
A resposta

Azaléas perfumam tragédias
Incertezas em cifras perdidas
Se apresenta
“Ponto sem retorno”
(Será?)

“Sou o Mal”
Esse é meu segredo
E você viu...

            
         Uma semana depois o filme ainda ressoa. As discussões seguem e, parafraseando meu capitão acho que é hora de contribuir com um verso:
      Meu desconforto com o filme não surgiu pela ausência de trilha sonora. Havia expectativa, sim, por um provável trabalho do compositor Clint Mansell, colaborador recorrente. Uma casa afastada favorece os silêncios e sons naturais, então optar pelo orgânico cria ótimo resultado. O desconforto poderia vir ao descobrir a mentira do primeiros visitantes, um doutor e sua esposa: eles estavam ali por Ele, e sua obra o tempo todo. Há uma estranheza. O fratricídio? um apocalipse beirando o absurdo? Não. A distância da guerra nos anestesia!
     
O desconforto vem da emoção sentida pela mãe na leitura do poema d'Ele. Descobrindo um conjunto inédito de palavras num instante íntimo. A mãe o ama e Ele, por certo se inspirou nela para recontar a história de ambos. 
      Nesse momento a narrativa se desdobra ao mostrar e expandir um conceito mencionado antes: o filme abre com uma mulher em meio as chamas, íris de divinos olhos. Algum tempo depois Ele conta sua história ao doutor: houve um incêndio e apenas uma jóia surgiu das cinzas. Sua esposa, a mãe do título, se  dispôs a reconstruir todo o espaço sozinha, criando um Paraíso. O que o poema diz? Nunca saberemos. É como na canção de Bill Callahan Eid Ma Clack Shaw em que um poeta sonha com a canção perfeita em que residem todas as respostas. Ele acorda, escreve, e na manhã seguinte lê e não consegue compreender.
           A questão é simples. Aquele momento terno e íntimo entre esposo e esposa, o poeta e a musa, era uma ilusão. Vemos a esposa cair em si: se Ele já mostrou o texto à editora, a quem mais mostrou? Para ela havia um acordo entre os dois, a entrega e dedicação não deveriam ter como compensação conhecer em primeira mão os textos do marido? Não. Ela fora apenas um meio para o fim. O que me incomodou ao ver foi o receio de ter saído à imagem e semelhança d'Ele. Essa quebra de confiança, da busca ególatra pela atenção da quantidade em detrimento da qualidade é o que define o poeta presente no filme. De forma romântica, o filme mostra que sua inspiração surge da destruição e do caos. É nessa renovação que bombeiam suas veias artísticas. Cego pela incessante busca de sua magnum ópus o poeta fará de tudo.
           O desconforto, os receios, os pensamentos de sua esposa são negligenciados cada vez mais... Há sensação pior do que se sentir uma estranha em sua própria casa? Não se sentir segura em sua própria casa? O poeta está sempre de passagem, inventa viagem e retorna brevemente. Diz que ficará ali, até o momento seguinte quando surge algo mais importante. Ele precisa do amor dela por uma conveniência criativa, ama ser amado e seu retorno a esse amor são esparsas migalhas de atenção. Ela o acolhe, e ele, escorregadio. Viverá resoluto de que, em sua arte, ele é intocável e superior. Quando sua esposa já não puder oferecer mais nada ele pedirá mais: a devastação da vida como declaração de amor.

E encontrará outra musa.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Constante

"E Lost nunca foi uma série qualquer. Lost transformou palavras como constante, números, escotilhas e candidatos em histórias. Bastava um 23 ou um nome riscado aparecerem na tela, para que teorias incendiassem as redes sociais – fenômeno aliás, indissociável da série.
Durante seis anos, Lost ousou em temas como fé, ciência, religião, amor, viagens no tempo, vida após a morte. Palavras que parecem se acotovelar quando colocadas numa mesma frase, usadas para contar uma história. Que pode não ter tido nem pé nem cabeça, mas que nos fez pensar, chorar e, acima de tudo, nos divertir." Lost - The End, por Fabio Yabu 26/05/2010
Desmond e Penny, foto por Lost-Media.com



Constante (2008)

Espera,
Se eu te dissesse que nos falaríamos
De tempos diferentes
Você diria que estou louco
E eu que essa realidade
Era a mesma de tua lucidez
E se acreditar
Ao menos num instante que tudo isso é real
Esqueça agora tudo o que passamos
As fugas, lutas, hoje tanto faz.
Não sou covarde
Era pra acontecer assim
E o futuro distorcido, desmontado
Só para nós será ao menos ideal
Por um segundo sei vamos recriar
Nosso próprio tempo
Será eterno e constante
Em outro tempo, será constante
Se for eterno, seja constante

     Hoje, 22 de setembro, a estreia de Lost completa treze anos. Provavelmente a movimentação geral será realizada em 2019, quando o seriado chegar à seus quinze anos. Em 2017, diversos veículos de mídia tem levantado comparações entre Lost e Game of Thrones. Um ótimo exemplo é este texto: https://seriemaniacos.tv/lostizacao-game-thrones/.
      Acompanhando a cobertura do fenômeno da HBO eu também vinha pensando nisso.No sentido de GoT ser a sucessora espiritual de Lost. Cast diversificado, fantasia que surge aos poucos na trama... É curioso quando pensamos que, nos estágios iniciais da produção da série da Ilha, quando Michael Keaton era cotado para o papel de Jack, a ideia seria matá-lo "traindo" a confiança da audiência que estaria investida nele. Os produtores foram contra e Matthew Fox se tornou o amado/odiado doutor por todos os episódios da série. Esse movimento de subversão à expectativa foi um dos pontos altos da primeira temporada de GoT em 2011, pouco mais de um ano do encerramento de Lost. Ou seja, em menos de sete anos o que seria um movimento arriscado para a ABC tornou-se um dos trunfos da HBO. Esperemos o fim da guerra dos tronos para que surja uma análise completa de como as duas séries se portaram do início ao fim.         
        Agora, falando em música! Assim como 108 Minutos, a canção comentada um ano atrás. Constante foi tirada do universo lostiano. Dessa vez, não em termos de referências à mitologia. Mas à parte humana da série, com o melhor casal apresentado pelo seriado: Desmond e Penélope. O título da letra é retirado do quinto episódio da quarta temporada - por essa mesma razão, era a faixa número cinco na demo Fatos, Não Palavras. Constante foi ao ar pela primeira vez em 28 de fevereiro de 2008, trazendo o primeiro episódio da série que não utilizou flashbacks ou flashforwards em sua narrativa. Os flashs eram vivenciados no momento em que a mente de Desmond se deslocava entre dois períodos de tempo em busca do contato com a única pessoa que poderia mantê-lo ancorado à realidade. Um amor de salvação.
       A relação entre ambos na série é palpável por enxergarmos os sentimentos e nos importarmos com eles. Houve fugas e desencontros, sim, até mesmo a sombra ameaçadora de Charles Widmore e seu uísque escocês antagonizando o genro, mas o fato de haver algo que os ligasse nunca pode ser questionado nas interpretações de Henry Ian Cusick e Sonya Walger. E um dos grandes momentos é justamente  o telefonema que ocorre no final do episódio. Duas pessoas que farão de tudo para se reencontrar e seguir em frente com sua vida a dois. Criando seu próprio tempo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Aumenta o Sonho

"Para mim essa coisa de conceituar as coisas e de levar isso muito a sério de ficar, não é preso, mas é, a partir da plataforma, daquele conceito eu conseguir chegar em pontos até que nem citam nada daquilo. Mas o nome do disco ia ser Aumenta o Sonho. E Aumenta o Sonho, para mim, queria dizer aquilo: não tinha vindo a Copa do Mundo ainda, não tinha vindo ainda 2013, que foi marcante, era assim: 'Aumenta! dobra o seu cacife! Você acredita numa coisa então acredita duas vezes, porque, já que você está acreditando aproveita tua fé e joga ela mais forte para que você chegue mais longe.' Aí de repente veio um Brasil que vai ficando diferente, vai ficando confuso eu mesmo não sei muito bem como me posicionar, vou ficando refém dos acontecimentos e, de repente, eu começo a pensar que Aumenta o Sonho quer dizer você estar lá em baixo, estar num buraco e você pode subir ao menos um degrau que você está aumentando seu sonho. Aí mudou tudo! Aí vou olhar para as canções que fiz juntei inspirado nisso gravei, está gravado. Então digo 'Não! não é por aí, acho que vou mudar esse nome, estou pensando em mudar o nome da coisa, então resolvi não fazer nada, não lançar nada." Lula Queiroga em entrevista à Radio Câmara em 25/06/2016


PRÓLOGO
         Mudando de cidade em 2013 concluí que a melhor forma para viver a transição seria ouvir músicas que eu não conhecesse, criando assim, memórias afetivas específicas com o espaço que seria meu lar. Sem acesso constante à internet era preciso escolher de maneira cautelosa quem me acompanharia na empreitada. Voltei-me a um artista conhecido, por mim, indiretamente e dono de um som inclassificável: Lula Queiroga. Ao acompanhar a carreira de Lenine há alguns anos seu nome era recorrente: A Rede, O Último pôr-do-sol, Chão, Alzira e a torre... Fossem letras ou parcerias. Até mesmo um álbum conjunto os dois possuem no catálogo.  Essa ligação foi fundamental para que eu imergisse em sua discografia. Lembro de lançar aos quatro ventos o espanto com a diferença do arranjo de Lula para a canção Se não for amor eu cegue (Love), ambas lançadas em 2011, Enquanto a de Lenine chama atenção pela urgência, a versão de Lula é longa e expansiva, deliciosamente pop. O compositor fala acerca disso em entrevista veiculada na 3ª edição da revista Cultura e Pensamento em dezembro de 2007:
“Ele (Lenine) canta mais sério, eu canto mais na brincadeira. As minhas músicas são poéticas, meio chapadas, as letras têm um entorpecimento que é meio chapado, parece criança pensando. Eu estou melhor quando eu consigo chegar neste estado, quando não é descritiva, mas não deixa de ser e ao mesmo tempo é meio… não se entende, é para sentir, mas não precisa entender. As músicas quase que caminham sozinhas.”
DO ÁLBUM: 
         Olhando para o presente. Lula possui uma obra multifacetada. Compõe canções para, e com, diversos artistas, poesias, canta. É letrista, cineasta, publicitário. E nesse mês de setembro lançou seu quinto álbum: Aumenta o Sonho. Agosto foi reservada para o lançamento dos dois primeiros singles. Dia 14 de agosto veio Tardinha parceria de Lula e Manuca Bandini. Chegamos no meio de um sonho dedilhado levíssimo. O eu-lírico conjectura os caminhos trilhados por seu amor. Há um verso particularmente espirituoso "Nesta hora estridente cheirando a fritura e dissabor". Duna veio no dia 31 de agosto e, de cara, tornou-se uma favorita da vida. A bateria tem aqueles ares daquele famoso sample de Amen, Brother em câmera lenta, como na Inception nolanesca. Areias envolvem reminiscências do dia, o último dia em que houve felicidade. Uma queda do paraíso para um mundo sem tentações. Ou seria apenas a sobra de um mundo para o personagem perdido? Os synths etéreos nos colocam na cena, nos colocamos no lugar de alguém que quer voltar a um lugar inexistente, a duna cobre até mesmo nossas pegadas...
         No 7 de setembro o álbum foi disponibilizado. Com quase quarenta e cinco minutos de duração é perfeito para nossos tempos de pressas indiferentes. Aumenta o Sonho é a faixa de abertura mais leve da discografia de Lula Queiroga algo condizente com o clima de sono e sonho empreendido. Até mesmo as intervenções eletrônicas tem o intuito de simular o clima de um processo orgânico. O piano, a voz, tudo leva o tempo preciso para que não nos assustemos. "De leve como um sopro no ouvido" a faixa parece remeter à sensação real em falta em nosso cotidiano. - não fosse assim, como explicar a multiplicação de ASMR artists pela internet, propagando arrepios para a multidão sem o calor do contato? - na canção, no entanto, temos uma declaração de amor: "Nasci pra te conhecer". Amor Roxo é uma bossa-trip-hop-atmosférica para os amantes dos graves do contrabaixo. É daquelas para ouvir de olhos fechados. É, uma das melhores faixas do álbum descrevendo um amor desvairado e insano. No livro de Joe H. Slate, Vampiros Psíquicos, o autor comenta que, no momento de nosso sono diminuem nossas defesas psíquicas e podemos ficar a mercê dos sugadores de energia. Não é místico nem sobrenatural, sabe aquele tipo de pessoa desagradável, gente ruim, a que estamos sujeitos a lidar no dia a dia? #XôPerrengue fala de gente assim que às vezes aparece em nossa mente sem nosso consentimento.
      O sonho segue assim: com Pedro Luís, Lula ergue a Casa Coletiva. Com a letra imagética e surrealista, ou abordando cisões do cotidiano? O instrumental desta quinta faixa é vigoroso, do pandeiro às guitarras. Convém salientar que funciona assim em todo o álbum, e, por conta disso, é uma pena que as plataformas digitais não permitam interação com as fichas técnicas. Nesse quesito o bandcamp se sai melhor por ter a letra das canções e os créditos da composição. Em nota publicada em sua página oficial no dia 11 de julho Lula afirmava "Mais que um punhado de canções e sons é o resultado de uma trajetória imersiva. É meu quinto disco solo. Solo é jeito de falar . Obrigado a quem esteve comigo nessa viagem." quem ouve também se interessa pelo fator humano envolvido. Será que o conceito de "hand album" apadrinhado pelos Tribalistas terá lugar no futuro? Uma interface com imagem e conteúdo pode trazer parte da sensação tátil - skeumorfismo a serviço dos amantes de encartes.
       Voltando ao álbum. Na onírica Não há nada lá fora, há um conceito a que eu não me recordo de ter encontrado antes: a saudade como algo passível de acumulação. "Tenho que gastar saudade". Depois, Lula apresenta sua versão para a Balada do Cachorro Louco (Fere Rente) é o movimento rápido dos olhos, no meio da faixa o funkeado cria a cama para os versos de Torcida Inglesa - Guerra no pacífico! - , presente em seu primeiro álbum  solo, de 2001. Curiosamente, naquele álbum há uma canção chamada Rio-que-vem que falava de tentar viver e seguir junto e a nona música se chama Rio-que-vai-e-volta e fala de deixar ir, deixar estar e aguardar o amanhã. Se Amor Roxo falava de um amor que confunde e consome. O eu-lírico de Rio-que-vai-e-volta conclui que "o amor só funciona livre". Futilosofia, é um manifesto poético do pré-despertar. O sonho vai se despedindo sem que sintamos o peso de qualquer realidade se aproximando: "A rua rastreada pelo Google a terra girando na holografia/Pra quê velocidade se não sai do lugar?/quem descobriu o Brasil foi a calmaria/Caiam daí todos os drones/É o grande apagão wifi da humanidade". Minha cabeça é o fim, é o despertar onde nossos sonhos acontecem: nossa própria mente. No meio do arranjo de cordas podemos até ouvir a dança dos dedos a deslizar nas cordas. E é o fim, até o próximo adormecer.




sábado, 1 de julho de 2017

Enquanto as Crianças Dormem - Teatro Aliança Francesa


"O esforço de ser empregado inclui não só a incerteza quanto a duração do emprego, mas também a humilhação de se submeter a muitas práticas e dinâmicas de trabalho. Como a maioria das empresas tem a formação de pirâmide , em que uma base ampla de empregados abre caminho a uma ponta estreita de gerentes, a questão de quem será recompensado - e quem ficará para trás - em geral, torna-se uma das mais opressivas do local de trabalho e, como todas as formas de angústia, alimenta a incerteza." Desejo de Status, Alain de Botton


         Chegando ao trabalho Raul fazia questão de colocar seus fones de ouvido. Ainda se afirmasse contrário à toda sorte de rituais, lá estava ele. A trilha sonora tem a função de desviá-lo de um cotidiano medíocre e repetitivo. Sente vibrando em si das trilhas de Zimmer às baladas de Zimmerman e cada faixa vencida carregava cada um de seus atos com um peso invisível aos colegas que o cercavam. Dessa maneira, era natural que ele se identificasse com aquela moça avistada quase sem querer no fundo da lanchonete. A lanchonete mais imunda da cidade, é verdade. Mas, sendo os clientes velocistas contumazes, quem notaria sabores espúrios no cardápio? Raul, por exemplo, não se importava. Desde pequeno acostumara-se a ouvir falar de hambúrgueres feitos com minhoca. "Desde que seja saboroso! Por mim poderiam ser como as tortas da Sra. Lovett em Sweeney Todd". A moça cantava a existência de algum lugar em que os sonhos podiam mesmo se tornar realidade. Nessa hora ele a viu como aquelas pessoas que imaginavam a vida como um musical dos anos trinta. Salvo melhor juízo, o nome dela era Kelly. Raul fora atendido por ela vezes demais para deixar de reparar seu nome no crachá. Era aquela relação en passant. Provavelmente, fora do estabelecimento ele mal a reconhecesse. Mas divago.


O preço que se paga às vezes é alto demais

       Kelly (Carol Hubner) nutre o desejo de se tornar uma estrela dos musicais da Broadway. Da mesma forma que a Alice de Paris-Manhattan tinha como seu confidente um cartaz de Woody Allen, Kelly tem como seu norte inspirador Fred Silveira (Narração em off) e costuma conversar com ele quando se encontra em sua casa vazia. Casa que permanecerá vazia mesmo quando seu colega de trabalho Tom (Haroldo Miklos) a visita. A relação dos dois não é clara, ou talvez o seja: a pura falta de opção. É fácil se ver torcendo pela protagonista, para que ela saia da lanchonete e alcance um ponto mais alto do que o que lhe é oferecido por seu gerente (Juan Manuel Tellategui) e o funcionário puxa-saco Nick (Diogo Pasquim). Uma visita ao supermercado pode obter a surrealidade de um filme de Michel Gondry turbinado com anfetaminas, é a espetacularização magnética do consumo. Zeca Baleiro já advertira: lugar de ser feliz não é supermercado. Diria Gessinger: satisfação garantida! A benfeitora Ellen (Carolina Stofella) surge em meio a um turbilhão de tristezas como uma luz no fim do túnel. Ou seria um trem na contramão?
          Dos méritos da peça estão como seus personagens são palpáveis. Nossas redes sociais gritam as mortes de porcos, a tortura de assassinos e, muitas vezes, nos encontramos passivos diante de colegas esboçando um riso sanguinário diante da maldade. Então, ao vermos uma personagem empunhar a câmera do celular diante do inevitável, vemos um reflexo de nossa própria vida. É como a ironia da capa do livro de Yaël Gabison (Benvirá, 2017) ter o nome de Seja o Herói de sua Vida e em sua capa ostentar ilustrações de Walter White, Frank Underwood, Dexter e Tywin Lannister. Quem são nossos heróis hoje em dia? Malparidos como Pablo Escobar? Estamos cínicos a esse ponto? Seja como for as horas nesse espetáculo passam e nem percebemos, há poder maior da arte que nos fazer mudar nossa perspectiva temporal e social ao mesmo tempo? 

Ficha Tecnica:

Texto e direção: Dan Rosseto
Assistente de direção: Diogo Pasquim
Elenco: Carol Hubner, Carolina Stofella, Diogo Pasquim, Haroldo Miklos, João Sá, Juan Tellategui e Samuel Carrasco
Direção de produção: Fabio Camara
Produção executiva: Roque Grecco
Trilha sonora original: Fred Silveira
Figurinos: Kleber Montanheiro
Cenário e adereços: Luiza Curvo
Desenho de luz: César Pivetti e Vania Jaconis
Preparação de elenco: Amazyles de Almeida
Direção de movimentos: Alessandra Rinaldo
Sapateados: João Sá
Operador de luz e som:Bob Lima
Fotos: Leekyung Kim
Assessoria de Imprensa: Fabio Camara
Realização: Applauzo e Lugibi Produções Artísticas


Até 27/07 - Quartas e quintas às 20h30
Duração: 110 min
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia-entrada)
Bilheteria aberta 2h antes do início do espetáculo.
Ingressos à venda também no Ingresso Rápido.
Classificação indicativa: 14 anos


Teatro Aliança Francesa - Rua General Jardim 182 – Vila Buarque.
Capacidade: 226 lugares + 4 PNE.
Estacionamento conveniado em frente.
Informações: (11) 3572-2379

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Forever Young - Fecomercio SP

"Eu não entendo. Nos musicias, por que começam a cantar e a dançar do nada? Quero dizer, eu não começo... a cantar e dançar." Jeff - Dançando no Escuro
         
         Ao fim de 2050 completarei sessenta e um anos! Não havendo nenhuma divergência drástica no caminho, claro. Até onde sou capaz de idealizar as sensações? Sabe, quando alguém te pede para visualizar onde você se enxerga nos próximos dez anos? Conseguir traçar esse projeto nunca foi meu forte. Então, quando me tornar uma criatura de três pernas ao entardecer creio minha única certeza é a de que tentarei estar cercado de música... bem, se minha audição permitir! Enquanto assistia a peça Forever Young, o pensamento de minha mãe seguiu uma outra linha: será que estarei aqui? Mas não se preocupe! A peça é, sim, uma comédia musical. A seu modo ela insere uma série de reflexões de forma leve e bem-humorada mas não menos poderosa por exemplo: estando as personagens num "retiro dos artistas", onde estariam seus filhos ou familiares? Não há visitas, para além da supervisão da enfermeira, desse modo os seis personagens funcionam como uma família e isso dá espaço para momentos emocionantes em meio aos risos da platéia. 
         A peça pode ser apreciada como um show de piano e vozes em que as interações entre as personagens fazem as vezes daquela conversa intimista com o público em que se aprende mais sobre os ídolos. Instrumento representante do rock por excelência, a guitarra faz parte do show desde a flying V fazendo as vezes de ípsilon na tipografia do título, passando pela Summer Song de Joe Satriani, até o solo performado por um idoso Carmo Dalla Vecchia - e cabe um parentese, mesmo o ator tendo suas duas décadas atuando, a primeira vez que o vi foi na minissérie A Cura como o inescrupuloso José Silvério de Andrade e é incrível ver como o Carmo de 2050 é um velhinho tão boa praça, essa é uma das graças do teatro: a proximidade com as nuances da atuação.
       As personagens são carismáticas e despertam o interesse. Quantas histórias não carregam o par de enamorados? O hippie caladão? As lembranças vão se construindo aos poucos. Transportar o nome dos atores para a ficção é uma decisão acertada por auxiliar, desde a apresentação das personas, na identificação com os dramas propostos. O repertório passeia por décadas de música e nisso há espaço para todos de Smells Like Teen Spirit a hinos como I Will Survive e I Love Rock 'n' Roll, além, é claro, da faixa da banda Alphaville que dá nome à peça. Um ponto à parte é o repertório da enfermeira responsável por trazer doses homeopáticas de realidade. Suas canções não partem do cânone "roqueiro" e, por serem em português, tem capacidade de transmitirem as mensagens a um número mais amplo de pessoas. 


Ficha Técnica

Autor: Erik Gedeon
Direção Geral: Jarbas Homem de Mello
Supervisão Artística/tradução/adaptação: Henrique Benjamin
Direção Musical e canções adicionais: Miguel Briamonte
Elenco: Vanessa Gerbelli,  Carmo Dalla Vecchia, Fred Silveira, Paula Capovilla,
Fafy Siqueira e Drayson Menezzes
Piano: Miguel Briamonte
Stand In:  Naíma
Supervisão Cenográfica: Luís Rossi
Produtora de Objetos: Rosa Berger
Figurino: Paulette Pink
Visagismo: Hugo Daniel
Preparação corporal: Renata Mello
Designer de Luz: Fran Barros
Designer de Som: Rafael Caetano
Assessoria de Imprensa: Morente Forte
Produção Geral: Henrique Benjamin e Sandro Chaim
Lei de Incentivo à Cultura Proac
Realização: Tricicle, Coisas Nossas Produções, Benjamin Produções, Chaim XYZ Produções, Governo de São Paulo, Secretaria da Cultura e Ministério da Cultura, Governo Federal