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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Um Outro Conto no Jardim

“Então, pratique escrita livre. Escreva sem pensar. Tenho certeza haverá algumas coisas com as quais se surpreenderá, juntamente com algumas bobagens. Talvez você escreva algo que o lembrará de uma música que você já ouviu antes, mas será como você tivesse descoberto uma nova forma para dizer. Encontrar a sua própria voz é algo em que nos aprofundaremos depois, por ora, preste atenção em como você se sente ao cantar as palavras que você escreveu. Caso você se sinta levemente desconfortável, talvez até mesmo um tanto envergonhado, você está no caminho certo. Esse é o dilema em que todo mundo se encontra. Há apenas algumas coisas que qualquer um pode dizer. Então, em algum momento, seu foco terá que mudar de estar preocupado acerca de “temas” e “significados” e “sobre o que é uma música”. – How to Write One Song (Como Compor Uma Música) p.29/30 – Jeff Tweedy, Dutton Books, 1ª edição (13 outubro 2020), tradução livre.

Arte por Isabella Proença

    Enquanto reouvia a versão que Fabio Kulakauskas e Claudio Gregório trabalharam da canção, comecei a ouvir em minha mente o refrão de Sky is Over de Serj Tankian: “Even though we can’t afford/The sky is over/I don’t want to see you go/The Sky is over” ainda seja um artista que acompanho desde os tempos do System of a Down, nunca havia feito a associação entre a harmonia. Estavam ali os acordes “Gm Eb D”. Mais curioso foi pensar que o álbum de estreia solo de Serj se deu na mesma semana em que a banda Falsa Modéstia se apresentou na E.E. Esli Garcia Diniz (já falei mais disso em Interescolar). Ainda não existam registros físicos que embasem isto, não há inspiração direta. Até fui atrás do primeiro texto em que falei sobre Um Conto no Jardim no blog, há 5 anos, 3 meses e 28 dias, não há menção a esta canção.


   Não há menção nem mesmo à Juvenília, da RPM, a composição que me colocou interessado em trabalhar com o Sol Menor muito antes de eu pensar em compor a melodia para Um Caminho para o Céu, que, não por coincidência, também começou com ele. Não posso sequer dizer que foi proposital: foi a décima primeira postagem no geral e apenas a quinta em que eu falava de uma composição autoral. Uma pergunta pulsava naquele período da mesma forma que agora: a quem se destinam estas palavras? São como uma mensagem na garrafa virtual? É fácil entender o que leva alguém a visitar um blog do Humberto Gessinger, ou mesmo um livro do Jeff Tweedy, só para ficar em um exemplo nesta própria postagem, mas, quem chega até aqui, me conhece? Mais: se importa em saber os meandros de algumas composições independentes? Afinal, são coisas diferentes, há quem goste de consumir canções em playlists aleatórias, quem ligue apenas para a música, ou só para a letra, mas nem todas as pessoas se importam em saber, como canta Lenine: De onde vem a canção?

    Se há garantias de que este será o texto a explicar? eu poderia resumir como: alguns versos já com melodia vieram a minha mente, decidi expandi-los em um refrão e criar uma narrativa que desembocasse ali. Simples assim. O que é diferente do que eu mesmo disse aqui, em que tentei criar uma ordem cronológica de acontecimentos com um flashback de anos antes do ano em que os versos falam. Mas eu não sou o eu-lírico. Quando a compositora Paula Lima cantou estes versos pela primeira vez, em que ela pensava? Qual é a relação entre o material e o intérprete? Não faço ideia. Talvez o poema Autopsicografia contenha a resposta. Alguma.

    Em outubro, quando comentei com a multidisciplinar Isabella Proença sobre uma arte para esta composição, estava influenciado pela série da Marvel What If...? e em como O Vigia de Jeffrey Wright (dublado no Brasil pelo eterno Sesshomaru: Silvio Giraldi) falava no “prisma de possibilidades sem fim” e mencionei isso. No fim das contas, consigo enxergo a obra dela com uma potência particular. Quem é a personagem? Ela se inspirou em alguém ou se baseou em uma base de imagens para referência? Eu não sei. O cinza que a envolve é resultado do mesmo processo pelo qual a personagem na ilustração para Concreto-confronto viveu ou é um reflexo do verso que diz que o tempo parou? (Ou a personagem deparou-se com o escuto da Medusa?) Pode ser tudo isso e pode também não ser. A visão da artista, descolada do histórico dos versos, é capaz de transmitir uma série de outras ideias que não necessariamente estavam nos versos. Como diz a instrutora Mayu Ooba: Cada “arte” é uma “resposta” que ocorreu ao artista. A resposta que Ella encontrou é elegante.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Mais 108 Minutos

" — Mesmo que você tenha escondido bem a memória, mesmo que a tenha mergulhado em um lugar bem profundo, você não pode apagar a história que causou tudo isso — disse Sara, fitando diretamente os olhos dele. — É bom você se lembrar disso. A história não pode ser apagada nem refeita. Isso equivale a matar a sua própria existência." - O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, p.40, tradução por Eunice Suenaga.  Objetiva, 2014

    Há cinco anos, um mês e vinte e dois dias escrevi pela primeira vez acerca de 108 Minutos. Naquela ocasião foi o 18º post no blog e, por destino ou coincidência, saiu no décimo segundo aniversário da estreia da série Lost. Esse é um assunto recorrente e, em maio desse ano, tive uma perspectiva incisiva em relação ao motivo. Em maio deste ano, o crítico de cinema PH Santos falou sobre a Reunião do elenco de Friends ele comentou como enxergava como marco temporal seu lado crítico ter "nascido" após o fim da série.
     Não levou tanto tempo para que eu conhecesse o trabalho do crítico. Pessoalmente? foi Lost meu divisor de águas. Sempre tive interesse em saber como a arte era produzida, quem escrevia, quem eram os atores, compositores. Mas essa foi a série em que tudo isso extrapolou: não adiantava apenas saber que Damon Lindelof e Carlton Cuse eram showrunners, era preciso saber em que instância J.J. Abrams, um dos criadores do conceito, tinha relação com o que era exibido (ele se afastou ao fim da primeira temporada devido ao envolvimento com Missão Impossível 3 e co-escreveu o episódio de abertura da terceira temporada A Tale of Two Cities - minha composição Canto de Duas Cidades deve seu nome à obra de Dickens, mas apenas por Lost tê-la me apresentado, mas divago). Também queria saber qual era a razão de Jeffrey Lieber ser creditado como co-criador. Quem era o compositor Michael Giacchino? com quais outras produções o elenco esteve envolvido. Se um episódio era ruim, do que se tratava? Expectativas? Ou poderia ter relação com quem escreveu o roteiro? O que torna Jack Bender um dos grandes diretores por trás de episódios? Claro, muitas destas questões tem respostas diversas, ramificações da célula rainha e o componente coletivo as torna ainda mais difusas, mas com a série reconheci este elemento questionador, e, disso, não é possível me livrar, mesmo que eu quisesse. É o tipo de obsessão que faz com que eu esteja, atualmente, mergulhado em ramificações da obra Duna, de Frank Herbert, enfim.

     Para além da obsessão, há o componente coletivo: se existe um clipe para 108 Minutos, é apenas por uma série de pessoas, desde os envolvidos com a série, passando pelo projeto escolar, os alunos, a banda Falsa Modéstia, para dizer o mínimo. Mesmo hoje, em que descrevo o trabalho como fruto da organização artística Falsa Modéstia, o faço por ter apreciado esta forma de descrição quando do lançamento e promoção do álbum da Fresno: sua alegria foi cancelada. Faz mais sentido, ainda que um bando de pessoas tenham se reunido com o propósito de fazer música, as pessoas que se reuniram foram mais que uma banda. A arte da multiartista Isabella Proença, por exemplo, traz as personagens de Clancy Brown e Henry Ian Cusick aos moldes do fim da segunda temporada de Lost, emulando a capa da segunda temporada de Breaking Bad, outra série da qual gosto muito, e que já foi referenciada na letra de Se ela não amanhecer. Pude imaginar a ilustração, mas a perspectiva da artista e suas próprias referências foram essenciais para a obra. Do mesmo modo que, ainda eu tivesse Desmond David Hume em mente quando ouvi de bob o pitch, apenas a atriz Barbara Barduchi sabe o que tinha em mente enquanto corria desesperada pelas areias (Duna?) seguindo suas intuições e os próprios referenciais artísticos e ideológicos. Isso tem um peso que eu não sei mensurar.


    O próprio Ivan, co-compositor comentou nunca ter imagino que algo que ele fez tornar-se ia um videoclipe. Ainda que eu esteja envolvido de forma amadora com composições há quatorze anos. Eu também não tinha.


Créditos do clipe:

Compositores: Thales Salgado e Ivan Carolino
Produção musical e arranjo: Luan Magustero
Bateria: Pedro Santos
Guitarra e piano: Luan Magustero
Voz: Thales Salgado
Baixo e violão: bob
Direção e roteiro: bob e Barbara Barduchi
Ilustração no thumbnail: Isabella Proença

Composta na cidade de Arujá em 2007 por Thales Salgado e Ivan Carolino para uma atividade da profª Marize Manopeli.

Filmado em 2021 nos Lençóis Maranhenses (Barreirinhas - MA) e com o áudio gravado no mesmo ano em diversos locais do estado de São Paulo, seguindo os protocolos de segurança. Gravado e mixado individualmente. A organização artística Falsa Modéstia estava dispersa, virtualmente unida, todavia. #aliloke

Livremente inspirada na série da ABC: Lost. Criada por Jeffrey Lieber, J. J. Abrams e Damon Lindelof. Pertencente à Walt Disney Television e disponível em streaming no Star+ e na Amazon Prime Video.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Interescolar

    Uma das frases que mais citei nos últimos sete anos é "Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal." É por ela já constar no texto que fujo do formato habitual do blog.
    Desde antes da leitura de Cordilheira de Daniel Galera, ainda me recordo da edição e conteúdo do Anticast 42 entrevistando o autor, em que conheci a frase. Terminei a audição já me intitulando admirador do trabalho dele, algo que foi se consolidando durante a leitura de seus livros, à exceção da Graphic Novel Cachalote e d'O deus das avencas, que será lançado este mês, mas divago.
    Na narrativa de alguém que quando criança, viu jovens de uniforme amarelo e uniforme azul aos sangues pelo simples ato de passar um na frente da escola do outro, ter amizade com pessoas de outras escolas parecia um ato revolucionário! Quase uma aventura.
    Há quem diga que nada havia de estranho, essas ramificações eram possíveis não por que houvessem rastros iluministas naquela juventude mas simplesmente por, tendo muitos deles cursado o fundamental I na mesma escola ser lógico que, apesar do afastamento motivado pelas rotinas, a convivência na infância permitir uma adolescência para além do ciclo de violência interescolar... O que sei eu?
    Fico contente de ter atendido com meu irmão o anúncio que falava em aulas de violão gratuitas aos sábados, no Programa Escola da Família. Esse foi um dos momentos que conduziu a este dia, em que dois alunos da E.E. Esli Garcia Diniz e dois alunos da E.E. Dr. René de Oliveira Barbosa se apresentavam juntos na E.E. Washington Luiz Pereira de Souza, na cidade de Arujá.

Da esquerda para direita:
bob no baixo,
 Fabio Kulakauskas no violão e vocal
 e Thales Salgado nos violão solo.

    Ao olhar no Google Maps, pode-se notar a proximidade entre as três escolas. Não era difícil trafegar este escaleno (que outras chances alguém de Humanas tem para falar em triângulos?) e, por isso mesmo, é muito fácil constatar o óbvio: a possibilidade de estas pessoas se encontrarem não era destino, era probabilidade. (Dr. Jack Shephard, parafraseio você!) Mesmo assim, que por um momento tenham escolhido unir-se com uma intenção e ideal era isso: uma escolha. 
    Parte dessa escolha partiu de algo para o qual, naquele momento, eu não tinha poder para alterar: a cidade em que cresci. No livro de Places of the Heart. The Psychogeography of Everyday Life, o neurocientista e psicogeógrafo Colin Ellard comenta que "as definições de dicionário mais austeras indicam que a admiração também pode abranger elementos de transcendência. Essas experiências nos levam a deixar os confins limitados do espaço corporal e nos encorajam a acreditar que nossa existência constitui mais do que apenas um batimento cardíaco dentro de uma frágil concha orgânica. Experimentamos uma sensação de existência ilimitada quando as fronteiras temporais e espaciais que nos prendem à realidade desaparecem repentinamente".
    Residindo em Guarulhos desde 2013, é em experiências assim que penso quando chega o dia 8 de junho, aniversário de Arujá. Há alguns dias vinha pensando acerca de qual música composta na cidade falar nesta data e, no fim das contas, mudei de ideia para reconfigurar este texto originalmente postado no Facebook com 200 palavras para as pouco mais de 500 que ele conta agora. Outras nuances, fotos, detalhes, menos síntese.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Tributo aos Sentimentos #2

 "Imigrantes. Todos nós o somos, hoje. Quando a viagem não nos move, é o entorno que nos foge, o que dá o mesmo.  Ficamos então parados, como tudo o mais indo, imigrantes a tentar entrar, todos os dias, em nós mesmos." - Elvira Virginia, O que deu para fazer em matéria de história de amor. Trecho conforme encontrado em De Espaços Abandonados, de Luisa Geisler

 

Com os traços de Isabella Proença


Tributo aos Sentimentos (2007)
Letra: bob e Thales Salgado
Música: bob e Thales Salgado

Copiamos os sentidos
Criamos inimigos
Talvez por isso sinto a sua falta
Acho que sem explicação
Vem os últimos dias
Quando acaba é apenas um começo
E o novo começo é sempre o mesmo
Esperamos a mudança
Quando ela vem, sinto a sua falta

O que foi ensinado
Não foi de todo em vão
E o meu medo já não atrapalhará
Meu medo é o seu
E é isso o que nos faz reais

Não posso ser eu mesmo todo o tempo
Existem, leis e leis e leis
A única lei restrita, a única que me interessa:
Liberdade de escolha

Mas, por ora, meu suor o vento leva
Você não precisa vir comigo
Logo volta a correr...


     Tributo foi uma das primeiras composições mencionadas no blog, em 2016. Também, pudera: sendo uma das primeiras composições da banda, ela conserva um lugar histórico na memória afetiva dos envolvidos. O post pode ver visto aqui. Seguindo as conversas com bob quanto as composições acabamos por repensar tanto a duração quanto a dinâmica desta, o resultado pode ser visto no soundcloud acima.
      Algo que passei a pensar em seguida foi: como retratar a canção? Para mim ela nunca foi a mais fácil de traduzir dentro de um conceito concreto. Foi então que, no início de maio, me deparei com um estudo da multi-artista Isabella Proença, foto abaixo, e, dele surgiu a ideia a que ela deu vida. Partiu dela a ideia da figura com o violão, todo o esquema de cores e mesmo o trecho da letra. Há uma fluidez muito maior do que a imagem que eu conseguia pensar quando entrei em contato com ela. 

     

terça-feira, 1 de maio de 2018

As Faixas Instrumentais

"Quando componho ou apresento músicas, o faço por ser o que está em minha alma. Nunca penso se as pessoas vão gostar ou desgostar de minha música, apenas componho e apresento a música que faz sentido para mim, a música que está dentro de mim. " Yanni em entrevista à revista NeeHao em 2014
Nuit celtique (Saint-Patrick): musiciens Foto: F.de la Mure

         A primeira lembrança que me vem quando penso em músicas instrumentais, é a de, com uns dez anos, talvez? Assistir às fitas VHS dos concertos de Yanni. Live at Acropolis e Tribute. Eram as músicas favoritas de minha mãe para trabalhar com seus diários escolares. Ainda que, num primeiro momento, eu não gostasse, com o passar dos anos e subsequentes audições do musicista grego ampliaram minha ideia sobre a música. Não era apenas sobre poder observar o grande compositor grego, e sim, a reunião de artistas engendrada por ele como a violinista norte-americana Karen Briggs, os sopros do multi-instrumentista  venezuelano Pedro Eustache, o tecladista taiwanês Ming Freeman, entre outros. Cada um com sua expertise em destaque em algum momento e somando para um todo que os ouvintes não podem imaginar ao ouvir as gravações em estúdio. Mencionei destaque para a nacionalidade de cada um, pois, Yanni é conhecido como "O Verdadeiro Artista Global". Então, assistir com meus pais a uma de suas apresentações em março de 2014 foi como fechar as pontas com a infância.
          Adotei o  hábito de realizar atividades ao som de música instrumental, primariamente, para leituras. Trilhas sonoras de filmes como as de Hans Zimmer costumam surgir. Ou o álbum Rasura do grupo curitibano ruído/mm. O problema em falar de música instrumental é a falta de entendimento teórico. Por conta de suas letras é mais fácil analisar o peso das canções. Com musicas instrumentais é diferente, elas também fazem sentir, remetem à outros eventos: um momento, um filme. Tomar emprestados os versos das canções como linha guia para a narrativa é uma forma de tentar me colocar no lugar do artista, se os versos mencionam poetas, se fazem referência às letras dos álbuns anteriores, outros artistas. Nem sempre é possível traça-las, por mais esforços e audições, mas parece concreto. Algo que não ocorre com faixas instrumentais.
         O fato de ser capaz de apreciar faixas instrumentais, no entanto, nunca permitiu que eu as compusesse. A primeira vez que utilizei uma melodia sem a letra foi em 2007. "A Última" nada mais era que Um Conto no Jardim sem a voz. Naquele momento, estava surpreso com as possibilidades de gravação caseira, sobreposição de faixas, efeitos. Ainda que a sincronia não estivesse perfeita.

     Levou alguns anos até que eu decidisse tentar algo inteiramente instrumental, Nothingless foi pautada por um cavaquinho fora de afinação e uma meia lua. Ao final, busquei aplicação de uma flauta de pan. Seria preciso um metrônomo para que ela funcionasse direito. A linha melódica realizada pelo violão foi pensada para uma letra. Não pude intuir o que seria possível dizer, então, assim ficou.

         No mesmo ano (2009) enquanto tentava praticar o uso do aplicativo Acid Pro passei a experimentar as possibilidades dos plugins VST num teclado virtual. A intenção, dessa vez, era a de preparar uma série de faixas mais eletrônicas com o intuito de serem a trilha antes/após uma apresentação da banda. De modo a tornar todo o conteúdo autoral. Quase sempre há uma trilha ambiente quando a apresentação não toma parte. 

      Um amigo apreciador de música eletrônica disse que ela não possui dinâmica suficiente para esse intento. Isso demonstrou que é preciso conhecer mais de um estilo musical antes de tentar se aventurar a ele. Após junho de 2009, a Falsa Modéstia não se apresentou mais então acabei por engavetar a ideia.

         Para Mosaico de Estrelas, em 2011, a cada duas faixas há um intervalo instrumental. Interregno 8689 poderia ter letra. Nazar Boncuk (mencionada no texto sobre Lives) é outra das composições sem letra desse ano. Passiflora Edulis leva o nome científico do maracujá e foi a primeira composição feita com a craviola de doze cordas. Foi apenas ao fim de 2016, com Vita Brevis que completei uma composição com ela e letra. Aqui, havia o interesse em tentar traduzir sensações.

        Se você chegou até este ponto na leitura, comente se sentiu alguma coisa. Em minhas leituras já reparei que há artistas que fazem uma cama sob a qual a voz se encaixará. Para alguns, é comum trabalhar desta maneira. Até onde vi. Desde que comecei a compor em 2007 essa atividade nunca foi realizada. A palavra. É sempre ela a motivadora dos textos, composições... Meus cadernos também não possuem letras aguardando por melodia. Será que um dia terão? 

domingo, 28 de janeiro de 2018

Depois de Tanto Tempo: Memórias Distantes

E depois de tanto tempo eu retornei a sua ligação.
Você me disse "Alô" e disse que não saberia o que dizer
E depois de tanto tempo eu lembro do que eu disse a você:
"Se o mundo todo está perdido, que mal tem a gente se perder?"
E depois de tanto tempo... você me disse que gostou do que escrevi 
E para eu não seguir o que senti, você me disse adeus disse que era pra sempre 
Depois de Tanto Tempo, 2008




         Que Depois de Tanto Tempo surja antes de Memórias Distantes é um pequeno anacronismo já que os versos finais da composição foram pensados apenas em 2008, ano seguinte à composição. Ainda assim, as ideias surgiram juntas. Duas composições interligadas em conceito e melodia e em que não há receio em trabalhar com a simplicidade. 

Foto: Valentin Gladyshev (iStock Photo)

CENTRO DA CIDADE DE ARUJÁ
ENTRE AGOSTO E OUTUBRO DE 2007
"Precisamos ter uma música com assobio! Algo como Patience do Guns. Que fosse pra cima, sabe? As músicas felizes são as que mais gosto de ouvir." Bruno Oliveira



Memórias Distantes (2007)

Se eu escrevesse uma canção
Não me leve a mal
Sei não seria grande coisa
Com as palavras emprestadas de algum lugar
E uma melodia tolamente alegre
Se eu trouxesse do futuro um dia qualquer
E embrulhasse pra presente
Eu te daria pra fazer você sorrir
E sentir eternamente

Por você não seria exagero
Eu faria com prazer
Mas se tudo der errado
Amor, tente me entender

Memórias tão distantes
Não sou mais como antes
Como poderia ser?
Você está mudada
Isso não muda nada
Eu daria a vida por você

Se eu cruzasse todo o mar
Para te encontrar
Num barco guiado ao acaso
Eu chegaria antes de você pensar
Meu lugar é a seu lado

MEMÓRIAS DISTANTES

         Qual a gênese das canções alegres? Quando conheci a cantautora Roberta Campos foi uma das perguntas que tive tempo de fazer e acabei por receber uma resposta num riso misterioso. Em que lugar se esconde o sol sem dó a cair em mim? Rés do chão. Canções feitas lá perto de um ribeiro em que seguia passos? Enfim, elucubrações avulsas enquanto procuro uma maneira de iniciar esse texto... Não vá embora! Passemos ao segundo parágrafo e tentarei ser mais direto.
         Levei quase três anos pensando em tudo o que levou às letras das primeiras demos da banda Falsa Modéstia. Por serem as primeiras composições havia uma fluidez. Também, pela primeira vez, não havia medo de expressar as mensagens. Pessoalmente, acho esse um estágio complicado de alcançar. Há uma vergonha constante das palavras e dos sons: será que a pessoa a quem se destinam os versos gostará? Será que meus amigos, colegas de banda irão querer ensaiar essas músicas?
Tentei deixar as inseguranças de lado naquele momento e compor uma canção que pudesse manter o assobio por isso me voltei aos tons maiores, num movimento significativo. Um Caminho para o Céu, Ilusão, Madrugada, Cantillena Sant'Anna, Um Conto no Jardim, Para Ela. O que compunha tinha uma predominância de tons menores, resultando canções tristes - mais tarde eu passaria a usar o termo contemplativo de forma recorrente - mas honestas dentro do que eu propunha aos dezessete anos.
       A forma que encontrei para abordar a letra foi coloca-la como eu não estivesse ali. Descrever como seria se eu escrevesse uma canção, e ela saísse tolamente alegre. A metalinguagem prossegue com a questão das "palavras emprestadas de algum lugar", algo que ocorrre, literalmente, no refrão. "Daria a vida por você" era a minha forma de mencionar a balada I Could Die for You dos Red Hot Chili Peppers. Ainda que bem longe da desenvoltura dos acordes fruscianteanos em 2004 eu tentara tocar uma versão simplificada dela. Encapsulei esse evento em minha própria letra.
      42 anos anos antes de mim, ainda que em outro contexto, Paul McCartney já professava "You don't look different, but you have changed" em I'm Looking Through You. Em Memórias Distantes a mudança não é razão para insatisfação e, sim, as portas para a possível reconciliação ainda que sob outras configurações. Ficções pueris.
Ainda assim, me lembro de Fabio no Encontro das Nações em 2009 anunciando ao público que faríamos uma canção agitada para que dançassem. Ver algumas pessoas o fazerem foi uma sensação estranha. Você verte lágrima em canção até o ponto em que a razão das lágrimas se desata da letra, e fica fora do resumo.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Cantillena Sant'Anna

“Não somos mais aquela força dos velhos tempos;quando movíamos céus e terras, hoje somos o que somos; corações heroicos e um único caráter; enfraquecidos pelo tempo e destino, mas fortes na vontade; para lutar, buscar, encontrar, e não se render”. Fragmento do poema Ulysses de Alfred Tennyson, como citado por M (Judi Dench) em Skyfall
Edmond Dandes enfrenta Fernand Mondego, uma batalha no cerne da canção.



Cantillena Sant’Anna (2007)

Muitas vezes, no confronto final
Há uma margem de erro que custa a sua vida
Outras vezes, a vida, não faz diferença nenhuma sem você
Minha vida é calculada desta forma
Nela o infinito é a margem de erro
Nenhum dia é igual, nada de rotina
Partir para o inconsciente no mesmo lugar

Implore por sua vida flertando com a morte
Meu florete não serve pra ferir
Só pode ameaçar teu coração
Quando os cálculos de sua vida
São exercidos pelo vento batendo nas folhas
Não há porque contar

Úmidos olhos de vexações passadas
Apenas penso no gosto da eternidade
E só o seu nome importa
Quando se fala em eterno amor
E foi assim que a morte encurralada
Se joga do penhasco
Acabando com a melancolia
Daquele que é escravo da vida
Mesmo vencendo a morte



UMA DAS TRÊS

        Das primeiras demos da Falsa Modéstia apenas três composições levaram mais tempo a serem contempladas. Resolva com os Profetas, Memórias Distantes e a que dá nome a este post: Cantillena Sant'Anna. Considerando o nascimento do Blog em 2016 é até estranho que sejam faixas da primeira leva de composições, em 2007. Delas, apenas Memórias Distantes foi executada em apresentações, por sua natureza pop. O ponto forte das outras duas é, justamente, sair do que seria óbvio.

DO TÍTULO

          O nome “Ana” vem do hebraico “Hanna” e significa “graça”. Santa Ana era de família descendente do sacerdote Aarão. Quando Bruno escreveu a letra, teria isso em mente? A relação que tive com o nome sempre partiu de Santana. Composição de Junio Barreto que foi gravada por nomes como Gal Costa, Lenine e Maria Rita. Que eu, anos depois, tenha obtido a licenciatura no Centro Universitário Sant'Anna é apenas uma coincidência. Mesmo o termo Cantillena não se encontra aqui com o mesmo significado dos dicionários, no sentido de 'melodia suave, lírica e repetitiva', tampouco como 'engodo'. Usei a palavra mais no sentido de criar um ar solene, por essa mesma razão o "ll" à exemplo do yeísmo presente em várias variantes do idioma espanhol, principalmente na América hispânica.

DA LETRA
"Voilà! À sua vista, um humilde veterano do vaudeville, trajado com veste de vítima e vilão pelas vicissitudes do destino. Este semblante, não mero verniz de vaidade, é um vestígio de Vox Populi, agora vazia e esvaecida. Porém, esta valorosa visitação de uma vexação passada se encontra vivificada, e fez um voto de vencer os vermes, venais e virulentos, que se valem do vício, e valorizam a violação violenta, depravada e voraz da vontade. O único veredito é a vingança, a vendeta, tida como votiva, não por vaidade, pois, o valor e veracidade de tal devem um dia vindicar o vigilante e o virtuoso. Verdade, como esta vívida verborragia já se torna assaz verboso permita-me que eu acrescente que é uma grande honra conhecê-la e a senhorita pode me chamar de V." Apresentação da personagem V (Hugo Weaving) no filme V de Vingança com roteiro das irmãs Wachowski e dirigido por James McTeigue

         Dentre as intertextualidades possíveis é essa com a personagem V a mais evidente, no verso úmidos olhos de vexações passadas. Um filme de filmografia compartilhada. A proximidade entre quem escreveu a letra e aquele a compor a melodia permite essas espécies de intercâmbios culturais. Lembro quando alugamos o filme em casa, a primeira coisa a me chamar atenção foi esse discurso. Literalmente um daqueles momentos em que você aumenta o volume e rebobina para prestar atenção. No mesmo ano em que compus Notas Fora do Lugar li ao livro de José Saramago, As Intermitências da Morte e me lembrei dessa composição ao vislumbrar uma morte personificada. A narrativa termina com uma vitória inesperada. Amor Vincit Omnia.

P.S. Por mais curioso que seja, uma das influências para esta melodia é a obra de Kojiro Mikusa, a trilha sonora do jogo Sonic Chaos. Principalmente a faixa da Electric Egg Zone.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Resolva com os Profetas

"O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal." Machado de Assis, Iaiá Garcia
Os lábios de Isaías tocados pelo fogo, por Benjamin West

Registro de 2007 da composição

      Gessingerianamente... a intervenção poética surgiu como que influenciada pela composição Cinza, parceria entre dois terços da formação clássica dos Engenheiros do Hawaii: Gessinger & Maltz. Nela, Maltz surge fazendo um quase-rap. Por muito tempo eu tentara compor uma canção/poema chamada "Ninguém me contou assim". A cada dois versos (Ex: As palavras que são ditas santas/Nos caminhos da via sacra/Ninguém me contou assim.). Quem diria que seria justamente esta a frase a ser retirada? Como várias melodias, a tenho na cabeça até hoje. Mesmo assim, calcei os versos como luva na harmonia de Kulakauskas. Ainda mais: a parte da letra que ele cantava falava sobre o divino e minha letra mencionava "a via sacra", quais eram as chances dessa sintonia contextual?

          Isso permitiu a justaposição de ideias sem que se dê por conta. Dadas as sempre devidas proporções, esse processo de aglutinação musical remete ao feito por Lennon & McCartney na emblemática A Day in the Life. Do ponto de vista poético, a canção apresenta uma insatisfação condizente com a idade. Os questionamentos à grandes pilares da sociedade faziam parte no último ano do ensino médio. Qualquer um pode se identificar com isso. Com o passar dos anos, é uma composição não muito comentada. Um par de anos atrás, quando um repertório foi considerado para uma possível reunião da Falsa Modéstia esta música não recebeu nenhum voto entre as trinta e quatro consideradas. E isso não é um problema. Numa das comemorações de aniversário do álbum Longe Demais das Capitais, Humberto Gessinger afirmou ter ignorado a faixa Fé Nenhuma justamente por crer que, era sim, um momento de acreditar. Nesse sentido, a canção é uma foto daquele período, mesmo quando esmaece.

Resolva com os Profetas (2007)


Não adianta, não resolve
Vamos chorar por mais
2000 anos de nossa história
Vamos esperar, vamos aguardar
Deus nos enviar um homem
Para nos salvar de nossa paranoia
A vida é longa demais
Para cada inseto que passa por aqui
Sonhando acordado com contos de fadas
E novelas infames

Nunca adianta, Nunca resolve
Parar de tentar, sentar e esperar
Ele não proverá
Falta de águas, Falta de terras
Para os que lutam o caminho escolhido
É sempre a guerra

As palavras que são ditas santas
Nos caminhos da via sacra
As palavras que são ditas puras
E aquelas que são ditas nada
Hipocrisia é sempre as mesmas rimas
E devagar sempre a mesma balada
Bem no meio do deserto
Não está o recanto de puras águas
Se o presente imitar o passado
Estamos com os dias contados


Não adianta, não resolve
Vamos chorar por mais
2000 anos de nossa história
Falta de águas, Falta de terras
Para os que lutam o caminho escolhido
É sempre a guerra

Não adianta, Nunca resolve

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Para Contato (Marte)

"A solidão é, mais ou menos, uma circunstância inevitável. Às vezes, porém, esse senso de isolamento, como ácido espirrando de uma garrafa, pode inconscientemente corroer o coração da pessoa e dissolvê-lo. Podemos ver isso, ainda, como uma faca de dois gumes. Isso me protege, mas ao mesmo tempo me dilacera por dentro. Acho que a meu próprio modo tenho consciência desse perigo -- provavelmente, por intermédio da experiência --, e é por isso que constantemente mantenho meu corpo em movimento, em alguns casos forçando-me até o limite, a fim de curar a solidão interior que sinto e colocá-la em perspectiva. Não é tanto um ato intencional, mas, antes, uma reação instintiva." Haruki Murakami, Do que eu falo quando falo de corrida.

STS040-610-049 Mar Egeu Junho 1991


         Tire a microfonia, retire a cacofonia sonora. Sobra alguma coisa dessa composição? Você, leitora ou leitor desse texto é quem decide, afinal, provavelmente não tenha o parâmetro da gravação caseira feita em 2007. Décima primeira faixa da demo Falsa Modéstia, Para Contato (Marte), iniciava a trilogia da primavera (que segue com Um Conto no Jardim e Para Ela), inspirada na trinca do álbum Gessinger, Licks & Maltz da Engenheiros do Hawaii. Ali, travei contato com as possibilidades de um tema recorrente em canções. O Marte do título era por conta da microfonia ao final da música. Nada contextual à letra.
       O eu-lírico se dirige a um interlocutor desconhecido - senso de despeito inapropriado? - inconformado com uma decisão que lhe fugia ao controle. Na primeira estrofe predomina o caráter de negação, sintetizado pelo uso do não a iniciar os versos. Em seguida ele se dirige a outrem. "Parem de falar que as coisas são assim, sem ao menos entender!" Ele grita várias vezes como quem se faz de surdo. Aqui, cabe uma reflexão de um texto do psicoterapeuta Flávio Gikovate: Acredito que é direito legítimo de cada um falar ou não com qualquer outra pessoa. O fato de ela querer muito nossa atenção não nos obriga a aceitar sua aproximação. E isso independe das intenções de quem deseja o convívio. A postura demonstrada pelo eu-lírico nesta canção é carregada de prepotência e egoísmo. Sua insistência demonstra apenas a falta de respeito e a vontade de magoar gratuitamente, como fosse um direito!
        Isso fica evidente no trecho final da canção. Um poema aliterativo inspirado na apresentação de V no filme V de Vingança. As coisas já começam mal: "E no prelúdio irei me predispor a te prender se precisar" e essa atmosfera densa se mantém ainda ele prefira colocar palavras doces como primavera nessa equação desconsolada. O que suas lágrimas devem evocar? A decisão mais acertada para tal personagem seria respirar fundo e aceitar o conselho dos que ainda se prezavam à dá-lo: as coisas são assim mesmo. Não se deve confundir insistência com inconveniência.

Para Contato (Marte) - 2007

Não acredito no que você me disse
Não acredito que aquilo quis dizer
Não faço apostas, nem estou triste
Só não me diga o que fazer
Não vou deixar de te ver

Parem de falar que as coisas são assim
Sem ao menos entender
Quem sabe o que fazer?
Quem sabe o que falar?
Para onde estamos indo não dá pra voltar!
Não dá pra voltar!!

E no prelúdio irei me predispor
A te prender se precisar
O principal é sim precário e na pratica
Serei precavido ao proteger
O precioso prêmio
Que desde o início me privei
A primavera que por prece
Deixou de ser profana
A primavera que por fim de prantos
Trouxe-me você!

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Falsa Modéstia, a banda

"Na estação de trem
Um gosto de lágrima no rosto
Palavras murmuradas 
Que eu quase nem ouço 
Em algum lugar no tempo 
Nós ainda estamos juntos 
Em algum lugar 
Ainda estamos juntos 
Não guarde mágoa de mim!"
Biquíni Cavadão

Fábio Kulakauskas, Thales Salgado, Bruno Oliveira e Bruno Cortez no Encontro das Nações de Arujá em 2008

2007 – Falsa Modéstia
13. Para Ela

    Quem disse que "recordar é viver" estava certo. Ou quase. Talvez recordemos justamente por estar vivos. A vida permite o recordar. Argumente que "nem todas as pessoas são capazes deste feito" e você, leitora ou leitor de percepção aguçada, também estará certa (o), restando a mim, apenas o contra-argumento: apenas cerca de 4, 815% da população não possui essa capacidade e iria além! 1, 623% se encontra no lado das memórias prodigiosas. A pesquisa na qual baseio estes resultados foi realizada com um grupo aleatório de 42 pessoas ao redor do globo... sim. Concordo contigo. Não é uma amostragem significativa, isso invalida o primeiro parágrafo? Na dúvida, melhor passar ao segundo.
         Salvo melhor juízo, quando vim a conhecer o Thales a Falsa Modéstia já não existia. Era uma série de conceitos; Lembro de um que ele atribuía ao sr. Fabio Kulakauskas. Seriam dois zeros, mas unidos formariam o símbolo do infinito. Era sobre tentar passar uma mensagem, talvez, contra os vazios existenciais. Talvez. Nunca chegaram a usar o conceito. Quando você tem dezessete ou dezoito anos uma torrente criativa o conduz a mares nunca navegados. Some dez anos e, você pode estar à deriva, lutando para manter a criatividade em outros meios, sejam textos acadêmicos, vídeos institucionais, ou fotos. Pode até ser, não exista realmente uma "luta". As coisas se transformam e isso não é bom nem mau. Simplesmente acontece. Nunca conheci todos os integrantes para saber suas histórias. Isso pode me tornar tanto um mau jornalista quanto um defensor de Renato Russo, afinal, todos tem suas próprias razões.

Primeira edição da revista Gente S/A

         No decorrer de quase um ano em que esse blog está no ar, eu, Luís Jorge Barros, tive a oportunidade de escrever algumas vezes acerca de algumas músicas. Àqueles perguntando qual o sentido deste espaço, talvez, seja esse: manter vivas as histórias. Thales tem empreendido, sem muito sucesso devo admitir, uma pesquisa acerca da relação entre a geografia e a música. É de seu agrado quantificar até que ponto ele ter sido criado na cidade de Arujá influenciou seu modo de pensar e, por extensão, suas composições. Da mesma forma que o pelotense Vitor Ramil tem em desenvolvimento constante sua Estética do Frio (fundamentada em rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia) ele procura saber como "acabou nisso", essa obsessão em tornar a vida em canção, mesmo que, "os sons da cabeça não tenham encontrado a melhor tradução", palavras dele que replico aqui.
         Enquanto editor, sugeri a ele colocar o marcador "Arujá" para as composições feitas nessa cidade. Na lista que encabeça esta postagem então links aos textos de dez canções entre as primeiras do grupo. Entre as quatro pendentes (Resolva com os Profetas, Memórias Distantes, Cantillena Sant'Anna e Para Contato - Marte) há parcerias entre os integrantes e músicas solo. Talvez, olhando agora, não houvesse unidade. Certamente, havia uma vontade de traduzir uma identidade coletiva. "Se vi mais longe foi por estar sobre os ombros de gigantes" tomo emprestada a frase de Newton como um pilar de acontecimentos que não vivi. Ao ler os textos de origem das canções, fica a certeza de que, havia sempre um senso de pergunta e resposta sutil entre os integrantes. Uma retroalimentação positiva. Eles enxergavam assim à época? Pode ser que não, mas havia.

Foto da apresentação no Encontro das Nações de Arujá em 2008
         Tendo em vista a distância entre intenção e gesto, tomei a liberdade de inserir nesse texto os vídeos do Yeld Music Live Festival, ocorrido na cidade de Guarulhos, por serem, até onde pude apurar, os únicos registros que se tem notícia da banda. O agradecimento fica para Bruno Cortez, não fosse ele, é bem provável ninguém os teria. Mais que isso, o upload ter sido feito naquele período torna o registro melhor. E, quando digo, melhor, afirmo como registro histórico. No sentido qualitativo, tendo a concordar com Ivan Carolino em um dos comentários "ao vivo estava um pouco melhor". Essa era a vida, senhoras e senhores! Como não seriam gravações atuais? Por vezes, até a imaginação se perde aqui: um teatro, os instrumentos acústicos que povoaram o imaginário da geração crescida nos anos 90. Talvez a banda no meio do público, velas, panos pretos reverenciando a natureza trágica das canções esperando a chegada do sol após dez anos de silêncios... Seria possível? Tomando as palavras de Lô Borges: ou será que é tarde demais?