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terça-feira, 15 de junho de 2021

P.C.L.R.

"Durante vinte anos só pensara em seu retorno. Mas, ao chegar, compreendeu, surpreso, que sua vida, a própria essência de sua vida, seu centro, seu tesouro, encontrava-se fora de Ítaca, nos vinte anos de suas andanças. E, esse tesouro, ele havia perdido e só voltaria a encontrá-lo contando (...) A um desconhecido perguntamos "Quem é você? De onde você vem? Conta!". E ele tinha contado. Durante quatro longos cantos da Odisseia, diante de atônitos feácios, relembrara os pormenores de suas aventuras. Mas, em Ítaca, ele não era um estrangeiro, era um deles, e por isso a ninguém ocorria dizer: "Conta!". A Ignorância, Milan Kundera, Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, Companhia de Bolso.

Arte de @ellaproenca


P.C.L.R. (2021)
Letra e música: Thales Salgado

O que você tem feito?
Como foi sua vida?
O quanto desconheço
Do mundo que te habita?

Tanto ignoro de sua odisseia
Você foi cachoeira ou ainda é?

Refrão:
Quem é você, agora,
De onde veio? Conta!
Se quiser cantar.

Décadas passam lentas
Foram incalculáveis
Todos os fraseados
A perpassar o seu rocar

Ainda ri com olhos de escudo
Ou avistou sereias em Araruama?

Refrão

Tu és protagonista em uma história
Vejo tuas mãos nas cordas
Cantar rosa do futuro.

Refrão

    Esse texto conversa com o da semana anterior, Interescolar, não apenas por ter sido redigido pela mesma pessoa, claro, mas por ter na cidade de Arujá um ponto de convergência. Mesmo assim, não o pautarei pela psicogeografia, tampouco o considero um retcon, mesmo que a amizade que catalisou esta letra tenha surgido em minha infância, muitos anos antes de eu sequer tocar violão.

    Tendo o primeiro afastamento ocorrido com o fim do Ensino Fundamental 1, que eu fosse bater em sua porta cerca de mil dias depois, como fazia quando éramos crianças, deve ter sido estranho, para dizer o mínimo. Com isso, não me eximo da responsabilidade, todavia, confesso sempre ter tido a tendência a aparecer sem avisar. Teria o hábito nascido naquele 2004?

    Forçando a memória, me pergunto se o Orkut teve alguma relação com o evento, afinal, tendo sido lançado naquele ano, abria-se a possibilidade para manter todas as pessoas com quem já se tinha falado na vida ao alcance de um clique. No entanto, minha memória animal é falha. Mesmo consultando a Wikipédia, o máximo que descobri foi que a versão em português surgiu apenas em abril de 2005. Nada, além da falta de convite, impediria o uso da versão em inglês. Divago.

    Fomos nos encontrar novamente alguns anos depois e, mesmo que indiretamente, Paula Lima estava presente em algumas histórias de textos neste blog: em sua garagem, ouvi Segredos em Sussurros pela primeira vez. Na mesma rua que a sua, fiz parte da composição de Tributo aos Sentimentos, em outra visita à garagem, compus minha primeira melodia, que veio a se tornar Um Caminho para o Céu. Assim como também foi na praça em frente a sua casa que germinaram os versos que tornaram-se Madrugada. Isso para ficar em poucos exemplos. A distância não afasta, por exemplo, o sabor de um belo brigadeiro de panela...

    Treze anos depois, ela não apenas me dá um vislumbre de como soam composições que ela viu nascer com voz feminina, como a que ela mais gosta, Um Conto no Jardim, como me mostrou em primeira mão as letras de suas próprias composições, que pretendo comentar futuramente no blog, ambas contendo uma verve de consciência tanto social quanto sentimental de um modo que eu mesmo não alcancei em anos de ofício. Além disso, se em Um Conto, o eu-lírico falava em "quase um ano se passou", hoje, um outro eu-lírico pode constatar: "décadas passam lentas".

    Esse último salto na cronologia, tem um ar Floydeano "e então, um dia você percebe que dez anos ficaram para trás" mas conserva um aspecto das amizades que me chama a atenção, a possibilidade de elas desdobrarem-se de acordo com a vida. Enquanto refletia esse tema, me deparei com o artigo How Friendships Change in Adulthood (Como Amizades Mudam na Idade Adulta, em tradução livre) publicado em 2015 por Julie Beck, editora sênior no The Atlântico, falando sobre a estrutura das amizades, suas categorias, características, circunstâncias que levam ao fim etc. Nele, destaco um trecho que traduzi mencionando o trabalho de William Rawlins, professor emérito de Comunicação Interpessoal da Universidade de Ohio:
"Os entrevistados por Rawlins tendiam a pensar em suas amizades como contínuas, mesmo se eles passassem por longos períodos em que estivessem sem contato. Essa é uma visão um tanto positiva demais - você não assumiria estar em bons termos com seus pais se não tivesse notícias deles por meses. Mas a suposição padrão com amigos é que vocês ainda são amigos."
    Voltando às composições dela, foi justamente no dia seguinte a trabalhar na harmonização de uma delas, um forró, em janeiro deste ano, que P.C.L.R. nasceu. Eu não tinha intenção de fazer, mas ela começou a se delinear. Eu havia acabado de reler A Identidade, de Milan Kundera, e o trecho encabeçando este post voltou a me chamar a atenção. Me perguntava como teria sido a vida dela durante estes períodos, por onde ela andara? Coisas que, como diz o trecho, não perguntamos a pessoas que conhecemos. Até para destacar a influência da obra na composição, tarantinei seus versos no refrão "Quem és tu? De onde vens? Conta!".

    Afinal, podemos até procurar nos informar por postagens nas redes, ver as localizações,  mas nunca saberemos quais foram/eram as percepções das pessoas durante as vivências a menos que… elas nos contem, uma foto não informa se quindins foram ao forno ou não(!). Por estar acompanhando seu canto durante esse período de isolamento, decidi que o verso funcionaria melhor contemplando cantar em lugar de contar.

    Entre as conversas que tínhamos, ela me falou de como amava a bateria, tocava tocar, arranhava tamborim e surdo de terceira. E, ali, abria-se um outro mundo dentro da música, já que nada entendo de percussão. Era certo que o rocar deveria fazer parte dos versos.

A letra já organizada com as referências
    Pensando nas influências que surgem sem que estejamos plenamente conscientes, o termo 'protagonista' surgiu após ter assistido a Tenet pela segunda vez - na vã tentativa de gostar do filme para além de seu conceito. Musicalmente, meu pensamento flutuou por músicas como Todo o Tempo do Mundo, versão de Zeca Baleiro para a composição de Rui Veloso, Omission de John Frusciante e até Promessas de Navegação, da Vanguart, no sentido de que a música começa sem muitos rodeios.

    Considerando como as conversas já faziam parte de minha base para a letra, me admira que, apenas em fevereiro, tenha me ocorrido o título: Pequenas Conversas Levando ao Real, ao mesmo tempo em que o acrônimo guardava mais que lima e a rosa.

    Eu pensava em tudo isso quando, na noite de aniversário de Arujá, entrei em contato com a multiartista Isabella Proença para pedir a ela emprestar seu talento para ilustrar esta canção. Fiz o possível para resumir o encadeamento que me levou aos versos e deixei a critério dela a existência, ou não, de uma figura humana. A meu ver, o essencial na cena era o céu rosa e o pé de laranja lima (sem relação alguma com o livro de José Mauro de Vasconcelos ilustrado por Jayme Cortez, o filme de Aurélio Teixeira ou o de Marcos Bernstein) em que um rocar repousaria.

    Foi uma escolha dela, tanto seguir com a figura a observar a cena, criando, a meu ver, uma segunda camada de contemplação, quanto deixar tudo no mesmo tom do céu, criando a sensação de unidade, algo que eu sequer me passou pela cabeça durante a proposta mas, concluída a obra, sinto que não poderia ser de outra forma, quase como a areia fosse rica em minerais como cálcio, magnésio e potássio. Mais uma vez, sua arte traduz uma parte na outra - questão de vida ou morte diria Gullar - bastando-se por si, mesmo para quem jamais pouse os olhos em meus versos.

    Tão logo terminei de gravar a demo da canção, encaminhei para Paula via WhatsApp e, assim como Nando Reis, não tive resposta. Não que seja necessário, mas não podia deixar esta referência passar.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Interescolar

    Uma das frases que mais citei nos últimos sete anos é "Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal." É por ela já constar no texto que fujo do formato habitual do blog.
    Desde antes da leitura de Cordilheira de Daniel Galera, ainda me recordo da edição e conteúdo do Anticast 42 entrevistando o autor, em que conheci a frase. Terminei a audição já me intitulando admirador do trabalho dele, algo que foi se consolidando durante a leitura de seus livros, à exceção da Graphic Novel Cachalote e d'O deus das avencas, que será lançado este mês, mas divago.
    Na narrativa de alguém que quando criança, viu jovens de uniforme amarelo e uniforme azul aos sangues pelo simples ato de passar um na frente da escola do outro, ter amizade com pessoas de outras escolas parecia um ato revolucionário! Quase uma aventura.
    Há quem diga que nada havia de estranho, essas ramificações eram possíveis não por que houvessem rastros iluministas naquela juventude mas simplesmente por, tendo muitos deles cursado o fundamental I na mesma escola ser lógico que, apesar do afastamento motivado pelas rotinas, a convivência na infância permitir uma adolescência para além do ciclo de violência interescolar... O que sei eu?
    Fico contente de ter atendido com meu irmão o anúncio que falava em aulas de violão gratuitas aos sábados, no Programa Escola da Família. Esse foi um dos momentos que conduziu a este dia, em que dois alunos da E.E. Esli Garcia Diniz e dois alunos da E.E. Dr. René de Oliveira Barbosa se apresentavam juntos na E.E. Washington Luiz Pereira de Souza, na cidade de Arujá.

Da esquerda para direita:
bob no baixo,
 Fabio Kulakauskas no violão e vocal
 e Thales Salgado nos violão solo.

    Ao olhar no Google Maps, pode-se notar a proximidade entre as três escolas. Não era difícil trafegar este escaleno (que outras chances alguém de Humanas tem para falar em triângulos?) e, por isso mesmo, é muito fácil constatar o óbvio: a possibilidade de estas pessoas se encontrarem não era destino, era probabilidade. (Dr. Jack Shephard, parafraseio você!) Mesmo assim, que por um momento tenham escolhido unir-se com uma intenção e ideal era isso: uma escolha. 
    Parte dessa escolha partiu de algo para o qual, naquele momento, eu não tinha poder para alterar: a cidade em que cresci. No livro de Places of the Heart. The Psychogeography of Everyday Life, o neurocientista e psicogeógrafo Colin Ellard comenta que "as definições de dicionário mais austeras indicam que a admiração também pode abranger elementos de transcendência. Essas experiências nos levam a deixar os confins limitados do espaço corporal e nos encorajam a acreditar que nossa existência constitui mais do que apenas um batimento cardíaco dentro de uma frágil concha orgânica. Experimentamos uma sensação de existência ilimitada quando as fronteiras temporais e espaciais que nos prendem à realidade desaparecem repentinamente".
    Residindo em Guarulhos desde 2013, é em experiências assim que penso quando chega o dia 8 de junho, aniversário de Arujá. Há alguns dias vinha pensando acerca de qual música composta na cidade falar nesta data e, no fim das contas, mudei de ideia para reconfigurar este texto originalmente postado no Facebook com 200 palavras para as pouco mais de 500 que ele conta agora. Outras nuances, fotos, detalhes, menos síntese.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

A Menina em Sépia

“Dr. Louise Banks: Se você pudesse ver sua vida inteira do início ao fim, você mudaria as coisas?Ian Donnelly: Talvez, eu diria o que sinto com mais frequência. Eu, eu não sei.” - A Chegada, 2016, de Denis Villeneuve, com roteiro de Eric Heisserer baseado no conto História da Sua Vida, de Ted Chiang.






A Menina em Sépia (2008)

Não me adiantaria o torpor eterno
Se a consciência não parasse
Para me fazer descansar
De tantas viagens
Onde as paisagens não eram alivio
Para ninguém, e o "não" 

E o "não" era tantas
Vezes que se ouvia
Que já era raro alguém
Não viver no oposto da emoção

Estava-se preso em locais
Distantes, tão seguros
Que eram n'outro tempo
Os vocábulos reprise, tentação

Me mudei
E cai, enquanto agora
Espero alguém aqui
Talvez o sono não venha mais
E você, meu "sonho"
Vem?

Minha bela estrela
Venha me calar
Não tenho palavras
Mas posso cantar
Minha bela estrela
Paralisa-me o seu doce olhar
Minha bela estrela
É um sonho, não quero acordar.

         Antes de escrever este texto, fui procurar um calendário perpétuo. Nele, verifiquei que o dia 15 de junho de 2008 foi um domingo.
       Apesar de não ter encontrado, digitalmente é bom dizer, nenhum periódico da região do Alto Tietê da época para fundamentar essa alegação, imagino este tenha sido o encerramento do “Encontro das Nações” de Arujá.
       O que coloca a primeira apresentação da banda Falsa Modéstia no evento, ocorrendo, salvo melhor juízo, no dia 12, uma quinta-feira. Isso é importante, pois, como bem pontua Nando Reis no vídeo em que explica a história por trás da letra de Dois Rios “a memória é a forma como a gente pensa, na atualidade, o que se passou. Aí já começa toda a viagem. Da mesma forma, quando se escreve uma coisa no passado e, ao longo do tempo você mantém contato com ela, ou quando você volta a ter contato com ela (...) o significado, mesmo que remeta e remonte ao que foi feito anteriormente, ele está inalienavelmente associado ao que se dá agora”.
       Dentro do período de sete meses e meio entre a apresentação na E.E. Esli Garcia Diniz e o Encontro das Nações, muita coisa aconteceu. As mudanças mais superficiais tendo sido meu aniversário de 18 anos e o fim do Ensino Médio. Outras mudanças, mais sutis, todavia, se consolidavam, como a percepção de que o ditado “a primeira impressão é a que fica” ou estava equivocado, ou apresentava exceções.
A pesquisadora da Universidade de Nova Iorque Irmak Olcaysoy Okten investiga processos de percepção pessoal e autopercepção, com foco específico nos papeis da memória e motivação nestes processos e tem um artigo de 2018 muito interessante sobre o assunto e ele pode ser apreciado “aqui”.
      Outra mudança no universo particular, se deu no número de composições. Se em outubro de 2007 havia cerca de 14, reunidas com o intuito de compor o repertório autoral. Em 2008, o ato composicional prosseguia de maneiras distintas, já sem um prazo específico, resvalando em uma série de temas como a solidão em O Sol Só II, Lost, como não poderia deixar de ser, em Constante. Além, é claro, da canção que nomeia este texto.
Nascida refletindo especificamente as mudanças sutis ocorridas nesse período supramencionado, minha lembrança é de, naqueles dias, descer ao centro da cidade com um CD-R com as composições e, entre elas, esta. A primeira composição em que utilizei uma gaita diatônica. Como possuía apenas uma em Mi maior, era imprescindível que esse fosse o tom. Sua melodia revolve em torno de “E C#m G#m A / F#m B”. Apesar de minha limitação com o instrumento, seguia meu interesse consciente em que as composições tivessem mais de três acordes.
         Sua letra foi escrita refletindo em andanças pela cidade e, mais que minha dileção por fraseados floreados, há nela, algo de inexperiência: Quanto se pode conhecer em sete meses? Como se pode agradecer a alguém por falar de vida?
Estas perguntas, entre outras, iam e vinham.
      Se hoje, 2020, posso ligeiramente seguro, tentar emprestar as palavras de Haruki Murakami de que “para pintar um retrato com vida, é preciso compreender a essência escondida nas feições de cada pessoa”. Isso vem de uma série de leituras e vivências ocorridas no espaço de doze anos. Hoje, pude fazer um desenho no dia 6/01 e outro no dia 26/01 sem que fossem tão funcionais quanto um desenho feito no dia 24/05.
Para o desenho feito em 2008, baseado na mesma foto que inspirou o título da canção, apresentado aqui com uma máscara de cor que o diferencia da versão original, eu poderia dizer, emprestando palavras de Dominick Cobb, no filme Inception, dirigido e roteirizado por Christopher Nolan: “eu não consigo imaginá-la em toda a sua complexidade, toda a sua perfeição e imperfeição. Você é apenas uma sombra (...) você é o melhor que eu posso fazer”.
       A música, carrega isso. Ela abarcou, inclusive, a leitura que fiz de A Marca de uma Lágrima, livre adaptação de Pedro Bandeira para a obra Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. Decidi verificar nas páginas do livro de onde emprestei o conceito de uma pessoa personificada de sonho, não foi preciso ler muito. Bastou chegar ao capítulo 2. Mas essa imagem era tão interessante, que era impossível deixar de usá-la.
Essa inocência, poder-se-ia dizer, hoje, que me inspirei nas Canções de Inocência e Canções da Experiência de William Blake, mas, seria equivocado, visto que conheci o autor apenas na faculdade, está inserida em alguns dos versos e, talvez, seja até perceptível. Se eu ousasse descrever o tamanho do medo que senti ao perceber que utilizaria verbos possessivos nos versos finais do poema, não caberia aqui. Mas não ouso.
       Hoje não faz exatamente doze anos que compus esta canção, mas era importante, para mim, contextualiza-la dentro do espaço-tempo em que ela foi composta. Pensei que, durante a leitura do livro João Machado documenta: Arujá, Cidade Natureza poderia descobrir as origens do “Encontro das Nações” e assim traçar um paralelo entre o ontem e o hoje. A festa em que estive antes e depois de compor e em que, provavelmente teria estado este ano, não fosse a pandemia que, infelizmente, tem trazido vítimas muito mais graves que uma festa popular. Não encontrei o que procurava, talvez por, como bem pontua o sociólogo na introdução: a cidade ter “bloqueado os caminhos das lembranças, arrancado seus marcos e apagado seus rastros”.  
      Ainda assim, há um outro ditado: nós podemos ser escritores e editores de nossas próprias vidas. Enquanto não há presença, haverá, sempre, a lembrança.

domingo, 24 de junho de 2018

Dom Casmurro!

"Estilo, meus senhores, deitem estilo nas descrições e comentários; os jornalistas de 1944 poderão muito bem transcrevê-los, e não é bonito aparecer despenteado aos olhos do futuro." - Machado de Assis. "A semana". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1895.
 


         A gravação que acompanha este texto é a feita em 2009, com os erros e acertos no limite do que eu no alto de meus dezenove anos era capaz de fazer. Gravei primeiro o violão e tentei cantar de fôlego com alguma dificuldade. O "Ah Capitu" soa antinatural por ter sido inserido depois. Á época me era difícil cantar tocando a letra inteira. Letra essa que surgiu em meio à rota das cobranças como office-boy. Num dia inespecífico comecei a cantar "De minha infância lembro muito meu tio, minha mãe, o quanto isso hoje me diz é pouco" depois os jogos de palavras "quem captava a linha direta de minha rotina, por quem meu corpo perto optava por parar, tu captas que diziam: ela é coisa do capeta. Teus olhos de ressaca: Capitu". Algumas brincadeiras como o "europou" eram influência dos neologismos de Guimarães Rosa. Autor que só me lembro de ter prestado atenção à existência por influência dos professores na universidade. Mas pensemos na música.
       Dom Casmurro! surgiu no mesmo ano em que compus A Hora da Estrela. Não é coincidência. 2009, para efeitos deste texto, ficou marcado por dois eventos: minha incursão na faculdade de Letras e o fim da banda Falsa Modéstia.    
        Ambos eventos parecem carregados de coincidências. Desenho, então poderia ter feito Artes Plásticas. Navegando o sonho de perder a timidez e me libertar no palco poderia fazer Artes Cênicas. Compondo há alguns anos e já tendo a indicação de um técnico em estúdio para aprender a tocar com metrônomo, Música era a escolha certa. O gosto pela análise interpessoal parecia sugerir trilhar o caminho da Psicologia. Apreciando escrever, Jornalismo era para mim. Por menos opinativos fossem os textos naquele período - ou em qualquer um posterior. Memorialista que sou, poderia ser me desse bem estudando História. Por crer a Língua Portuguesa base para quaisquer estudos que fizesse acabei optando por Letras. 
           A banda também poderia ter seguido? Sim, de certo modo, ela o fez. Se durante um período a troca de um integrante era capaz de gerar uma banda com conceito completamente distinto (Falsa Modéstia/Cangaço) a banda Vacina seguiu com os integrantes levando a música, energia e vibração para todos os lugares e segui com as composições de dentro de meu quarto. Diria Anitelli: as claves na gaveta. Algumas como Para o Adeus (tributo a Michael Jackson) já tinham parte desenvolvida. Outras como Dom Casmurro! já estavam prontas e eram ensaiadas buscando um arranjo que as vestisse bem. Seguindo o exemplo d'O Teatro Mágico em Cidadão de Papelão comprei uma escaleta num passeio com Fabio pela Rua do Seminário enquanto levávamos os instrumentos para uma revisão com o luthier Erlon Alves.
        O caráter memorialista teria sido herdado de Machado? Os textos de 2007 ficaram conhecidos pelos poucos que os viram como "Memórias de um doceiro". Seguindo o exemplo das Póstumas de Brás Cubas, do Memorial de Aires, do próprio Dom Casmurro. Notei no último sábado, enquanto lia sobre a narrativa de Bento Santiago como há relação entre o momento em que ele vê os olhos de Capitu pela primeira vez com a forma descrita na narrativa de Sobre um dia de junho. Este blog, em si, são memórias. Mal se fala do futuro, senão, aquele vivido enquanto presente. A banda Falsa Modéstia flutua de memória em memória.

Dom Casmurro (2009)
Letra e Música: Thales Salgado

De minha infância lembro muito
Meu tio minha mãe
O quanto isso hoje me diz é pouco
Quem captava a linha direta de minha retina
Por quem meu corpo perto optava por travar
Tu captas que diziam:
Ela é coisa do capeta
Teus olhos de ressaca Capitu

O Pádua ficou louco
José Dias não europou
Mesmo com todos os superlativos
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana obliqua e dissimulada Capitu

Fui para o seminário
Pra São Paulo me mudei
Voltei formado como advogado
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana obliqua e dissimulada Capitu

Ah Capitu...

Ezequiel meu filho
Era a cara de Escobar
Os movimentos, o furor o brilho
No funeral Capitu
Dama negra desaguou
Chorava mais que a perda de um amigo

Ah Capitu...

Viajou para a Europa
Tão mais logo não a vi
Guardei em mente só uma certeza
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana Obliqua e Dissimulada Capitu

Ah Capitu...


          

sábado, 16 de junho de 2018

Sobre um Dia de Junho

"Recordemos, ao menos por um instante, o que merece ser lembrado, ficamos esperando que cada um dos lembradores não realize o projeto de buscar uma rua, uma casa, uma árvore guardada na memória, pois sabemos que não irão encontrá-las nessa cidade onde os preconceitos da funcionalidade demoliram paisagens de uma vida inteira. Ao darmos palavras as vozes que foram silenciadas, uma voz fica no espaço, gritando, aqui nada podem tocar e nada podem destruir porque só restam memórias, lembranças dos últimos dias e o último dia é hoje." - Umbelina Ferreira Barbosa, Arujá: cidade natureza, 2004 João G. Machado
Página de caderno de 2008


         A frase que abre este texto fora pensada para abrir Milonga de Partida e, por descuido, acabou de fora. Sobre um dia de junho era uma das poucas composições que só entraria no blog dentro deste específico mês. Mais por uma questão de princípio que por outra coisa. Quando a escrevi, a intenção era a de tentar trabalhar um lado narrativo para as composições da banda Falsa Modéstia. Você cresce ouvindo narrativas e se pega pensando quais as possibilidades de fazê-lo. Para este caso não foi tão simples quanto imaginado, por mais que a cena em questão seja banal. Imagine a cena: duas pessoas numa praça, acima delas as arvores, acima dela, a lua. O junho no título vinha apenas para trabalhar a atmosfera entre algum ponto entre o outono e o inverno. 

         Sua melodia tem como ponto de partida a canção João e Maria de Chico Buarque, canção que eu ouvia muito tanto pelo álbum Seu Francisco de Oswaldo Montenegro quanto por influência dos devedês do mestre Robson Miguel. Suas outras duas partes não tem uma origem tão clara, eram, sim, parte da intenção de criar uma dinâmica diferente para a música, quebrando a expectativa de um possível ouvinte. Aconteceu que, enquanto gravava, o celular tocou e, por descuido, não estava no silencioso. Decidi usar a gravação antiga, pois, esse toque de meu antigo Nokia 5200 era o som do monstro de fumaça de Lost, diretamente do trigésimo quinto episódio da série O Salmo 23. Ainda que sem saber realizar harmonias vocais havia sempre uma vontade de ter outras vozes a cantar junto e assim dobrava minha própria voz na terceira parte da canção. Após o final, um interlúdio instrumental. Estava aí, Sobre um dia de junho.

Sobre um dia de junho (2008)
Letra e música: Thales Salgado

A luz da lua passando entre as arvores
Deixava mais inconfundível
O brilho de teu olhar,
Que havia sido até então
Observado de longe
O frio estava com medo de se aproximar
Dançava como uma brisa leve
Que fazia espalhar
Ainda mais o teu perfume

Pela noite que era bem-vinda
Tanto quanto teus cabelos
Escorrendo como água em minhas mãos
Fica a lembrança que me paralisa
Do momento em que a certeza
Foi criada em um mar de palavras

E em meio a nossas conversas
Nos calamos juntos
Fazendo daquele silêncio
O mais bonito que tivemos
Com as dúvidas sanadas
E o desejo saciado
Sem arrependimento
Sem vontade de partir

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Milonga de Partida

"Conheci um paulista que disse que depois que leu “A Estética do Frio” ele se deu conta de pensar nas coisas dele, de São Paulo, de como ele se via dentro do Brasil, dos preconceitos que ele tinha em relação a isso ou aquilo. Essa coisa de tu tirar o centro do lugar é muito legal, essa coisa do “não, não estou à margem do centro, isso aqui é um centro”. Tu pode determinar o teu centro em qualquer lugar: se tu é do Piauí, tu pode enxergar esse centro. Eu acho que todo mundo que cria, por mais que tu esteja ligado com o mundo — e eu acho que tu tem que estar ligado com o mundo, sabendo tudo — tu tem também que saber o que está acontecendo na tua rua; o universo passa na tua rua. Tu tem que estar ligado plenamente nas coisas." - Vitor Ramil em entrevista para o site Screamyell em maio de 2017

Gravação feita em 2013:

Milonga de Partida (2013)
Letra e música: Thales Salgado 


O rio que nunca cruzei 
Caudaloso vi findar 
Um fantasma do que sou 
A noite vem me lembrar 
Quando criança fui
O hino me fez jurar 
Que eu ficaria ali 
Por tanto amar o lugar
E agora que cresci 
Acabei por me mudar
Quanto de mim ficou 
Nas terras de Arujá? 

Estrelas, girassóis
E tulipas nos jardins 
A primeira canção 
Já é mais de uma em mim
Sem falsa modéstia
Eu penso em visitar
Numa memória distante
Me transportei para lá 
E hoje quem ficou 
E não mais me vê passar 
Apaga tudo o que fiz 
Das terras de Arujá


        Quando olho para as composições feitas entre 2007 e 2013 percebo não haver marcas geográficas aparentes. Ainda que, no início, o transporte das canções entre as cidades de Arujá e Itaquaquecetuba tenha sido representativo para o que viria depois, não houve necessidade para refletir sobre isso. Em 2007 Memórias Distantes menciona emprestar palavras “de algum lugar” mas não esclarece. Em 2008, Canção para ti versa “as asas multicoloridas da joaninha refletem pela mata o brilho dos vagalumes” ainda assim é mais um reflexo do deslumbramento com a faixa de abertura do álbum Matizes de Djavan.
Arujá é a cidade natureza mas, a mata na canção seria a mata arujaense? Teria o inseto sido avistado na estrada da P.L., nos arredores do ginásio no Jardim Rincão ou até mesmo nas proximidades do Macaxeira antes de erguidas suas grades? Apacresce, de 2009, inicia com “Eu a vejo passear graciosa, pela estrada vai sozinha” e, embora esse avistar tenha se dado em algum lugar entre a Santa Catarina, a Amapá e a Piauí o fato não influencia a letra.
         A letra de Meio-dia (2010) menciona um velho deitado no banco próximo à fonte na praça do coreto, alguém realmente avistado mas num espaço em comum com uma série de outras memórias. A questão de endereços foi parte do que constitui a letra de Pode Ser em que um eu-lírico declara “a cidade é nossa, nada se perdeu”. Morando numa cidade pequena, coincidências são lugar comum. Certamente alguém se esbarrará no centro.



       A mudança de cidade criou a necessidade de pontuar uma canção com algo mais concreto: quanto de mim ficou nas terras de Arujá? Assim, sem me valer de acrósticos era premente mencionar o rio Baquirivu, e o hino da cidade, composto por Toninho da Pamonha e oficializado em 1985. Em agosto de 2017 enquanto lia o livro Arujá: Cidade Natureza de João G. Machado talvez me tenha passado pela cabeça o Encontro das Nações e minhas interações com a festa. Primeiro a criança tomando noção da existência de outras culturas, passando pelo adolescente buscando estar “onde todos da cidade estavam”, mais tarde como músico se apresentando junto a meus amigos por dois anos seguidos e, hoje em dia, como o visitante da cidade vizinha. Assim, foi um alento saber no início da semana que a festa, como patrimônio municipal, não deixaria de ocorrer em eco resultante da greve dos caminhoneiros que a postergou.
         É provável que o espaço e o lugar influenciem o desenvolver da arte individual. Em 2013 ouvindo e lendo sobre a Satolep de Vitor Ramil fui tomado da vontade de escrever sobre onde era a casa, é por esta influência sulista que me veio a ideia de nomeá-la "milonga". A cada visita encontro algo novo por lá. Arujá é cidade mutante, mutável e até o que nasceu memória tem fim. Mas ela também vive em quem, por lá, passou.

sábado, 14 de abril de 2018

A Idade da Alma

"Os objetivos que perseguimos são sempre velados. Uma garota que anseia pelo casamento anseia por algo do qual nada sabe. O garoto que intensamente deseja a fama não tem ideia do que ela seja. Aquilo que dá a cada um de nossos movimentos seu significado é sempre totalmente desconhecida para nós." - Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.


Funerais e Sepultura e o Modo de Chorar os seus Defuntos
 Jean de Léry

A Idade da Alma (2013)

Mas era outono:
Palavras em gravidade
Amargas horas sôfregas de Ser
Na chuva, sem nome
Sobrevoo a cidade
Uma sucessão de silêncios azuis
Tuas velas, tão serenas
Adornavam nuvens de Razão

A Idade da Alma desafia Cronos
Sem lastros transmuta a seu bel prazer
E o que é preciso é aceitar
O que é preciso?

Mas já me enganara:
Estranho na própria rota
Desenho sons em gotas de sabão
Nas trevas, sementes
Florescem minha tragédia
Indigno do tento almejar
Tantas pressas ladeavam!
Claro o pensar mas turva a ação;

domingo, 28 de janeiro de 2018

Depois de Tanto Tempo: Memórias Distantes

E depois de tanto tempo eu retornei a sua ligação.
Você me disse "Alô" e disse que não saberia o que dizer
E depois de tanto tempo eu lembro do que eu disse a você:
"Se o mundo todo está perdido, que mal tem a gente se perder?"
E depois de tanto tempo... você me disse que gostou do que escrevi 
E para eu não seguir o que senti, você me disse adeus disse que era pra sempre 
Depois de Tanto Tempo, 2008




         Que Depois de Tanto Tempo surja antes de Memórias Distantes é um pequeno anacronismo já que os versos finais da composição foram pensados apenas em 2008, ano seguinte à composição. Ainda assim, as ideias surgiram juntas. Duas composições interligadas em conceito e melodia e em que não há receio em trabalhar com a simplicidade. 

Foto: Valentin Gladyshev (iStock Photo)

CENTRO DA CIDADE DE ARUJÁ
ENTRE AGOSTO E OUTUBRO DE 2007
"Precisamos ter uma música com assobio! Algo como Patience do Guns. Que fosse pra cima, sabe? As músicas felizes são as que mais gosto de ouvir." Bruno Oliveira



Memórias Distantes (2007)

Se eu escrevesse uma canção
Não me leve a mal
Sei não seria grande coisa
Com as palavras emprestadas de algum lugar
E uma melodia tolamente alegre
Se eu trouxesse do futuro um dia qualquer
E embrulhasse pra presente
Eu te daria pra fazer você sorrir
E sentir eternamente

Por você não seria exagero
Eu faria com prazer
Mas se tudo der errado
Amor, tente me entender

Memórias tão distantes
Não sou mais como antes
Como poderia ser?
Você está mudada
Isso não muda nada
Eu daria a vida por você

Se eu cruzasse todo o mar
Para te encontrar
Num barco guiado ao acaso
Eu chegaria antes de você pensar
Meu lugar é a seu lado

MEMÓRIAS DISTANTES

         Qual a gênese das canções alegres? Quando conheci a cantautora Roberta Campos foi uma das perguntas que tive tempo de fazer e acabei por receber uma resposta num riso misterioso. Em que lugar se esconde o sol sem dó a cair em mim? Rés do chão. Canções feitas lá perto de um ribeiro em que seguia passos? Enfim, elucubrações avulsas enquanto procuro uma maneira de iniciar esse texto... Não vá embora! Passemos ao segundo parágrafo e tentarei ser mais direto.
         Levei quase três anos pensando em tudo o que levou às letras das primeiras demos da banda Falsa Modéstia. Por serem as primeiras composições havia uma fluidez. Também, pela primeira vez, não havia medo de expressar as mensagens. Pessoalmente, acho esse um estágio complicado de alcançar. Há uma vergonha constante das palavras e dos sons: será que a pessoa a quem se destinam os versos gostará? Será que meus amigos, colegas de banda irão querer ensaiar essas músicas?
Tentei deixar as inseguranças de lado naquele momento e compor uma canção que pudesse manter o assobio por isso me voltei aos tons maiores, num movimento significativo. Um Caminho para o Céu, Ilusão, Madrugada, Cantillena Sant'Anna, Um Conto no Jardim, Para Ela. O que compunha tinha uma predominância de tons menores, resultando canções tristes - mais tarde eu passaria a usar o termo contemplativo de forma recorrente - mas honestas dentro do que eu propunha aos dezessete anos.
       A forma que encontrei para abordar a letra foi coloca-la como eu não estivesse ali. Descrever como seria se eu escrevesse uma canção, e ela saísse tolamente alegre. A metalinguagem prossegue com a questão das "palavras emprestadas de algum lugar", algo que ocorrre, literalmente, no refrão. "Daria a vida por você" era a minha forma de mencionar a balada I Could Die for You dos Red Hot Chili Peppers. Ainda que bem longe da desenvoltura dos acordes fruscianteanos em 2004 eu tentara tocar uma versão simplificada dela. Encapsulei esse evento em minha própria letra.
      42 anos anos antes de mim, ainda que em outro contexto, Paul McCartney já professava "You don't look different, but you have changed" em I'm Looking Through You. Em Memórias Distantes a mudança não é razão para insatisfação e, sim, as portas para a possível reconciliação ainda que sob outras configurações. Ficções pueris.
Ainda assim, me lembro de Fabio no Encontro das Nações em 2009 anunciando ao público que faríamos uma canção agitada para que dançassem. Ver algumas pessoas o fazerem foi uma sensação estranha. Você verte lágrima em canção até o ponto em que a razão das lágrimas se desata da letra, e fica fora do resumo.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Resolva com os Profetas

"O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal." Machado de Assis, Iaiá Garcia
Os lábios de Isaías tocados pelo fogo, por Benjamin West

Registro de 2007 da composição

      Gessingerianamente... a intervenção poética surgiu como que influenciada pela composição Cinza, parceria entre dois terços da formação clássica dos Engenheiros do Hawaii: Gessinger & Maltz. Nela, Maltz surge fazendo um quase-rap. Por muito tempo eu tentara compor uma canção/poema chamada "Ninguém me contou assim". A cada dois versos (Ex: As palavras que são ditas santas/Nos caminhos da via sacra/Ninguém me contou assim.). Quem diria que seria justamente esta a frase a ser retirada? Como várias melodias, a tenho na cabeça até hoje. Mesmo assim, calcei os versos como luva na harmonia de Kulakauskas. Ainda mais: a parte da letra que ele cantava falava sobre o divino e minha letra mencionava "a via sacra", quais eram as chances dessa sintonia contextual?

          Isso permitiu a justaposição de ideias sem que se dê por conta. Dadas as sempre devidas proporções, esse processo de aglutinação musical remete ao feito por Lennon & McCartney na emblemática A Day in the Life. Do ponto de vista poético, a canção apresenta uma insatisfação condizente com a idade. Os questionamentos à grandes pilares da sociedade faziam parte no último ano do ensino médio. Qualquer um pode se identificar com isso. Com o passar dos anos, é uma composição não muito comentada. Um par de anos atrás, quando um repertório foi considerado para uma possível reunião da Falsa Modéstia esta música não recebeu nenhum voto entre as trinta e quatro consideradas. E isso não é um problema. Numa das comemorações de aniversário do álbum Longe Demais das Capitais, Humberto Gessinger afirmou ter ignorado a faixa Fé Nenhuma justamente por crer que, era sim, um momento de acreditar. Nesse sentido, a canção é uma foto daquele período, mesmo quando esmaece.

Resolva com os Profetas (2007)


Não adianta, não resolve
Vamos chorar por mais
2000 anos de nossa história
Vamos esperar, vamos aguardar
Deus nos enviar um homem
Para nos salvar de nossa paranoia
A vida é longa demais
Para cada inseto que passa por aqui
Sonhando acordado com contos de fadas
E novelas infames

Nunca adianta, Nunca resolve
Parar de tentar, sentar e esperar
Ele não proverá
Falta de águas, Falta de terras
Para os que lutam o caminho escolhido
É sempre a guerra

As palavras que são ditas santas
Nos caminhos da via sacra
As palavras que são ditas puras
E aquelas que são ditas nada
Hipocrisia é sempre as mesmas rimas
E devagar sempre a mesma balada
Bem no meio do deserto
Não está o recanto de puras águas
Se o presente imitar o passado
Estamos com os dias contados


Não adianta, não resolve
Vamos chorar por mais
2000 anos de nossa história
Falta de águas, Falta de terras
Para os que lutam o caminho escolhido
É sempre a guerra

Não adianta, Nunca resolve

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Para Contato (Marte)

"A solidão é, mais ou menos, uma circunstância inevitável. Às vezes, porém, esse senso de isolamento, como ácido espirrando de uma garrafa, pode inconscientemente corroer o coração da pessoa e dissolvê-lo. Podemos ver isso, ainda, como uma faca de dois gumes. Isso me protege, mas ao mesmo tempo me dilacera por dentro. Acho que a meu próprio modo tenho consciência desse perigo -- provavelmente, por intermédio da experiência --, e é por isso que constantemente mantenho meu corpo em movimento, em alguns casos forçando-me até o limite, a fim de curar a solidão interior que sinto e colocá-la em perspectiva. Não é tanto um ato intencional, mas, antes, uma reação instintiva." Haruki Murakami, Do que eu falo quando falo de corrida.

STS040-610-049 Mar Egeu Junho 1991


         Tire a microfonia, retire a cacofonia sonora. Sobra alguma coisa dessa composição? Você, leitora ou leitor desse texto é quem decide, afinal, provavelmente não tenha o parâmetro da gravação caseira feita em 2007. Décima primeira faixa da demo Falsa Modéstia, Para Contato (Marte), iniciava a trilogia da primavera (que segue com Um Conto no Jardim e Para Ela), inspirada na trinca do álbum Gessinger, Licks & Maltz da Engenheiros do Hawaii. Ali, travei contato com as possibilidades de um tema recorrente em canções. O Marte do título era por conta da microfonia ao final da música. Nada contextual à letra.
       O eu-lírico se dirige a um interlocutor desconhecido - senso de despeito inapropriado? - inconformado com uma decisão que lhe fugia ao controle. Na primeira estrofe predomina o caráter de negação, sintetizado pelo uso do não a iniciar os versos. Em seguida ele se dirige a outrem. "Parem de falar que as coisas são assim, sem ao menos entender!" Ele grita várias vezes como quem se faz de surdo. Aqui, cabe uma reflexão de um texto do psicoterapeuta Flávio Gikovate: Acredito que é direito legítimo de cada um falar ou não com qualquer outra pessoa. O fato de ela querer muito nossa atenção não nos obriga a aceitar sua aproximação. E isso independe das intenções de quem deseja o convívio. A postura demonstrada pelo eu-lírico nesta canção é carregada de prepotência e egoísmo. Sua insistência demonstra apenas a falta de respeito e a vontade de magoar gratuitamente, como fosse um direito!
        Isso fica evidente no trecho final da canção. Um poema aliterativo inspirado na apresentação de V no filme V de Vingança. As coisas já começam mal: "E no prelúdio irei me predispor a te prender se precisar" e essa atmosfera densa se mantém ainda ele prefira colocar palavras doces como primavera nessa equação desconsolada. O que suas lágrimas devem evocar? A decisão mais acertada para tal personagem seria respirar fundo e aceitar o conselho dos que ainda se prezavam à dá-lo: as coisas são assim mesmo. Não se deve confundir insistência com inconveniência.

Para Contato (Marte) - 2007

Não acredito no que você me disse
Não acredito que aquilo quis dizer
Não faço apostas, nem estou triste
Só não me diga o que fazer
Não vou deixar de te ver

Parem de falar que as coisas são assim
Sem ao menos entender
Quem sabe o que fazer?
Quem sabe o que falar?
Para onde estamos indo não dá pra voltar!
Não dá pra voltar!!

E no prelúdio irei me predispor
A te prender se precisar
O principal é sim precário e na pratica
Serei precavido ao proteger
O precioso prêmio
Que desde o início me privei
A primavera que por prece
Deixou de ser profana
A primavera que por fim de prantos
Trouxe-me você!