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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Texto de 4 cm

"Quais foram as grandes lições que você aprendeu com esse período conturbado até o momento? Acredito que foi essa travessia para dentro de si. A gente se vê sozinho para não continuar vivendo sozinho. Para recuperar os laços. É um paradoxo." - Fabrício Carpinejar em entrevista para Jocé Rodrigues, Cândido - Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, 30/11/2020
Print do site do escritor Rodrigo Mutuca
Antes de seu site ser aposentado
Colega na oficina de crônicas de Carpinejar
Foi o primeiro a publicar um texto meu
(fora deste blog)

     Um dos aspectos que me interessavam nos tempos pré-pandemia era a possibilidade de realizar cursos/workshops por aí. É possível fazê-los em casa? #simecomcerteza mas não é a mesma coisa. Datando este post: estou vivendo a expectativa para o Tradução de literatura japonesa: reflexões e debates pela plataforma Momonoki, com a profª Rita Kohl. Mas não creio que haverá espaço para conversas paralelas entre colegas que me levem a descobrir que alguém no Centro Cultural b_arco, está ligado a mim por menos de seis graus de separação, como ocorreu com a escritora Valéria Rezende que já conhecia uma das pessoas mais recorrentes em menções neste espaço: o designer baixista bob que recentemente fez sua estreia enquanto roteirista, colorista, montador e diretor com o clipe para a canção Ressaca dos Olhos, parceria de Luan Magustero e Pedro Santos.
   As reuniões via Microsoft Teams e Google Meet são ótimas para momentos expositivos ou para conversas entre um conjunto pequeno de pessoas, mas, ou muito me engano, ou não favorecem a interação ao pensarmos em um grupo com algumas dezenas - é, sabe aquela coisa de cutucar a pessoa que está a seu lado apenas para mencionar algo, ou utilizar o bom e velho "msn paper" (citar MSN é cringe, gente? é noia minha? 😅) para fazer um comentário à caneta. As vozes não vão se sobrepor, é um outro tipo de interação e, se você tem aulas com algum modal virtual e acha que estou falando bobagem e há outras possibilidades, como usar o chat ou o WhatsApp Web na aba do lado, fique à vontade para mencionar nos comentários. Afinal, como é de costume, divago. O assunto deste texto é o mesmo da foto que ilustra o post, sim, tem a ver com o Danoninho mesmo.
   Em 2017 decidi repetir a dose em um curso com o escritor, jornalista e professor universitário Fabrício Carpinejar,

Spoilers do texto no Moleskine
A versão em 2016, Mentiras Libertárias, havia sido um tour-de-force-emocional-mezzo-terapêutico que levou do silêncio até pequenos versos e, como diria Forrest Gump "é tudo o que eu tenho a dizer sobre isso". A presença do autor já se fazia mostrar em minhas composições timidamente, como em Apesar de Nós, de 2013 e acompanhar seu programa A Máquina na TV Gazeta foi um programa familiar por algum tempo quando chegamos à Guarulhos.
     A segunda experiência foi bem menos intensa, mesmo considerando ter começado Escrito à luz de velas/Quase na escuridão/Longe da Multidão com um apagão em Pinheiros no dia 22/02. Talvez por eu já ter uma noção do que esperar. Mas gerou um texto que, à época, não veio para o blog. Diferente do "Nerdcast Proibido", minhas palavras encontraram um lar temporário no site de Rodrigo. Ainda o editor deste blog seja eu mesmo - antes eu pudesse criar um heterônimo ou outra personalidade para tal - parecia não ter relação com a "linha editorial" que eu buscava alcançar: composições autorais, entremeadas por relatos de shows ou pensares sobre álbuns de artistas conhecidos. Crônicas, nunca foram a minha praia nem mesmo como gênero para consumo e fruição pessoal, o interesse no curso era justamente sair da zona de conforto.
     Não consigo recordar qual foi a indicação do professor para a atividade, mas lembro que o subtítulo, por muito tempo era "sem meter a colher". Mas optei por Texto de 4cm para tentar obter uma característica cinestésica e, fica por isso mesmo, não é como cada frase tivesse sido escolhida com uma intenção específica. Chegamos ao quinto parágrafo não planejado e, em momento algum, minha intenção era investir tanto tempo no introito. Fica um salve para a escritora dançarina Jolie Cardoso, que ao comentar ter se inscrito no curso Escrever Cura, de Carpinejar, me colocou em mais um capítulo da "Saga das memórias involuntárias" que teve sua primeira parte em: Letras sobre decepções zodiacais. Se você chegou até aqui... fique com o texto:

Texto de 4 cm

(Escrito por Thales Salgado em 23/02/2017)


Rompo o lacre e me deparo com aquela perfeição rósea. Salivo indeciso com a ideia de pressionar com o indicador para sentir a consistência. Meter uma colher no Danoninho de morango é uma ofensa!
Alumínio, madeira, plástico, o material que for: subterfúgios violentos. É o sabor da colher e ninguém gosta disso. Há coisa melhor que o eco de um queijo francês - É um queijo mesmo, acredita que tem quem confunda com iogurte? - aromatizado artificialmente de morango na intimidade de seu músculo mais forte? Controlar os movimentos deveria ser a única linha de ação.
Cada potinho é um universo do alto de seus 4cm. Ninguém precisa da língua de um integrante do Kiss: não haverá resistência, por isso mesmo, comer Danoninho com a língua é uma arte da lentidão.
Conheço quem prefira usar os dedos, opção até digna; Haverá pele e unha, todavia. A língua veste todos os sabores, abandonar colheres é intuir a essência.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Homônimo #2

"Oportunidades perdidas, possibilidades perdidas, sentimentos que nunca voltarão. É parte do que significa estar vivo. Mas dentro de nossas cabeças - ao menos é como eu imagino - há uma pequena sala em que guardamos essas memórias. Uma sala como as estruturas nesta biblioteca. E para entender o funcionamento de nosso próprio coração nós precisamos seguir criando novos cartões de referência. Precisamos desempoeirar as coisas de vez em quando, lufar ar fresco, trocar a água no vaso de flores. Em outras palavras, você viverá para sempre em sua própria biblioteca particular." Haruki Murakami, Kafka a beira-mar

Comemorar "marcos pessoais" nunca foi exatamente o meu forte. Há dois anos, quando tentei comemorar a longevidade deste blog havia a sensação de algo estar fora do lugar. Hoje, é o quarto ano em que este blog segue existindo. O primeiro texto foi escrito as pressas, como que seguindo o instinto "escrevo, senão, deleto". 
Em uma conversa com Bob Barduchi Oliveira, responsável pelo design e novo projeto gráfico, ele comentou que quatro anos eram uma graduação e me perguntou se eu seria um bacharel em blog da Falsa Modéstia e... talvez eu seja... Talvez não. 
A verdade é que muitas das vezes eu procuro o máximo de referências para ancorar os textos e a pesquisa não levam a lugar algum. Mas não me sinto um escritor, compositor, cantor ou crítico. Escrevo, para quê?


Salto Contra o Medo de Calar (10/01/2019)

Fiquei distante
(Por tanto tempo, por quanto tempo?)
Nada é como antes
(E os lamentos, e tanto pranto)
Parte de mim
Evitando olhar
O Espelho

Debilitante
Só olhar pra dentro, o que vai sendo?
Não obstante
Alheamento não é remanso
Sempre estive
A oeste
E não percebia:

Dois amigos, nas trincheiras
Dissertando a bandeira
Suas cores e valores
Outra vez, ameaçadas
Mãos se enlaçam
Não disfarçam
Saltam contra o medo de calar.

Que as palavras sejam os projéteis
Artilharia para aproximar
Revolver nosso peito
Bem mais que apenas
Um sol de inverno
enlace terno
Mais que a ilusão de paz


Foto: Kariny Camargo
     

domingo, 21 de junho de 2020

Smallville, o Retorno (...e um soneto)

"Govinda disse, 'Nós já aprendemos tanto, Sidarta. Ainda há tanto a aprender. Nós não prosseguimos em círculos, nós estamos indo para cima. O caminho é uma espiral; e nós já galgamos vários passos." Sidarta, de Hermann Hesse. Parte I, capítulo, Com os Samanas.
Versão editada da capa do "mangá" feito no René, em 2006

INTRODUÇÃO

       Nas últimas semanas, tenho revisto as temporadas de Smallville, atualmente, elas estão disponíveis, atualmente, pelo Prime Video da Amazon (não, este não é um artigo pago, como aprendi com a podosfera, é sempre bom lembrar).
Há diversas instâncias em que menciono a série até hoje, seja por ela ter sido um forte motivador para que eu conhecesse bandas como Depeche Mode e Interpol – e outras, como Staind que, apesar de eu nunca ter adentrado na discografia, figurava em meu “repertório solo” com Outside – ou por muito de meu entendimento da mitologia do Superman ter partido da mitologia instituída pela série.
      Apesar de isso não tão claro atualmente, o meu “eu” do ensino fundamental II, inclusive, tinha o hábito de escolher tênis, chuteiras, ou mesmo jaquetas vermelhas para contrastar com o azul do uniforme escolar. Tamanha era a inspiração em Clark Kent.

       Havia, claro, a reverência ao cânone dos filmes de Richard Donner, que assistíamos em casa de vez em quando. Com o icônico Christopher Reeve a, também, icônica primeira dublagem com André Filho. Mas, “o grosso” ficou com Smallville.
       De modo que, tenho a vaga lembrança, parecia uma heresia que a Warner se decidisse por Brandon Routh para seu Superman – O Retorno, quando Tom Welling desempenhava o papel de um jovem e inexperiente Clark tão bem. Tivesse apostado nesse “transmídia” naquele, hoje, longínquo 2006, talvez, a DC Comics/Warner tivessem inaugurado no cinema. algo que, atualmente, com seus erros e acertos, tem ocorrido com maior frequência, notadamente, no Universo Marvel. 

JÁ ERA TEMPO

     O sexto evento anual do Universo televisivo de Arrow, Crise nas Infinitas Terras, realizado entre o final de 2019 e o início de 2020, cruzou episódios das séries Arrow, The Flash, Supergirl, Legends of Tomorrow e Batwoman, além de participações especiais de Black Lighting e, claro, os próprios Tom Welling e Brandon Routh dando vida à outras versões do Último Filho de Krypton. Dentre as participações, outra digna de nota foi o encontro do Flash da série, Grant Gustin, com o Flash do Universo Estendido DC, Ezra Miller, deixando claro, o óbvio, de que há espaço para diversas encarnações concomitantes interagirem sem a confusão o público.
      Não que desbravar fosse o interesse da companhia, é bom ressaltar, com um orçamento megalomaníaco de US$ 270 milhões, o filme com Brandon Routh, faturou cerca de US$ 392 milhões para os cofres da Warner Bros. Pictures que, após o “divisor de águas” Cavaleiro das Trevas, cancelou a sequência do filme e decidiu optar pelo tom “sombrio e realista” – que dominou as produções da companhia até que surgisse a ensolarada trinca “Mulher Maravilha, Aquaman & Shazam” – encabeçados pela produção de Christopher Nolan e do “visionário” Zack Snyder: O Homem de Aço, de 2013.

O SONETO

Soneto de Dissociação (19/06/2020)

Uma confissão atrasada, te faço
Pois sei que, há tempos, eu já não te ouvia
E, mesmo eu ouvisse, você partiria
Restando, a mim, só este descompasso

Meu erro, querida, eu sinto que foi crasso
Ao vê-la, de canto, aquele dia
Não te aninhei, tal uma cotovia
Resguardando, do sofrer, estilhaço

Eu vi outrem, selando teu frio lábio
Tua tez, a mim, lembrou uma boneca
Um enigma, escondido, no alfarrábio

Riscado em ouro, num tesouro asteca
Não fingirei, ser fácil, feito sábio
Saudades, de ti, vou sentir: caneca.

        Lembro quando assisti à Returns em 2006, contava dezesseis anos, fui com a família ao Cinemark do Shopping D e, após a sessão, comprei uma caneca que, na última semana, se quebrou. Esse evento, inspirou a que eu escrevesse o soneto acima. Um exercício descompromissado, afinal, é apenas uma caneca. Mas, diferente do Combo de Vingadores Ultimato, por exemplo, ela teve diversas utilizações durante 14 anos, “ela também se mudou” de Arujá para Guarulhos, portanto, vale a lembrança.
      “Pode parecer bobagem, um impulso infantil” Pode até soar apenas nostálgico e, talvez, seja, mas, o fato de ter um objeto que muda de função de diversas maneiras. O evento também me levou a conhecer o trabalho da “Restauração Prates”, especializada na restauração de obras de arte e objetos de valor sentimental. Infelizmente, por novo descuido meu, os restos mortais da caneca foram para o lixo... Se você, leitor ou leitora, desse texto também acompanhar Once Upon a Time, sabe o quanto uma xícara com história, mesmo que esteja lascada, pode ser poderosa. (Sim, o meu cânone é OUaT, A Bela e a Fera veio antes mas... perdeu a vez).

"certas vezes, a melhor xícara de chá, está lascada"

O MANGÁ

       Passada esta questão que motivou o texto, me veio a lembrança outro “acontecimento” daquele ano de 2006. Um dos pontos altos da aula de artes da pedagoga Marize Manopelli em meu segundo ano do ensino médio, foi um trabalho em que realizaríamos uma história em quadrinhos, é, inclusive, uma edição de sua capa que ilustra esse post. "o mangá" estará ao fim do post, na íntegra. 

     Achei curioso nesta história é que, em determinado momento, eu mencionasse “o segredo da ilha de Lost”, uma vez que, de acordo com os registros do jornal O Estado de São Paulo, a segunda temporada da série estreara pelo canal AXN no dia 06 de março. Sabendo que o primeiro episódio que assisti da série foi em uma reprise de domingo, a primeira vez em que assisti a Lost, foi no dia 12/03/2006. De acordo com uma notícia veiculada no Omelete no dia 30 desse mesmo mês, a conclusão da quinta temporada de Smallville estrearia nos EUA no final de maio ou início de junho, chegando às telas da Warner Channel por volta do início de julho. 
       De modo que, era o momento perfeito para integrar uma nova série ao cronograma. Quem poderia dizer que, apenas três meses depois de começar a assistir, ela já fizesse parte de meu imaginário a ponto de receber uma menção em um crossover, constituído, principalmente, por personagens do universo de Smallville e The King of Fighters?

Nem o violão que ganhei de meu pai passou incólume ao Homem de Aço

RAMIFICAÇÕES

      Por último, mas, não menos importante, algo que notei na história é que das sete personagens que aparecem, apenas uma é feminina. Em uma participação monossilábica da mãe biológica de Kal-El, Lara-El – inspirada claramente na Saori presente na capa da edição nº 37, de julho de 2003, da primeira edição do mangá Cavaleiros do Zodíaco, publicado pela editora Conrad.
      Isso me chamou ainda mais atenção, devido ao fato de que, em revisão, Smallville é uma série com diversas personagens femininas marcantes e, ainda que toda a ação do seriado seja conduzida com o intuito de descobrirmos como Clark Kent se tornou o Superman, cada uma delas tem seus próprios arcos definidos e que, nem sempre, tem relação com o kryptoniano. Pensando no texto durante a terceira semana de junho, constar isso ficou, para mim, ainda mais gritante, ao surgir em minha timeline que 21 de junho é o aniversário da atriz Erica Durance, que interpretou Lois Lane durante sete anos e participou do supramencionado evento Crise nas Infinitas Terras do canal CW.

      A lembrança que eu tinha de meus quinze anos, era de não ter recebido bem a chegada da personagem à série. Provavelmente, por significar “a saída” da personagem Chloe, que sempre fora uma favorita. Estando próximo ao fim da sexta temporada, vejo facilmente o quanto desta opinião mudou: A personagem trouxe uma série de novas dinâmicas para o seriado e, mesmo a quarta temporada, com foco na busca pelos artefatos guiada pela “reencarnação” da bruxa Margaret Isobel Thoreaux, ‘induzida’ por Genevieve Teague, a única vilã da série e que, curiosamente, nunca conheceu Clark, se mostrou mais divertida do que eu me lembrava. Algumas opiniões, não sobrevivem à regra dos quinze anos e, que bom.
        
        Ainda pensando em Lois Lane e sua representação, apesar do fan-service, na série a personagem recebe muito mais a fazer que Amy Adams, a Lois atualmente nos cinemas – embora, séries, por definição, permitirem um desenvolvimento mais incisivo a longo prazo. Encontrei, inclusive, um artigo de Laura Wilson, da Universidade de Nova Jérsei, com o título “How Progressive Of You: The Women of Smallville” (Que Progressivo de Sua Parte: As Mulheres de Pequenópolis, em tradução livre) que pode ser lido na íntegra aqui . Nele, a autora faz uma análise da presença feminina dentro dos 217 episódios da série e os diferentes arquétipos, convenções e evoluções passam seis personagens femininas principais: Chloe Sullivan (Allison Mack), Kara Zor-El Kent  (Laura Vandervoort), Lana Lang  (Kristin Kreuk), Lois Lane  (Erica Durance), Martha Kent (Annette O’Toole), e Tess Mercer (Cassidy Freeman). Traduzi um trecho em que ela descreve a presença da Lois de Erica na série:
“Lois Lane é o segundo interesse amoro de Clark e uma prima de Chloe, ela é introduzida no início da quarta temporada, após a Chloe se declarada morta. Ela tem, inicialmente, uma relação algo que mordaz com Clark, mas eles eventualmente se tornam colegas de trabalho e legítimos amigos, antes de evoluírem para interesses amorosos na oitava temporada.Lois é a destemida filha de um general militar, o que significa que ela, diferente de Chloe e da Lana das temporadas iniciais, tem um legitimo treinamento para auto-defesa desde o início. De diversas formas, Lois é o oposto de Lana, ainda que mantendo, basicamente, o mesmo papel na narrativa.Frequentemente, Lois acaba necessitando se resgatada por Clark. Essas abduções são usualmente não causadas pela obsessão de um vilão com ela ou suas conexões com Clark e outros heróis, no entanto, em vez disso, é a própria curiosidade de Lois e o desejo de investigar a fundo situações perigosas é o que a leva a terminar como uma donzela em perigo. Muitas vezes ela revida, às vezes até salvando a si mesma com apenas algum apoio menor e não exibido de Clark. As únicas instâncias em que ela está completamente indefesa é quando ela está seriamente ferida, inconsciente ou contra um oponente que, de alguma forma, tem superpoderes”.

      Considerando as leituras possíveis de serem feitas hoje, o "eu" que está a ver a série nem pode ser considerado a mesma pessoa que a viu a primeira vez, a impressão de que é uma série, muitas vezes, distinta. É bem diferente, inclusive, acompanhar uma série semanalmente e poder visualizar, on demand, todas as resoluções de tramas. Finalizo então, tomando emprestado o título do quinto álbum do rapper Gabriel, O Pensador, “seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo”.

DEVE SER O QUE CHAMAM TÚNEL DO TEMPO:









Ter o registro da avaliação ancorou o trabalho em 2006

Adaptação manuscrita do aviso dos mangás da Conrad/JBC
Obviamente, a história, apesar de colorida,
Foi concebida da esquerda para a direita

terça-feira, 31 de julho de 2018

Parte do que não foi

"Meus olhos encontram os seus e um beijo se perdeu. Posso voar agora. Nascerá todo o fim da solidão. Sinto que não vai passar, nem o tempo apagará. Pois estou vivo e sigo com você nessa história sem fim." Thales Salgado, aos 16.
    Ela escrevera: "É coisa de pele, de carne, de osso, de pó." coisas de amores que matam, por assim dizer. Teria feito boa viagem? Talvez esperasse ouvir essa pergunta. Talvez alguém tivesse feito essa pergunta. Não eu. E digo isso mais por falta de tato para as convenções sociais que por qualquer outro motivo. 

       O que sei, é que ela abrindo as malas deixadas para trás a fez travar contato com insignificâncias cheias de significado. Eu -  inspiração e inveja - decidi fazer o mesmo tendo chegado apenas do próprio cotidiano. Os olhos arenosos. Uma sequência hollywoodiana repleta de ação, tão familiar, levou cada um dos moradores da casa à suas camas. Menos eu. "Estou acordado e todos dormem" diria Renato Russo. Por vezes me pergunto se me é possível terminar um período textual sem mencionar alguém. Quem sou eu? Eu sou a máquina de recordações, sonhando convulsões, esperando a vida chegar.

        Você leitor deste blog pode até ter visto a frase negritada no parágrafo anterior. Ela deveria ter sido uma composição e feneceu como uma vinheta. Se você me perguntar pessoalmente eu sei até cantar este trecho, ainda assim, nunca consegui desenvolver nada que conduzisse ou resultasse deste verso. E esta não foi a única vez. Tive ganas de copiar o capítulo CXXXVI das Memórias Póstumas, sabia? Tenho a impressão de que, por cada semana deste mês, poderia tê-lo feito...

       No tempo em que estive na universidade rabiscava moleskines sem pudor. Neles transbordei parte do que não foi. Suas páginas são malas mofando. Espere, vou abrir uma página qualquer e trazer algo à tona. A ideia era realizar uma narrativa progressiva usando encadeamentos harmônicos de meus primeiros dias como compositor (talvez algo na linha de Um Conto no Jardim) com uma letra mais soturna, abraçando as trevas como quem sabe que sem elas a luz perderia o que tem de aprazível. Esses foram os versos que consegui:

Numa era escondida pelo tempo
Em que a vida era o eterno deixe estar
Desfolhava-se um embate já sereno
Entre a Solidão e os filhos do Amar
Ambos simbiontes do que era divino
Em busca de dominar a criação
Um astuto e, do outro lado, um ferino
E tão hábeis no disfarce e na ilusão.

Eis que o sol então é eclipsado
Pela lua ao meio-dia
Fazendo todos se perguntarem
Se era feitiçaria
Tanto os combatentes
Quanto aqueles que apenas assistiam
Vêem que é a Morte à sorrir

Deixa ecoar seu riso tão profundo
Como ri-se Satanás
A morte não percebeu que em seu manto
Esconderam-se os amores e a solidão
Acabaram todos atrelados
À toda faísca humana
Sendo partes do viver

        Ali, aos vinte e dois, quem escreveu o mal traçados versos sabia bem mais do que eu sei hoje. Mas, ou muito me engano, ou são páginas de feitos inúteis.

Cordelizando

"Quero perder o medo da poesia, encontrar a métrica e a lágrima" Atronauta Lírico, Vitor Ramil
Foto do original, ilustrado em maio.

"Há alguns dias atrás minha mãe surgiu com a necessidade de um cordel que falasse da educação na cidade de Itaquaquecetuba. Debrucei por várias horas na questão e o resultado foi esse. Li uma série de notícias da cidade e me pautei na educação libertadora de Paulo Freire.
Ainda que, em canções, eu não faça questão com métrica. A literatura de cordel a tem como tradição. Busquei respeitar a isso, tentando usar os oito pés a quadrão. A ilustração também foi minha primeira tentativa nesse estilo"

Em Itaquaquecetuba
O povo não se derruba
Faz como o “balança juba”
Se o assunto é educação
Mesmo sem o uniforme
O povo daqui não dorme
Se há algo que transforme
Esse algo é educação

Até quando existe greve
Se espera que seja breve
A criança não escreve
Sem professor pra lição
Mudam hora de concurso
Tentam alterar o curso
Sempre o mesmo discurso
Bate uma decepção

Se alguém rouba fio de cobre
Atitude nada nobre
Não há quem não se desdobre
Numa interrogação
Teve máfia da merenda
Até desvio de renda
E quem é que encomenda
Toda essa judiação?

Quem souber, me grita ou posta
Mas acho que a resposta
Sem fazer nenhuma aposta
Já sabe, a população
Mesmo com toda a mazela
Uma cidade tão bela
Sabe que o melhor pra ela
É focar em educação.

*Originalmente publicado no instagram em maio de 2018

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

MITO: O NADA QUE É TUDO

Um embate entre o monstro mítico de Mensagem e o de Os Lusíadas
(Originalmente um trabalho apresentado como parte do Curso de Letras do Centro Universitário Sant’anna na área de Literatura Portuguesa. Junho de 2011)





Pessoa, um mito à altura do mito Camões?
Nacionalistas ao extremo? Poder-se-ia dizer. O certo é que tanto Luís de Camões quanto Fernando Pessoa construíram, cada um à sua maneira e época, uma obra exaltando os valores do povo português. Suas angústias, expectativas, conquistas e mais ainda sua coragem para sobreviver aos perigos de "mares nunca antes navegados" afim de aumentar territórios, aumentar riquezas e glorificar a terra natal: Portugal. 
Camões em Os Lusíadas descreveu em dez cantos e 1102 estrofes decassílabas a viagem de vasco da Gama em busca do caminho para as Índias e pelo Ocidente. Há três ‘mitos base’ que são Adamastor, Velho do Restelo e A ilha dos amores. O mito que será utilizado nesta monografia é o de Adamastor. 
A Obra mensagem de Fernando Pessoa em questão “Mensagem” possui três partes: Brasão, Mar Português, e O Encoberto. Distribuídos em 44 poemas. A primeira e terceira parte apresentam subdivisões e a segunda parte não. O poema “O mostrengo” que será utilizado nesta monografia, faz parte da segunda parte do livro. 
O que se busca neste trabalho é analisar as semelhanças e diferenças entre as partes em questão: Adamastor é um gigante que encontra-se com a tripulação de Vasco da Gama quando estão no Cabo das Tormentas. O mostrengo é uma criatura que lembra um morcego e se coloca a assolar a tripulação de uma navegação portuguesa no mesmo Cabo das Tormentas. 
Essa é uma intertextualidade sempre citada, ao falar sobre as duas obras. Qual das duas criaturas configura-se como o monstro máximo? Seriam mesmo totalmente malignas? Estas são algumas das questões que serão levantadas nesta monografia. 

Prólogo 
Como se portar quando seu inimigo mostra-se "monstruosamente irascível"? Quando é imenso e parece gritar que é a própria "Natureza" que o quer amedrontar e a qualquer instante lhe pode levar para as profundezas sem lume?.. Camões representa através de Adamastor estes dilemas e Fernando Pessoa se vale do 'mostrengo'. 
N'Os Lusíadas, Camões, apresenta Adamastor no Canto V, quando Vasco da Gama põe-se a narrar a viagem empreendida de Lisboa até o rei de Melinde, no canal de Moçambique. O mostrengo, por sua vez, se apresenta em "Mar Português" segunda parte da obra Mensagem, de Fernando Pessoa. 

Um monstro em dois momentos ou diversas interpretações para um mesmo mar? 
Partamos de um ponto de semelhança em palavras empregadas na descrição das figuras em questão. 
Adamastor é descrito em determinado momento como "horrendo e grosso": "Com tom de voz nos fala, horrendo e grosso/ Que pareceu sair do mar profundo" enquanto o mostrengo tem as palavras "imundo e grosso" constituindo parte de sua adjetivação: "Três vezes rodou imundo e grosso". Embora uma das entidades seja horrenda e a outra imunda, há uma relação pois as palavras remetem a um campo de idéias comum, sugerindo algo repulsivo, pavoroso, ou mesmo monstruoso. A utilização da palavra "grosso" por Pessoa constitui um traço de intertextualidade consciente com o texto de Camões. 
Quanto a forma com que são caracterizados singularmente: Adamastor é uma figura de tamanho descomunal, com boca negra, dentes amarelos, barba maltratada. O tom de sua voz é profundo e causa o arrepio de todos os tripulantes : "Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,/ Que pareceu sair do mar profundo/ Arrepiam-se as carnes e o cabelo, / A mi[m] e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo. 
O mostrengo é uma figura que voa e chia e diz habitar em "cavernas que não desvendo" seus "tetos negros de fim do mundo". A semelhança que este carrega com um morcego não é gratuita. Na versão original, "Mar Portuguez" - que Pessoa publicou em Outubro de 1922, no nº 4 da revista Contemporânea - o poema se intitulava "O Morcego". Animal este, que simboliza a natureza proibida da noite. A palavra 'mostrengo' adotada posteriormente pode causar estranheza. É palavra derivada por sufixação: monstro + sufixo -engo de conotação pejorativa. Há ainda a supressão do 'n' de "mons" ficando apenas "mos", que ao compararmos com "morcego" notamos ser a alteração para a consoante subsequente na ultima consoante da silaba "mor", formando "mos". 

Três parágrafos acerca do três 
Nota-se na construção do poema de Fernando Pessoa o recorrente número três: a palavra "mostrengo" possui três silabas, o poema tem três estrofes, cada uma delas possui nove versos (o número nove é múltiplo de três). O número também é trabalhado de forma a criar ainda mais mistério em volta das ações do mostrengo. 
Lemos no poema: "voou três vezes a roda da nau", "voou três vezes a chiar", "rodou três vezes", "Três vezes rodou imundo e grosso". O três não está apenas nas ações do mostrengo. Mostra-se também nas ações do 'homem do leme' : "Três vezes do leme as mãos ergueu", "Três vezes ao leme as repreendeu", "E disse ao fim de tremer três vezes". No último verso de cada estrofe há a menção a El-rei D.João Segundo, o que faz com que , também ele, seja referido três vezes. 
O número três carrega força mística tal, que por si só poderia ser objeto de estudo em relação ao que pode significar no poema. Há a tríade de deuses egípcios Osíris, Hórus e Isis. A santíssima trindade, a ordem espiritual composta de Deus, o Universo e o Homem etc. O número três também pode simbolizar a perfeição, a totalidade. A presença deste número no poema pode sugerir a influência de Deus nas ações do homem. Decidido isso, podemos focar na comparação entre os monstros. 


De como as criaturas lidam com indesejados viajantes 
Camões optou por criar uma figura flexível. Adamastor, a principio, é uma figura completamente assustadora. Anuncia como tem lidado com todos aqueles que tentaram passar, valendo-se de ventos e tormentas desmedidas num castigo que vem sem que se aguarde. Este tom toma maiores proporções quando em determinado momento ele diz: "Antes, em vossas naus vereis, cada ano,/Se é verdade o que o meu juízo alcança/ Náufragos, perdições de toda sorte,/Que o menor mal de todos seja a morte!" Quais destinos de imensuráveis sofrimentos seriam estes maiores que a morte? Ainda que apresente tais perigos a figura de Adamastor é humanizada ao fim da passagem. Quando o monstro se mostra atormentado por um fracasso amoroso, logo, o que o motiva capaz de criar empatia para os navegantes, e consequentemente para o leitor. 
A abordagem de Pessoa para o mostrengo é única: aterrorizar os navegantes através de seu vôo ao redor da nau, seus chiados e sua própria figura. O mostrengo é fruto de um mistério: nada se explica acerca de sua vida pregressa. Ele percebe os intrusos em seu território e se coloca a tentar afugentar os navegantes. Sua abordagem tem - como a de Adamastor - efeito instantâneo, percebemos já no oitavo verso da primeira estrofe que o 'homem do leme' está a tremer no instante em que responde a criatura. Apenas a coragem dos heróis pode vencer este desafio. Sem ela, o mostrengo reinaria absoluto por aquelas áreas. Ele só pode ser vencido. Não é capaz de mudar de idéia. 


Navegando o Cabo a dentro e através 
Mais que a simples representação do Cabo das Tormentas, o Adamastor e o mostrengo podem ser interpretados como a personificação de todos os medos que os navegantes mostravam quando se punham a desbravar os mares. Sempre se soube das lendas que eram criadas pelos navegantes na tentativa de compreender quais eram os perigos dos mares e tormentas. Estes monstros fantásticos representavam um perigo palpável. O que poderia causar tantas mortes se não uma terrível criatura à espreita? Preparada para levar os homens e seus sonhos para as fossas abissais? 
As criaturas se vistas como protetoras de um caminho e apresentando um desafio ao povo português tem um papel semelhante ao desempenhado pela Esfinge Egípcia que devora os que não tem coragem, ou não estão a altura de seu enigma. As duas figuras, Adamastor e mostrengo, colocam-se contra os navegantes e apenas a coragem e a ousadia podem servir como resposta ao terror que representam. 
Vendo sob uma outra ótica, para os navegantes era primordial atender a vontade do rei, este sim, detentor de uma fúria maior que a de qualquer monstro encontrado no mar. Por isso pode ser interpretada como uma ironia o fato de a coragem de enfrentar um medo venha de um outro medo. Dizer que para um rei os fins justificam os meios é útil a esta altura? 
D.João II alterou o nome do Cabo das Tormentas para Cabo da Boa Esperança depois que Bartolomeu Dias e sua tripulação conseguiram ir além do Cabo. Essa façanha é a presente no poema "O Mostrengo". Quando, depois, Vasco da Gama no reinado de D.Manuel I, encontrou o caminho para a Índia indo além do Cabo, Luís de Camões homenageou este heróico ato n'Os Lusíadas. 


Um navegar impreciso entre dois mares do tempo 
Houve a possibilidade de observar a intertextualidade entre o poema "O Mostrengo" de Fernando Pessoa e o Adamastor presente em Os Lusíadas de Luís de Camões. Podemos concluir que foi pela existência de Adamastor que o mostrengo pode tomar vida. Uma vez que Pessoa, tendo podido buscar inspiração em seu compatriota, diluiu a influência da antiguidade clássica - fortemente presente no texto de Camões, por exemplo o próprio Adamastor baseado em um gigante mitológico - e fortifica a sua visão interior dos perigos do mar, no Cabo da Boa Esperança. 
Camões criou um personagem que aterroriza por suas proporções, mas o descreve como uma figura humana. Além disso, a força épica que Adamastor inspira vai sendo reduzida quanto mais o ser vai sendo humanizado no decorrer do episódio. Adamastor fora vencido pelo amor. Essa reviravolta acaba transitando o foco entre os conflitos do gigante e os dos navegantes. 
O poema que apresenta o mostrengo, por sua vez, tem uma reviravolta apenas no instante em que o 'homem do leme' se percebe como a confluência de energias e almas do povo português e da vontade do rei D.João II e toma em suas mãos o destino que parecia estar, até então, nos dominios do mostrengo. Nas duas primeiras estrofes, tudo que o homem é capaz de fazer é tremer e temer. O nome do rei é tudo o que consegue articular. É apenas na terceira estrofe que o poder da coragem, necessário para sobrepujar a criatura horrenda, se manifesta. Como fosse uma epifânia. É a vitória do homem sobre seus medos. A luz que oblitera as sombras. A força de Portugal é tanta, que até mesmo detentor de uma verve poética o homem do leme se mostra. 
Enfim, a emoção do episódio de Camões divide-se entre os homens e Adamastor, enquanto no poema de Pessoa o foco mantém-se no fortalecimento do espirito do homem. 

O supra-Camões 
Essa força colocada por Pessoa torna a sua criatura e a ação que a envolve mais interessante, e assim mostrando aspectos do "Supra-Camões", pois elevou ainda mais os valores e ideias que Camões propusera n'Os Lusíadas. Fernando Pessoa criou no mostrengo um símbolo máximo para o medo. Mais que uma geniosa personificação como fizera Camões. 
Encerro com uma citação que resume esta ideia de forma mais articulada, e considerando aspectos gerais das duas obras: 

"A Mensagem comparada com Os Lusíadas é um passo a frente. Enquanto Camões, em Os Lusíadas, conseguiu fazer a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe estabelecendo uma harmonia total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico." (Cirurgião; 1990, 19) 


Referências 

MOISES, Carlos Felipe. Mensagem de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2ª edição 

CAMÕES, Luis Vaz de. Os Lusíadas. Comentário por Francisco da Silveira Bueno. Rio de Janeiro: Ediouro. 

CIRURGIÃO. Antônio. O Olhar Esfíngico da Mensagem de Pessoa. Revista 

ICALP, vol. 22 e 23, Dezembro de 1990 / Março de 1991, 74-85 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A Primeira Paixão

Foto: Renata Custódio
Eram girassóis, seus olhos.
E parecia que não mais olhariam para mim.
Aos treze, a aprovação dos colegas de classe parecia conduzir a metade de mim desinteressada pelas descobertas. Claro que a indignação da moça perante minha, suposta, brincadeira não havia passado pela minha cabeça. Mas deveria.
Nos conhecíamos pessoalmente desde a 6ª série, no ano anterior, e, até então, cultivávamos uma amizade baseada na consonância de nossos gostos por seriados norte-americanos, música estrangeira e livros.
Digo pessoalmente, pois, seu nome sempre fora mencionado pelos professores.
Ela tinha as melhores notas da classe, além de desenvoltura em público e, além disso, dançava jazz, balé e dança do ventre.
É bem capaz que eu não tivesse percebido o quanto ela fazia parte de minha vida. Então, bem mais que as aulas, meu objetivo passou a ser ter as palavras dela de novo. Mas como? Dias passavam sem que nenhum de nossos colegas em comum a demovesse da ideia de me ignorar. As amigas dela tampouco tinham interesse em interceder em meu nome. Aqueles foram dias em que descobri uma agonia que contagiava cada um de meus passos, até o momento em que decidi escrever um e-mail para ela pedindo desculpas e explicando como sua falta era sentida. E seria sempre. Por mais distante ela estivesse, meu pensamento seguiria firme na tentativa de criar laços telepáticos.
Quinze anos depois, eu não lembro quanto tempo remoí aguardando uma resposta. “Não te desculpo, é melhor fingir que eu não existo.” Era o que pensava estaria escrito, quando, finalmente o minúsculo envelope surgiu na caixa de entrada. Fiquei chocado no momento em que tomei coragem para abrir aquela carta virtual. Ela era breve e dizia não poder se prolongar. Ela viajaria no final de semana e quando voltasse deveríamos conversar.
A frase que me petrificou, no entanto, era outra. Quatro palavras inesperadas: Estou Gostando de Você.
“Nem de longe” Pensei. E fui ficando aflito. Ela já havia namorado. Eu, até onde lembrava, só tinha idealizado umas duas relações na vida e a coragem para tirá-las da esfera platônica não havia me acompanhado. Eu sentia o mesmo por ela? Gostava quando fazíamos trabalhos escolares juntos, ela escrevia e eu desenhava os projetos. Era uma forma de união, certamente. Aquela vontade de ouvi-la, paixão era isso? Considerando a importância que eu atribuía a ela, não demorei a concluir que sim.
A paixão me acompanhara na vontade que eu sentia de poder conversar de novo. Na prática, porém, isso não facilitava as coisas.
“Os meninos” não deveriam ser hábeis nestas questões? Talvez, todos eles eram dados a bravatas quanto ao que já haviam feito, ao que conheciam. Eu não ficava atrás, e, já havia contado vantagem de uma namorada imaginária, estudante de outra escola. Tinha medo de como seria essa fachada caindo. Por certo, ela seria capaz de notar a inexperiência.
Na segunda-feira após o e-mail, me lembro que ela ficou parada na porta conversando comigo quase de perfil até que um colega gentilmente me explicou que ela esperava um beijo no rosto. Mesmo os protocolos mais simples diante de uma garota me eram estranhos. Ainda assim, poder partilhar de sua companhia novamente tornara as aulas muito mais vívidas. Nossa primeira ação foi unir as carteiras escolares lado-a-lado. Naquele mesmo dia, ela entregou uma carta em que explicava que o período de silêncio a fez ver um lado carinhoso que eu normalmente escondia.
Cada uma das linhas daquela carta me deixava tremendo de expectativa, mesmo depois da terceira leitura. A folha de papel dobrada em três, num pequeno retângulo me fazia de tempos em tempos sair de dentro de casa para reler – um dos males de ter um quarto sem portas – e, em dado momento, chamou a atenção de meu pai que se prontificou a ver o que eu estava escondendo. Envergonhado por precisar mostrar algo tão íntimo e precioso, fiquei sem jeito quando ele indagou o que eu tinha nos bolsos. Ele desdobrou a folha, e, já na primeira linha se deteve e respeitou minha privacidade apenas brincando “Vi apenas o Dear Thales… avise a moça que se começar em inglês, é melhor continuar a carta em inglês.”
Minha ansiedade crescia na expectativa de que algo era esperado de mim. O receio era tanto que em algumas aulas eu andava mastigando pequenas pimentas dedo-de-moça, evitando, assim, ter um beijo roubado. Até o dia em que combinamos participar do conselho de classe. Era um pretexto para estarmos no mesmo ambiente sem a pressão do expediente escolar.
Tão logo pudemos, pegamos a primeira direita do portão da escola e nos aproximamos de um canteiro nos fundos do maior hospital da cidade. As flores e a vegetação irregular lembravam um jardim. Quais eram nossos assuntos naqueles momentos? Havia antecipação para assistir à Matrix Reloaded, lançado na semana anterior, mas isso não era tão importante quanto o instante em que minhas mãos tremulas a puxavam pela cintura e eu a vi cobrir os girassóis para nosso beijo, seguido de outro e mais um. Nada naquele dia me fez vibrar de maneira tão concreta. Era dar um salto no escuro e tropeçar em nuvens.
Algo em mim havia mudado, era possível perceber, pois, naquele mesmo dia assisti à transformação de Goku em um super saiyajin 4 pela primeira vez, algo esperado ao menos por quatro anos, e tudo o que eu pensava eram aqueles beijos. Aquela moça e em como a vida seria eterna dali para frente. Fosse numa troca de cartas, fosse em inventar pequenas mentiras para que passássemos o tempo depois da escola juntos, fosse correndo atrás de seu ônibus para aproveitar mais de seu perfume e presença, fosse tocando canções de nossas bandas preferidas pelo telefone. Pudemos viver essa intensidade por um par de anos. De alguma maneira, os resquícios desse sentimento nunca saíram de minha memória. Tanto que, quando tinha dezessete anos, ocupava meu tempo ocioso lembrando daquela moça e escrevendo poemas para ela, ainda que estivéssemos distantes.

(Texto escrito originalmente para uma promoção da Editora Intrínseca)

P.S.: Para saber mais acesse Um Conto no Jardim ou Para Ela.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Kafka à beira-mar

"Kafka à Beira-mar contém uma série de enigmas, mas não provê soluções. Em vez disso, diversos desses enigmas se combinam, e por meio de sua interação a possibilidade de uma solução toma forma. E a forma que a solução tomará será diferente para cada leitor. Para colocar de outra forma, os enigmas funcionam como parte da solução. É difícil explicar, mas esse é o tipo de romance que eu me disponho a escrever." Tradução de trecho de uma entrevista originalmente publicada no site do autor.
Haruki Murakami (Divulgação)
        Faltam poucos minutos para o fim do dia 12 de janeiro. Aniversário do autor Haruki Murakami. Me pego a pensar: que eu tenha lido um autor japonês pela primeira vez apenas com vinte e dois anos me é até estranho. Tendo o primeiro contato com obras nipônicas por meio dos animes da finada TV Manchete e o contato com a cultura japonesa por meio da proximidade com a instituição religiosa Perfect Liberty na infância, talvez eu devesse ter buscado esse tipo de leitura antes. Certa vez passava pela LIvraria Cultura à procura de algo distinto e me deparei com essa capa:
Edição da Alfaguara, exemplo de um belo projeto de design gráfico.
         Nunca ter ouvido falar em Murakami, naquele momento, me fez pensar se tratava de um ensaio relacionado à Franz Kafka. Algo como qual seria a influência em sua literatura caso vivesse num local mais ensolarado - afinal, sabemos o que Meursault foi capaz de fazer por conta do sol. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma narrativa que misturava corvos, profecias edipianas, universos paralelos, pessoas que conversam com gatos e até mesmo Johnny Walker e o Coronel Sanders (!). Esse último se tornou ainda mais relevante, pois, recém inaugurado o Mooca Plaza Shopping em São Paulo, era um dos poucos locais na cidade em que se podia encontrar um KFC então criava um senso de proximidade com a personagem histórica.
     Indo além, conhecer o "garoto de quinze anos mais corajoso do mundo" inspirou reflexões de um passado de tempestades em copo d'água - tá na cara, que esse copo é meu e é minha a tempestade. - tão simples se identificar com esse tema. O livro carrega intertextualidades que nunca me abandonaram, tais, responsabilidades tem início em sonhos, de Yeats. Um dos pontos da leitura a que mais detive minha atenção foi a canção composta pela Srta Saeki que carrega o mesmo título do livro. Uma canção descrita como capaz de comover muita gente. Aos dezenove, uma tímida garota interiorana pensa no namorado distante e escreve um poema, depois compõe uma melodia para si mesma. Buscando aquecer o próprio coração... quantas vezes me vi no lugar dessa personagem? quantas vezes quis ser eu mesmo a compor uma melodia para tal poema? Perdi as contas.
       Ainda eu não toque piano, o ponto mais forte para me impedir de tentar compor a melodia descrita no livro são os dois acordes existentes na transição de temas. Nunca me decidi como soariam. Até já encontrei no YouTube vídeos de pessoas que se lançaram ao desafio e compuseram melodias sólidas. Mesmo assim, ainda queima a esperança de que um dia, seja eu a alcançar meu próprio ideal estético para essa canção. Murakami teve um insight de que poderia escrever aos vinte e nove anos. Ainda tenho tempo. Ele está apenas quarenta e um anos na minha frente (#41). Que venham mais livros, e muitos anos de vida!

Kafka à beira-mar (2002)

Você se situa na beira do mundo
E eu, na cratera de um vulcão extinto;
E em pé à sombra da porta,
Perfilam palavras cujas letras se perderam.
Lagarta adormecida que a lua ilumina,
Peixinhos que chovem do firmamento,
E do lado de fora da janela
Soldados de espírito decidido.

(Refrão)
Numa cadeira à beira-mar, Kafka
Pensa no pêndulo que move o mundo.
O ciclo espiritual se completa,
E da esfinge que não vai a lugar algum
A sombra em faca se transforma
E trespassa seus sonhos.

Os dedos da menina que se afogou
Tateiam e buscam a pedra da entrada.
Ela arrepanha a barra do vestido azul
E contempla Kafka à beira-mar.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Guarda-chuva

       

 
"F
azia pouco tempo que eu voltara d'A Princesinha do Atlântico, Macaé - RJ. Uma viagem acompanhando meu irmão com o intuito de conhecer uma igreja acabou por propiciar o inicio de um namoro com uma moça local,  direta e liberal, mal nos conhecemos e estávamos enlaçados. Há quanto eu deixara de ser o rapaz tímido em uma mesa de amigos em uma viagem ao Paraná? Nem mesmo notara quão simples me era para pedir uma garota em namoro. Tempo se não perde. A família dela? Sem problemas, ela afirmou eu poderia levá-la à sua casa enquanto seus pais e irmãos conversavam na saída da igreja.Voltei com a promessa de manter este relacionamento através de cartas, seria algo firme e concreto. Depois dos vinte e cinco anos há pouco espaço para incertezas.
                Ao menos, era o meu pensamento naquele instante. A chegada em São Paulo me propiciou uma leveza ímpar. Por mais prazer eu tenha em passear por outras paisagens fazendo novas amizades. Como o lar, não há lugar. Ainda que você sinta a sua pátria como o mundo, suas raízes sempre estarão mais firmes n'algum lugar. Para mim, esta é São Paulo. Enquanto famosa por sua garoa, foram sempre suas chuvas torrenciais a me fascinar. Chuvas, presente de Deus. A mim, não cabe delimitar os limites de sua previdência, pois que não os há. Foi na casa Dele, noticiei uma presença diferente, e antes de poder controlar. Estava com os olhos magnetizados na saxofonista da banda. Cabelos longos, uma beleza natural. Sem maquiagem, sem disfarces, e me convencendo cada vez mais de que era uma moça ideal. O tempo que passei a observando foi um curto infinito. Congregávamos na mesma igreja, e por isso, ainda que estivéssemos distantes, estávamos próximos. A observei mesmo enquanto meus irmãos e amigos cumprimentavam-me antes de sairmos da igreja. A saxofonista estava acompanhada de, creio, suas três irmãs. Eu a via, e a sensação só seria mais perfeita se a pudesse ter para uma conversa. Coloquei-me a pensar a aproximação.
                Dias depois estava eu, naquela época nem mesmo possuía carro, em meio a uma tormenta, meu protetor era um guarda-chuva. E aí lhe digo: era um guarda-chuva masculino banal, sem floreios ou borrões, sem pétalas ou detalhes. Deixei-o ao lado do grande portal da igreja e entrei para o louvor como acontecia toda a semana. Lembrei-me da promessa de Deus de nunca mais inundar a Terra e censurei-me por tê-lo pensado, afinal, a chuva era forte mas não equiparava-se a um dilúvio. Quando o culto acabou, a chuva não cessara, seriam necessários poucos quilômetros até a minha casa. Noto, o desaparecimento de meu guarda-chuva. Será mesmo, nem na casa do Senhor estava livre de sofrer pequenos furtos? Era um guarda-chuva banal, mas me pertencia. Uma mulher não o confundiria com uma sombrinha rosa. Fui ao encontro do pastor. E lhe comuniquei minha indignação com o caso, ele, muito compreensivo, apaziguou-me e afirmou a disponibilidade de um irmão levar-me até minha casa. Anunciaria, então, no culto da semana seguinte o desaparecimento de meu pertence, com isso, voltei para casa um tanto mais tranquilo.
                Semana seguinte, já mais tranquilo, compareci a igreja. A chuva, tal qual meu objeto na semana anterior, desaparecera. O pastor informou ter feito o comunicado um pouco antes de minha chegada e ao final do culto, eu esperava a manifestação da alma caridosa. E - acreditem vocês ou não - a pessoa que se dirigiu a mim não era senão a saxofonista. Explicou-me o engano que ocorrera: suas irmãs pensaram que  guarda-chuva era de um de seus irmãos, então pegaram-no sem ao menos confirmar. Pediu desculpas pelo infortúnio. "Infortúnio nenhum", respondi polidamente, afinal, o erro de suas irmãs fez com que ela precisasse se aproximar de mim. Não comuniquei a ela, estes pensamentos, eles eram meus e a surpresa daquele contato me deixou muito contente. "O problema" prosseguiu ela "É que como não choveu hoje, não trouxemos seu guarda-chuva, o que faremos?" repliquei não haver problema em pega-lo depois. E se chovesse depois? como eu faria para me locomover? Essas perguntas que eu fazia para mim mesmo enquanto conversávamos foi respondida por ela no instante em que propôs que eu a acompanha-se até sua casa para reaver meu guarda-chuva por garantia. "Claro". Prosseguimos conversando amenidades. O fato de haver possibilidade de conhecer sua família adiantar-me-ia as coisas. Em sua casa, recuperei meu guarda-chuva - que honestamente, deixa de ter importância a partir deste ponto. Ele cumprira sua função e esta foi a razão de eu tê-lo colocado em tão grande estima no título desta pequena, mas importante memória - e passei a conversar um pouco mais com a saxofonista. A proximidade me acalentava. As irmãs dela, nos observavam de soslaio entre risinhos divertidos, elas já haviam notado meu interesse.
                Exagero não seria se eu dissesse que a partir deste momento, parte do meu foco residiu neste passado regido pelo guarda-chuva e a outra parte imaginando o próximo encontro. Aconselho: escolha uma namorada da igreja, moça recatada, séria. De família. É muito difícil errar. Não é o seu caso? Se sua namorada foi da igreja e atendia a estes pré-requisitos e tudo deu errado eram possibilidades também. Regras inexistem neste caso. Importante é sentir fazer sentido. Vale para vocês também, mulheres. Encontram-se bons rapazes na igreja, se sua mãe a força em um relacionamento e não dá certo também é da vida: coisas e causos.  Lembra-me de continuar o meu! A saxofonista me quase escapava na saída do culto da semana. Sem tanto pudor segure-lhe pelo braço, suas irmãs cúmplices de meu pensar apressaram o passo para propiciar um momento a sós.  "Estou gostando de você e adoraria tê-la como namorada", não foram essas as palavras que eu dissera naquela hora. Quero apenas registrar que foi direto. Tão direto quanto alguém respeitosamente poderia ser. Como seria? "Você terá que falar com meu pai, se ele aceitar..." Costumes carregados até o fim dos anos oitenta. Se você estiver a ler estas palavras nos anos dois mil provavelmente achará esquisito. "permissão dos pais". Eu não achei e prossegui com ela até sua casa para resolver o caso o mais rápido possível. Os bigodes de meu futuro sogro me lembraram por alguns instantes um coronel em uma novela de época. Poderia ser também a autoridade daquela figura. Para este relato, importa a pronta aceitação da parte dele, desde que seguíssemos algumas regras, a saber: estaríamos sempre sendo observados. Poderia conversar com sua filha no portão até as 22h pois que ela trabalhava. Ele delimitou também alguns dias específicos para estes encontros. Aceitei a tudo sem muito alarde, não convinha desagradar ao pai naquele instante, tampouco nos próximos! Prosseguíamos em obediência.
                Tão logo estávamos prestes a iniciar o namoro de forma séria, confidenciei à garota uma situação que até então eu esquecera: minha namorada em Macaé! Rapaz! Ou moça a ler este relato. Naquele instante não soube se aquele olhar era de raiva, de riso ou misto. Poderia também ser de alguma emoção não catalogada. Teria ela pensado na canção de Luiz Ayrão "Se ele faz com ela vai fazer comigo?" Era apenas surpresa? Ouvi um contrariado "Você também, viu?" Sem pestanejar corri à cidade maravilhosa para fechar as pontas. "Mas, o que houve?", "Qual o motivo?", expliquei a situação rápida e detalhadamente - se há maneira de fazê-lo encontrei - a carioca compreendeu tudo. Não fosse o caso eu nada poderia fazer. A volta para São Paulo significava poder viver por perto da saxofonista. De que mais eu precisaria?

                                                                   FIM

P.S: À vocês, tradicionalistas que desaceitariam o fim da história com minha volta - aos que aceitaram a falibilidade da vida e das narrativas afirmo: tome o fim como definitivo e esqueça ter começado a ler este adendo -  relatarei os acontecimentos ocorridos depois de meu reencontro com minha querida saxofonista:
A obediência cega ao pai dela prosseguiu e com o passar, quem não apreciou muito estas regras foram os meus pais. "Onde já se viu um homem com mais de vinte e cinco anos precisar ser pajeado? É muito século passado isso, você é um rapaz honesto filho, e a filha dele também já é maior de idade" Entre outras, ouvi frases como esta. Certos, meus pais estavam. Tanto que até mesmo minha namorada concordou com eles. É coisa dos melhores romances, uma rivalidade entre famílias, pequenas exaltações. Os pais dela desgostaram esta atitude. Quando se é superprotetor, enlaça-se aos filhos de tal maneira! Depois de vinte anos é difícil uma separação pacífica. Vinte. Estou falando há uns vinte minutos não? Certo, prosseguirei"

                                                        ***

Oh ironias! Anos depois, a carta que conservara a narrativa estava incompleta. Houve tempo em que semelhante relato despertaria em mim a crença no amor. Tal engano com o guarda-chuva era parte de um plano superior, quase uma prova da existência de Deus, onipotente em seus desígnios a reunir os filhos perdidos para fins maiores que a procriação. Seria a anulação de Schopenhauer suas colocações acerca do amor? falácias, talvez até adquirissem um valor cômico para o grande filósofo no pós-morte em que caminha ao lado de Goethe e Hemingway. Não seria hoje. Quando parti pela cidade a indagar que acontecera com o narrador da história sou surpreendido com a informação de que fora preso por assediar mulheres. Mencionaram algo acerca do artigo 216-A, eu já não estava a prestar atenção, todavia. Lembrei-me de quando este homem pedira para eu redigir sua história que seria um presente para a esposa, um brinde pela longevidade da relação. Encontrei até mesmo o endereço dela em um diário antigo. Alegrei-me por nunca ter remetido o texto à tal saxofonista. Me não tornei cúmplice, criador de álibis para fidelidades imaginárias.