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domingo, 7 de junho de 2020

Árvore da Solidão

“Se a preocupação com a técnica é inseparável do artista (Delcroze, 1925), o verdadeiro músico transforma inconscientemente tudo quanto acontece em manifestação de natureza sonora. Ele compõe obedecendo a um impulso inato, mas necessita sempre do conhecimento técnico para ”enformar” a emoção numa construção artística.” Da música, seus usos e recursos – Maria de Lourdes Sekeff – 2ª ed. Ver. E ampliada – São Paulo: Editora UNESP, 2007
Anjo Gabriel, do artista soteropolitano Enoque Cesar de Souza
na Praça IV Centenário em Guarulhos, foto por Thales Salgado em 09/10/2019

Árvore da solidão (2011) 
Letra e música: Thales Salgado 

Árvore da solidão 
Sonhava estrelas 
Opacas, vibrantes: 
Não podia tê-las. 

Ir p'ra casa, um banho. 
Parecia-lhe um plano estranho 
Seus pés sempre presos ao chão 

A chuva não mais vem 
E nem a reza, lhe leva alguém 
Para regar (para regar) 

Ao longe avista galhos que um homem carrega 
Esquecendo o direito que ela tinha a dizer "Não" 
O canto das motosserras retalha a arvore da solidão 
Dão lhe só o direito de se ver tornar carvão



         Quando junho começou, passei a pensar em escrever um post sobre uma canção de 2011 chamada que versava sobre uma “árvore da solidão”. Revirando a caixa de e-mails, verifiquei que encaminhei a demo pela primeira vez no dia 02/10, um domingo, então, podemos considerar que ela foi composta naquele final de semana.
      Não sei há exatamente quanto tempo ela estava escrita antes disso. Mas sei que tentara uma série de melodias para aquelas palavras, infrutiferamente.
      O título do “álbum” seria Eclipse de Silêncios. Sabe aquelas coisas que você pensa “isso soa bem” e tem que, estupidamente, interromper o que quer que esteja fazendo para anotar? A ideia soava assim, “original”.
       Uma superficial consulta ao Google me fez descobrir em 2020 que tanto o poeta Pedro Barão de Campos quanto o cantautor espanhol David DeMaría já mencionavam o termo. Não existimos em um vácuo, portanto, isso não é nada de novo.No fim das contas, nunca senti que as composições daquele período, entre 2011 e 2012, feitas entre o Mosaico de Estrelas e o álbum feito em parceria com Kariny, respondessem a algum conceito maior:
     Havia desde letras de amigos meus, composições coletivas inspiradas no dadaísmo com colegas no último semestre da faculdade, versos roubados, a até mesmo o trabalho com autores desconhecidos. De modo que todas aquelas ideias possíveis foram recombinadas sob o título De Tudo o Que Não Foi e mesmo o termo eclipse de silêncios acabou por integrar a letra de HMK, apenas em 2013.
      Contextualizada a ausência de uma linha guia para as composições daquele ano, recordo que, em parte, a letra dessa composição partiu da ideia de “também ter uma música com árvore”. Tão somente, pensando em artistas que recorreram ao tema e eu estava ouvindo naquele período consigo levantar três: Dave Matthews Band e sua A canção The Dreaming Tree de 1998. A composição Dance ‘Round the Memory Tree, de Oren Lavie (2008), que fez parte da trilha sonora do filme As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian e, em alguma escala, o álbum Sometimes I Wish We Were An Eagle (2009) de Bill Callahan em que cenários campestres surgem de quando em vez, seja em Jim Cain (Comecei em busca de coisas ordinárias/Quanto de uma árvore enverga ao vento), Too Many Birds (Muitos pássaros em uma árvore só), My Friend (Agora, não estou dizendo que fomos cortados da mesma árvore), e All Thoughs Are Prey to Some Beast (A águia olhou claramente através da árvore-cérebro).
         Pode ser, e aí estou entrando em terreno movediço pelos campos da memória, que a questões como estas estivessem germinando de antes; historicamente, o período entre agosto e setembro costuma registrar os números mais elevados de focos de calor, incêndios e casos de queimada.
         Ainda que, naquele ano, não tivéssemos vivido um anoitecer precoce, como ocorrido em 2019, quando os efeitos da fumaça de queimadas na região amazônica puderam ser sentidos bem longe da Amazônia, chegando a locais como São Paulo e Paraná, seria exagerar dizer que notícias com a mesma temática estivessem rondando o período?Também corrobora com essa impressão a menção nos últimos versos do “canto das motosserras” um tributo à letra de Um Caminho Para o Céu, de Bruno Barduchi Oliveira, uma vez que esta é, cronologicamente, a primeira composição musical que fiz. Há, também, no verso que diz “ir p’ra casa, um banho” a tentativa de aproximar a letra do cotidiano, flertando, brevemente, com uma ideia retirada de L’âge D’Or que tinha, entre seus versos “Meu tornozelo coça/Por causa de mosquitos/Estou com os cabelos molhados/Me sinto limpo”.
         Obviamente, um banho nada tem de estranho (a menos que se considere o plano do eu-lírico da canção, que está imobilizado), mas, para quem passara o período entre 2007 e 2010 sempre escolhendo termos como “torpor eterno” e “descalabro” para compor as letras, flertar com uma ação cotidiana era um avanço.

Foto do moleskine com a cifra
referência para a gravação,
 mais simples, impossível.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Guarda-chuva

       

 
"F
azia pouco tempo que eu voltara d'A Princesinha do Atlântico, Macaé - RJ. Uma viagem acompanhando meu irmão com o intuito de conhecer uma igreja acabou por propiciar o inicio de um namoro com uma moça local,  direta e liberal, mal nos conhecemos e estávamos enlaçados. Há quanto eu deixara de ser o rapaz tímido em uma mesa de amigos em uma viagem ao Paraná? Nem mesmo notara quão simples me era para pedir uma garota em namoro. Tempo se não perde. A família dela? Sem problemas, ela afirmou eu poderia levá-la à sua casa enquanto seus pais e irmãos conversavam na saída da igreja.Voltei com a promessa de manter este relacionamento através de cartas, seria algo firme e concreto. Depois dos vinte e cinco anos há pouco espaço para incertezas.
                Ao menos, era o meu pensamento naquele instante. A chegada em São Paulo me propiciou uma leveza ímpar. Por mais prazer eu tenha em passear por outras paisagens fazendo novas amizades. Como o lar, não há lugar. Ainda que você sinta a sua pátria como o mundo, suas raízes sempre estarão mais firmes n'algum lugar. Para mim, esta é São Paulo. Enquanto famosa por sua garoa, foram sempre suas chuvas torrenciais a me fascinar. Chuvas, presente de Deus. A mim, não cabe delimitar os limites de sua previdência, pois que não os há. Foi na casa Dele, noticiei uma presença diferente, e antes de poder controlar. Estava com os olhos magnetizados na saxofonista da banda. Cabelos longos, uma beleza natural. Sem maquiagem, sem disfarces, e me convencendo cada vez mais de que era uma moça ideal. O tempo que passei a observando foi um curto infinito. Congregávamos na mesma igreja, e por isso, ainda que estivéssemos distantes, estávamos próximos. A observei mesmo enquanto meus irmãos e amigos cumprimentavam-me antes de sairmos da igreja. A saxofonista estava acompanhada de, creio, suas três irmãs. Eu a via, e a sensação só seria mais perfeita se a pudesse ter para uma conversa. Coloquei-me a pensar a aproximação.
                Dias depois estava eu, naquela época nem mesmo possuía carro, em meio a uma tormenta, meu protetor era um guarda-chuva. E aí lhe digo: era um guarda-chuva masculino banal, sem floreios ou borrões, sem pétalas ou detalhes. Deixei-o ao lado do grande portal da igreja e entrei para o louvor como acontecia toda a semana. Lembrei-me da promessa de Deus de nunca mais inundar a Terra e censurei-me por tê-lo pensado, afinal, a chuva era forte mas não equiparava-se a um dilúvio. Quando o culto acabou, a chuva não cessara, seriam necessários poucos quilômetros até a minha casa. Noto, o desaparecimento de meu guarda-chuva. Será mesmo, nem na casa do Senhor estava livre de sofrer pequenos furtos? Era um guarda-chuva banal, mas me pertencia. Uma mulher não o confundiria com uma sombrinha rosa. Fui ao encontro do pastor. E lhe comuniquei minha indignação com o caso, ele, muito compreensivo, apaziguou-me e afirmou a disponibilidade de um irmão levar-me até minha casa. Anunciaria, então, no culto da semana seguinte o desaparecimento de meu pertence, com isso, voltei para casa um tanto mais tranquilo.
                Semana seguinte, já mais tranquilo, compareci a igreja. A chuva, tal qual meu objeto na semana anterior, desaparecera. O pastor informou ter feito o comunicado um pouco antes de minha chegada e ao final do culto, eu esperava a manifestação da alma caridosa. E - acreditem vocês ou não - a pessoa que se dirigiu a mim não era senão a saxofonista. Explicou-me o engano que ocorrera: suas irmãs pensaram que  guarda-chuva era de um de seus irmãos, então pegaram-no sem ao menos confirmar. Pediu desculpas pelo infortúnio. "Infortúnio nenhum", respondi polidamente, afinal, o erro de suas irmãs fez com que ela precisasse se aproximar de mim. Não comuniquei a ela, estes pensamentos, eles eram meus e a surpresa daquele contato me deixou muito contente. "O problema" prosseguiu ela "É que como não choveu hoje, não trouxemos seu guarda-chuva, o que faremos?" repliquei não haver problema em pega-lo depois. E se chovesse depois? como eu faria para me locomover? Essas perguntas que eu fazia para mim mesmo enquanto conversávamos foi respondida por ela no instante em que propôs que eu a acompanha-se até sua casa para reaver meu guarda-chuva por garantia. "Claro". Prosseguimos conversando amenidades. O fato de haver possibilidade de conhecer sua família adiantar-me-ia as coisas. Em sua casa, recuperei meu guarda-chuva - que honestamente, deixa de ter importância a partir deste ponto. Ele cumprira sua função e esta foi a razão de eu tê-lo colocado em tão grande estima no título desta pequena, mas importante memória - e passei a conversar um pouco mais com a saxofonista. A proximidade me acalentava. As irmãs dela, nos observavam de soslaio entre risinhos divertidos, elas já haviam notado meu interesse.
                Exagero não seria se eu dissesse que a partir deste momento, parte do meu foco residiu neste passado regido pelo guarda-chuva e a outra parte imaginando o próximo encontro. Aconselho: escolha uma namorada da igreja, moça recatada, séria. De família. É muito difícil errar. Não é o seu caso? Se sua namorada foi da igreja e atendia a estes pré-requisitos e tudo deu errado eram possibilidades também. Regras inexistem neste caso. Importante é sentir fazer sentido. Vale para vocês também, mulheres. Encontram-se bons rapazes na igreja, se sua mãe a força em um relacionamento e não dá certo também é da vida: coisas e causos.  Lembra-me de continuar o meu! A saxofonista me quase escapava na saída do culto da semana. Sem tanto pudor segure-lhe pelo braço, suas irmãs cúmplices de meu pensar apressaram o passo para propiciar um momento a sós.  "Estou gostando de você e adoraria tê-la como namorada", não foram essas as palavras que eu dissera naquela hora. Quero apenas registrar que foi direto. Tão direto quanto alguém respeitosamente poderia ser. Como seria? "Você terá que falar com meu pai, se ele aceitar..." Costumes carregados até o fim dos anos oitenta. Se você estiver a ler estas palavras nos anos dois mil provavelmente achará esquisito. "permissão dos pais". Eu não achei e prossegui com ela até sua casa para resolver o caso o mais rápido possível. Os bigodes de meu futuro sogro me lembraram por alguns instantes um coronel em uma novela de época. Poderia ser também a autoridade daquela figura. Para este relato, importa a pronta aceitação da parte dele, desde que seguíssemos algumas regras, a saber: estaríamos sempre sendo observados. Poderia conversar com sua filha no portão até as 22h pois que ela trabalhava. Ele delimitou também alguns dias específicos para estes encontros. Aceitei a tudo sem muito alarde, não convinha desagradar ao pai naquele instante, tampouco nos próximos! Prosseguíamos em obediência.
                Tão logo estávamos prestes a iniciar o namoro de forma séria, confidenciei à garota uma situação que até então eu esquecera: minha namorada em Macaé! Rapaz! Ou moça a ler este relato. Naquele instante não soube se aquele olhar era de raiva, de riso ou misto. Poderia também ser de alguma emoção não catalogada. Teria ela pensado na canção de Luiz Ayrão "Se ele faz com ela vai fazer comigo?" Era apenas surpresa? Ouvi um contrariado "Você também, viu?" Sem pestanejar corri à cidade maravilhosa para fechar as pontas. "Mas, o que houve?", "Qual o motivo?", expliquei a situação rápida e detalhadamente - se há maneira de fazê-lo encontrei - a carioca compreendeu tudo. Não fosse o caso eu nada poderia fazer. A volta para São Paulo significava poder viver por perto da saxofonista. De que mais eu precisaria?

                                                                   FIM

P.S: À vocês, tradicionalistas que desaceitariam o fim da história com minha volta - aos que aceitaram a falibilidade da vida e das narrativas afirmo: tome o fim como definitivo e esqueça ter começado a ler este adendo -  relatarei os acontecimentos ocorridos depois de meu reencontro com minha querida saxofonista:
A obediência cega ao pai dela prosseguiu e com o passar, quem não apreciou muito estas regras foram os meus pais. "Onde já se viu um homem com mais de vinte e cinco anos precisar ser pajeado? É muito século passado isso, você é um rapaz honesto filho, e a filha dele também já é maior de idade" Entre outras, ouvi frases como esta. Certos, meus pais estavam. Tanto que até mesmo minha namorada concordou com eles. É coisa dos melhores romances, uma rivalidade entre famílias, pequenas exaltações. Os pais dela desgostaram esta atitude. Quando se é superprotetor, enlaça-se aos filhos de tal maneira! Depois de vinte anos é difícil uma separação pacífica. Vinte. Estou falando há uns vinte minutos não? Certo, prosseguirei"

                                                        ***

Oh ironias! Anos depois, a carta que conservara a narrativa estava incompleta. Houve tempo em que semelhante relato despertaria em mim a crença no amor. Tal engano com o guarda-chuva era parte de um plano superior, quase uma prova da existência de Deus, onipotente em seus desígnios a reunir os filhos perdidos para fins maiores que a procriação. Seria a anulação de Schopenhauer suas colocações acerca do amor? falácias, talvez até adquirissem um valor cômico para o grande filósofo no pós-morte em que caminha ao lado de Goethe e Hemingway. Não seria hoje. Quando parti pela cidade a indagar que acontecera com o narrador da história sou surpreendido com a informação de que fora preso por assediar mulheres. Mencionaram algo acerca do artigo 216-A, eu já não estava a prestar atenção, todavia. Lembrei-me de quando este homem pedira para eu redigir sua história que seria um presente para a esposa, um brinde pela longevidade da relação. Encontrei até mesmo o endereço dela em um diário antigo. Alegrei-me por nunca ter remetido o texto à tal saxofonista. Me não tornei cúmplice, criador de álibis para fidelidades imaginárias.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Do Amor de Outrem

Dando rosto aos nomes
“Song wise, I don’t even mind writing a bad song, or a silly song, or a song that I don’t want to play today. It made sense at that moment. If it’s a song and we worked on it, I have love for it. So [I] very little regret about songs, even if they’re not good, or there’s something I never would want to play together, I remember why we wrote it, when we wrote it, it had a purpose.” Anthony Kiedis in an interview for ET Canada, 2016
Do amor de outrem (2012)

Ele escrevia a falta
Do que não possuía
Ele idealizava 
Um amor que não havia
Eram cenas de cinema
Desfundamentadas do mundo real
E ele notou quando pôs-se
A sua frente uma mulher
E o tempo parou

Ele desconfiou do clichê
Aos poucos se deixou envolver
Se o destino quiser que escreva

Pois ao vê-la perto ele percebeu
Com clareza que a falta desvaneceu
O sorriso dela o fez imaginar
Que o presente era tudo que havia;



           O tempo. Receio repetir as referências, as histórias. Há um ponto, no entanto, bom para constar no arquivo do blog. Existe ao menos a intenção da canção de refletir algo/alguém/alguma coisa. "Do Amor de Outrem" é praticamente uma continuação de Falta. Dessa vez, influenciado por conversas com o autor da letra supracitada. A "falta" era a força-motriz para a redação de poemas. Musiquei dois deles, um foi O Tempo Passado que deu nome à coletânea de demos de 2010, da qual faz parte a canção Desejo de um Rio. Quando ele conheceu Muriell essa necessidade de traduzir as inquietações diminuiu, os versos se tornaram escassos. A poesia reside na vida e na convivência. Quanto tempo já faz isso? Havia um retrato de como enxerguei esse momento nos idos de 2012. O presente é tudo o que há. Neste 2017 faz mais sentido. Que as mãos entrelaçadas na vida continuem ressoando para além do amor.




         To a certain extent this song is the spiritual sucessor of Falta. If Mr. Anderson wrote about "a void" his life changed when he met Ms. Muriell. Some can say when you're happy there's not a reason to write and maybe they're right. The major example may be that of singer-songwriter Tucker Crowe. Best known for his song You and Your Perfect Life after a long hiatus his last work was considered too happy for some die-hard fans. Is this song happy? It starts with an E major so at least it was a conscious thing. Sometimes I remember Pearl Jam version of Soldier of Love. As a matter of fact I was trying to do something like Marcelo Camelo's Tudo o que Você Quiser. This translation tries to capture the meaning ignoring rhymes and other stylistic devices as the use of words as "desfundamentadas" (groundless) I had opted to "never grounded in reality". "cena de cinema" could be "movie sequences" and yet silver screen makes a homage to Anthony Kiedis.


About the love of others (2012)


He used to write "the lack".
Of what he didn't have.
He idealized a love
That was not there.
Living silver screen scenes
Never grounded in reality
And he noticed when
"the woman" came close by
And time stood still.

Although it seemed cliché at first
He got carried away.
If Fate is involved? So be it.

When he saw her, he realized,
The lack was gone.
Her smile made him feel
Today's all there is

"Quanto às músicas, eu não me importo de escrever uma música ruim, boba ou uma que eu não queira tocar hoje. Fez sentido naquele momento. Se é uma música e nós trabalhamos nela, eu tenho amor pelo resultado. Tenho pouco arrependimento acerca de músicas, mesmo que não sejam boas, ou que haja algo que eu nunca iria querer tocar novamente, eu me lembro a razão de termos composto, quando compomos, havia um propósito." Anthony Kiedis em entrevista para a Entertainment Tonight Canada, em 2016.
Um dos poucos registros de uma letra de 2012.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Exaustão e Veneno


"Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?"
Esquadros, Adriana Calcanhotto




         

Exaustão e veneno (2011)

Angústia é grito a não querer sair
Suspiro calado esgotando o ar que não há
Além dos muros do rei: aurora em passagem
Anseio a paisagem e a vejo afastar

Um veneno me queima a garganta
É a exaustão a querer consumir
Eu quero fugir mas não sei sair de mim
Sozinho eu morro. Não me impeço, eu só corro.

Eu gritei que o lobo chegou por demais
(Por vezes demais)
Isso não se faz



         De acordo com alguns e-mails, redescubro a data de concepção de Exaustão e Veneno: segunda-feira, dezenove de setembro de dois mil e onze. Como uma série de outras composições desconheço o gatilho motivador. Ela falou "suas músicas são sempre tão tristes", até quando o seriam? Algumas ideias realizaram a transição de um sms outras surgiram de fábulas, se por um lado estava consciente de afirmar um complexo de raposa. Por outro havia a anunciação do garoto-pastor de um fim que nunca chegou. Se um dia se abreviar, quem vai ouvir?
        

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Da Infância

"Medo de sangue depois do pastor
Caixa-forte em formato de Buda
Lapís de pele sem minha cor
Dragão sem fogo na vidraça da chuva
Fora o que eu queria
Nada me faltava"








São Paulo, 12 de Outubro de 2037.

         As águas do Sapucaí, hoje, me escapam. Enquanto via os caçadores de tabaranas em seus barcos ao redor só me importava refrescar o verão. O que os impedia de simplesmente encher um saco de estopa com os peixes? Talvez eu ainda não saiba. Lembro de pegar a minha Caloi azulinha, cuidava dela como fosse o celular, não, até melhor, parando para pensar. Passei quase uma dezena e meia de anos com aquela bike!. Não conheço um celular que funcione por tanto!  Teve uma vez que até quebrei o retrovisor do carro do vizinho, a sorte foi que ele bebia tanto que pensou a obra de arte era dele mesmo. Eu já nem sentia os pedais apostando corridas imaginárias com as meninas em patins ou as que colecionavam pedras nos joelhos pelo rolimã. A turma toda era rueira demais.
         O que não queria dizer abrir mão da soldadesca verde fincando bandeiras por todo o território inimigo. Quando meus primos não estavam, o conjunto de dominó virava um porta-aviões. Acho que a coisa mais estranha para mim, era imaginar o que Nossa Senhora tinha com as crianças, quando era em Cosme e Damião que se ganhava doces. Cresci para não saber nada? Sabia que domingo quando meu pai acordasse colocaria para tocar um samba-rock, era um sinal para o dia ser bom! Mesmo que ele viesse com alguma ideia como "ler o jornal em voz alta" antes de sair para brincar. Num aniversário de nem sei quantos anos parecia que estava a rua toda no sítio da minha avó, nem mesmo cabiam na cabana de zinco. Lembro da minha mãe me dando um carro de fórmula um do Ayrton Senna, todos comemos rocambole de goiaba e foi provavelmente um dos primeiros dias em que pensei "essa tal de vida é realmente boa".

         

          A vizinha fazia gelinho com mangas coquinho que disputávamos com os passarinhos. Quando estava de férias em Araraquara, a gente via a fuligem da queima de palha da cana e chamava de balõezinhos. Corríamos pelas ruas de barro batido pra pegar e brincar de mãozinha-preta. E eu correria mesmo que os dedos estivessem todos esfolados. Visitava minhas primas que ficavam na casa da árvore na beira do lago, era engraçado, todas elas faziam de tudo, jogavam bola, empinavam pipas, até quando eu só estava preocupado com o episódio de Dragon Ball. Acho que por crescer vendo esse tipo de coisa nunca entrei nas frescuras de "isso é coisa pra menino ou pra menina". Acho que é o tipo de coisa para se passar para os filhos, hoje em dia até saiyajins tem cabelo rosé. 
         Teve uma vez em que eu estava apenas parado, vendo uma menina fascinada com a lua e o sol juntos. Nem era noite!. Eu me perguntava se eu parecia surpreso, ao menos, do alto de meus nove anos, não iria admitir ser impressionado por nada. Pelo menos não ali. Mas a que preço? Ninguém precisaria saber. A questão é, suponho ninguém se importe com isso hoje em dia. Tenho aqui pra mim que algo daquele tempo permanece. Esperei por anos que fosse surgir um estalo dizendo "agora tu és um adulto!" mas o estalo nunca chegou. Então talvez, simplesmente seja assim para todo mundo. Meio que uma infância compartida. Quando começou o penúltimo semestre da faculdade de Letras decidi registrar as lembranças de infância dos colegas da sala de aula. Passe muito tempo falando comigo e certamente vai ouvir em algum momento "isso daria uma música". Pedi que ninguém assinasse o nome e administrei as memórias como quis, ou como pude, o que vem a dar no mesmo. Por essa mesma razão, mantive a música da forma como foi apresentada no sarau da faculdade. Há quem diga estar por demais melancólica mas... reflete minha visão da passagem.

P.S: Repetindo a experiência da letra anos depois, o texto dessa semana é, também, composto de retalhos de memória coletiva. Então deixo o agradecimento a todos que me auxiliaram na pesquisa.

Da Infância
Turma de Letras UniSant’Anna 2011

Em quadrinhos vivia (sim) podia colorir o céu
As tardes de domingo como um bolo de mel
Uma dezena de moedas e eu fazia fortuna
Antes, depois da escola só brincando na rua

Me lembro que o dia durava um ano
Ele hoje se esvai, era a liberdade!
Só agora eu sei...

Inocentes conversas com amigos e amigas
As cortinas abertas, sem conhecer perigo
E como um passe de mágica: Tinha o que precisava
Tanto zelo a minha volta, nada me preocupava

Me lembro dessa vida que seguia sem planos
E ficou para trás
Sei a felicidade é não deixar passar
Não vamos nos perder de nós, o que fomos nos somos
Sei a felicidade é não deixar se perder


Respostas que foram usadas como base para a letra de 2011