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sábado, 22 de outubro de 2022

C.P.T.M. , da ilustração e demo

 "Atravesso as calçadas pra ter avenidas inteiras só pra mim. Às vezes, evitar as pessoas me faz bem. Quando eu estou numa multidão, cada pessoa, cada frase direcionada a mim, uma pergunta mais específica que me faça falar me suga a energia, me arranca de um curso natural. Eu queria estar junto, mas estar junto seria uma coisa excepcional, me cansaria. Eu sempre acabo querendo ir embora antes da hora de cortar o bolo." - Contos de mentira, Luisa Geisler - Rio de Janeiro: Record, 2011. p.82 e 83


Arte por @ellaproenca


   Na manhã do ducentésimo nonagésimo dia de 2022, rememoro e acho graça no positivismo do Thales de quatro anos, três meses e vinte e dois dias atrás. Num post neste mesmo blog, C.P.T.M., da letra, eu concluía após reflexões preliminares: "Surge "Caminham Pelos Trilhos do Mundo" e, após isso, concluo que a melhor forma para começar a letra seria usar, como tantas outras vezes, um acróstico. Desta vez para Metrô e Trem. Objetos inanimados tomando parte de uma canção. Que, até o fim de julho, não foi gravada. Mas o será, em breve." quatro anos ainda se enquadra na categoria de "em breve?" Em se considerar que a gravação da demo foi ocorrer em algum ponto de 2021, sim. Se, como versa Lirinha em Meu Mundo de Otto, o desejo é um tempo parado, o desejo de escrever acerca dessa letra demanda que isso seja realizado em partes. Para todos os efeitos, não é como existisse um prazo fixo. Já escreveu Vitor Ramil: "nascer leva tempo".
    Foi apenas após assistir ao show de lançamento de Oceano Rubi da Vanguart no Sesc Santo Amaro, que me ocorreu colocar, uma vez mais, essa canção sob análise. E, foi assim, que entrei em contato com a multiartista Isabella Proença falando acerca desta canção e de minha postagem anterior embebida em wishful thinking. Agora, o termo em esperanto "Aliloke" já estava atravessando a compilação de canções feitas após o Ikyriou EP. Ele já havia, inclusive, sido utilizado na canção Impressões Antes de Olvidar Memórias Pacíficas, composta após uma imersão em Belo Horizonte conhecendo o Sarau Tranquilo, enfim, como diria Maz Kanata, essa é uma história para um outro momento.
   O receio de que o tom mezzo-mórbido da canção fosse um impeditivo, se desmanchou quando Isabella comentou não só gostar do mórbido quanto ter a vontade de explorar sua criação pelo meio digital. E foi assim que surgiu o painel, com um terceiro lugar, entre eu que passei diversas vezes na estação da Luz, Isabella, que ainda não esteve nela, e todas as histórias que perpassam os versos.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Distante, razoavelmente inquieta, e, acima de tudo: lenta e livremente, em torno de si.

"É uma luta permanecer presente onde quer que eu esteja, porque minha mente viaja no tempo e no espaço, não apenas até o passado e o futuro, mas também até as casas que nos cercam neste condomínio, até os corpos que habitam esta cidade." - Açucar Queimado, Avni Doshi; tradução Adriana Lisboa. - Porto Alegre: Dublinense, 2021. p.118

 

Arte por @ellaproenca

Distante, razoavelmente inquieta, e, acima de tudo: lenta e livremente, em torno de si. (2022)
Letra e Música: Thales Salgado

Quantas vozes há em ti?
São elas suas vidas passadas
Ou o que está por vir?
Há tantas interrogações!

Cale aquelas que puder
Ouça as que lhe façam bem
Se forem só ilusão
Dissipe com o coração

Sua voz é bem maior
Que qualquer barulho.

     Por muitos dias, esses versos não tiveram nome. Cheguei até a me perguntar se assim ficariam. Há uma década já me vali do expediente de nomear uma composição como "Sem um Nome". Batizar - e eu provavelmente já repeti isso diversas vezes desde 2016, é, muitas vezes, mais difícil do que escrever todos os versos. Agora, qual o motivo de um título tão extenso? (Não que já não haja precedente com Tudo Depende de Conforme For (ou A Balada de Raul e Júlia) de 2017) pode ser influência do título do álbum de Jair Naves: E Você Se Sente numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas que está completando dez anos em 2022.
    "Se eu tentar, ser mais direto, vou me perder... melhor deixar quieto" cantaria o duo Pouca Vogal.
     Composta no dia 6/09 quase que de forma inconsciente, a última coisa que ela recebeu foi o nome (justamente agora, no dia 27/09). Quando entrei em contato com a multiartista Isabella Proença para propor mais uma parceria para ilustração, a canção seguia sem nome. Abertura maior para que ela mergulhasse nas diversas camadas para seu realismo abstrato não poderia existir. Aquarela e digital, dois mundos, distintos são, mas ela soube, uma vez mais, uni-los e fazer com que trabalhassem em uma mesma intenção. A versão que se encontra em @fmodestia tem cores, qual é o antes e qual o depois? São o fim de um ciclo ou a promessa de renovação? Interrogações para um outro momento.

sábado, 31 de julho de 2021

Letras sobre decepções zodiacais

 "Você gosta de anime?" - A pacífica Aggretsuko de Oz, 29/07/2021

     Quando me disse estas palavras, ela certamente não pensou que colocaria uma série de lembranças em movimento. Ainda aquela pergunta despretensiosa tivesse a intenção de comentar a série homônima a ela, presente na Netflix desde 2018 a minha resposta foi para um rumo distinto: "Minha vida mudou no dia 1 de setembro de 1994 quando Cavaleiros estreou na Manchete. Quando reestreou em 1 de setembro de 2003 na Cartoon Network, eu fui atropelado enquanto corria da escola para casa para ver". Estas duas histórias poderiam ser alongadas, ou mesmo o dia em que, enquanto criança, caí em um golpe dos garotos do bairro que ofereceram um boneco original. Esta história foi transformada em diálogos em um exercício de escrever 100 palavras por dia proposto pelo escritor e professor de escrita criativa Tiago Novaes, em 2019:

- Última chance, você não quer?
- É claro que...
- Então! cinco reais, só.
Ficou olhando o amigo. Iam sempre para a escola juntos. Ele estava trazendo uma oferta de além dos portões. Fora da aula, ele não podia sair.
- A gente veio falar com você primeiro, tem um menino na rua de baixo que também quer.
- Tá bom! Eu já volto.
Desceu as escadas, atravessou para a casa da vó. Tirou do Budinha as moedas que vinha guardando. Teria, enfim, um boneco do desenho japonês. Sem perceber já estava no portão entregando sua fortuna.
- Espera aí que a gente já traz.

    O meu ano de 2019 guardou uma série de questões com a série. Não consigo me lembrar o que motivou isso. Reli o mangá, revi a animação, vi Saintia Shô, além da versão produzida pela Netflix para tentar renovar o público abarcando de uma só vez os norte-americanos, que não haviam vivido uma febre da série como o Brasil e outros países da América Latina. Aquele também foi o ano em que o Podcast Saint Seiya viria a publicar um programa com uma entrevista com o dublador Francisco Brêtas, e que vale cada minuto, afinal Sonhar é Fundamental. Durante o período em que estava acompanhando os vídeos do canal Katsu X regularmente, ouvi falar pela primeira vez acerca de um evento que parecia ser a epítome de toda aquela efervescência com a obra de Masami Kurumada a:

               
    Em comemoração aos 25 anos da estreia da animação na rede Manchete, o evento prometia ter tudo o que os fãs se acostumaram em duas décadas: música ao vivo, cosplay, meet & greet dubladores, exibição de longas-metragens da série, exposição de itens raros, palestras com os responsáveis por um game, enfim, o suficiente para que eu aproveitasse o cupom limitado disponibilizado ao final do vídeo e comprasse a minha credencial para visitar durante o final de semana inteiro. Conforme ainda pode ser visualizado no site da Sympla, ela dava direito a:
    
    De todo modo, pelo título desta postagem e a primeira história em que fala de minha ingenuidade infantil, algo não correu bem. Não por coincidência (elas existem mesmo?) o melhor resumo para a situação também nasceu em 2019:

O texto a seguir foi retirado ipsis literis de um comentário que fiz em uma postagem de Mara, do Mais de Oito Mil, sobre o evento e como, em uma bela analogia, ele foi o Fyre Festival dos fãs de Cavaleiros do Zodíaco. Essa postagem pode ser visualizada aqui. Sem mais delongas, as impressões de minha versão de 29 anos.

FLASHBACK

   Fiquei sabendo sobre o evento vendo o código promocional no canal Katsu X. Qual não foi minha expectativa? Eu que não tive interesse em ir às convenções renomadas, fiquei super empolgado ao ver que teria a possibilidade de conhecer o grande Gilberto Baroli. Todos os outros também, claro. Letícia Quinto, Élcio Sodré, Francisco Bretas. Nesses 25 anos de Cavaleiros na Manchete, foi esse elenco da Gota Mágica (posteriormente Álamo e Dubrasil) que fez muitos de nós conhecermos os artistas por nome e valorizar aquele trabalho. Decidi comprar de cara: credencial Big Bang! Ter acesso a tudo que tivesse direito ao mesmo tempo incentivando tal ação a ocorrer de novo. O sábado pareceu promissor, vi de longe, as dez da manhã um jovem Hyoga de cisne. Gosto quando o cosplay já chega ao evento agindo o personagem. (Imagino fosse Ronaldo seu nome). Rapaz divertido, contava na fila histórias sobre como tinha aproveitado o sono de Athena para levar seu báculo. Enquanto se via alguns calculando ascendentes, os minutos passavam. O atraso foi encarado com bom humor “talvez precisemos absorver os raios solares e entrar porta a dentro!”. Ah! As referências, Capitão América estaria orgulhoso (antes que perguntem a razão de colocar a Marvel no meio do santuário, lá na frente fará sentido).

   Quando finalmente pudemos entrar, houve alguma bagunça com credenciais (recebi a minha mas em momento algum o seu QR foi bipado, por exemplo) o importante era entrar: o térreo parecia promissor, o @woodxguitar desfilava vários sucessos, Pegasus Fantasy, Soldier Dream. O ponto mais alto foi quando chegou um pequeno Seiya com a caixa da armadura nas costas e ficou a dançar ao som da guitarra. Nem o próprio Saga, do alto de seus galácticos grisalhos diria algo contra. Ao fundo um artists alley com versões, mangas, sketches. Boa para os futuros mangakás brasileiros. Também havia um acervo pessoal de obras do Kurumada, sorte do colecionador. Mas era interessante olhar, fiquei me perguntando a que momento alguém viria para comentar o que fosse. Mas… Nada.

    Não haviam indicações precisas do que ocorreria no primeiro andar, então o fã ia tateando às cegas pela escadaria (ao fim de uma escada, nem mesmo uma decoração como fosse a casa de Áries, o simples, fãs de cavaleiros sabem apreciar uma boa e velha escadaria). A programação dizia que as 10h começariam as exibições dos filmes na dublagem clássica mas já passava muito e não parecia haver sinal. A palestra sobre Saint Seiya Online também não agregou muito, a maior parte dos presentes conhece as diferenças entre o mangá e o anime, e por mais a história seja cíclica, contar spoilers do jogo também tirou um pouco a graça.

"O interesse nas referências de Kurumada era tanto que, em agosto, cheguei a desenhar Mankichi Togawa da obra Otoko Ippiki Gaki Daishô, de Hiroshi Motomiya. O criador de Cavaleiros já comentou que, sem sua influência, talvez não se tornasse mangaká. Imagino que, sem Cavaleiros, no mínimo, meu entusiasmo pela mitologia grega seria menor."

   Quando finalmente pudemos assistir À Grande Batalha dos Deuses, qual não foi a surpresa ao ser apenas a exibição de um vídeo do YouTube (isso mesmo, não houve nem o trabalho de obter um .MKV HD!) mas o público tentava se satisfazer revendo a pose de deboche de Seiya ante os guerreiros deuses. Falando em dublagem Gota Mágica, como é bom ouvir Carlos Campanile como Durval. A questão é que todos já viram e não havia nenhuma reverência a forma como o material era apresentado. Antes de a armadura de sagitário surgir, os alto falantes comentam que os kits estão disponíveis. Isso mesmo, o desrespeito não era apenas com quem estava presente, com quem tinha se deslocado para a comemoração, era com a própria obra (!). Não custa esperar um vídeo acabar. Se a internet tivesse caído, o programa tinha acabado? As horas foram passando e nada de palestras ou dubladores. Era preciso se contentar com episódios de Lost Canvas. Bela animação, bom trabalho de dublagem mas… Sério? Eventualmente chegou ao ponto do concurso de Cosplay e foi bem legal. Revi o Hyoga da fila, vi um Poseidon que tinha realmente aura divina e, confesso, vi uma Shun que me fez pensar que a mudança era bem-vinda. Os cosplayers pareciam se divertir muito, as poses, as fotos, a sensação de ser um personagem querido é muito forte e eu (que já tive meus tempos como Joker há uns onze anos) fiquei contente em poder bater palmas para cada um ali. O prêmio maior era poder ser prestigiado. Mais uma vez parabéns a todos os cosplayers (até para o pequeno Harry Potter que se meteu no evento).

Com a palavra, Hyoga de Cisne

    Faltava o principal: palestras e dubladores. Em algum ponto da história, talvez até antes do desfile, o organizador apareceu e pediu desculpas, aí entra o que eu falei: estava lá com a camiseta da Marvel! (Nada contra, vi Ultimato três vezes no cinema) quando o próprio organizador não ‘veste a camisa’ de seu evento, você percebe que algo de errado não está certo. Houve uma falha no planejamento, ele concentrou tudo sozinho e dificultou a entrega, coisas saíram foram do controle. Até aí, tudo bem. Finalmente Ulisses Bezerra, Letícia Quinto e Élcio Sodré subiram ao palco. Não houve tempo para palestras e eles não poderiam ficar muito tempo, o Élcio tinha um avião para pegar, sabemos quão exigente é a profissão. Ao menos quem estava lá poderia pegar o autógrafo da Saori e o Shun. Ou isso era sonhar demais? Sabe quando você está zapeando a tv a cabo e, de repente, passam para o filme seguinte? “Por premissa de tempo passamos à frente em nossa programação”. Foi bem isso que aconteceu. A Letícia muito educadamente explicou que não poderiam atender a todos e iam delimitar um ponto x na fila. Pude sentir Athena falando comigo, aqueles momentos em que a deusa fala algo e todos os cavaleiros se prostram a ouvir. Algo nessa linha. Eu nem tinha levantado, um cosplay de grande mestre chegou, mas era tarde demais para ele. Ao menos conseguiu algumas fotos com fãs. Élcio, baita profissional que é, levantou e gritou seu característico CÓLERA DO DRAGÃO! Todo o santuário tremeu: o Shiryu, amigo.

Um dos desenhos que fiz em 2019, sinais da febre
    A questão é que já passava das 17h. A programação seguiria. O organizador pedia para que as pessoas se apressassem em pegar seus autógrafos, era só um sem tempo de foto. Quem pagou para o privilégio de conhecer os profissionais não pode. Então quando um soldado gritou “quero o meu dinheiro de volta” e ouviu a contraproposta de devolver todos os benefícios em troca, entendo a raiva. O cosmo dele estava borbulhando em nome da justiça. De que não havia como o pôster A3 ser controlado, de que faltava o carregador personalizado, faltavam os adesivos, faltavam palestras, vídeos, autógrafos. A reunião dos cavaleiros de Athena se mostrou mais decepcionante que vilão de seriado que aparece para morrer com um báculo no peito. Saí do local sem nem ao menos saber se o show chegou a se concretizar. O aluguel do palácio do trabalhador custava tanto assim? Depois do fiasco, alguém terá coragem de usar a camiseta do evento? Já era tarde demais. A ver três horas de vídeo do YouTube, podia ver em casa. Amizades se firmaram, diversos se reuniram, tudo em nome de Athena. Mas a que preço? R$180? Tomara que tenha valido a pena para quem embolsou. Não me dei ao trabalho de retornar no dia seguinte.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Letras refugadas

"Enquanto combatia gigantes imaginários, Dom Quixote estava apenas representando um papel; mas, quando realmente mata alguém, ele se agarra a suas fantasias com toda a sua força, pois elas são a única coisa que dão significado a esse crime terrível. Paradoxalmente, quanto mais nos sacrificamos em benefício de uma história imaginária, mais forte ela se torna, porque desesperadamente queremos dar um sentido ao sacrifício e ao sofrimento que causamos." - Homo Deus, de Yuval Noah Harari, tradução por Paulo Geiger, Companhia das Letras, 2016.

    Em outubro de 2010, encaminhei um e-mail para bob com uma série de Letras. Nele, além de pedir uma avaliação delas, eu comentava como uma, Árvore da Solidão, referenciava um conceito que ele havia criado alguns anos antes, o do o som das motosserras. Ainda que vez ou outra ele comente como não gosta das coisas que escreve. Acha que não tem vida. Os textos soam forçados,  sem poesia e sem conteúdo, para mim é justamente o contrário: vejo seus versos como o momento em que virei uma chave. Escrever publicamente, mesmo que para consumo de pessoas próximas, era possível. Compor canções? Podia ser um bicho-de-sete-cabeças mas poderia ser desconstituído uma cabeça por vez. Revendo a mensagem, percebo como nenhum dos outros versos ali se tornou nada - até o momento, é bom lembrar. Estou preso à falácia dos custos irrecuperáveis?

    Nos últimos anos, conheci pessoas que tratam as próprias palavras de uma forma muito distinta: escrevem para não esquecer, levam para a terapia e depois jogam fora. É um exercício de desapego e minimalismo curioso. Perdi as contas de quantas vezes revirei um dos moleskines ou e-mails dos últimos dez anos procurando imagens que ilustrassem o processo de alguma letra, faíscas criativas, o que seja. Se eu levasse as ideias de composições para a terapia, as músicas deixariam de existir? Ou tornar-se-iam uma terceira coisa? Óbvio, há textos e papeis passíveis de descarte, mas, se uma ideia de 2012 pode se tornar uma canção em 2021, o que impede os versos abaixo... qualidade?

IV
Me abraço
Pode ser que oculte
O embaraço
Querer é estar errado
Mundo falso
O poente treme já
os próprios passos
Que não tem
por flutuar

V
Disse um certo poeta
Que era preciso crer
Pra tornar
Lagrima doída,
Melodia
Esse era um milagre que fazia.
Desconheço o que acredito
Mas evoco a luz agora
para me impulsionar
Destilado refletiu estranho brilho
E se partiu dentro de mim
Queimando ao redor
Deste lado caiu do papel, fitilho
E lá dentro o que eu vi
Era só ar e pó.

VI
Implantar falsas memórias
É futuro que demora
Reserve um espaço
Que quero de volta
Alguma paz
Pouco já é demais
àquele sem nenhuma grama
E deixarei de ser
O que faz perceber
Cada segundo a mais
Sempre um a menos
E deixarei de ser
De sempre a morrer
Vou respirar então
com meu sorriso mais ameno

P.S.: Apenas ao reler os poemas antes da postagem, notei que um trecho do IV se partiu em um verso da letra que fiz para: Fim.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Interescolar

    Uma das frases que mais citei nos últimos sete anos é "Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal." É por ela já constar no texto que fujo do formato habitual do blog.
    Desde antes da leitura de Cordilheira de Daniel Galera, ainda me recordo da edição e conteúdo do Anticast 42 entrevistando o autor, em que conheci a frase. Terminei a audição já me intitulando admirador do trabalho dele, algo que foi se consolidando durante a leitura de seus livros, à exceção da Graphic Novel Cachalote e d'O deus das avencas, que será lançado este mês, mas divago.
    Na narrativa de alguém que quando criança, viu jovens de uniforme amarelo e uniforme azul aos sangues pelo simples ato de passar um na frente da escola do outro, ter amizade com pessoas de outras escolas parecia um ato revolucionário! Quase uma aventura.
    Há quem diga que nada havia de estranho, essas ramificações eram possíveis não por que houvessem rastros iluministas naquela juventude mas simplesmente por, tendo muitos deles cursado o fundamental I na mesma escola ser lógico que, apesar do afastamento motivado pelas rotinas, a convivência na infância permitir uma adolescência para além do ciclo de violência interescolar... O que sei eu?
    Fico contente de ter atendido com meu irmão o anúncio que falava em aulas de violão gratuitas aos sábados, no Programa Escola da Família. Esse foi um dos momentos que conduziu a este dia, em que dois alunos da E.E. Esli Garcia Diniz e dois alunos da E.E. Dr. René de Oliveira Barbosa se apresentavam juntos na E.E. Washington Luiz Pereira de Souza, na cidade de Arujá.

Da esquerda para direita:
bob no baixo,
 Fabio Kulakauskas no violão e vocal
 e Thales Salgado nos violão solo.

    Ao olhar no Google Maps, pode-se notar a proximidade entre as três escolas. Não era difícil trafegar este escaleno (que outras chances alguém de Humanas tem para falar em triângulos?) e, por isso mesmo, é muito fácil constatar o óbvio: a possibilidade de estas pessoas se encontrarem não era destino, era probabilidade. (Dr. Jack Shephard, parafraseio você!) Mesmo assim, que por um momento tenham escolhido unir-se com uma intenção e ideal era isso: uma escolha. 
    Parte dessa escolha partiu de algo para o qual, naquele momento, eu não tinha poder para alterar: a cidade em que cresci. No livro de Places of the Heart. The Psychogeography of Everyday Life, o neurocientista e psicogeógrafo Colin Ellard comenta que "as definições de dicionário mais austeras indicam que a admiração também pode abranger elementos de transcendência. Essas experiências nos levam a deixar os confins limitados do espaço corporal e nos encorajam a acreditar que nossa existência constitui mais do que apenas um batimento cardíaco dentro de uma frágil concha orgânica. Experimentamos uma sensação de existência ilimitada quando as fronteiras temporais e espaciais que nos prendem à realidade desaparecem repentinamente".
    Residindo em Guarulhos desde 2013, é em experiências assim que penso quando chega o dia 8 de junho, aniversário de Arujá. Há alguns dias vinha pensando acerca de qual música composta na cidade falar nesta data e, no fim das contas, mudei de ideia para reconfigurar este texto originalmente postado no Facebook com 200 palavras para as pouco mais de 500 que ele conta agora. Outras nuances, fotos, detalhes, menos síntese.

sábado, 26 de dezembro de 2020

A Equação do Hiato

“Você não pode medir a afeição recíproca de dois seres humanos pela quantidade de palavras que trocam.” – Milan Kundera, A identidade

A Equação do Hiato (2020)
Letra e Música: Thales Salgado
Baixo: bob

Esta conversa começou
Somente há treze anos
Tenho para mim, não acabou
E, para isso, não há planos
Longe de mim, tentar prever
A sucessão dos fatos
Com o tempo, estamos à mercê
Urgir? É descompasso
Notícias quase disponíveis
Hiatos mezzo calculados
As redes, nem sempre, são críveis
Só iluminam um dos lados
Ilham segundos aprazíveis
Legam os gritos, enjaulados
Vem e vai: procrastinação
À morte digo: Hoje não"


     Uma mensagem em 26/08/2020 me fez começar a pensar em uma letra que comentasse “impossibilidades quânticas” dentro de minha visão no presente. 
     Já ouvi falar que qualquer previsão é falha (seria Kundera novamente?) e, seja quem for o autor, deve ter acertado. Como o verso “hoje eu sei só a mudança é permanente” que conheci com a Engenheiros do Hawaii. 
    Podemos acreditar que há certas verdades pétreas e, de repente, perceber que alguma chuva paulatinamente a esculpiu em formatos contrários à nossas intenções. Ainda assim, como criado pela ficção e me preparando para uma (possível, provável?) decepção com o próximo Matrix, me pego me ancorando também em alguns de seus temas como a “escolha” e a “crença”. Escolho acreditar que algumas coisas podem não ser eternas, mas nem por isso precisam acabar durante uma vida. 
     No dia 02/09 compus em minha craviola a melodia. Isso facilitou para que pudesse tentar encaixar os versos posteriormente. Como em 26/09 ainda me faltavam doze versos me coloquei a pescar referências na linha do tempo de uma rede social azul. 
    Terminei de escrevê-los na noite do dia 1/10 e, quando mostrei os versos a bob, ainda não tinha nome. Estruturalmente, os enxergo como um espelho/continuação temática de Canto de Duas Cidades De uma conversa com Kariny, veio a sugestão de chamá-la Hiato. Já havia musicado um de seus poemas de sugestivo nome Referência mas uma palavra apenas não bastaria para esta canção que viria a fechar o Ikiryou EP. Até haveria sentido, o álbum já continha uma Silêncio e uma chamada Identidade. 
Ilustração de Isabella Proença 
Sobre uma foto de 2011
(tempos pré-isolamento)

     No dia 03/10 me decidi por A Equação do Hiato, forma de homenagear conceitualmente ao compositor, produtor e multi-instrumentista Arjen Anthony Lucassen, criador de The Human Equation. A referência a frase de Syrio Forel surgiu na letra como uma negativa ao fim de uma conversa. Se pode se dizer “Hoje não” ao deus Morte, também se pode escolher que uma conversa vai continuar, enquanto seja de comum acordo de ambas as partes. 
    Sem acesso à melodia, a psicóloga Fabíola Passos comentou que a letra “sintetiza muito bem essa experiência que a gente vem vivendo de contato fragmentado, mediado pelas redes”. Foi curioso pois, só assisti ao Dilema das Redes finda a composição, no dia 04 de outubro. De todo modo, vinha conversando sobre as reações das pessoas a ele já há algum tempo. Sendo este um ano que praticamente obrigou os contatos a serem realizados na esfera virtual, todo este conceito do digital já vinha escoando em algumas letras como a de Tempo (que tem entre seus versos: Algoritmos sem verão/Algoritmos passarão/Darei vazão: A vida é um átimo!). 
     Ainda que eu tivesse intenção de manter a melodia em segredo por alguns meses (ela só seria postada em dezembro) a cantora e compositora Paula Lima pode ouvir uma versão voz e violão e, obviamente, bob teve acesso para que pudesse desenvolver a linha de baixo. 
     A ideia era, como vem sendo com as tirinhas, fazer um trabalho ‘just for fun’, a música fica no mesmo ciclo por praticamente sua duração total, saindo apenas no acorde final. Poucas horas depois ele veio com uma linha fluída, que não se fincava nas cabeças das notas que eu estava tocando. Sem essa experiência coletiva a música não existiria como se apresenta, afinal, coube a bob o trabalho não só de criar a linha de baixo como editar e sincronizar as duas faixas no vídeo de apresentação. Essa foi, provavelmente, a primeira união formal deste duo desde em onze anos, quando cometeram um cover de 3x4 que está perdido na rede.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Tempo, da letra

"Cansado de deitar-se à luz do sol fica em casa para ver a chuva
Você é jovem e a vida é longa e há tempo para matar hoje
E, então, um dia você descobre que dez anos ficaram para trás
Ninguém lhe disse quando correr, você perdeu o tiro de largada"
Pink Floyd, Time 
No caos da ilustração:
De Mondrian à Basquiat, d'O Pensador à Clepsidra

     “Veja se interessa escrever uma letra para esse som”. Ali, a queima-roupa Bruno me colocou a proposta, ele havia trabalhado na inserção do baixo.
      Para me preparar, decidi que ouviria uma outra composição do mesmo autor, Fabrício, para tentar me situar à forma como as palavras dele se encaixavam na melodia. A canção se chamava “The Girl Who Talks With Cats” e o vídeo da apresentação datava 21 de setembro de 2011. Me lembrei de 2012 quando me deparei com Kafka à beira-mar pela primeira vez, no meio da trama do livro: um personagem conversando com gatos de forma corriqueira. Palavras. A letra que escrevi é de livre interpretação - e, assim que for acompanhada da melodia, voltarei para falar mais sobre ela - mas ela é, certamente fruto de seu tempo, a primeira letra que escrevi após conhecer as canções do musical Hamilton e suas 20.520 palavras
Acima do rascunho da letra, outra canção
Que estará no blog dia 22 de setembro!
  Há alguma ligação temporal entre esses eventos?      Vou além:
     Uma cena como essa, um jovem adulto navegando à esmo pelos corredores de uma livraria poderia acontecer em um futuro pós-pandemia quando pensamos que, no presente, o atual ministro da economia defende à plenos pulmões o fim da isenção para as editoras? Como futuros leitores chegarão aos livros? E, se, hipoteticamente, uma doação direta de livros for estimulada, quem fara a curadoria?
     É um ciclo falacioso: “se durante a pandemia as pessoas estão mais interessadas no auxílio emergencial do que no consumo de livros, logo, as pessoas preferem dinheiro à livros, portanto, daremos dinheiro agora – o mínimo possível, por favor, temos que cuidar do nosso pessoal – e, no futuro, quando der – pensamos em oferecer livros”. Agem como se as questões fossem mutuamente excludentes.
Nada disso é gratuito, claro. O estado de calamidade pode dar a impressão de que não, mas 2020 iniciou com Jair Bolsonaro afirmando em frente ao Palácio da Alvorada que “os livros hoje em dia, como regra, é um montão, um amontoado... Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo”. Ele falava sobre os livros didáticos distribuídos às escolas e já soava absurdo. Agora, imagine um cenário em que os livros didáticos são “suaves”, a população não tem acesso aos livros para descobrir por conta suas leituras e as fake news seguem internet a fora, vida a dentro?
    A pandemia de covid-19 ameaça destruir, junto com a vida de milhares de pessoas, culturas indígenas inteiras. E enquanto uma parcela da população vive os dilemas do isolamento, da hiperconvivência, da tentativa de sobrevivência... um recente levantamento do 
Greenpeace Brasil mostrou que, somente no mês de julho deste ano, 73% da destruição causada na Amazônia para a exploração de garimpo ocorreu em unidades de conservação e terras indígenas. Parte do país não parou, e o número de notícias é maior do que o tempo existente para checá-las e contra checá-las. Quem estiver em uma bolha que "carece de fontes" dificilmente irá se dar conta disso.
    Em nossa atual política pós-factual, ainda somos capazes de procurar e encontrar essas notícias recentes, Devemos exercitar o print-screen? como esses acontecimentos estarão descritos no futuro? O que os livros didáticos "suaves" dirão sobre o que levou Michelle a receber R$89 mil do Queiroz? 


Tempo (08.2020)
Letra: Thales Salgado

Refrão:
Taking the time
In a direction that makes it it feels mine
Mold and untwine
Every misalign until is outshined

Todos nas janelas, ouvi dizer
Todos para as janelas
Mas se o presente imitou
O passado recente
Ainda há olhos grudados nas telas

Os meus também, os meus, também
Que eu não quero perder nada

Eu vou tentar colher o tempo
Mas quanto sobrará de mim?
De um jeito que pareça meu
Moldá-lo e destorcê-lo a meu bel-prazer
Até que cada desalinho
Destes nossos caminhos
Estejam ofuscados

Refrão

Mundos proibidos vazam das penas
Apenas metafísica, um poema.
E se não temos tempo, sequer, para viver
Como esquecemos que estamos à sua mercê?
Desritmados e, por vezes, deslegitimados
De olhar os sonhos que podemos ser

Algoritmos sem verão
Algoritmos passarão
Darei vazão:
A vida é um átimo!

Refrão

sábado, 1 de agosto de 2020

Canto de duas cidades

“Apesar de reflectir as preocupações do sonhador, o curso do sonho é quase sempre imprevisível. A lógica dos eventos é fluida e errática em comparação com a realidade. A sucessão de imagens caracteriza-se por descontinuidades e cortes abruptos que não experimentamos quando acordados. Nos sonhos, um personagem ou lugar pode transformar-se noutro com uma naturalidade incrível, revelando o poder de transmutação das representações mentais. O encadeamento entrecortado dos símbolos determina um tempo caracterizado por lapsos, fragmentações, condensações e deslocamentos, dando origem a camadas de significado múltiplas e até mesmo díspares. O leque de possibilidades do sonho é vastíssimo, roçando o insólito, o inverosímil e o caótico.” – O Oráculo da Noite, Sidarta Ribeiro
Arte de @isabellaproencart

Canto de duas cidades (2020)

Estava outra vez ao portão
Só para saber, se estavas bem
Tinha uma caixa nas mãos
Esperanças, quem não as têm?
Lá se vai a paz dos vizinhos
A gritar teu nome estou

Caem folhas com minhas palmas
Uma voz qualquer diz: silêncio!
Natural que fosse assim… não? não
Hesitarei antes surja silhueta pela cortina
A ocultar o teu semblante

Saudades, dizem ser,
Intraduzíveis sons,
Lotus em vendavais,
Vertigem axial
Acabam se você sair.


   No dia seguinte a escrever estes versos, 16/07, entrei em um debate com uma poeta amiga minha. Sem sequer mostrá-los, comentei como me senti inspirado no dia anterior e decidi escrever sobre um sonho que se tornou canção. Disse ela: “que bom, não é? Não pensa muito o porquê isso aconteceu, senão pode não acontecer de novo “. Repliquei que não era apenas uma questão de levantar-se cedo e fazer, era uma questão de ter, também, algo a dizer e conseguir dar forma. “Então foi sorte (...) se não foi sorte foi inspiração. Não tem como ser nada, só ‘do nada acordei e veio essa música, ou sorte ou dom, porém, com o dom vem a inspiração para ajudar”.
  Discordei veementemente – nesse assunto isso ocorre constantemente. Apesar de concordar que, sim, a inspiração existe, penso que uma canção, tal qual uma refeição para o Duque Leopold Mountbatten, é resultado de reflexão e estudo.
   Afinal, não é estranho reduzir a algo externo todo o repertório, as horas pensando os versos, em silêncio, tentando criar uma melodia que não existia antes, as consultas aos dicionários. A Revisão de textos e matérias que tenham o contexto para descrever a cena da forma como a imaginei? Todos sonham, como comentou o psicanalista Christian Dunker em matéria para o Viva Bem do UOL: "No sonho, parte do presente vai ao passado e depois se projeta o futuro. Voltamos ao nosso baú de lembranças, repleto de desejos pendentes do passado, imagens, cheiros, momentos bons, ruins, desejos de infância. E assim resolvemos pendências em forma de um cinema privado. É o trabalho do sono: acertar contas com nossos desejos e também com nossas angústias". 
   A questão maior, nesse caso, é como a pessoa traduzirá estes sonhos? Uma prosa em um “sonhário”, comentando em meio a uma refeição familiar ou o esquecimento? Traduzir um sonho pode não ser questão de vida e morte, mas requer trabalho. Não há nada de novo nesse pensamento, é a velha história da razão entre inspiração x transpiração.No caso desta letra, o sonho poderia ser uma representação do passado ou do futuro, ao despertar na quarta-feira, recordei versos que escrevi na noite de 3 de outubro de 2016:

Foto de registro do moleskine em dezembro de 2016
    Apesar de tê-los pensado com melodia, nunca consegui dar seguimento a ideia que eles carregavam. Decidi diluí-los nos versos novos. No dia 18 aproveitei um breve deslocamento de carro com o intuito de levar a letra ao ponto de sua gênese! Ao fazê-lo notei que não descrevia o futuro, afinal, ninguém saiu, não vi silhueta e os gritos também não fizeram com que os habitantes adjacentes se manifestassem. Diferente da canção, hesitei e parti. Afinal, as canções existem n’outro espaço-tempo.
   Para ilustrar o post pensei em fazer um desenho, afinal, não é minha intenção criar fractais para todos os posts (muito abstratos) tampouco revirar os arquivos do domínio público (o faço de quando em vez, mas é inespecífico demais) mas conhecendo os locais, como criar distanciamento suficiente para retratá-los de forma outra? Eis que, no mesmo dia seguinte a escrita dos versos, no grupo de Facebook do projeto VIVIEUVI, liderado por Vivian Villanova, conheci o trabalho de IsabellaProença. Mais que isso, naquela mesma noite ela comentara o lema “feito melhor que perfeito” frase esta que foi um dos motivadores para que eu iniciasse as postagens no blog de uma vez. Gostei muito de sua interpretação visual para os versos, uma vez que sequer havia a gravação da demo que acompanha esta postagem para que se ancorasse. Ressignificou-se a composição.
    Diferente de outras composições feitas em 2020 como Tudo Outro Agora e Silêncio, Canto de duas cidades foi composta no campo harmônico de Dó Maior. Enfim, outras diferenças ficam para o futuro. Por hoje é só.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Homônimo #2

"Oportunidades perdidas, possibilidades perdidas, sentimentos que nunca voltarão. É parte do que significa estar vivo. Mas dentro de nossas cabeças - ao menos é como eu imagino - há uma pequena sala em que guardamos essas memórias. Uma sala como as estruturas nesta biblioteca. E para entender o funcionamento de nosso próprio coração nós precisamos seguir criando novos cartões de referência. Precisamos desempoeirar as coisas de vez em quando, lufar ar fresco, trocar a água no vaso de flores. Em outras palavras, você viverá para sempre em sua própria biblioteca particular." Haruki Murakami, Kafka a beira-mar

Comemorar "marcos pessoais" nunca foi exatamente o meu forte. Há dois anos, quando tentei comemorar a longevidade deste blog havia a sensação de algo estar fora do lugar. Hoje, é o quarto ano em que este blog segue existindo. O primeiro texto foi escrito as pressas, como que seguindo o instinto "escrevo, senão, deleto". 
Em uma conversa com Bob Barduchi Oliveira, responsável pelo design e novo projeto gráfico, ele comentou que quatro anos eram uma graduação e me perguntou se eu seria um bacharel em blog da Falsa Modéstia e... talvez eu seja... Talvez não. 
A verdade é que muitas das vezes eu procuro o máximo de referências para ancorar os textos e a pesquisa não levam a lugar algum. Mas não me sinto um escritor, compositor, cantor ou crítico. Escrevo, para quê?


Salto Contra o Medo de Calar (10/01/2019)

Fiquei distante
(Por tanto tempo, por quanto tempo?)
Nada é como antes
(E os lamentos, e tanto pranto)
Parte de mim
Evitando olhar
O Espelho

Debilitante
Só olhar pra dentro, o que vai sendo?
Não obstante
Alheamento não é remanso
Sempre estive
A oeste
E não percebia:

Dois amigos, nas trincheiras
Dissertando a bandeira
Suas cores e valores
Outra vez, ameaçadas
Mãos se enlaçam
Não disfarçam
Saltam contra o medo de calar.

Que as palavras sejam os projéteis
Artilharia para aproximar
Revolver nosso peito
Bem mais que apenas
Um sol de inverno
enlace terno
Mais que a ilusão de paz


Foto: Kariny Camargo
     

domingo, 7 de junho de 2020

Árvore da Solidão

“Se a preocupação com a técnica é inseparável do artista (Delcroze, 1925), o verdadeiro músico transforma inconscientemente tudo quanto acontece em manifestação de natureza sonora. Ele compõe obedecendo a um impulso inato, mas necessita sempre do conhecimento técnico para ”enformar” a emoção numa construção artística.” Da música, seus usos e recursos – Maria de Lourdes Sekeff – 2ª ed. Ver. E ampliada – São Paulo: Editora UNESP, 2007
Anjo Gabriel, do artista soteropolitano Enoque Cesar de Souza
na Praça IV Centenário em Guarulhos, foto por Thales Salgado em 09/10/2019

Árvore da solidão (2011) 
Letra e música: Thales Salgado 

Árvore da solidão 
Sonhava estrelas 
Opacas, vibrantes: 
Não podia tê-las. 

Ir p'ra casa, um banho. 
Parecia-lhe um plano estranho 
Seus pés sempre presos ao chão 

A chuva não mais vem 
E nem a reza, lhe leva alguém 
Para regar (para regar) 

Ao longe avista galhos que um homem carrega 
Esquecendo o direito que ela tinha a dizer "Não" 
O canto das motosserras retalha a arvore da solidão 
Dão lhe só o direito de se ver tornar carvão



         Quando junho começou, passei a pensar em escrever um post sobre uma canção de 2011 chamada que versava sobre uma “árvore da solidão”. Revirando a caixa de e-mails, verifiquei que encaminhei a demo pela primeira vez no dia 02/10, um domingo, então, podemos considerar que ela foi composta naquele final de semana.
      Não sei há exatamente quanto tempo ela estava escrita antes disso. Mas sei que tentara uma série de melodias para aquelas palavras, infrutiferamente.
      O título do “álbum” seria Eclipse de Silêncios. Sabe aquelas coisas que você pensa “isso soa bem” e tem que, estupidamente, interromper o que quer que esteja fazendo para anotar? A ideia soava assim, “original”.
       Uma superficial consulta ao Google me fez descobrir em 2020 que tanto o poeta Pedro Barão de Campos quanto o cantautor espanhol David DeMaría já mencionavam o termo. Não existimos em um vácuo, portanto, isso não é nada de novo.No fim das contas, nunca senti que as composições daquele período, entre 2011 e 2012, feitas entre o Mosaico de Estrelas e o álbum feito em parceria com Kariny, respondessem a algum conceito maior:
     Havia desde letras de amigos meus, composições coletivas inspiradas no dadaísmo com colegas no último semestre da faculdade, versos roubados, a até mesmo o trabalho com autores desconhecidos. De modo que todas aquelas ideias possíveis foram recombinadas sob o título De Tudo o Que Não Foi e mesmo o termo eclipse de silêncios acabou por integrar a letra de HMK, apenas em 2013.
      Contextualizada a ausência de uma linha guia para as composições daquele ano, recordo que, em parte, a letra dessa composição partiu da ideia de “também ter uma música com árvore”. Tão somente, pensando em artistas que recorreram ao tema e eu estava ouvindo naquele período consigo levantar três: Dave Matthews Band e sua A canção The Dreaming Tree de 1998. A composição Dance ‘Round the Memory Tree, de Oren Lavie (2008), que fez parte da trilha sonora do filme As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian e, em alguma escala, o álbum Sometimes I Wish We Were An Eagle (2009) de Bill Callahan em que cenários campestres surgem de quando em vez, seja em Jim Cain (Comecei em busca de coisas ordinárias/Quanto de uma árvore enverga ao vento), Too Many Birds (Muitos pássaros em uma árvore só), My Friend (Agora, não estou dizendo que fomos cortados da mesma árvore), e All Thoughs Are Prey to Some Beast (A águia olhou claramente através da árvore-cérebro).
         Pode ser, e aí estou entrando em terreno movediço pelos campos da memória, que a questões como estas estivessem germinando de antes; historicamente, o período entre agosto e setembro costuma registrar os números mais elevados de focos de calor, incêndios e casos de queimada.
         Ainda que, naquele ano, não tivéssemos vivido um anoitecer precoce, como ocorrido em 2019, quando os efeitos da fumaça de queimadas na região amazônica puderam ser sentidos bem longe da Amazônia, chegando a locais como São Paulo e Paraná, seria exagerar dizer que notícias com a mesma temática estivessem rondando o período?Também corrobora com essa impressão a menção nos últimos versos do “canto das motosserras” um tributo à letra de Um Caminho Para o Céu, de Bruno Barduchi Oliveira, uma vez que esta é, cronologicamente, a primeira composição musical que fiz. Há, também, no verso que diz “ir p’ra casa, um banho” a tentativa de aproximar a letra do cotidiano, flertando, brevemente, com uma ideia retirada de L’âge D’Or que tinha, entre seus versos “Meu tornozelo coça/Por causa de mosquitos/Estou com os cabelos molhados/Me sinto limpo”.
         Obviamente, um banho nada tem de estranho (a menos que se considere o plano do eu-lírico da canção, que está imobilizado), mas, para quem passara o período entre 2007 e 2010 sempre escolhendo termos como “torpor eterno” e “descalabro” para compor as letras, flertar com uma ação cotidiana era um avanço.

Foto do moleskine com a cifra
referência para a gravação,
 mais simples, impossível.

domingo, 31 de maio de 2020

Quem?


"Quando nos lembramos de pessoas que foram gentis conosco, quando nos lembramos de tempos felizes, não estamos meramente nos envolvendo em uma fantasia. Estamos relembrando a nós mesmos de nosso lugar no mundo. A nostalgia nos dá apreciação renovada pelas pessoas e lugares que constituem nossas vidas." –  The Time Machine: How Nostalgia Prepares Us For the Future em Hidden Brain por Shankar Vedantam

   Trecho de entrevista concedida a Jorge Luís Barros em 2011:

Jorge: Há uma chamada Quem? E ela parece destoar totalmente do resto do disco, foi intencional? Thales: Esta música quase não entrou, ela assemelha-se mais a uma sobra, imagino eu. Porém, me veio quando eu estava navegando pelo Orkut de Estela e reparei que não havia foto no perfil. Pensei em alguém descontente com o próprio eu, sem se reconhecer no espelho e escrevi com base nisso. Não houve outra estrofe por eu não ter conseguido pensar em nada depois da ‘pálida sombra do que não fui...’ definitivamente é uma canção ruim, mas tinha relação com o que eu estava fazendo, então a aceitei para ser a penúltima música do lado A.


Quem? (2011)

Letra e Música: Thales Salgado

Cântico de silêncios
Em difusa forma, quase um borrão
Na simetria do espaço

Pálida sombra do que não fui
Com que direito censura?
Os traços e os planos que faço

Quem me olha lá?
Quem me vê chegar?
Não me reconheço no espelho

        Ouvi em uma das primeiras aulas do curso de Lucas Silveira que “as boas ideias sobrevivem a problemas técnicos”. Tendo isso em mente, mantive o áudio de quando tinha 21. Para ser sincero, eu já fiz isso uma série de vezes nas postagens do blogue sem ter ciência dessa máxima. O trecho da entrevista sobre o Mosaico de Estrelas veio como tentativa de contrapor isso. Em 2011 minha visão era taxativa “definitivamente é uma canção ruim”, o pensamento aos 30 é o mesmo? Será que com alguns retoques isso mudaria? Quem sabe novos versos ou uma regravação, em um estúdio, daria outro ar, mesmo a essa composição? Elucubrações.
        Independente disso, me lembro que essas composições foram realizadas em julho e agosto de 2011. Estes dois meses compreenderam sessenta e dois dias dos quais me lembro de poucos acontecimentos, além das canções, poderia olhar em meu moleskine outros eventos que tenham ocorrido, mas, o que mais estava acontecendo? Qual era a vida?
        O isolamento em que estou já conta e setenta e quatro dias. Nele, não surgiu outro álbum (embora Adriana Calcanhotto compôs seu disco ‘Só’ inspirada no período, cada um encara a fase à sua maneira) mas apenas uma música e uma série de desenhos. Os tempos são outros:
          Em entrevista à Folha de São Paulo, o profº de neurociência da Universidade Federal do ABC, André Cravo, explicou que um dos fenômenos que interferem na nossa sensação da passagem do tempo são quantas ocasiões marcantes e diferentes entre si aconteceram em um determinado intervalo e que, a partir de milhares de relatos sobre a percepção do tempo durante a pandemia, é possível identificar que as pessoas estão sentindo o tempo de forma diferente: “Temos visto relatos de quase tudo: semanas que passam voando, outras que se arrastam. Mas, de maneira anedótica, todo mundo concorda que o tempo está diferente”.
        A maior diferença entre o antes e o agora? Não poder sair, andar pela cidade à fora imaginando a tela em que retrato a saudade que vesti como luva.

Além da letra e um verso que foi omitido da letra,
um poema intertextual escrito no ano seguinte