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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Águia

“Um professor afeta a eternidade; ele nunca pode dizer onde sua influencia encerra” - Henry Adams em The Education of Henry Adams (1907) 

Arte de @isabellaproencart

A arte de Isabella Proença conseguiu encapsular a ligação entre a letra da canção que compus com Renato e a composição do compositor Bill Callahan. A águia vê a carejeira? Ou apenas a imagina? Ou ainda: a cerejeira é o estado de espírito da águia? Fica a critério de quem vê.



Águia (2011)
Letra e música: Renato e Thales Salgado

A querer mais espaço,
o cinza e o azul
Algo do branco.
Nos caminhos que passo,
vejo águias ao sul
E uma longe do bando.

Nas pedras remotas lembranças ebulem
Das terras,
outros animais e daquela paz
Que sentira...

E hoje ela busca nos ares um ninho
Em que possa repousar
Talvez haja outras como ela
Que avista uma velha cerejeira
E suas flores a dançar
O vento a envolve no celeste

Tantas montanhas em seu horizonte
Em rios se espelha o sol
Sua alma desperta
Põe-se a cantar:

Que seu passado a brisa levou
Que seu passado a brisa levou
Que seu passado a brisa levou


     Há alguns dias, Anderson comentou sobre uma publicação que escrevera há 11 anos:

    Quase sem querer, meu pensamento voou para as palavras de Fernando Anitelli. A ludicidade da língua portuguesa em ação. Ele comentou que, à época, estava realmente ouvindo muito a trupe, tornando a ligação, de algum modo, evidente. Essa forma de repaginarmos as referências é bastante discutida, do movimento antropofágico ao último longa de Charlie Kaufman: Estou Pensando em Acabar com Tudo. Trago o texto de meu amigo por alguns motivos, de eu ter gostado do texto a ele poder exemplificar a ideia. Passando pelo fato de que a própria letra desta composição trabalha este expediente de uma forma ou de outra.
    Em 2010, enquanto me familiarizava com meu primeiro Moleskine eu pensava em questões bucólicas influenciado pelo álbum de Bill Callahan "Sometimes I Wish We Were An Eagle". Principalmente pela composição All Thoughts are Prey to Some Beast que inicia com os versos "a arvore desfolhada parecia um cérebro. Nos galhos, os pássaros eram todos os pensamentos e desejos em mim". Esses pensares avulsos ganharam uma página e ficaram ali, competindo com outros pensares, por algum tempo. Não sei dizer quantas vezes reli ou tentei salvar algo dali, pode ser que nenhuma, mas... fica como ilustração.


     Não fica claro, para mim, o momento em que, de uma conversa com meu ex-professor de violão, Renato Souza, surgiu a ideia de que eu fosse visitá-lo para tocarmos um pouco. Tenho registro de ter enviado a gravação que ele fez da música na noite de um sábado: 05 de fevereiro de 2011. Então, imagino o encontro tenha tomado parte em algum ponto de janeiro daquele ano. Ainda eu houvesse presenciado sua habilidade para personificar a "bala de banana Joice" em uma canção em uma de suas aulas, e que ele tivesse musicado poemas meus como a primeira versão de Solipátria e também a versão que levou a minha a ser chamada de O Sol Só II, ele já não ministrava aulas no programa Escola da Família há alguns anos e acabaria por ser um "reencontro". 
     Abaixo, pode ser visto parte do processo de composição da composição, salvo melhor juízo, Renato folheou o caderno de 2010 em busca de ideias úteis e as que fomos escolhendo iam para o caderno de 2011, recém estreado. Há algumas questões pontuais que tem bem a minha cara, como "ebulem" ou o mais-que-perfeito "sentira", mas a lembrança era de sugestões e ideias partirem dos dois lados, com Renato propondo as alterações e mudanças de atmosfera na melodia.
      Penso nesta composição sempre que chega o dia dos professores e é por isso que o texto abriu com uma frase da obra de Henry Adams. Para além desta composição, há uma série de ramificações ecoam de diversos modos: seja recebendo a discografia de Raul Seixas, me apresentando ao Acid Pro da Sony (várias canções daqui foram gravadas com este programa), ou demonstrando como grandes grupos poderiam agregar a apresentação de uma mesma canção, cada qual atuando de forma distinta com o instrumento. Estes conhecimentos, sempre estarão presentes, independente do espaço e do tempo.
       Semanas atrás, escrevi uma nota em que dizia: 'Fico contente de ter atendido com meu irmão o anúncio que falava em aulas de violão gratuitas aos sábados, no Programa Escola da Família. Esse foi um dos momentos que conduziu a este dia, em que dois alunos da E.E. Esli Garcia Diniz e dois alunos da E.E. Dr. René de Oliveira Barbosa se apresentavam juntos.' Mas não era só o programa o responsável, era, de uma forma ou de outra, o professor que fazia a diferença em criar o ambiente estimulante em que grupos diversos transitaram. Já diria Gessinger que "a vida não é um jogo de palavras cruzadas onde tudo se encaixa" mas... nenhum outro professor houve. que nos incentivasse a tocar Homens-Caixa. Coisas assim fizeram toda a diferença.

Sublinhado em rosa
Pensamentos que
Viriam a se tornar
a canção Dádiva

domingo, 20 de maio de 2018

Nos Olhos do Tempo

A MIRAGEM NO CAMINHO
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco,
(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).
Helena Kolody

Foto cedida do acervo de Kariny Camargo


Nos olhos do tempo (2011)
Letra e música: Thales Salgado

Olhou para trás e não se tornou
A estátua de sal que desejou
E ao deitar o que sonhou
O fez raiar, o exasperou

Viu um jardim de nuvens
E cisnes de papel
Esculpida em lava
Uma alada cascavel
Fênix de neblina
O caos da criação
Deparou-se com o tempo
Vindo em sua direção

Viu sua vida nos olhos do tempo
Num arrebol com poeira de estrelas
Viu tantos astros, tantos elementos
Unindo-se a seiva de luzes e trevas
Não se lembrava de nada quando acordou

         "De todos os mistérios da noite, os que mais me espantam são os vaga-lumes e os sonhos" essa frase do filme Fica comigo esta noite permanece desde a primeira vez em que assisti ao filme num longínquo 2006. As frases de posts anteriores tendo sido d'A Sociedade dos Sonhadores Involuntários de José Eduardo Agualusa me deram a impressão de que voltaria a trazê-lo aqui. Os sonhos sempre foram um tema de interesse. Dias atras, mesmo, sonhei em encontrar refúgio numa espécie de seminário ou mosteiro. Pouco recordo dos pormenores mas, enquanto eu sonhava, parecia tudo palpável e concreto. Como se o mero fato de despertar fosse uma afronta ao encontro propiciado pelo idílico. Melhor seria esquecer?
          As canções de Nada Há de Novo Sob o Sol traziam menções ao Eclesiastes. Nos Olhos do Tempo traz menção óbvia à esposa de Ló, numa das passagens que mais me assustavam na infância. Lembro de 2011 ser o ano do lançamento do álbum Chão de Lenine com sua circularidade concreta inconvencional, no entanto, não consigo me atinar a que me levou a escrever essa letra numa tentativa simbolista. "arrebol" é uma palavra que retirei do cancioneiro de Djavan, assim como a Fênix é uma forma delicada de inserir Ikki, uma de meus cavaleiros de bronze favoritos em canção. A alada cascavel é o Quetzalcóatl da cultura mesoamericana... Há uma série de alusões, e a espinha dorsal são os sonhos. Aqueles dos quais se acorda sem saber de nada.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Fim


"THE MAN IN BLACK: Still trying to prove me wrong, aren't you?
JACOB: You are wrong.
THE MAN IN BLACK: Am I? They come. They fight. They destroy. They corrupt. It always ends the same.
JACOB: It only ends once. Anything that happens before that is just progress." - The Incident, Lost


Recorte do Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch



Fim (2011)

Somos abismos fitando o céu
Se fome, a guerra, a morte ou a peste nem sei.
Escapo ao naufrágio de vis ilusões
E acabo refém de uma tempestade
Num jardim de terrenas delicias
Defloram, corrompem, sempre acaba assim,
Esperadas condutas humanas



Olhar de espanto ante o fim dos milagres
Inquietas sombras que vem outra vez
Nas luzes desertas dos sonhos sem cor
O poente treme os passos que não tem por flutuar
E aos poucos vai se notando
Nem mesmo o corvo a dizer "Nunca mais"
Não se nota quando o túnel engole o trem



         Durante algum tempo essa composição não teve nome. Diferente de outras letras ruminadas por um longo período essa é um amálgama de referências. Não por coincidência, a letra se chamaria "referência". No fim das contas as nações unidas estão sempre prontas para a desunião a palavra intitularia uma composição posterior feita sobre um poema de Kariny Cristina. Se alguém mais inteligente disse que o segredo da criatividade era esconder as fontes, o que se pode dizer quando esquecemos as fontes? Certamente um pouco de meus gostos vazaram na letra. Lost e Dom Casmurro são os exemplos mais fáceis de descrever. 
         Outras menções, como o corvo de Poe devem ter surgido por influência da faculdade de Letras. Se há um verso que tenho certeza existia antes da letra é "O poente treme os passos que não tem por flutuar" é aquela ideia que você não quer largar de maneira nenhuma. Olhando para a letra hoje, me pergunto se conseguiria fazer algo assim ou se quero. Segue a busca por uma canção alegre, e, no entanto, é necessário colocar tudo o que foi escrito antes em perspectiva. Inclusive as elucubrações sobre a finitude.
         Nesse sentido, quando Jean Reis me mandou sua composição ele instruiu que eu escrevesse algo que fosse oposto ao que eu sentisse ao ouvir a melodia e é por conta disso a escolha temática.

sábado, 21 de outubro de 2017

Dádiva

"No mundo em que vivemos, o que sabemos e o que não sabemos são como gêmeos siameses, inseparáveis, existindo num estado de confusão." Minha querida Sputnik, Haruki Murakami
Natureza morta com livros, Vincent Van Gogh


Dádiva (2011)

Me habituei as dúvidas da vida
Se o poeta já tiver passado
No caminho que encontrei
Criarei n'alguma parte
O vislumbre aninhado de meu sonho
Sou quem não cabe em palavras
Só espere o magenta clarear
Para então desencontrar 
Essa árida fortuna
Rabiscada em rodapés sem harmonia

A vida é dádiva
A que não me habituei
Não sei pra onde me dirijo
Tampouco o motivo por que cheguei

E que os moinhos não mudem
Seu fluxo para as juras que nunca
Passaram de um descalabro

Moleskine vermelho, meados de fevereiro de 2011

        02/05/2011 data um e-mail enviado para Fabíola com essa composição. A ideia naquele tempo era que minha amiga cantasse essa música. Algo que, até este ano de 2017, não ocorreu oficialmente. Fiquei pensando nisso quando, há alguns dias atrás, ouvi o podcast Café Brasil nº580. O ouvinte Juliano Ribeiro é um músico e compositor pernambucano e ele tem um projeto chamado "A música de sua vida" (www.amusicadasuavida.com) em que compõe música com as histórias das pessoas. Para compor, escrever a letra e fazer a música ele precisa filtrar pelas referências de quem contratou o serviço. 
        Ainda a composição seja um de meus hobbies favoritos. Por vezes tento realizar projeto com empenho similar. Para ter a sensação de "entendimento" usar as ideias de outras pessoas me permite sair um pouco de mim mesmo. Então trazer uma citação atribuída a Sigmund Freud "Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim" acabou partindo de conversas com a, então, estudante de psicologia. Assim como outras frases que ela me dissera tais "águas passadas não movem moinhos" ou "quem jura mente". Como um tatuador mescla algo de si às suas telas humanas, coloquei a palavra "descalabro" na letra como resquício de alguma entrevista do compositor Lobão vista à época. Há palavras que tão logo conhecemos precisamos usar!
         A melodia do refrão conserva algo de Don't Cry da Guns n' Roses embora não fosse uma intenção consciente. Talvez a influência de Renato Russo que adorava fazer medleys de outros compositores quando performava algumas de suas canções - a versão de Ainda é Cedo no álbum As Quatro Estações ao vivo é o melhor exemplo disso -  tenha vazado na composição. Por conta de direitos autorais, a versão voz & craviola presente neste post não apresenta o canto incidental. Mas está tudo aí! Uma das discussões que conduzem a trama o último livro de Dan Brown, Origem, é o velho conflito "de onde viemos? para onde vamos?". Nem sempre se sabe, mas a poderosa peça continua.

Em tempo! Vamos com a definição do Michaelis:
descalabro 
des·ca·la·bro
sm

  1. Estado de decadência ou degradação; ruína.
  2. Prejuízo elevado; dano, estrago.
  3. Desorganização extrema; balbúrdia, caos.    

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meio-dia

"Desde o começo ele levara uma vida sem realização. Não conseguia fazer os outros felizes e, naturalmente, fazer a si mesmo feliz. Para começar, Kino não sabia bem no que consistia a felicidade. Não conseguia perceber claramente as sensações de dor, ira, decepção ou resignação. A única coisa que podia fazer, com muita dificuldade, era encontrar um local a que pudesse se prender, para impedir que o coração, que havia perdido a profundidade e o peso, ficasse perdido a esmo." Homens sem mulheres, Haruki Murakami

Na contramão do sentido, a foto do post não retrata "a fonte".


         Bianca, Bruno, Renato, Jean, Cibele, Fabíola, Anderson e William. Nessa ordem respectivamente. Foram as pessoas envolvidas direta ou diretamente com oito de onze composições realizadas, se bem me lembro, no primeiro semestre de 2011 e denominado Belaventura. Pode ser então, que seja o conjunto de caráter mais gregário até hoje de forma que, à época, cogitei tornar esse o nome de um coletivo musical... mais um esboço embrionário nesse cemitério das vontades. Das três composições sozinho, Meio-dia foi a mais "simples" e praticamente sem raízes. Aos meus vinte e um anos andava pelo centro de Arujá. Aquelas tardes de sol à pino e, na praça, um homem jazia com uma garrafa de cachaça ao lado. Por vezes me paira a vontade de perguntar a essas figuras qual sua trajetória, por outras, me recolho em meu silêncio e pequenez. Afinal, que teria eu na manga para replicar o que quer que fosse? Imaginei que o homem tinha vendido o céu. O lado mais difícil foi, sem qualquer gravador, permanecer com a melodia na cabeça até o fim do expediente.
          Vendo hoje o verso "um carrossel de sonhos" me pergunto se eu já havia começado a assistir MadMen. Suponho que sim. Conjugar o "inconsolado" certamente partiu do apreço por El Desdichado II de Lobão. Hoje sou ruína do que em mim transborda é um verso que me apraz pelo que pode carregar em si. Mesmo o mais terno dos sentimentos em demasia pode ser propulsor de males.

Meio-dia (2011)

Vendi o céu para alguém
Que não pagou
E que será de mim?
Um carrossel de sonhos
Naufragou
Por isso eu venho aqui
Nas águas da fonte se esconde
A inconsolação:
Um certo medo de a vida
Ser pura abstração

No banco da praça
A velha cachaça
E hoje sou ruína
Do que em mim transborda

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Brinquedos de Guerra


"Sweet melodies
Cross an ancient battlefield
Soaring still and claim memories
Say a short goodbye, a short goodbye now, a short goodbye now", Oren Lavie





Brinquedos de Guerra (2011)

Palavras são brinquedos de guerra
Da minha, e também da sua
Uma guerra longe das ruas

Meu silêncio
Na espera de tua voz
Que em algo me cura
E seria sua candura
Ou minha loucura?

Enquanto se transforma em animais
Passo a imaginar os tais
Penso se ao encarar o desconhecido
Estou a perigo

E se a palavra
Por mim proferida
É igual a que é por
Ti recebida
Com a força para
Te deixar vencida
Ou ferida

Eu desmetaforizado,
Despido de estilo,
Nem tão seguro,
Nem tão perdido
Vislumbro teu nome
E sigo

         Não fosse um compromisso com canções autorais, eu poderia escrever algo sobre alguma canção do israelense Oren Lavie. Fui apresentado a ele há sete anos atrás e ouço mitos de um segundo cd ao menos desde dois mil e doze. Numa das conversas com B.S.B. ela surgiu com essa definição "palavras são brinquedos de guerra". Revirando os e-mails encontrei um do dia 03/01/2011 em que eu dizia Demorei pra caramba pra conseguir musicare no final usei outra melodia e tive que mudar uma ou outra coisa na letra foi minha última composição de 2010, inaugurando o sexto cd =D. Fora do registro não consigo imaginar como soava essa melodia. Admito o jogo: para que a listagem de demos mantivesse uma coesão anual transformei a canção em cria do ano seguinte. Por meu amor pelos acordes diminutos, ela fez parte de meu repertório em um festival cultural de Arujá:

Fatos, não palavras.
          A águia era como minha amiga se via, portanto, foi como meu desenho escorreu. Eu tinha a mania de fazer retratos. Fotografava e então dava no melhor estilo Pop Zen (só é seu aquilo que você dá). Com esse desenho não foi assim, ele ficou perdido numa pasta junto a uma cópia de estudo da Preocupação Materna Primária de Winnicott. Foi uma troca? Ela ficou com meu exemplar de Quando Fui Outro - presente de uma professora da faculdade - Bianca leu? Quem sabe ela estivesse personificando os ensinamentos de Rumpelstiltskin: toda magia vem com um preço. Sim! para que eu ficasse com a composição que partiu das palavras dela, eu não poderia ter o livro. A última vez em que a vi foi há exatos mil cento e oitenta e cinco dias, en passant, num tributo a Cazuza no Parque da Juventude. E eu nem gosto de Cazuza! que estava fazendo lá?

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Volta

"Toda a gente tem um mundo secreto dentro de si. Toda a gente no mundo. Toda a gente mesmo. Podem ser as pessoas mais aborrecidas ou chatas por fora, mas dentro delas têm mundos inimagináveis, magníficos, maravilhosos, estúpidos e incríveis. E não é apenas um mundo, são centenas deles. Milhares até." Neil Gaiman, Sandman vol.5 - Um Jogo de Você

Terça-feira, 3 de julho de 2007 as 16h36

"Volte aqui, querido.
-Eu estou mandando, volte já aqui!
Quem você pensa que é? Aparece só quando eu estou na cama, fica me perturbando a noite toda, por diversas vezes não me deixa dormir. Quando eu acordo, você já se foi, e não deixa nenhum rastro de que passou por aqui. Nem um bilhete, nem sinal, nada. Sabe, isso me cansa as vezes.
E quando eu te chamo e você não aparece? Chego a ficar preocupada!
Você e seus surtos... Te acho muito temperamental sabia?
Eu acho que eu vou começar a te dar obrigações, quem sabe assim você se torna mais presente em minha vida. Olha, eu não sei viver sem você!
Hoje mesmo, eu estava lembrando... Quantas coisas fantásticas nós já fizemos juntos! Se bobear, algum dia tudo virará um livro.
Ultimamente, nossos momentos juntos são tão curtos, tão mascarados, aposto que você nem reparou como eu adoro estar com você. Aposto também que você não se importa tanto assim comigo, nem a metade do que eu me importo com você.
Você anda muito preocupado com os outros, visita com regularidade outras pessoas... Duvido que você não tenha se apaixonado por outra e, por isso, me abandonou. Mas me diga, o que ela tem que eu não tenho? Quantas vezes você me pediu pra fazer alguma coisa e eu a fiz, do jeitinho que você me pediu? Quantas vezes você assoprou em meus ouvidos, doces encantos que me faziam devanear pelos mais belos lugares e situações?
Alguma vez eu te "deixei na mão" por acaso? Não, nunca! Mas você sim. Ah, por favor volte! Eu lhe suplico, do fundo do meu coração!
Por favor, volte a ficar do meu lado, volte a me confortar.
Oh, por favor Inspiração, eu lhe suplico, volte logo! Eu sinto muito a sua falta..."

A música:
  

Sua história:
Vendo o caos dos cadernos, foi categórica: - você devia ter um moleskine!
  Ao ler o texto pensei no caminho traçado para alcança-lo: Passar um décimo de segundo a mais com a lista de chamada para cuidadosamente copiar as treze letras necessárias para a formação das três palavras que buscava. Terríveis grades impostas pela realidade! Possuísse os olhos de um shinigami nada disso teria sido necessário. É bem verdade, poderia ter sido pior, estivesse em um ambiente em que ninguém soubesse o nome de ninguém teria precisado observar cuidadosamente a altura que a dona de dourados fios escrevia e entre o eixo das ordenadas abcissas, cartesianamente, obter um nome-próprio. Então alguém diria, não seria mais fácil simplesmente ir até a pessoa e se apresentar formalmente? Aparentemente, sim. De todo modo, engendrar essa busca dentro de convenções sociais não me soava aprazível.
         Supunha, intuitivamente, que ela escrevia, e encontrar um blog em seu nome fez com que eu me demorasse em cada uma de suas palavras antes mesmo de trocarmos qualquer palavra pessoalmente, isso viria a ocorrer depois. Olhando em retrospecto - pode ser me tenha chamado atenção o fato de Cibele Ventura ter escrito aquela postagem no ano de 2007, mesmo período em que estava eu a compor as primeiras canções da Falsa Modéstia. A personificação da "Inspiração" como uma personalidade temperamental praticamente autocentrada me chamara a atenção. Sabe aquele momento em que você pensa 'pudera eu escrever algo assim?' era a minha situação, isso me incentivou a pensar em adaptar o texto em uma melodia. Conversando com a autora soube que ela não pensara em nenhum ritmo específico, tampouco imaginara musicar, em virtude disso me deu liberdade criativa. O que me levou a esses versos:


         Encontrar as ideias melódicas me tomou cerca de oito meses, a indecisão maior era como dar forma a canção. Debruçaria sobre Beatles, Beach Boys, Doors, Dylan, Cash, Stones, Floyd na procura de algo que sintonizasse com os gostos dela? Não seria efetivo. No período prolífico de composição, chegaram a pedir que compusesse músicas que soassem de Barão Vermelho à Br'oz, e sinto que não alcancei nada parecido; O resultado final soa... indefinido até para mim. Afirmo, não soava como as composições do período em que a Falsa Modéstia esteve em atividade, estaria eu copiando de algum lugar? Quem ouvir dirá, o resultado final foi o que foi. Houve poucas alterações de versos, como pode ser comprovado na transcrição dos versos gravados:

Volta (2011)

Na cama ouço teus sussurros
Se desperto te aguardo
Quase nunca você vem
E há tempos que já nem
Dedica um tempo, todo seu, para mim

Tudo o que fizemos
Quanto importa pra você?
Na certa estará preso 
A afagos de alguéns
Será que não mais
Minha poesia vai satisfazer?

Deixa de lado suas outras paixões
E vem outra vez...
Você há de voltar
Mate a falta de você
Inspiração

Talvez não lhe apraza mais as páginas
De imaginários livros que fizemos
Sem você aqui nem mesmo as ridículas
Cartas de amor vão viver

Deixa de lado suas outras paixões
E vem outra vez...
Você há de voltar
Mate a falta de você
Inspiração

Consegui o autógrafo!
         Cheguei a versionar pelo menos mais dois outros textos de Cibele e, até hoje, não foram musicados. Considerando o fato de estar a viver um hiato criativo há cerca de mil dias, imagino que a situação não será alterada tão cedo. Para além disso, ter contato com tais palavras impulsionou minha busca por "melhorar meu jogo composicional" e isso não pode me ser tirado. No ano de 2011, terminei por batizar minha demo como "Belaventura". De suas onze canções, sete são parcerias com pessoas e
métodos distintos. Entre elas, Falta, tema da postagem da semana passada, por exemplo. Dentre minhas inspirações para a criação desse blog, estão os Venâncios, o blog da atriz Maureen Miranda, A Máquina de Caminhar de Cristovão Tezza, o podcast Zing! nº40 e, como não poderia deixar de ser, o blog Where is Mind? dessa entidade conhecida virtualmente como "o oposto", certa vez afirmaram que "ela tinha na força dos dedos o fogo da palavra certeira que fere e cura os corações dos poetas" que descrição melhor faria eu? Penso para onde foram suas palavras,  quem sabe sua mente esteja projetada astralmente pelo mundo espelhado do mago supremo, como a minha esteve hoje. Somente os tolos são escravizados pelo tempo e espaço, quem sabe o que o futuro trará provavelmente virá com os gatos, enfim!

Esboço de capa para a demo de 2011 Belaventura e suas faixas.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Falta alguém

"Nascemos com um prazo limitado para interpretar o mundo. Fazemos o que podemos. O legado de todos que nos precederam nesse esforço pode ajudar ou confundir, e em útima intâcia ninguém nunca prova nada. Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal. Dar sentido ao mundo é um ato criativo. Uma visão de mundo é uma narrativa." - Daniel Galera, Cordilheira
         Prólogo
        A janela lateral, além de esparsas árvores, mostra as margens do rio. Automóveis, caminhões, motocicletas. Nem o rabecão tem pressa. Jornalistas e presidentes desconhecidos batizam os caminhos. Café se espalha num jardim, tudo é levado a ele pelos movimentos do dragão chinês na grande murada. O som em seus fones poderia ser mais alto: "Morfeu deitou, adormeceu e esqueceu de mim". Seria essa a origem de sua despedida mencionando os campos oníricos de Morfeu? A semana mal dormida tornava aquela a trilha sonora perfeita. Nem voltando para casa os olhos fechavam.




        Nem Tom Zé, tampouco Arnaldo Antunes. Perdera o prazo por duas vezes por falta de inspiração. Talvez, esta não fosse a palavra correta. Não soubera convencer seu violão a acompanhá-lo na empreitada. Ainda que misto de madeira e aço, tinha, também, seus caprichos. A 3ª edição do Prêmio Musique contaria com Dinho Ouro Preto do Capital Inicial. Sua proximidade com as obras da banda tornaram a ideia da participação algo entre o natural e um dever moral. Por anos nutria o desejo de obter um ebow, um arco eletrônico capaz de criar o timbre único que conhecera ouvindo Passageiro. Os ensaios da Falsa Modéstia precisavam de criatividade para suprir a falta de equipamentos tais pedais de efeito. Ele lembra da decepção ao adquirir um slide para tentar tornar o solo do cover de Fogo mais fluído. Aquela canção era certamente uma das responsáveis por seu deleite e apreço aos sóis menores.
        Conferiu a letra de Dinho e Alvin L:

Alguém

Alguém
que veja o infinito
Com o sol no olhar
Alguém
que seja um oceano
em que eu possa mergulhar
Não diga nada
Não faça nada
Não pense nada
Por enquanto
Só me espere
Até te encontrar

Alguém
que não faça sentido
E eu possa entender
Alguém
que ouça o que eu digo
E saiba responder
Fique sentada
Fique parada
Fique calada
Só me espere
Até te encontrar

Alguém que viva o presente
Alguém que saiba ver além
Alguém que nunca me abandone
E não me faça de refém

Não diga nada
Não faça nada
Não pense nada
Por enquanto
Só me espere
Até te encontrar

       Uma, duas, cinco. Perdeu, além dos registros, as contas das quase melodias que surgiram até os acordes se acomodarem na harmonia final. Dinho afirmara em uma entrevista ao Estadão que colocar uma letra no jornal para artistas desconhecidos musicarem era "como se jogar em precipício" pois poderia "aparecer de tudo". E essa curiosidade pelo desconhecido deveria ser uma das "melhores formas de compor". Qual era o pensamento dos fãs ante a possibilidade de gravarem com o ídolo? 2010. Não faziam muitos dias ele assistira a uma performance do Capital Inicial no primeiro festival SWU. Também pode conhecer a banda! 
      Curiosamente - ou não - o vídeo de sua participação fora enviado no dia 27 de Outubro. Esse dia marcava uma apresentação da Falsa Modéstia na IV Mostra Musical da E.E. Esli Garcia Diniz, em Arujá. A primeira compilação de canções tinha como objetivo este dia, que também ficou marcado por ser o dia em que seu amigo de longa data, Anderson Gonçalves, o havia apresentado a uma figura mítica que atenderia por "menina em sépia". No futuro.
      Este amigo, junto a Gabriel Sandrini (fã ardoroso de Capital) formava Os Venâncios e em meio a seus devaneios, teorias e causos publicaram um texto divulgando a participação de Thales Salgado no concurso. (Para os que amam fontes, o post pode ser conferido aqui: https://goo.gl/cOrhOc). Que outras formas de divulgação ele pode ter usado? Conversar com as amizades próximas pelo Msn Messenger, Orkut, ou Twitter? Não era a criatura mais sociável, sua memória o traía. Suas formas de disseminar o conteúdo, precárias. Foi tomado por apreensão quanto ao resultado. Era a primeira letra de um músico consagrado com a qual ele lidava. Teria Dinho ouvido ao menos um minuto de sua canção? Nunca saberia. Seu desempenho não fora expressivo e, além do mais, em virtude dos direitos autorais nada poderia fazer com a música. Seria, tão somente, o eterno símbolo de sua participação.

        Epílogo
       No ano seguinte, recebi uma mensagem de Anderson com versos. Uma palavra tematizando a falta. Não aquela dos amores românticos, também não era uma sensação depressiva, maligna. Era, por assim dizer, a falta em seu estado mais puro. A sensação de que ainda havia algo por sentir. Algo verdadeiro. Conversando com ele recentemente enquanto pensava no post, confidenciou que havia, então, uma necessidade de transcrever os pensamentos. Por vezes me parece que o único conselho que sei dar é "escreva, é um bom hábito". O que parece vazio. Em uma breve conversa com uma psicóloga fui apresentado ao conceito de falta como algo imaginário, nunca muito bem definido, com uma ideia ilusória de completude plena, perfeita. Uma das faltas que eu sentia em 2011 era mais concreta: havia uma melodia sem letra, despida da possibilidade de transmitir sentido. Calcei a letra de Anderson tal fosse uma luva. Era a chance de retrabalhar os sons e a canção que outrora se chamava Alguém, passou a chamar Falta. O mais interessante de lidar com palavras de outrem é enxergar quantas possibilidades existem nos pensamentos. Posso estar a me repetir, mas poder chegar a resultados que eu não alcançaria sozinho é uma das interessâncias da vida. A melodia tinha sentido. Tinha que concordar, um dia tudo volta para o seu lugar e vai ficar como devia estar.

Falta (2011)

Falta
A cor e o sabor,
As rimas e repetições
Falta 
Os olhos que brilhavam
Encantados de emoção

Refrão:
Talvez a falta não seja nada, ou seja, algo
Eu só sinto que faz falta tudo isso a faltar

Falta
O frio na barriga,
Falta aquele bem-estar
Falta 
A palavra escrita,
Um coração a palpitar

Refrão

Faltam os tempos de incerteza
Os de insatisfação também
Faltam os gritos de alegria
Ao saber que estamos bem. 

Página do moleskine mostrando os versos de Anderson e como ficaram configurados à canção.

       P.S: Caso haja a curiosidade de saber como era a canção que tomou parte no concurso ela pode ser acessada aqui: https://goo.gl/DbJsDj