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quinta-feira, 25 de junho de 2020

Homônimo #2

"Oportunidades perdidas, possibilidades perdidas, sentimentos que nunca voltarão. É parte do que significa estar vivo. Mas dentro de nossas cabeças - ao menos é como eu imagino - há uma pequena sala em que guardamos essas memórias. Uma sala como as estruturas nesta biblioteca. E para entender o funcionamento de nosso próprio coração nós precisamos seguir criando novos cartões de referência. Precisamos desempoeirar as coisas de vez em quando, lufar ar fresco, trocar a água no vaso de flores. Em outras palavras, você viverá para sempre em sua própria biblioteca particular." Haruki Murakami, Kafka a beira-mar

Comemorar "marcos pessoais" nunca foi exatamente o meu forte. Há dois anos, quando tentei comemorar a longevidade deste blog havia a sensação de algo estar fora do lugar. Hoje, é o quarto ano em que este blog segue existindo. O primeiro texto foi escrito as pressas, como que seguindo o instinto "escrevo, senão, deleto". 
Em uma conversa com Bob Barduchi Oliveira, responsável pelo design e novo projeto gráfico, ele comentou que quatro anos eram uma graduação e me perguntou se eu seria um bacharel em blog da Falsa Modéstia e... talvez eu seja... Talvez não. 
A verdade é que muitas das vezes eu procuro o máximo de referências para ancorar os textos e a pesquisa não levam a lugar algum. Mas não me sinto um escritor, compositor, cantor ou crítico. Escrevo, para quê?


Salto Contra o Medo de Calar (10/01/2019)

Fiquei distante
(Por tanto tempo, por quanto tempo?)
Nada é como antes
(E os lamentos, e tanto pranto)
Parte de mim
Evitando olhar
O Espelho

Debilitante
Só olhar pra dentro, o que vai sendo?
Não obstante
Alheamento não é remanso
Sempre estive
A oeste
E não percebia:

Dois amigos, nas trincheiras
Dissertando a bandeira
Suas cores e valores
Outra vez, ameaçadas
Mãos se enlaçam
Não disfarçam
Saltam contra o medo de calar.

Que as palavras sejam os projéteis
Artilharia para aproximar
Revolver nosso peito
Bem mais que apenas
Um sol de inverno
enlace terno
Mais que a ilusão de paz


Foto: Kariny Camargo
     

terça-feira, 31 de julho de 2018

Cordelizando

"Quero perder o medo da poesia, encontrar a métrica e a lágrima" Atronauta Lírico, Vitor Ramil
Foto do original, ilustrado em maio.

"Há alguns dias atrás minha mãe surgiu com a necessidade de um cordel que falasse da educação na cidade de Itaquaquecetuba. Debrucei por várias horas na questão e o resultado foi esse. Li uma série de notícias da cidade e me pautei na educação libertadora de Paulo Freire.
Ainda que, em canções, eu não faça questão com métrica. A literatura de cordel a tem como tradição. Busquei respeitar a isso, tentando usar os oito pés a quadrão. A ilustração também foi minha primeira tentativa nesse estilo"

Em Itaquaquecetuba
O povo não se derruba
Faz como o “balança juba”
Se o assunto é educação
Mesmo sem o uniforme
O povo daqui não dorme
Se há algo que transforme
Esse algo é educação

Até quando existe greve
Se espera que seja breve
A criança não escreve
Sem professor pra lição
Mudam hora de concurso
Tentam alterar o curso
Sempre o mesmo discurso
Bate uma decepção

Se alguém rouba fio de cobre
Atitude nada nobre
Não há quem não se desdobre
Numa interrogação
Teve máfia da merenda
Até desvio de renda
E quem é que encomenda
Toda essa judiação?

Quem souber, me grita ou posta
Mas acho que a resposta
Sem fazer nenhuma aposta
Já sabe, a população
Mesmo com toda a mazela
Uma cidade tão bela
Sabe que o melhor pra ela
É focar em educação.

*Originalmente publicado no instagram em maio de 2018

domingo, 29 de julho de 2018

C.P.T.M., da letra

"O mundo não quer saber do espírito. Ao egoísmo do homem é odiento todo ideal que dele exija mias do que uma máscara hipócrita." Para ler e guardar, Hermann Hesse
A estação deserta após noite de festa.

C.P.T.M - 2018
(Caminham Pelos Trilhos do Mundo) 
Letra e música: Thales Salgado

Mesmo após sair dos sonhos
Ela embarca em outro dia
Tem nos olhos o verão
Refletindo o lado avesso
O oposto a gravidade

Transitada em suas mãos 
Resoluta ela parte
E narcisos imprecisos
Mal a vêem sair do chão

Os operários de Tarsila na estação da Luz
Caminham pelos trilhos do mundo
Buscando a quem conduz
E que nunca vem
Não vem!

Quanto se deixa em estações?
Nenhuma esfinge saberá 
Os sentimentos em nudez
Contrários a qualquer talvez 

Não salte! De branco.
Não salte! Só olha.
Vejo as mãos, ao vento
Só a trajetória

Tanta emergência nos desvãos
Os emergentes, sem ação
Rompa o silêncio em avidez
Tudo só acaba uma vez

         Das composições que fiz desde 2007 C.P.T.M, é, até o momento, a que mais levou tempo para ser desenvolvida. Ainda que tenha sido finalizada em 25/05/2018, seu embrião surgiu em 2011. Após assistir o coletivo Bootworks Theatre falando de seu espetáculo Black Box no teatro do Sesi, fui abordado na linha verdade do metrô se "ver todas aquelas pessoas na estação" não me inspiravam a escrever e, até então, a verdade era que não. Ali, aos 21, o máximo de exposição que tinha ao metrô eram passagens pontuais enquanto alcançava a UniSant'Anna ou algum evento no Sesc.
         N'algum ponto entre 2014 e 2015 conheci o trabalho da dupla Onagra Claudique; por meio de seu álbum Lira Auviverde. Entre as narrativas presentes em sua lírica, há a letra de Arrebol. Nela há versos como "Na catraca do metrô querem passar três/É tão desolador o anhangabaú/Depois das seis" e "Na parcela do imposto não contém/O desgosto de encarar duas conduções, um trem?". Era possível, então, inserir elementos do cotidiano de forma elegante numa letra de música. Mas, o que eu poderia dizer acerca do tema?
         Foi apenas em 2016, na primeira aula que tive com o escritor Fabrício Carpinejar, que algo passou a realmente tomar forma. Enquanto passava pela estação da Luz, tive a impressão de enxergar o quadro de Tarsila do Amaral, a tela Operários:
      Na pintura de 1933 podemos enxergar uma pirâmide de trabalhadores exibindo feições que são variações de cansaço (uma pequena parcela do que, no futuro, Byung-Chul Han definiria como a Sociedade do Cansaço). A intersecção nesta estação me trouxe alguns dos versos:

Os operários de Tarsila
Na estação da Luz
(...) algo que os conduz

        Conduz surgiu para rimar com luz, e, não havia nada além disso. Uma brincadeira com o maquinista/condutor estava implícita, mas, o que mais? Tudo o que foi escrito no texto conduziria a este ponto. Foi apenas em 2018 que me veio a mente uma história que ouvi quando criança. Uma moça com vestes brancas olha fixamente aos olhos de uma testemunha antes de saltar rumo aos trilhos. Algo chocante, sem dúvidas. Uni uma possível narrativa do que seria este momento com a ideia de "narcisos imprecisos" que já estava num dos textos do blog deste novembro de 2016 "Mesmo assim ainda pode causar estranheza ver as pessoas banhadas pela luz das telas. Narcisos imprecisos? Quando o display esmaece, sobra o reflexo." Era uma brincadeira com Black Mirror, claro, mas, ainda assim, permitia mostrar algo que vemos todos os dias: a utilização indistinta de celulares enquanto estamos entre lugares. Não me excluo disso, obviamente.
     Tinha então quase todas as peças em lugar, uma possível suicida, operários caminhando na estação, pessoas com seu celulares dando atenção a seus universos digitais particulares... eis que, num dia de maio concluo que seria interessante ter um acrônimo para o título. Surge "Caminham Pelos Trilhos do Mundo" e, após isso, concluo que a melhor forma para começar a letra seria usar, como tantas outras vezes, um acróstico. Desta vez para Metrô e Trem. Objetos inanimados tomando parte de uma canção. Que, até o fim de julho, não foi gravada. Mas o será, em breve.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

MITO: O NADA QUE É TUDO

Um embate entre o monstro mítico de Mensagem e o de Os Lusíadas
(Originalmente um trabalho apresentado como parte do Curso de Letras do Centro Universitário Sant’anna na área de Literatura Portuguesa. Junho de 2011)





Pessoa, um mito à altura do mito Camões?
Nacionalistas ao extremo? Poder-se-ia dizer. O certo é que tanto Luís de Camões quanto Fernando Pessoa construíram, cada um à sua maneira e época, uma obra exaltando os valores do povo português. Suas angústias, expectativas, conquistas e mais ainda sua coragem para sobreviver aos perigos de "mares nunca antes navegados" afim de aumentar territórios, aumentar riquezas e glorificar a terra natal: Portugal. 
Camões em Os Lusíadas descreveu em dez cantos e 1102 estrofes decassílabas a viagem de vasco da Gama em busca do caminho para as Índias e pelo Ocidente. Há três ‘mitos base’ que são Adamastor, Velho do Restelo e A ilha dos amores. O mito que será utilizado nesta monografia é o de Adamastor. 
A Obra mensagem de Fernando Pessoa em questão “Mensagem” possui três partes: Brasão, Mar Português, e O Encoberto. Distribuídos em 44 poemas. A primeira e terceira parte apresentam subdivisões e a segunda parte não. O poema “O mostrengo” que será utilizado nesta monografia, faz parte da segunda parte do livro. 
O que se busca neste trabalho é analisar as semelhanças e diferenças entre as partes em questão: Adamastor é um gigante que encontra-se com a tripulação de Vasco da Gama quando estão no Cabo das Tormentas. O mostrengo é uma criatura que lembra um morcego e se coloca a assolar a tripulação de uma navegação portuguesa no mesmo Cabo das Tormentas. 
Essa é uma intertextualidade sempre citada, ao falar sobre as duas obras. Qual das duas criaturas configura-se como o monstro máximo? Seriam mesmo totalmente malignas? Estas são algumas das questões que serão levantadas nesta monografia. 

Prólogo 
Como se portar quando seu inimigo mostra-se "monstruosamente irascível"? Quando é imenso e parece gritar que é a própria "Natureza" que o quer amedrontar e a qualquer instante lhe pode levar para as profundezas sem lume?.. Camões representa através de Adamastor estes dilemas e Fernando Pessoa se vale do 'mostrengo'. 
N'Os Lusíadas, Camões, apresenta Adamastor no Canto V, quando Vasco da Gama põe-se a narrar a viagem empreendida de Lisboa até o rei de Melinde, no canal de Moçambique. O mostrengo, por sua vez, se apresenta em "Mar Português" segunda parte da obra Mensagem, de Fernando Pessoa. 

Um monstro em dois momentos ou diversas interpretações para um mesmo mar? 
Partamos de um ponto de semelhança em palavras empregadas na descrição das figuras em questão. 
Adamastor é descrito em determinado momento como "horrendo e grosso": "Com tom de voz nos fala, horrendo e grosso/ Que pareceu sair do mar profundo" enquanto o mostrengo tem as palavras "imundo e grosso" constituindo parte de sua adjetivação: "Três vezes rodou imundo e grosso". Embora uma das entidades seja horrenda e a outra imunda, há uma relação pois as palavras remetem a um campo de idéias comum, sugerindo algo repulsivo, pavoroso, ou mesmo monstruoso. A utilização da palavra "grosso" por Pessoa constitui um traço de intertextualidade consciente com o texto de Camões. 
Quanto a forma com que são caracterizados singularmente: Adamastor é uma figura de tamanho descomunal, com boca negra, dentes amarelos, barba maltratada. O tom de sua voz é profundo e causa o arrepio de todos os tripulantes : "Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,/ Que pareceu sair do mar profundo/ Arrepiam-se as carnes e o cabelo, / A mi[m] e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo. 
O mostrengo é uma figura que voa e chia e diz habitar em "cavernas que não desvendo" seus "tetos negros de fim do mundo". A semelhança que este carrega com um morcego não é gratuita. Na versão original, "Mar Portuguez" - que Pessoa publicou em Outubro de 1922, no nº 4 da revista Contemporânea - o poema se intitulava "O Morcego". Animal este, que simboliza a natureza proibida da noite. A palavra 'mostrengo' adotada posteriormente pode causar estranheza. É palavra derivada por sufixação: monstro + sufixo -engo de conotação pejorativa. Há ainda a supressão do 'n' de "mons" ficando apenas "mos", que ao compararmos com "morcego" notamos ser a alteração para a consoante subsequente na ultima consoante da silaba "mor", formando "mos". 

Três parágrafos acerca do três 
Nota-se na construção do poema de Fernando Pessoa o recorrente número três: a palavra "mostrengo" possui três silabas, o poema tem três estrofes, cada uma delas possui nove versos (o número nove é múltiplo de três). O número também é trabalhado de forma a criar ainda mais mistério em volta das ações do mostrengo. 
Lemos no poema: "voou três vezes a roda da nau", "voou três vezes a chiar", "rodou três vezes", "Três vezes rodou imundo e grosso". O três não está apenas nas ações do mostrengo. Mostra-se também nas ações do 'homem do leme' : "Três vezes do leme as mãos ergueu", "Três vezes ao leme as repreendeu", "E disse ao fim de tremer três vezes". No último verso de cada estrofe há a menção a El-rei D.João Segundo, o que faz com que , também ele, seja referido três vezes. 
O número três carrega força mística tal, que por si só poderia ser objeto de estudo em relação ao que pode significar no poema. Há a tríade de deuses egípcios Osíris, Hórus e Isis. A santíssima trindade, a ordem espiritual composta de Deus, o Universo e o Homem etc. O número três também pode simbolizar a perfeição, a totalidade. A presença deste número no poema pode sugerir a influência de Deus nas ações do homem. Decidido isso, podemos focar na comparação entre os monstros. 


De como as criaturas lidam com indesejados viajantes 
Camões optou por criar uma figura flexível. Adamastor, a principio, é uma figura completamente assustadora. Anuncia como tem lidado com todos aqueles que tentaram passar, valendo-se de ventos e tormentas desmedidas num castigo que vem sem que se aguarde. Este tom toma maiores proporções quando em determinado momento ele diz: "Antes, em vossas naus vereis, cada ano,/Se é verdade o que o meu juízo alcança/ Náufragos, perdições de toda sorte,/Que o menor mal de todos seja a morte!" Quais destinos de imensuráveis sofrimentos seriam estes maiores que a morte? Ainda que apresente tais perigos a figura de Adamastor é humanizada ao fim da passagem. Quando o monstro se mostra atormentado por um fracasso amoroso, logo, o que o motiva capaz de criar empatia para os navegantes, e consequentemente para o leitor. 
A abordagem de Pessoa para o mostrengo é única: aterrorizar os navegantes através de seu vôo ao redor da nau, seus chiados e sua própria figura. O mostrengo é fruto de um mistério: nada se explica acerca de sua vida pregressa. Ele percebe os intrusos em seu território e se coloca a tentar afugentar os navegantes. Sua abordagem tem - como a de Adamastor - efeito instantâneo, percebemos já no oitavo verso da primeira estrofe que o 'homem do leme' está a tremer no instante em que responde a criatura. Apenas a coragem dos heróis pode vencer este desafio. Sem ela, o mostrengo reinaria absoluto por aquelas áreas. Ele só pode ser vencido. Não é capaz de mudar de idéia. 


Navegando o Cabo a dentro e através 
Mais que a simples representação do Cabo das Tormentas, o Adamastor e o mostrengo podem ser interpretados como a personificação de todos os medos que os navegantes mostravam quando se punham a desbravar os mares. Sempre se soube das lendas que eram criadas pelos navegantes na tentativa de compreender quais eram os perigos dos mares e tormentas. Estes monstros fantásticos representavam um perigo palpável. O que poderia causar tantas mortes se não uma terrível criatura à espreita? Preparada para levar os homens e seus sonhos para as fossas abissais? 
As criaturas se vistas como protetoras de um caminho e apresentando um desafio ao povo português tem um papel semelhante ao desempenhado pela Esfinge Egípcia que devora os que não tem coragem, ou não estão a altura de seu enigma. As duas figuras, Adamastor e mostrengo, colocam-se contra os navegantes e apenas a coragem e a ousadia podem servir como resposta ao terror que representam. 
Vendo sob uma outra ótica, para os navegantes era primordial atender a vontade do rei, este sim, detentor de uma fúria maior que a de qualquer monstro encontrado no mar. Por isso pode ser interpretada como uma ironia o fato de a coragem de enfrentar um medo venha de um outro medo. Dizer que para um rei os fins justificam os meios é útil a esta altura? 
D.João II alterou o nome do Cabo das Tormentas para Cabo da Boa Esperança depois que Bartolomeu Dias e sua tripulação conseguiram ir além do Cabo. Essa façanha é a presente no poema "O Mostrengo". Quando, depois, Vasco da Gama no reinado de D.Manuel I, encontrou o caminho para a Índia indo além do Cabo, Luís de Camões homenageou este heróico ato n'Os Lusíadas. 


Um navegar impreciso entre dois mares do tempo 
Houve a possibilidade de observar a intertextualidade entre o poema "O Mostrengo" de Fernando Pessoa e o Adamastor presente em Os Lusíadas de Luís de Camões. Podemos concluir que foi pela existência de Adamastor que o mostrengo pode tomar vida. Uma vez que Pessoa, tendo podido buscar inspiração em seu compatriota, diluiu a influência da antiguidade clássica - fortemente presente no texto de Camões, por exemplo o próprio Adamastor baseado em um gigante mitológico - e fortifica a sua visão interior dos perigos do mar, no Cabo da Boa Esperança. 
Camões criou um personagem que aterroriza por suas proporções, mas o descreve como uma figura humana. Além disso, a força épica que Adamastor inspira vai sendo reduzida quanto mais o ser vai sendo humanizado no decorrer do episódio. Adamastor fora vencido pelo amor. Essa reviravolta acaba transitando o foco entre os conflitos do gigante e os dos navegantes. 
O poema que apresenta o mostrengo, por sua vez, tem uma reviravolta apenas no instante em que o 'homem do leme' se percebe como a confluência de energias e almas do povo português e da vontade do rei D.João II e toma em suas mãos o destino que parecia estar, até então, nos dominios do mostrengo. Nas duas primeiras estrofes, tudo que o homem é capaz de fazer é tremer e temer. O nome do rei é tudo o que consegue articular. É apenas na terceira estrofe que o poder da coragem, necessário para sobrepujar a criatura horrenda, se manifesta. Como fosse uma epifânia. É a vitória do homem sobre seus medos. A luz que oblitera as sombras. A força de Portugal é tanta, que até mesmo detentor de uma verve poética o homem do leme se mostra. 
Enfim, a emoção do episódio de Camões divide-se entre os homens e Adamastor, enquanto no poema de Pessoa o foco mantém-se no fortalecimento do espirito do homem. 

O supra-Camões 
Essa força colocada por Pessoa torna a sua criatura e a ação que a envolve mais interessante, e assim mostrando aspectos do "Supra-Camões", pois elevou ainda mais os valores e ideias que Camões propusera n'Os Lusíadas. Fernando Pessoa criou no mostrengo um símbolo máximo para o medo. Mais que uma geniosa personificação como fizera Camões. 
Encerro com uma citação que resume esta ideia de forma mais articulada, e considerando aspectos gerais das duas obras: 

"A Mensagem comparada com Os Lusíadas é um passo a frente. Enquanto Camões, em Os Lusíadas, conseguiu fazer a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe estabelecendo uma harmonia total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico." (Cirurgião; 1990, 19) 


Referências 

MOISES, Carlos Felipe. Mensagem de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2ª edição 

CAMÕES, Luis Vaz de. Os Lusíadas. Comentário por Francisco da Silveira Bueno. Rio de Janeiro: Ediouro. 

CIRURGIÃO. Antônio. O Olhar Esfíngico da Mensagem de Pessoa. Revista 

ICALP, vol. 22 e 23, Dezembro de 1990 / Março de 1991, 74-85