terça-feira, 27 de setembro de 2022

Distante, razoavelmente inquieta, e, acima de tudo: lenta e livremente, em torno de si.

"É uma luta permanecer presente ode quer que eu esteja, porque minha mente viaja no tempo e no espaço, não apenas até o passado e o futuro, mas também até as casas que nos cercam neste condomínio, até os corpos que habitam esta cidade." - Açucar Queimado, Avni Doshi; tradução Adriana Lisboa. - Porto Alegre: Dublinense, 2021. p.118

 

Arte por @ellaproenca

Distante, razoavelmente inquieta, e, acima de tudo: lenta e livremente, em torno de si. (2022)
Letra e Música: Thales Salgado

Quantas vozes há em ti?
São elas suas vidas passadas
Ou o que está por vir?
Há tantas interrogações!

Cale aquelas que puder
Ouça as que lhe façam bem
Se forem só ilusão
Dissipe com o coração

Sua voz é bem maior
Que qualquer barulho.

     Por muitos dias, esses versos não tiveram nome. Cheguei até a me perguntar se assim ficariam. Há uma década já me vali do expediente de nomear uma composição como "Sem um Nome". Batizar - e eu provavelmente já repeti isso diversas vezes desde 2016, é, muitas vezes, mais difícil do que escrever todos os versos. Agora, qual o motivo de um título tão extenso? (Não que já não haja precedente com Tudo Depende de Conforme For (ou A Balada de Raul e Júlia) de 2017) pode ser influência do título do álbum de Jair Naves: E Você Se Sente numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas que está completando dez anos em 2022.
    "Se eu tentar, ser mais direto, vou me perder... melhor deixar quieto" cantaria o duo Pouca Vogal.
     Composta no dia 6/09 quase que de forma inconsciente, a última coisa que ela recebeu foi o nome (justamente agora, no dia 27/09). Quando entrei em contato com a multiartista Isabella Proença para propor mais uma parceria para ilustração, a canção seguia sem nome. Abertura maior para que ela mergulhasse nas diversas camadas para seu realismo abstrato não poderia existir. Aquarela e digital, dois mundos, distintos são, mas ela soube, uma vez mais, uni-los e fazer com que trabalhassem em uma mesma intenção. A versão que se encontra em @fmodestia tem cores, qual é o antes e qual o depois? São o fim de um ciclo ou a promessa de renovação? Interrogações para um outro momento.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Incêndios na Alma

    Mal havia começado a leitura do texto Ser Egocêntrica, de Natália Nodari, no site da R.Nott Magazine me deparei com o seguinte trecho:

“Qualquer um que queira escrever algo decente precisa viver dentro de si. Quem falou isso foi poeta austríaco Rainer Maria Rilke, não eu. De qualquer forma, vou evitar ficar citando Rilke. Tem gente que cita autor inteligente para parecer mais inteligente, e eu acho isso péssimo. Quando alguém começa a falar de grandes autores eu começo a pensar em como eles são grandes e em como a pessoa que está citando parece pequena, minúscula, ao lado de gênios.”

Os trechos no Moleskine de 2011
    Ele me chamou atenção pois, desde o início, o blog contou com citações. O motivo eu já não sei. Talvez fosse referenciar autores que eu goste. O primeiro texto tem uma citação de Milan Kundera. Com o passar do tempo, a citação tornou-se uma obrigação, e, por vezes, me pego na Wikiquote procurando por alguma que tenha relação temática. Outras, como as recentes menções a Jeff Tweedy surgiram durante a leitura de seu livro sobre composição. Era coerente. Este trecho de Natália ressoou comigo, particularmente, por ser o que motivou essa letra. 
    Ela era a quarta em um conjunto de dezesseis composições que eu tentava completar em 2011. A única finalizada naquele ano, nem consta neste registro, foi a décima sexta: Referência, feita com versos da poeta do passeio azul: Kariny Camargo. Outras seguiram com o passar dos anos, mas creio que não chegam, até o momento, a dez. A ideia de falar em “heróis” partiu do refrão de Ideologia, de Frejat e Cazuza. Quem seriam meus heróis? E heroínas? Várias dessas pessoas ainda estão vivas! Em 2018, Frejat comentou com a Rolling Stone a razão de ter evitado cantá-la por anos: 
“Eu não tenho heróis, não tenho relação de idolatria com ninguém. Mesmo as pessoas que eu mais admiro – seja na área humana, na história da civilização, ou na música, os guitarristas que adoro –, não tenho relação de idolatria com nenhum deles. O Cazuza, sim, ele tinha essa relação de idolatria, então ele se sentia muito à vontade de cantar”.
    A ideia de utilizar os incêndios partiu de duas partes, tanto a Sra. Ezzzausta que havia me passado o livro Pequenos Incêndios por Toda a Parte de Celeste Ng quanto pela própria responsável pela arte que ilustra o post, Isabella Proença. Que publicara um trabalho em aquarela em que uma casa tomada por chamas surge em frente à uma grande figura. Esse foi, inclusive, um dos pontos que mencionei quando conversávamos possibilidades para a nova ilustração, em que ela empregou aquarela e giz pastel. 


Incêndios na Alma (2021)
Letra e música: Thales Salgado

Alguns de meus heróis se devoravam
Outros tomavam chimarrão
Alguns falavam sobre o tempo
Ou anteviam a revolução

Minhas heroínas, também,
Nunca deixaram calar
O sangue-quente, a cintilância,
De um infinito particular

Não são beatas, inamovíveis,
Mesmo assim, se erguem

Como seremos vistos amanhã
Se tudo o que fizermos
For sobreviver e fugir?

O que faremos quando
Até o espelho nos contra-atacar?

Quantos incêndios devem se alastrar
Por toda a nossa alma
Para ela poder descansar?


Cifra simples no Moleskine atual

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Que palavras atingem o poeta?

“Meu sincero desejo é para que pessoas sejam capazes de cultivar um pouco mais de licença para criar em suas próprias vidas. Eu sinceramente quero isso para todos. Entendo que haja considerações quanto ao tempo – as pessoas olham para mim e pensam que eu trabalho duro demais, talvez por ser inusual em termos da concepção das pessoas sobre um músico de rock, que eu teria uma carga horário de trabalho normal. Mas eu acredito que organizar tempo para gastar em um estado criativo – especialmente quando vejo quanto tempo é gasto nos celulares – é algo que você pode fazer todos os dias. Acho que essa sugestão é valiosa mesmo para pessoas que fazem malabarismos com uma atordoadora carga de obrigações, com filhos, trabalho ou o que quer que seja importante em suas vidas. Mesmo se você puder encontrar apenas cinco minutos – não leva tanto tempo assim. É apenas uma questão de dizer a si mesmo que sua criação é OK, não importa qual seja.” – How to Write One Song (Como Compor Uma Música) p.21 – Jeff Tweedy, Dutton Books, 1ª edição (13 outubro 2020), tradução livre.
Ilustração por Isabella Proença


O presente é todo meu (Ou "Que palavras atingem o poeta?") – (2021)
Letra: Fabíola Passos Almeida
Música: Thales Salgado

No dia que você nasceu
Uma voz sussurrou
"Serás poeta do que não se diz"
E foi você quem escreveu

No dia em que voltei a existir
Um olho escutou
O que era oculto na escuridão
E foi você quem traduziu

No dia em que morri
Pernas alcançaram
O que era imobilidade gélida
E foi você quem correu

No dia em que ouso te escrever
Meus dedos dançam
Sob o privilégio agradecido
E é você quem avança

    Tinha 32 anos recém-feitos quando me deparei com estes versos pela primeira vez. De acordo com o aplicativo de troca de mensagens instantâneas, foram recebidos às 12h20. Faz pouco mais que um mês. Independente de eu ter lido na mesma hora, sei que por volta das 14h a melodia estava composta. Minha intenção foi retornar aos acordes de Um Conto no Jardim e emular o solo que compus aos 17 e que, até hoje, não apareceu neste blog. Não por ele ser meticuloso, virtuoso ou algo do gênero e sim por, 14 anos depois, ele ainda fazer sentido como uma das primeiras coisas que tenho registro de ter criado.

   Em 2013 eu já havia tentado algo similar ao tentar simular a melodia do refrão de Memories da Within Temptation no refrão de Todas as Cores que Você Quiser fazer com uma composição própria não só evita problemas legais imaginários como legitima a autorreferência, expediente que sempre admirei nas obras de outrem – muito provavelmente influenciado por Engenheiros do Hawaii.

   Quando conversei com a multiartista Isabella Proença acerca do que imaginava – ou não imaginava – para a ilustração, eu estava influenciado por um estudo que ela postara temporariamente aos fins de novembro.  Recordo ser uma personagem nas sombras com um foco de luz que me fez pensar que poderia representar uma ideia ou alguém tendo uma ideia. Havia uma sensação cósmica de grandeza no que não está presente. Ocorreu que a letra também a remeteu a iluminação e ela se decidiu por uma temática da relação entre estrelas e universo com nascer e morrer. Olhando para a ilustração, me pego pensando em qual a relação da personagem com os versos: ela personifica o eu-lírico ou é a destinatária? Pode ser tudo ao mesmo tempo.

   Pensando especificamente no último dia do ano é como ela estivesse recepcionando o novo em suas mãos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A Voz

“Então, a última, que é A Voz, eu fico imaginando uma imagem assim: como se tivesse um recanto secreto, uma sala, um lugar, um espaço interno onde está residindo o meu eu autêntico a minha voz sábia, a minha essência. Mas eu imagino como se ela estivesse dentro de um quartinho que estivesse dentro de mim, sabe? Se você imaginar uma imagem seria abrir o peito e eu não sei bem se é ali no coração – acho que não – mas ali na região do peito, sabe? Por ser o core onde como houvesse uma salinha ali dentro onde este “eu” está e fala. E aí vou imaginando essa voz saindo desta salinha e encontrando um canal para ser ouvida e acho que por isso faço uso da imagem da espinha, imaginando aquele vazio onde a medula fica, mas fazendo uma espécie de caminho. E aí acho que essa frequência do som que está ali, escondidinha, atravessando e subindo até os ouvidos, chamando a minha atenção e, por isso, consigo sintonizar e ouvir essa voz que diz para eu não me limitar por que sou caçadora de jeitos de ser, mas acho que a imagem é essa.” – Transcrição do áudio de Fabíola Passos Almeida, sobre a canção em 17 de agosto de 2021.
Ilustração por Isabella Proença



A Voz (2021)
Letra: Fabíola Passos Almeida
Música: Thales Salgado

No fundo do meu pensar
Às vezes ouço um sussurro
Escondido em meio aos gritos
Tão familiares

Minha espinha alinhada
Se torna canal que transporta
Do esconderijo aos meus ouvidos
Tão exaustos

No leve silêncio que crio
Sintonizo na frequência vocal
Que sutilmente se configura
Tão autêntica

No centro da minha alma ouço:
“Não se limita caçadora de jeitos de ser”
Encontro refúgio nesse lugar
Tão criativo

    Acho que parte do que torna parte de minha experiência com este blog diferente de um diário é o tempo entre os acontecimentos. Quando compus a melodia para esta canção, em maio, eu não tinha como prever que ela existiria. Sei que recebi os versos no dia 19 para apreciação. Tendo perdido os registros das conversas, não consigo recordar ao certo qual foi a minha reação inicial, mas este conceito de uma outra voz me interessa há muito tempo. Nunca esqueci os versos da Linkin Park em Papercut: “I don't know what stressed me first/Or how the pressure was fed/But I know just what it feels like/To have a voice in the back of my head” e me interessou em “A Voz” foi esse ser interno não esteja presente antagonizando e sim incentivando o eu-lírico a prosseguir sua busca, expandindo suas ações.
    Não era minha intenção musicar os versos. Essa parceria que iniciou no fim de 2019 com Beleza Parasita foi se expandindo a ponto de, hoje, poder ser organizado um E.P. pautado apenas nelas. Eventualmente, poderá haver versos para os quais eu não me sinta compelido a melodiar, mas isso é coisa do futuro! A minha intenção mudou quando minha mãe me mostrou o vídeo de Elimor Chico com o pássaro Urutau. Pelo que consta na Wikipedia “o nome vem do tupi uruta'gwi "ave da família dos nictibiídeos, coruja", também adaptado ao português como jurutau e urutago. Não sou grande conhecedor de pássaros, como o ornitólogo Cláudio Rogério ou mesmo o Kronk, mas nunca tinha ouvido seu som ou mesmo seus apelidos: mãe da lua ou pássaro-fantasma. De acordo com o biólogo Milton Longo, o Urutau é uma ave típica do cerrado que busca se camuflar em tocos de árvore ou postes. Pois quando ouvi o canto presente no vídeo, fiquei me perguntando se estava dessincronizado, pensando como é que o som se propaga. Excetuando esse desconhecimento tateei o violão buscando emular seu canto e encontrei as notas C, Ab, G, F, Eb, D. Ao elencar os acordes Cm Cm/Ab F eu sabia que não poderia parar e, foi assim que a melodia acabou composta no dia seguinte.
Letra original - acervo da autora

    Finda a composição, eu sabia que entraria em contato com a artista multimídia Isabella Proença para uma ilustração, mas... o que deveria constar? O Urutau? Após a arte que ela desenvolveu para Águia em 2020 eu sabia ser possível, ainda assim, não faria jus. A ave me trouxe a canção, mas o significado dos versos era totalmente da psicóloga poetisa. Além do mais, eu ainda não havia me organizado para retirar o áudio do pássaro e inserir no áudio, será que ficava clara a relação como eu enxergava?
    O título do poema ficou batendo em minha mente e, claro, o que mais faria sentido era que partisse da voz dela o que ela via. Assim, foi como cheguei ao áudio de agosto que abre este post. Isabella foi o mais fiel possível às referências visuais e, mesmo que não houvesse nada relativo, ela conseguiu transmitir uma exaustão no olhar, algo perdido e que casa com uma melancolia que, normalmente, tinge minhas composições e também se encontra em meio aos gritos tão familiares. Certamente seria uma ilustração que vestiria muito bem uma camiseta!