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sábado, 4 de novembro de 2017

Da Escolha

"In a way this dream is over, blown away our four leaf clover"
Me and my big ideas, Tears for Fears
"Flor vermelha que encanta"




Da Escolha (2017)

Quem sabe o que nos falta
Seja paciência?
Seu último amor 
Te fez trancar as portas, todas,
Perder chaves
Quem sabe semeou já
A correspondência?
Mas leva tempo para
Os galhos alcançarem, enfim,
As janelas

Para a luz entrar
Nos fazer dançar
Dispersar essa neblina
Que nos paralisa

Quem sabe nem cheguemos
À mesma frequência
Caminho terno
O gelo fino de minhas histórias
Declaradas
Quem sabe tu repliques
Doces reticências
Aceito consciente
A consequência de seguir
Com minha escolha

Para a luz entrar
Me fazer dançar
Dispersar essa neblina
Que me paralisa

Hoje, "não passa disso"
Tudo tem seu momento
Uma amizade é
Alicerce bem melhor
Que um desejo cego e mudo

Todas as canções escritas e compostas por Thales Salgado, exceto onde notado:

  1. Como Pode Ser Verdade? (Letra e música de Bruno Oliveira)
  2. Vita Brevis
  3. Tudo Depende de Conforme For
  4. Depois de Crescer (Letra e música de Bruno Oliveira)
  5. Viver (Música para poema de Drummond)
  6. II de Hilda Hilst (Música para poema de Hilda Hilst)
  7. Mar de Mim (Letra e música Fabio Kulakauskas e Thales Salgado)
  8. O Princípio da Incerteza
  9. Nada Há de Novo Sob o Sol
  10. Da Espera (Música para poema de Thaís Soares)
  11. Da Escolha
          Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. Não conheço o trabalho do escritor francês André Gide, no entanto, encontrei essa frase atribuída a ele e ela faz sentido. Quando escrevi a letra de Falsa Modéstia aos dezoito anos o verso o mundo todo em guerra e eu a falar de amor era mais uma conclusão de uma pessoa sem muito escopo político para articular em relação ao mundo. Ainda que influenciado por artistas como Humberto Gessinger e Renato Russo transcrever o zeitgeist nunca esteve em minhas qualidades como letrista amador. Boa parte das composições tratam de sentimentos, quase sempre em esfera pessoal. Como uma fotografia sem cores de marcos e acontecimentos que, muitas das vezes, só dizem respeito aos envolvidos.
           Da Escolha segue essa linha. Ela surgiu enquanto estava a caminho do trabalho. Letra e música vieram juntas no dia dezessete de outubro. A primeira influência que posso traçar é da canção Labirinto, presente em seu 11º álbum Campos Neutrais, lançado dia 13 de outubro. Enquanto tentava aprender a letra, outros pensamentos consumiam minha atenção. É curioso notar a menção à "Paciência" uma das canções de Lenine logo nos primeiros versos. Não por ser do cantautor pernambucano, e sim, pela parceria com Dudu Falcão ser uma das que menos me impressiona em seu cancioneiro. 
          A letra apresenta a fantasia de um eu-lírico. A razão do "refrão" não vir antes é justamente pela condução precisar passar pela "escolha". Essa ilusão do eu-lírico o faz colocar num primeiro momento "nos fazer dançar" e "nos paralisa" quando, em verdade, tudo está ocorrendo apenas em sua mente. É apenas ao final que ele individualiza a oração: "me fazer dançar", "me paralisa". A proximidade da composição permite traçar outras referências mais facilmente: a ideia de caminhar no gelo partiu de uma das cenas d'O Cavaleiro das Trevas Ressurge de Christopher Nolan. A melodia do pré-refrão conserva algo de Mesmo quando a boca cala de Vinicius Calderoni (do 5 à Seco) e o acorde de introdução me lembrou de uma composição minha de 2008 que ainda não falei aqui. Sobre um dia de junho. No momento em que harmonizava ao violão me dei conta disso, porém, como as linhas vocais são muito diferentes não julguei problema. 

***

         Faltando cinquenta e sete dias para o fim de 2017 é provável não hajam novas composições a se enquadrar no conceito "Nada Há de Novo Sob o Sol". De fato, tenho intenção de musicar a Canção de Outono de Paul Verlaine (na tradução de Onestaldo de Pennafort) mas não sentei com o violão nesta intenção até o momento. Seguindo o interesse pela lírica francesa em junho último Kariny traduziu a letra de Vivre Autrement do cantautor Arnaud Fleurent-Didier, entretanto, sigo indeciso com a forma de abordagem que devo seguir quanto a conservação do esquema de rimas da versão original, então, a menos eu não viva para contar a história, há intenções de seguir com novas composições em 2018.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Da Espera

"Agora tudo o que você pode fazer é esperar. Pode ser difícil para você, mas há um tempo certo para tudo. Tal o fluxo e refluxo das marés. Ninguém pode fazer nada para mudá-las. Quando é tempo de esperar, você deve esperar." A crônica do pássaro de corda, Haruki Murakami
Memória de Florianópolis


Música para texto publicado no dia 24 de setembro de 2016 no blog Chao Solus

Da Espera (2017)

Eu risco as paredes do meu quarto,

Eu conto os dias
Tento, em vão, juntar os pedaços
E criar qualquer tipo de rima
Quero gritar tudo que me cala,
O peso do que eu deveria ter dito
Desfazer dos meus ombros o medo
O nó do aflito
Espero, nado sabendo que vou me afogar
Espero, sacio a sede com água do mar


Eu risco as paredes do meu quarto,

Eu conto os dias...


         O arco-íris havia brotado de uma nuvem. E me acompanhou por toda a viagem. Era inútil procurar seu início ou termino. A nuvem era como uma janela para um pedaço de cor. Naquela manhã, ele decidiu que essa aparição era um sinal. Mas de quê, exatamente? Pode a maré mudar, ou qualquer vestígio de alteração é pareidolia do observador? Venho pensando em Schrödinger e seu gato. Você lança uma pergunta e, no período em que ela não vem, tem em suas mãos o sim e o não. Tudo ao mesmo tempo. 
        É o que ilustra a frase de Murakami que antecede esse texto. A questão é, como se manter em paz no período de espera? Ser a água como dizia Bruce Lee, ou melhor ser como o café reagindo à água e expandir suas moléculas e aromatizando o ambiente. Ela ama o cheiro do café e adora seu sabor. "Para mim tem que ter café", posso ouvi-la dizendo enquanto espero. Isso só está ocorrendo em minha mente, o que não torna menos real, como o prof. Dumbledore afirmou pela primeira vez há uns dez anos. 
         Chega sua vida mais pra perto meu amor, diria Simoninha. O sentimento é inominado mas as canções insistem em cantar 'amor'. O amor é apenas uma palavra, o importante é a conexão implicada por essa palavra. Como a canção Exatamente Igual da banda Nenhum de Nós que fala sobre não questionar a ausência, não lamentar o silêncio. Ter o sorriso de alguém como o ideal e não desistir. Outras canções vem e vão à mente. Quando li o poema da autora do blog Chao Solus o musiquei por instinto. Naqueles dias, já estava eu sob a sombra da espera? Seja como for, aceito consciente a consequência de seguir com minha escolha... Dizem que acreditar é o primeiro passo para que tudo dê certo.     

                 
         

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Nada Há de Novo sob o Sol

 "Toda estória já foi contada. Uma vez que tenha lido Anna Karenina, A Casa Soturna, O Som e a Fúria, O Sol é Para Todos e Uma Dobra no Tempo, você entende que não há razão para sequer escrever outro romance. Exceto que cada escritor oferece, caso se permita, alguma coisa que ninguém mais na história do tempo jamais ofereceu." Anna Quindlen em discurso no Mount Holyoke College em 1999
ISS003-E-6816, Aurora Vermelha - NASA, Setembro de 2001



Nada Há de Novo sob o Sol (2017)


Quando eu desaparecer
Quem vai procurar
Se la fora as marchas da noite
Invadem nuvens?
Choverá por onde houver rancor:
- Eu vou me afogar!
É tão tarde
É tão tarde que já é cedo

Já não há salvação
Só resta um pedido:
Enterrem meu coração
Na curva de um rio
Para criar raiz
Renegando o pó

Nada há de novo sob o sol
Nenhum mistério a cada despertar
Há uma alma sem farol
Nunca outra alma a pode abrigar
Cada partida é um adeus
Adeus, adeus, adeus

         No fim da noite do dia vinte e cinco de agosto, uma sexta-feira, com o violão nos braços comecei a exercitar um conjunto de acordes. Sem perceber, já adentrava a madrugada do dia seguinte. Era necessário terminar a canção. Questão de sentido: era a única maneira dela se tornar um retrato daquele instante. Expiação de si, por assim dizer. Ainda assim, a letra foi crescendo com o passar de meses.
         Carrego o conceito d'A marcha da noite desde o ensino médio e nunca consegui explaná-lo. Na letra de Felinos (Baseado em Fatos, 2009) ele já aparecia. Em maio de 2016, no curso Mentiras Libertárias de Fabrício Carpinejar alcancei alguns versos:
Um pedido de socorro é vão
Se o seu amor não está lá
Para acompanhar o fim
Do que vai chegar
Nada há de novo sob o sol
É só miséria a cada despertar
         Sem conseguir desenvolvê-los, ficaram arquivados na pasta de "ideias úteis".  Onde havia um outro trecho perdido : É quase sempre outono já é tarde/ Tão tarde que já é cedo feito tendo em mente a fotografia de árvores arujaenses. No mês seguinte daquele ano como tentasse descobrir o sabor da frase a usei numa conversa com Fabio Kulakauskas. E acabou definido como o título do retorno às atividades da banda. Bruno Oliveira também participou dessas definições por essa razão essa é, ainda que alheio a eles. Uma produção coletiva. Como eram algumas das composições de dez anos antes. Mesmo com tudo isso, foi apenas no momento em que descobri o livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio (Dee Brown, 1970), que era lido por minha amiga Estela, que fiquei instigado a reunir todas essas informações numa linha coesa. Melodicamente há uma série de referências de Neve de Papel de Vitor Ramil (Longes, 2004) à composições próprias tal Dádiva (Belaventura, 2011). 
        Nada há de novo sob o sol foi retirado do 1:9 do Eclesiastes e me pareceu o título lógico para a temática das novas composições, iniciadas em 2016, pois elas vieram depois de anos distante da atividade criativa de forma ativa. A compilação de canções sob este título engloba um pouco de tudo que fora composto desde 2007. Há poemas musicados, composições de Bruno Oliveira, uma canção de Fábio Kulakauskas que eu terminei. Faixas em que uso a craviola de doze cordas. De um modo, é um reflexo do primeiro álbum. Falsa Modéstia. Só acaba uma vez, tudo o que ocorre antes disso é apenas progresso.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

mãe! (ou O Princípio da Incerteza)

"Como espécie nossas pegadas são perigosamente insustentáveis e mesmo assim nós vivemos em estado de negação quanto a situação de nosso planeta e nosso lugar nele. Dessa sopa primordial de angústia e desamparo, acordei numa manhã e esse filme se derramou de mim como um sonho febril. Gestei todos os meus filmes anteriores por muitos anos mas escrevi o primeiro rascunho de mãe! em cinco dias. Dentro de um ano já operávamos as câmeras. E agora, dois anos depois, é uma honra poder retornar ao Lido para a estreia mundial. Imagino que as pessoas podem questionar o motivo de o filme carregar uma visão tão sombria. Hubert Selby Jr, o autor de Réquiem Para um Sonho, me ensinou que é encarando nossas partes mais sombrias que podemos encontrar a luz." Trecho de declaração de Darren Aronofsky em agosto de 2017



O Princípio da Incerteza (2017)

Talvez dizer
Mais do que devo
Pra não calar
Um sentimento
Que me vem
A cada estação

Pode ser perdição
Mas que venha a mim
Gritarei um trovão
Para que nasças
A resposta

Azaléas perfumam tragédias
Incertezas em cifras perdidas
Se apresenta
“Ponto sem retorno”
(Será?)

“Sou o Mal”
Esse é meu segredo
E você viu...

            
         Uma semana depois o filme ainda ressoa. As discussões seguem e, parafraseando meu capitão acho que é hora de contribuir com um verso:
      Meu desconforto com o filme não surgiu pela ausência de trilha sonora. Havia expectativa, sim, por um provável trabalho do compositor Clint Mansell, colaborador recorrente. Uma casa afastada favorece os silêncios e sons naturais, então optar pelo orgânico cria ótimo resultado. O desconforto poderia vir ao descobrir a mentira do primeiros visitantes, um doutor e sua esposa: eles estavam ali por Ele, e sua obra o tempo todo. Há uma estranheza. O fratricídio? um apocalipse beirando o absurdo? Não. A distância da guerra nos anestesia!
     
O desconforto vem da emoção sentida pela mãe na leitura do poema d'Ele. Descobrindo um conjunto inédito de palavras num instante íntimo. A mãe o ama e Ele, por certo se inspirou nela para recontar a história de ambos. 
      Nesse momento a narrativa se desdobra ao mostrar e expandir um conceito mencionado antes: o filme abre com uma mulher em meio as chamas, íris de divinos olhos. Algum tempo depois Ele conta sua história ao doutor: houve um incêndio e apenas uma jóia surgiu das cinzas. Sua esposa, a mãe do título, se  dispôs a reconstruir todo o espaço sozinha, criando um Paraíso. O que o poema diz? Nunca saberemos. É como na canção de Bill Callahan Eid Ma Clack Shaw em que um poeta sonha com a canção perfeita em que residem todas as respostas. Ele acorda, escreve, e na manhã seguinte lê e não consegue compreender.
           A questão é simples. Aquele momento terno e íntimo entre esposo e esposa, o poeta e a musa, era uma ilusão. Vemos a esposa cair em si: se Ele já mostrou o texto à editora, a quem mais mostrou? Para ela havia um acordo entre os dois, a entrega e dedicação não deveriam ter como compensação conhecer em primeira mão os textos do marido? Não. Ela fora apenas um meio para o fim. O que me incomodou ao ver foi o receio de ter saído à imagem e semelhança d'Ele. Essa quebra de confiança, da busca ególatra pela atenção da quantidade em detrimento da qualidade é o que define o poeta presente no filme. De forma romântica, o filme mostra que sua inspiração surge da destruição e do caos. É nessa renovação que bombeiam suas veias artísticas. Cego pela incessante busca de sua magnum ópus o poeta fará de tudo.
           O desconforto, os receios, os pensamentos de sua esposa são negligenciados cada vez mais... Há sensação pior do que se sentir uma estranha em sua própria casa? Não se sentir segura em sua própria casa? O poeta está sempre de passagem, inventa viagem e retorna brevemente. Diz que ficará ali, até o momento seguinte quando surge algo mais importante. Ele precisa do amor dela por uma conveniência criativa, ama ser amado e seu retorno a esse amor são esparsas migalhas de atenção. Ela o acolhe, e ele, escorregadio. Viverá resoluto de que, em sua arte, ele é intocável e superior. Quando sua esposa já não puder oferecer mais nada ele pedirá mais: a devastação da vida como declaração de amor.

E encontrará outra musa.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mar de Mim

"Subindo colinas arenosas, haviam chegado ao labirinto. Este, de perto, pareceu-lhes uma direta e quase interminável parede, de tijolos sem reboco, pouco mais alta que um homem. Dunraven disse que tinha a forma de um círculo, mas tão extensa era sua área que não se percebia a curvatura. Unwin lembrou-se de Nicolau de Cusa, para quem toda linha reta é o arco de um círculo infinito..." O Aleph, Jorge Luis Borges
                 




Mar de Mim (2011/2017)

Busco no som
A simplicidade do Ser
A possibilidade de
Estar bem, sem estar
(A) Incerteza com

Que eu anoiteço sem saber
Distante de todo e qualquer lugar

Sensibilidade nas folhas
Brancas e marcadas
O que de olhos abertos
Não posso ver

Pequena! Amo, logo sou amor inteiro
Vem, mergulhe nesse inexplicável
Mar de mim

Cidades são
Âncoras, e as vejo crescer.
Deserta, a praia torna-se um lar
A melhor paisagem:
Nossos risos entre as águas
Ondas circulares
Espelham o sol

I - Nunca breve nem conciso

         "Há de convir. Todo o processamento passa apenas de fantasia, delírios imaginativos. A imaginação fértil é um campo de maçãs argentinas.

O falso saber, é constituído de informações selecionadas ao acaso e pré-julgadas. Não muito mais que isso. Portanto, no momento em que Sócrates afirmou nada saber, mostrava-se ele à par desta verdade. Já Platão, com seu método da caverna, revela estar limitado pelo próprio ideal, uma vez que, o fato de ver de onde vem as sombras nada mais é que colocar-se ao meio de novas ilusões. Fato. Meus estudos conduziram a essa ideia. Ao conversar com um estudante de engenharia mecânica estou em uma caverna: dependo de sua interpretação, de sua convivência acadêmica. Não tendo eu o conhecimento teórico pertinente à Engenharia estaria apenas a ver sombras desta modalidade. É preciso escolher as sombras em que viverá." 2011

II - Apenas um retrato impreciso

         Elpídio percorria todas as semanas longas distâncias para estar em contato com a guitarra. Por vezes partia de Pernambuco, da casa de madeira do ruivo. Era estar dentro de uma cálida caixa acústica vibrante em ideias. Outras, preferia partir do Piauí.  Morada de um dos Pretos que conhecia. Só quem se chama para dentro de casa entende esse jeito de falar. É um instinto "estou contaminado de amizade"; ora! Não se diz da amizade que se 'pega'?. Longe era lugar inexistente. Diferente dos mais de seiscentos quilômetros do cotidiano. Absorção, frequência, transmissão. Acústica sem canção. Isso é a vida.

III - Menecma

         Há sósias nossos espalhados pelo mundo. N'algum lugar do Alto Tietê, talvez até mesmo na cidade de Arujá, há um grupo de pessoas se encontrando agora e definindo que no dia seguinte haverá um show em algum lugar da Av. Amazonas. Um deles, pelo menos, vai reclamar estar muito em cima da hora... Eles, os sósias, não sabem de nós. Divago!



         Este trecho de canção estava perdido em meu moleskine desde 2011. Ou muito me engano ou encontrei com Fabio no ônibus, coincidências precisas? Cada um em sua faculdade. A conversa se alongou até chegar à sua casa. Ao teclado, ele me mostrou essa melodia cantando o que já possuía. Me lembrei, por alguma razão harmônica, em Robot Boy da Linkin Park.
       Veio fevereiro deste ano e, no concurso do Sindicato Vanguart, as sugestões de Fabiana Nascimento para o título ficaram na minha cabeça: mar de mim, mergulho no inexplicável e amo, logo, sou amor inteiro. Ruminei essas ideias. Elas soavam ternas para um refrão. Das perguntas avulsas que fiz à Fabio, soube sua palavra favorita. Pequena. Assim como sua relação com a Praia do Moçambique... Foi apenas no início de abril, preso no ônibus-arca, cercado por 53,4mm de chuva que surgiram os versos da estrofe. Até para algumas canções, nascer leva tempo.

domingo, 23 de abril de 2017

II de Hilda Hilst (O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade)

“Nada me entra na alma, palavras grudadas à página, nenhuma se solta para agarrar meu coração, tantos livros e nada no meu peito, tantas verdades e nenhuma em mim, o ouro das verdades onde está? que coisas procurei? que sofrido em mim se faz matéria viva?” A Obscena Senhora D, Hilda Hilst


         Coincidências:
       Que eu esteja num vinte e três do quatro escrevendo algo acerca de uma escritora nascida no dia vinte e um. Que o último post de março fosse dedicado também a um poema musicado, um de Drummond. Ainda mais: que o mesmo Drummond em 1952 dedicara um poema à Hilda Hilst. Ou mesmo que, sua cidade natal, Jaú, fizesse parte, ainda que enviesada, de uma série de conteúdos que acabaram em minhas canções em lugar da terapia. É mais provável que o lançamento do livro Da Poesia pela Companhia das Letras tenha feito com que eu permanecesse com a poeta em mente. E aí resta ser claro: nunca ouvi as composições de Adoniran Barbosa ou de Gilberto Mendes inspirados em seus textos. Céus!
         Se bem me lembro, meu primeiro contato com o "nome" Hilda Hilst foi no ano de 2013, trocando cartas virtuais com Kariny menciono um trecho do poema 42 Mercy Street de Anne Sexton: "I walk in a yellow dress/and a white pocketbook stuffed with cigarettes,/enough pills, my wallet, my keys,/and being twenty-eight, or is it forty-five?/I walk. I walk./I hold matches at street signs/for it is dark,/as dark as the leathery dead/and I have lost my green Ford,/my house in the suburbs,/two little kids/sucked up like pollen by the bee in me/and a husband/who has wiped off his eyes/in order not to see my inside out/and I am walking and looking/and this is no dream/just my oily life/where the people are alibis/and the street is unfindable for an/entire lifetime." Ela não levou muito tempo para replicar "me fez lembrar um pouco de Hilda Hilst" de posse daquele nome instigante, não demorei a me debruçar em alguns de seus poemas disponíveis na internet. E então, por simples identificação, tentei musicar alguns de seus poemas. Essa gravação data de setembro daquele ano. Uma demo do que viria a ser o álbum "O Relógio dos Dias" e que nunca passou de mais uma ideia em meu cemitério das vontades. 



O POETA INVENTA VIAGEM, RETORNO
E MORRE DE SAUDADE

II

Meu medo, meu temor, é se disseres:
Teu verso é raro, mas inoportuno.
Como se um punhado de cerejas
A ti te fosse dado
Logo depois de haveres engolido
Um punhado maior de framboesas.

E dirias que sim, que tu me lembras.
Mas que a lembrança das coisas, das amigas
É cotidiana em ti. Que não te enganas,
Que o amor do poeta é coisa vã.

Continuarias: há o trabalho, a casa
E fidalguias
Que serão para sempre preservadas.
Se és poeta, entendes. Casa é ilha.
E o teu amor é sempre travessia.
Meu medo, meu terror, será maior
Se eu a mim mesma me disser:
Preparo-me em silêncio. Em desamor.
E hoje mesmo começo a envelhecer.

Quando é touro é um meio fecundo em cada semente plantada um sorriso de gratidão. Haja bom tempo ou não. Oswaldo Montenegro, Aos Filhos de Touro.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Viver

Ao escrever poesia, o que procurei fazer foi resolver problemas internos meus, problemas de ascendência, problemas genéticos, problemas de natureza psicológica, de inadaptação ao mundo, como ele existia. Foi a minha autoterapia. O resultado é esse. Não tenho maiores pretensões. As modas mudam muito. Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas formas de poesia, novos critérios, novas tendências. Amanhã ou depois, daqui a cinqüenta anos, um sujeito diz: "Olha, descobrimos um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa". Ou "que coisa chata". Drummond em entrevista a Zuenir de Andrade

Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia




Viver (2017)
(Carlos Drummond de Andrade, em As Impurezas do Branco)

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?

O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?



   Era um daqueles momentos à toa numa tarde de sábado, os dois mergulhando em smartphones quando Thales começou a murmurar algo consigo. Perguntei do que se tratava e comentou que um de seus ex-professores postara um poema. Fosse qual fosse a razão ele ouviu a melodia dos versos e tentou traduzi-la. Não era a primeira vez, já musicara o XIV dos Cantares da perda e da predileção de Hilda Hilst, Ismália de Alphonsus de Guimaraens e a tradução de Renato Suttana para Um Sonho, das Canções da Inocência de William Blake. Ele que me perdoe, tenho cá pra mim é um recurso que denota uma certa preguiça para a escrita de uma letra ou uma autopromoçãoparasitaria conveniente, afinal, há uma série de poetas consagrados e utilizar suas criações possibilita uma divulgação massiva mais prática que usar o próprio nome do zero. Seja como for, isso não impede essa ação de existir como um exercício criativo.
     Em 2016, em entrevista à rádio CBN, Toquinho afirmou que, para ele, uma letra pode ser poética mas não é um poema. Uma letra de música é mais frágil, mais simples, disse ele: "a poesia de uma canção só tem razão se ela for cantada". Outros compositores seguem uma tradição de poemas musicados. Fagner converteu Traduzir-se e Cantiga para Não Morrer de Ferreira Gullar e Fanatismo de Florbela Espanca. Além do caso de apropriação indébita de versos do poema Marcha de Cecília Meireles nos versos de sua canção Canteiros. O compositor gaúcho Vitor Ramil lançou no ano de 2010, Délibáb, um álbum em que reuniu milongas compostas com poemas do brasileiro João da Cunha Vargas e do argentino Jorge Luís Borges. O compositor argentino Pedro Aznar, que produziu dois discos de Ramil, Tambong e Longes, também tem um registro intitulado Caja de Música com poemas de Borges musicados. É um tema amplo. 
     No caso do poema de Drummond não houve conceito além da identificação imediata descrita no primeiro parágrafo. Curiosamente, no momento em que começou a gravação, Thales insistia em cantar "sem haver um passado" no lugar de "sem haver outro lado" e parou a gravação diversas vezes até chegar ao resultado no player. Foi apenas ao revisar a canção que percebemos que ele substituiu por três vezes "projecto de abri-la" por "pro jeito de abri-la" já não havia tempo hábil para mudanças, assim ficou.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Depois de Crescer

 "Sempre penso em aconselhar os professores a não obrigar todos os alunos dos ensinos fundamental e médio a cumprir um mesmo percurso, mas duvido que alguém me dê ouvidos. É assim que as escolas são. A coisa mais importante que jamais aprenderemos na escola é o fato de que coisas importantes não podem ser aprendidas na escola" - Do que eu falo quando falo de corrida, Haruki Murakami


Depois de Crescer (2012)

Quantas vezes hoje, ontem, sempre penso em crescer
Das coisas que eu fiz pra as coisas que ainda vou fazer
Por noites um sorriso embriagado na mesa de um bar
Em dias passos bem desafinados ruas vão levar

Eu só não sei
Eu só não sei de mim

Nunca tive pressa para chegar ao mesmo lugar
Sonhos vem e vão nem da tempo de realizar
De tudo que eu quero, sonho, sei que um dia vou ter
Quatro amigos, uma banda, o necessário pra viver

Eu só não sei
Eu só não sei de mim

Química e Física e também a Filosofia
Me distanciando da história de minha geografia
Estudos em que me debruço sem vontade de estudar
Onde estão o baixo, a guitarra e a bateria?

Quando me pergunto o que serei depois de crescer
Fico surdo, mudo, cego e nem sei o que fazer
Engulo a seco a resposta certa para poder viver
Tenho uma resposta mesmo incerta eu vou te dizer:

Eu só não sei de mim
Eu só não sei
Eu não sei de mim
Eu nunca sei de mim
Eu não sei


         De quando em vez disparo perguntas aleatórias ao redor. As réplicas podem tomar diversas formas. Semana passada mesmo, apontei para Bruno querendo saber o que ele mais gostava de fazer. Tomado de espanto, ele se pôs reticente. Após recarregar a arma questionadora, inquiri sua palavra favorita e, para ele, foi aumentar a dificuldade do jogo. Ele falou como se "não soubesse dele", evocando a própria composição involuntariamente! 
         Bruno me mandou essa letra no dia 10/03/2012 e, desde então, sua composição rondou por meus arquivos. Cinco anos depois, ela ressurge para brindar seu dia! Ele ainda se lembra dela? A ouviu alguma vez no decorrer? São respostas que não tenho. A Falsa Modéstia como banda não mais existia nesse período, era, se muito um conceito. Uma banda fantasma. Ao mesmo tempo, Bruno sempre esteve envolvido na música de maneira concreta, pulsando as cores de intensas emoções em baixa frequência. Que assim seja por muitos anos!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Tudo Depende de Conforme For (ou A Balada de Raul e Júlia)

“A gente escreve porque todo o resto morre, é para preservar aquilo que morre. A gente escreve porque o mundo é uma confusão desconexa, que não se consegue entender, a menos que se faça um mapa com as palavras...” - Edward Sheffield em  Tony & Susan
        
Ilustração de Jéssica Feliciano inspirada no amor de Deus, na relação de luz e trevas.

         Então, às vésperas da postagem, um abatido Raul pergunta se eu poderia postar sobre qualquer outra coisa. Digo a ele que estamos trabalhando juntos naquele projeto há praticamente um mês, e não havia como ganhar as horas investidas falando de nada além. Ele passara tanto tempo resoluto da vontade de ter sua história contada. Agora, sem mais nem menos, estava demovido da ideia. Você pode falar de um dos shows que tem visto, por exemplo. De fato, expliquei, mesmo assim essas coisas levam tempo meu amigo. Que eu tenha visto cerca de seis apresentações no mês de janeiro, encontrei tempo hábil para escrever algo apenas de uma delas, quase cinco dias depois. Eu entendo mas... Sem mas, redargui. Tentei pressiona-ló a explicar.
         De súbito, Raul se deteve olhando para outro lugar. Levei alguns segundos para perceber que seguia o rastro de uma borboleta. Eu costumava dizer que quem está com a razão, ao se ausentar, deixou as borboletas com respostas. Foi como se ela o estivesse levando a algum outro lugar, então, pousando os olhos de um azul límpido em mim, Raul explicou: Júlia seguiu em frente. Seria ridículo dizer qualquer coisa a essa altura, e, de todo modo isso estava traçado há tempos, percebo agora. Não era questão de destino e sim de ações que tomamos em nosso dia-a-dia. Tal a música dizendo "Deixamos pra depois uma conversa amiga que fosse para o bem, que fosse uma saída (...) Deixamos escapar por entre nossos dedos a chance de manter unidas as nossas vidas". Tenho medo do que podem dizer ao ler essas palavras. Falei com minha amiga Meena e ela disse não entender muito bem meus sentimentos por Júlia, achara ser questão mais do que resolvida, e era, o que torna minha reação mais sem sentido, Thales. Eu conheci William brevemente, não o bastante para dizer que era uma boa pessoa, sabe? mas era a escolha de Júlia e o mínimo que espero é que sua rabeca embale os sonhos dela. Lembro de quando Odisseu, meu irmão mais novo, aparecera com uma nova namorada em pouco tempo. Júlia apontou indignada em como poderia alguém ser tão volátil ao escolher o esquecimento. E agora...
         Esbarramos sempre na escolha do outro, interrompi o fluxo de meu amigo, mudarmos de opinião faz parte desse processo;  Raul, você disse que era aniversário de Júlia e por isso me fez reunir todos os seus escritos desde o dia três de janeiro e recriá-los a meu modo, fui bem claro em dizer que não compunha sob demanda e você pediu que eu tentasse musicar seus pensamentos e eu consegui, independente do que digam acerca do resultado - pode ser ela nem goste - a canção será o mais próximo de um retrato de quem tu era naquele instante; Não vamos desacelerar, estamos apenas começando. Nada para esse trem.
         Pode ser sido meu momento Heisenberg ou uma epifania pessoal mantida em segredo. Raul concordou que eu publicasse aqui minha compilação de suas memórias depois da canção que compus baseada na história dele.



Tudo Depende de Conforme For (2017)

Desenhar um futuro é
Por vezes, críptico, tríptico
Baluarte erigido
Atrás da porta
Despertou da Anunciação
Pelo aquário, pórtico mítico
Coração em que
Minha vida aporta

Generosos são os ares
De tua nova terra
Todo caminho transporta
E me leva
Atravessava um mar vermelho
Para alcançar as veredas
Do teu riso

Tudo depende de conforme for
Se amor ainda há (...)

Pelos campos, vi José em romaria
Santa Cecília veio a mim
Antes que houvesse oração


A BALADA DE RAUL E JÚLIA
(Sobras Memoriais de Um Diário Inundado)


Prólogo
O Brasil discreto sobre o amarelo creme da camisa o levou a pensar se ela fazia parte do seleto grupo capaz de entoar o hino nacional depois da virada do ano. Raul estava distante de ser um patriota ou ufanista. Existia no país, apenas. Um tanto alheio a tudo, sem que isso fosse motivo de orgulho. Era, antes, parte de seu conflito diário. Suas não-escolhas constituindo o absoluto desejo de não ser todomundo. Lá estava ele, num galpão, em meio a produtos muitas vezes desprezados por vários dos consumidores finais. Trabalhando! A camisa de Júlia suspendeu a tarde de dezembro. Sua seriedade ao lhe delegar atividades o intrigou tanto quanto o cabelo preso tal a cauda de um pássaro. Raul decidiu que a chamaria de Chefe. Isso foi há tantos anos que o espantou ter recordado no momento em que viu seu ônibus se aproximando.

I
O bairro desperta a cada parada de sua condução. Raul fica indeciso entre a leitura de seu livro e a atenção com o caminho desconhecido. É ano novo, embora tenha dúvidas se depois do réveillon isso ainda importe. A segunda semana do ano já se mostra implacável. Embora ainda haverão os cumprimentos dos retardatários em folga até a segunda quinzena. O aglomerado de portas de portas de aço enroladas o encaram, o lembram do período em que travava guerra com uma delas para iniciar os trabalhos na agência de publicidade. Tentava agir rápido, apreensivo com a ideia de ser visto neste apuro. Ao menos não precisava apresentar isso num currículo. Uma moça recostada na parede de aço se maquia de maneira improvisada, no espelho parece um quadrado de sete por sete centímetros. Já passou. Reconhece a praça anunciada numa curva. Sente um nó. Tinha estado ali cerca de oitenta e seis dias antes para visitar uma das unidades do serviço social do comércio. Andou com Júlia por aquele caminho ermo, enquanto imaginavam como se sairiam em meio a um apocalipse zumbi. Ela pensava em comprar um Playstation para a mãe – que adorava os universos de Silent Hill a Resident Evil – quando a situação financeira estabilizasse. O mapa que tinham a dois contemplava uma série de rotas e caminhos. Enquanto se dirigia ao trabalho, não pensava se depararia com ele tão cedo em seu dia com uma de suas linhas invisíveis.

II
Naquela semana tinha passado em frente ao Santuário das Almas e à Paróquia São Luiz Gonzaga. Ao observar as estruturas – mesmo quando simples, igrejas podiam alterar os ares de áreas comerciais – pensou em Dom Helder Câmara e seu modo de escrever poemas, quase contra sua vocação eclesiástica e ao mesmo tempo tão propriamente sensível com os dons de Deus. Raul não escrevia poemas, pensou em Thales, amigo dos tempos de faculdade que passava horas nesse intento. Teria ele prosseguido com os versos ou estaria preso apenas a um cotidiano mercantilista como ele próprio? Quem sabe fosse como um Kafka, trabalhando numa companhia de seguros. Ou talvez ele apenas tivesse receio demais de errar e sabotasse as próprias possibilidades no mundo literário. Tentaria falar com o Barros e descobrir algo do paradeiro do velho amigo. Não levou muito tempo para encontrar seu blog, em seguida, enviou um e-mail mencionando a ideia que tinha para um post. Thales concordou em escrever mas tinha reticências quanto a compor. Verei o que faço, era a única linha de sua última mensagem.

III
Raul tornou a olhar o smartphone. Nenhum resquício virtual de Júlia. Antes havia ao menos o que se pautar. Fechar os olhos e sentir que eu vivo bem com a solidão ela disse ser apenas uma música que gosta sem relação com o contexto dos versos anteriores ou posteriores. Podia ser ele enxergasse as coisas de uma maneira complicada, por mais simples se apresentassem. Esse era um tema recorrente de suas conversas: a objetividade como possibilidade concreta. Sim ou Não lhe era um martírio. Costumava brincar ser um defeito adquirido na escola, pela quantidade de encontros com a frase justifique sua resposta. Numa das primeiras vezes trabalharam juntos, ele precisou deixar uma nota por uma alteração qualquer no estoque.
Você não precisa escrever um livro.

IV
Um pêssego.
O status era apenas o suculento fruto.
Entrecortava os dias e seu significado lhe escapava. No budismo era sagrado e representava longevidade. Para os antigos gregos era a sagrada fruta do deus do casamento. Georgia é o estado do pêssego. Ela não era budista, não estava casada e tampouco nos Estados Unidos da América, ao menos, até onde ele sabia.

V
Morria a primeira quinzena do ano quando enfim conseguiu uma ligação atendida.
Nunca seria o que era antes, era sempre a cumplicidade esquecida. Ela começaria academia, reflexo do que ele também estava dedicado a manter. Tentava descer todos os dias cerca de três ou quatro quilômetros antes de casa e andar o mais rápido que conseguia antes de ser tomado pela sensação de que o ar do mundo era insuficiente. Usava o último disco do Metallica como propulsor para estas ações tão estranhas a ele. Querendo o som mais alto que os problemas em sua cabeça. Mesmo quando garoava o ritmo era mantido. Precisava disso. A indiferença pode ser um poço de fundo incerto. De repente você é acordado por vinte quilos a mais e eles não se calam. Quem sabe, o andar com destino seria o suficiente para enfim poder olhar para si mesmo na certeza de apenas uma consciência.
Agora ela vinha para a cidade dele quinzenalmente, mas a intenção era aumentar o hiato. Ele tentou brincar com a metonímia nominal. Ela não pareceu achar graça. E sempre o corrigira! Quando ele contou que o encarregado não estava presente ela pareceu pensativa por isso ele não me ligou. Raul juntou dois e dois: havia ali um sinal, se havia ligações diárias sua falta de sorte poderia ser proposital. Ele faria o possível para evitar as tentativas de ligações. Seria isso o bastante?
Perguntaram-se acerca dos pais.
Mas você vem para cá? Não devia ter estranhado o tom na voz, obviamente não forçaria sua presença, no fundo, sabia o que ela não havia dito. A mudança, a nova cidade. A chance de começar tudo em estado novo. Fácil descontextualizar a frase de Neo: Vou desligar este telefone e vou mostrar a essas pessoas o que não quer que elas vejam. Vou mostrar a elas um mundo... Sem você. Lembrou-se do dia em que olhou o contrato da nova casa, copiar o endereço mentalmente. Já fizera isso antes. Outra das ações incompletas. Ela poderia ter certeza, ele não realizaria nada absurdo. Agora, ela não tinha intenção de correr após uma apresentação, todas elas acabavam muito tarde. Seria um problema voltar a casa de sua mãe. Em cada uma de suas sentenças entendia que a casa dele não mais era opção, as diversões em cada vitória de corrida contra o tempo eram lembranças perdidas.

VI
Ocupava-se como podia, em vinte dias lera quatro livros. Podia ou não ser questão de orgulho, havia quem ria de suas preferências. Era visto em todas as frestas temporais com um livro na mão. Visitava livrarias compulsivamente. Isto o livraria? Na prateleira com os títulos em destaque avistou a edição de luxo de Drácula em suntuosas quatrocentas e setenta e quatro páginas (...) Dedicava algum tempo refletindo questões humanas; custava tentar imaginar quais eram as histórias e preferências de cada pessoa. O que levava alguém a descer de um carro colocando uma arma no rosto de dois jovens pelo motivo que fosse? Pudera conhecer estas histórias. Usar a fé como um ato de risco contra iniquidades. Mas isso não era ele. Haveria um universo paralelo em que a vida de Raul e Júlia tinha acabado naquela noite? Se as coisas funcionassem assim, deveria agradecer pela intervenção divina, ou, a bondade doentia do assaltante ao render duas pessoas com uma arma de um plástico tão infantil que o medo absoluto transformara em aço. “Vivo sem saber até quando ainda estou vivo, sem saber o calibre do perigo eu não sei da onde vem o tiro.” O tiro que não veio os atingiu com vida e futuro.

VII
Agora era o futuro.6h58.
Piscou algumas vezes tentando reconhecer alguém na praça, enquanto dezenas de trabalhadores entravam no ônibus. Uma blusinha decorada com a Torre Eiffel, a calça social encerrando numa leve boca de sino cobrindo parcialmente seu alvo all-star. Alguém mais inteligente dissera outrora: não sendo impossível pode ser provável. O ônibus prossegue antes que o reconhecimento termine e em sua extensão ele ainda consegue ver uma revoada displicente de pombos feliz com a ignorância benevolente dos velhinhos dispostos a doar mais que suas três refeições diárias. Um dos pombos parece pensar, ah se soubessem o que é toxoplasmose, ao que o outro retruca num gorjeio ser melhor aproveitar o banquete. Esse primeiro pombo poderia ser ele mesmo, por vezes um pária. Você está entre eles mas não é um deles. Era provavelmente hora de escolher um novo mote pessoal. As palavras de Mao Tsé o acompanharam por demasiado. Acha as ruas estreitas demais. Avista um homem com um cão branco. Certamente pertencente a outra pessoa, pela violência empregada com a coleira. Ainda não são sete horas e há tanta vida nas paredes. Lembra de um artista da cidade vizinha que assinava todas as suas obras como Xicano. Seu spray moldou uma série de mulheres realistas nas muradas. 

VIII
Como estão os ônibus?
Perguntou um colega que partilhara o mesmo trajeto até adquirir uma motocicleta.
Tenho ido e vindo com eles, em quinze minutos estou aqui.
Já sei que São Paulo acabou para você!
Ele diz isso sorrindo, faltou que piscasse para parecer mais absurdo. Parecia dizer, sei seu segredo, você já arquitetou mudanças em sua vida sem avisar a ninguém.
Raul sorriu por reflexo, contradizendo o parágrafo anterior, ainda era uma dessas criaturas sem jeito para convenções. Mal sabia seu colega como tudo estava diferente. Essas brincadeiras seguiram por alguns dias, até que cessaram de súbito: intuiu que Júlia explicara o acontecimento a ele. Era um dos sinais, além do silêncio e da surpresa ante a possibilidade de uma visita. Ainda tivesse dificuldades em escrever, Raul tinha mania de achar tudo óbvio. O silêncio, o nervosismo no tom de voz quando propôs uma cordial visita, a mudança no comportamento de colegas que sempre tiveram sua relação como tópico pessoal, as chamadas não atendidas. Mesmo o pêssego. Sinais.

IX

Como os que o ônibus atravessava sentido metrô Santana. Não levou trinta minutos para chegar à Armênia. Ela adoraria esse trajeto. Palavras encurtam distâncias enquanto adiantados. Por anos cruzaram avenidas, vielas e veredas, velozes. Se perdessem o último trem passariam a rua em liberdade. Ressabiados com cada figura a surgir quebrando a luz, livres, entretanto. Andariam de um lado a outro como que buscando a corda de um relógio imemorial. Dar-se-iam as mãos. Certos de quererem mais da companhia campo de força contra as lufadas laminosas da madrugada. Até que a deixasse na casa dos pais e rumasse para a sua.

X
Da passarela Raul avista ao ônibus de sua intenção. Amplo em seu esplendor branco. Perfeito para tentar escrever o que seriam as últimas linhas de sua abreviada narrativa. Tinha menos de uma semana para concluir tudo. As águas do fim de janeiro tinham o cheiro das chuvas de Poseidon, e, em meio a uma dessas torrentes percebeu parte de suas anotações dissolvidas dentro da mochila. Seria perfeito se o seu objetivo fosse uma reciclagem rudimentar de papéis. Pensou, teria sido melhor se tudo tivesse sido destruído? Restavam sete dias. Júlia em seu reservado silêncio o levara a crer em suas suposições. Os horários pareciam randômicos. Escorava-se como podia na caixa coletora do coletivo para escrever. Seria além do aceitável querer a colaboração dos passageiros? Que ficaram sem pagar a condução pelos próximos vinte minutos, bastaria. Raul podia ouvir a Júlia de sua mente na tentativa de convencê-lo a parar de escrever:
- Anos atrás você me levava mimos e bilhetes e eu sabia você queria mais que amizade, mas qual o sentido disso agora? Para quê fazer isso?
Ao ceder passagem para uma atarracada senhora. Se deteve na tentativa de enxergar os próprios olhos refletidos na janela. O azul deles se confundia com o amanhecer. Era assim o fim? Fora o primeiro a entregar bilhetes e agora escrevia uma carta derradeira? Justiça poética carrega beleza apenas em histórias alheias. Tudo o mesmo, nada sendo igual. Ouviu Vitor Ramil entoar por seus fones. As melhores frases para descrever sua vida viriam sempre de outros autores? A cada momento em que se perdia para alguma resposta gaguejava “não, sim, não”. Júlia sempre brincara com essa aparente dificuldade em entregar uma réplica objetiva. Raul queria poder sorrir pela lembrança. Não percebeu a passagem do dia quando viu as janelas embaçadas de noite. Era impossível distinguir as luzes dos letreiros em neon. Se o ônibus fosse para além do destino esperado ele aceitaria. Nada era verdadeiramente circular. Seria expulso no terminal, a menos inventasse alguma desculpa de ter dormido, apelando para a misericórdia dos funcionários da companhia de transportes. Tentava revelar fotos e vinha se mostrando uma tarefa complexa. Até mesmo a rede FOtOtica tinha saído do ramo. Quais eram as chances? Um colega se prontificou a imprimi-las. Sempre que se propunha a uma missão a desenvolvia sozinho. Uma vez ele pedira a ela para anotar algo nestes termos:
no dia x Raul começou uma surpresa. Diversas vezes ele não aguentava e esclarecia cada uma delas antes da hora. Haveria uma designação específica para as pessoas com essa linha de ação? Como quem esconde o papel de presente dentro da caixa? No interior de sua caixa craniana surgiram sonhos. Ela enviara duas frases mais longas, seu conteúdo fora capaz de acorda-lo. Olhou para o smartphone e as notificações eram inexistentes.

Epílogo:
Era dia de Iemanjá, e Raul seguia com suas ações corriqueiras. Até que, quando chegou o horário de almoço, ligou os dados móveis para se distrair enquanto aquecia sua refeição no micro-ondas coletivo, Era Júlia:
- Oi
- Bom dia
- ...
Teve a sensação estranha de déjà vu a lhe raptar o apetite. Mas era aquele tipo de coisa que eventualmente ia acontecer. Melhor seria se tivesse ouvido a si mesmo. O que o levou a querer dividir novecentos por trinta?