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quarta-feira, 30 de junho de 2021

Vacina

"Quanto a ser um bom pai, prossegue a freira, ele vai descobrir que não é difícil. É bem simples. Tem que ensinar a criança a amar a vida. Isso é tudo. Amar a vida e todas as criaturas que existem, do homem até as coisas mais pequenas e frágeis. Passam por sua cabeça todas as razões pelas quais o desafio não é tão simples quanto diz a freira. Um grande estrago à sociedade e à existência de incontáveis criaturas, do homem às mais pequenas e frágeis, está sendo sancionado neste exato momento, tem vontade de dizer. Um estrago que pode levar anos, quem sabe uma vida inteira, para ser remediado. Que talvez seja irreversível. E que não raro é justificado por seus perpetradores nesses mesmos termos de amor à vida." - O deus das avencas: Três novelas, Daniel Galera, p.62-63, Companhia das Letras, 2021.

Arte por @ellaproenca


Vacina (2013)
Letra e música: Thales Salgado

De tantos caminhos escolhemos o mesmo
Na onda de um bonde chamado desejo
De recriar o dia a dia outra vez
Cheio de notas de acordes e arpejos
Fazendo o mundo girar num festejo
Ninguém a se arrepender do que fez

Com meus amigos prosseguindo na estrada
Seja com risos ou nas várias roubadas
Em noites eternas trazendo à vocês...

A Vacina
Pra todos os males da vida
Que já anda muito sofrida
Pra quê se deixar abater?
A Vacina
O amor que nos salva a vida
Toda a pessoa é bem vinda
A achar novas formas de ser

    Quando bob surgiu com a encomenda para esta composição, eu contava 24 anos recém-feitos (à título de comparação, contava 31 e alguns meses quando escrevi este post) e nem em um pesadelo, haveria uma pandemia. De 2020 para cá, ressurgiram web afora matérias de periódicos antigos que descreviam os acontecimentos atuais com grande fidelidade. Pode ser que eu tivesse até folheado um deles sem dar muita atenção. Recordo até não ter recebido bem o filme Contágio (2011), de Steven Soderbergh, apesar de seu elenco digno das calçadas da fama. Você a ler reviu o filme recentemente? Se sim, diga se vale a reprise. Enfim, divago. Não é muito difícil encontrar dados sobre como, por exemplo, 86,3% do público alvo, 26 milhões de pessoas, haviam recebido a vacina contra a gripe em 2012.
      Naquele período, não havia como pensar que, em poucos anos, o país passaria por uma crise sanitária e hospitalar com as proporções que passamos hoje. É claro, com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, era certo que passaríamos por tempos sombrios, sua necropolítica é aplicada em declarações como dizer que o efeito do novo coronavírus seria "uma gripezinha", que ele "não era coveiro", ou que o Brasil deveria "deixar de ser um país de maricas". Como comentou ao G1 o médico sanitarista e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão: " O governo federal rejeitou a ciência, rejeitou a saúde pública, brigou contra as evidências. Nós nunca tivemos uma política de comunicação pesada, orientando, esclarecendo, mobilizando. E o resultado macabro e dramático é essa crise humanitária que nós vivemos hoje". No meio desse turbilhão, 2021 veio como um ano em que perdi minha avó paterna devido a complicações da COVID 19. Conheço outras pessoas que perderam pais, avós, tios, primos... seus vizinhos, conhecidos, seus amores, mais de 500 mil pessoas. Tendo seus lutos e elaborações interrompidos na impossibilidade de despedirem-se com respeito e dignidade. Como bem resumiu uma pacífica amiga em outubro de 2020: "Isso me deixa triste, puta, irritada, tô muito chateada". Tudo ao mesmo tempo.
      Ainda que existam movimentos antivacina desde as primeiras campanhas de vacinação, é ainda mais revoltante quando, ao mesmo tempo em que o presidente passeia pelo país sem mascara e aglomerando apoiadores, as timelines são brindadas com uma série de agremiações, coletivos, brindes, como se nada estivesse acontecendo e já fosse mais que esperado retornar às ruas. Admiro quem tenha saído das redes sociais para conservar a saúde mental.
      Apesar dos pesares - segundo a Folha de São Paulo, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, representante da empresa Davati Medical Supply no Brasil, afirmou ter recebido do diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, um pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina em troca de assinatura de um contrato - a pandemia vem sendo controlada na Europa e nos EUA e temos acompanhado um aumento no número de doses de imunizantes contra a Covid-19 em nosso país. Na última terça-feira, 29, por exemplo, um avião com 528,8 mil doses da vacina da Pfizer/BioNTech chegou pelo Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas. Pensando nas notícias positivas (nunca me identifiquei tanto com a letra de Notícia Boa, da Nenhum de Nós) é que voltei a pensar nessa composição, pensada em um período tão distinto.
Em conversa com Estela,
provável primeira ouvinte em 2013

      Como eu dizia no primeiro parágrafo, a ideia era representar o significado de uma banda. A banda Vacina. Como bob comentou comigo no início de junho "Não existe uma cura definitiva para as coisas que te jogam para baixo, mas se você estiver se remediando, se cuidando, tomando a sua vacina, talvez você consiga se proteger melhor. Só que você precisa descobrir qual é a sua, já que o "mal" que você sofre é diferente do meu. A nossa vacina 'Preto, Fabio e bob', ao menos na época, era a banda, a música. Tocar." Como disse o psicólogo e doutor em saúde coletiva da Unicamp, Bruno Emerich, em matéria publicada na revista ComCiência do Laboratório de Jornalismo da Unicamp: "Há uma parte grande da sociedade brasileira que não tem o hábito de consumir cultura porque não consegue. Porque é caro, porque a cultura nem sempre está ao acesso, não está disponível em todos os bairros. A grande questão é como vamos aproveitar esse momento. E também temos que entender que tem gente que não está consumindo cultura neste momento, não porque não gosta ou não sabe, mas simplesmente porque está em uma situação muito difícil para sobreviver". Voltamo-nos para os filmes e séries em nossos streamings, e também à música (!) aos desenhos, pinturas... Cada um vai do jeito que pode, diria o poeta.
      A banda Vacina segue em hiato por tempo indeterminado, bob complementou: "Decidimos deixar mais parada ainda para não parecermos oportunistas. E tinha uns querendo show da Vacina ou Live, justamente por isso." nesse cenário, uma vez que havíamos trabalhado a composição pela primeira vez em 2021, houve algumas conversas quanto a se seria o momento certo para trazer uma canção com esse nome durante este período. E, ao fim, concluiu-se que sim: as vacinas, mais que palavras, são um compromisso coletivo de saúde pública visando o controle e erradicação de doenças. A ilustração da multiartista Isabella Proença conserva com delicadeza um pouco de tudo o que envolve a Vacina no antes e no agora: tanto a esperança e expectativa para um dia em que poderemos, novamente, sentir a música vibrar em nós, quanto uma homenagem para enfermeiras, técnicas de enfermagem, médicas, e todos os demais profissionais de saúde que seguem o combate incessante contra o vírus em todas as linhas possíveis. Convido à conhecer mais do trabalho dela em sua página no Instagram:

terça-feira, 1 de junho de 2021

01 de maio

"Se um autor de prosa sabe o bastante sobre aquilo que está escrevendo, ele poderá omitir coisas que sabe, e o leitor, se o autor escreve com suficiente verdade, terá dessas coisas um sentimento tão forte quanto o teria se o escritor as houvesse explicitado. A dignidade de movimento de um iceberg se deve ao fato de apenas um oitavo de sua massa estar acima das águas. Um escritor que omite coisas porque não as conhece apenas faz buracos em sua escrita." - Ernest Hemingway, em Morte ao Entardecer, cap.16 (Tradução de Renato Suttana)

 

Arte de Maureen Miranda
http://maureenmiranda.blogspot.com/



01 de maio (2013)
Música de Thales Salgado
Sobre versos de Maureen Miranda.

"São tantas coisas
embaralha tudo aqui
Fujo
Corro
Respiro com elas
Balanço verde
Respiro de novo
forçando meu riso
De fora,
pois o de dentro sempre
Ri
Os olhos não
esses sim
Sempre choram
por
MIM ?"

    Por muitos anos, tencionei que este post fosse realizado no primeiro dia do mês de maio. Seria uma forma de homenagear à multiartista Maureen Miranda que publicou os versos nesta data, eu já acompanhava o trabalho dela pelo blog há alguns anos, e era a maior motivação para acompanhar o trabalho da companhia de teatro Sutil - mesmo ao ver o filme da Hebe no cinema, a melhor experiência foi poder vê-la na tela grande. Tendo o blog começado apenas em junho de 2016, tive cinco chances de fazê-lo e não consegui. O que isso diz acerca da falta de planejamento? Penso muito acerca de como diversas das gravações que realizei permaneceram registradas no tempo-espaço do passado.
   Em julho de 2013 a psicóloga Fabíola Passos comentou "Linda, linda melodia (01 de maio) Alias, notei que você têm usado linhas melódicas mais irregulares para voz. Eu particularmente gosto, mas acho que é um item novo de suas canções desse ano!" A linha que fiz para esta composição, particularmente, era tão difícil para mim executar que gravei uma série de takes e os editei. Será que hoje, sou capaz de cantá-la de um fôlego só? Provavelmente, não.
    Outra particularidade desta composição é o solo utilizando a escaleta. Um instrumento que surgiu em meu caminho devido à Cidadão de Papelão d'O Teatro Mágico. Devido à minha resistência a tocar músicas de outrem, a emulação de algo que eu gosto sempre foi um de meus interesses. Pode ser pretensão, ou a falsa modéstia que dá título ao blog. Quem, além das pessoas que me conhecem teriam interesse em ouvir estas gravações caseiras? Se você leitorx, for esta pessoa, deixe um comentário. Farei questão de vir ao post replicá-lo. Não sei se você existe, afinal, hoje já há quem concorra ao Grammy produzindo diretamente do quarto, como diria o poeta "não há mais desculpas". Como não sou mais forte que a minha melhor, antes feito que perfeito.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

HMK

“O meu mundo não é como dos outros, quero de mais, exijo de mais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa pessimista; Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não se sente bem onde está, que tem saudade... sei lá de quê!” – Florbela Espanca, Cartas e Diário, edição de 1995, excerto de carta à Guido Battelli.

Ilustração fractal desenvolvida para o blog
Parte de 2013 foi fértil para composições por alguns motivos: até o final de setembro estava desempregado e as manhãs sozinho permitiam que eu registrasse qualquer ideia quando ela surgisse. Minha adaptação à mudança de cidade ocorria de forma paulatina, mas menos traumática do que eu imaginava é como diz a canção “A vida é bem mais simples/Do que geralmente a gente faz”.
De alguma conversa avulsa com Kariny surgiu a ideia de fazermos um Duo musical e poético. Eu já havia colocado melodia em seu poema que se tornou Referência e, no mês de março, ela surgiu com o poema que se tornou Passeio Azul. Levantaria, então, os poemas, versos, frases, tudo que oferecesse caminhos e musicaria. Mais que isso, me parecia importante que houvesse o mínimo de ‘unidade’ no pensamento do duo o que me levou a ir até a biblioteca e encontrar todos os livros que ela tivesse comentado indicado O Estrangeiro, As Vantagens de Ser Invisível, O Mundo de Sofia, O Apanhador no Campo de Centeio, poemas de Hilda Hilst... o que fosse. Fora os que emprestei com ela, tal A Idade da Razão.
   Partindo dessa imersão, o nome do “álbum” seria Envahissement tanto pelo interesse dela em ter uma banda com esse nome quanto por representar não apenas uma invasão francófona quanto a presença mais ativa da poesia que ela trazia na bagagem no processo criativo, uma vez que eu não era o mais ávido consumidor dessa modalidade textual.
   Em uma conversa sobre poemas, veio a lembrança de um trabalho que realizamos em 2011 nas aulas de Fonética e Fonologia da Língua Inglesa da profª Iris Maitê em que graváramos um texto no idioma. Este é um ponto fundamental para esta composição, pois, por mais que muitas vezes eu fizesse minhas as palavras de Flea em sua autobiografia “Não conseguia me concentrar na aula. De vez em quando, um interesse fugaz na inflada no ego propiciada por um bom boletim me motivava a ser bem-sucedido, mas eu sempre acabava me desligando no fluxo de pensamentos sem destino ou bancando o palhaço da sala” aquela foi uma das atividades que mais gostei de fazer por envolver áudio, conversões e gravações e, apesar de ser um trabalho individual, trabalhei “produzindo” a gravação de um pequeno grupo de colegas. Entre eles, Kariny, que recitou since feeling is first de e.e. cummings. Se eu tivesse participado da experiência social que vi no perfil da professora há alguns meses, Um Encontro entre Breadfruit, provavelmente teria mencionado essa atividade ou quando aprendi a tocar Diamonds On the Soles of Her Shoes para uma de suas aulas, mas divago.
   Vasculhando documentos do período no Centro Universitário, verifiquei que ainda possuía a gravação. Escreveria, então, uma canção que conduzisse, de algum modo, ao poema, espelhando a canção Vênus de Moska (já falei do álbum em que ela se encontra aqui) e o recém lançado álbum duplo de Vitor Ramil: Foi no Mês Que Vem, em que ele revisava sua carreira em arranjos que deixavam proeminentes as afinações pouco usuais de seus violões. Isso me interessava tanto do ponto de vista estético, ao enxergar possibilidades de soar diferente, quanto do ponto de vista instrumental, afinal, desconhecendo os rudimentos da percussão, sempre fiquei limitado a gravar apenas voz e violão. Logo, era interessante analisar um grande expoente trabalhando, por escolha, com arranjos, em sua maioria, para dois violões. Abaixo, a gravação realizada naquele ano:



HMK (2013)
Letra e Música: Thales Salgado
Intervenção poética: Kariny Camargo

Kafkiano despertar 
Armado de asas ao 
Revés, decido procurar 
Idílica figura  
No limiar do 
Yin-yang 
Certo que ela 
Revelará 
Isto que falta e 
Sob a tua lente 
Trarei à vida outra matiz 

Invisible madame! venez a moi, vôtre voix: 

“since feeling is first
who pays any attention
to the syntax of things
will never wholly kiss you;
wholly to be a fool
while Spring is in the world
my blood approves,
and kisses are a better fate
than wisdom
lady I swear by all flowers. Don’t cry
-the best gesture of my brain is less than
your eyelids’; flutter which says
we are for each other: then
laugh, leaning back in my arms
for life’s not a paragraph
And death i think is no parenthesis”
(e.e. cummings)*

Nevoeiro a abarcar 
Afagos velados no  
Deserto desse sublimar 
Eclipse de silêncios 
Confluência de Amanhãs 
Mar que a fitar  
Aliançará a 
Rara cura para o  
Gris de teus olhos 
O vento a esfuziar me diz


  Compus HMK entre 02 e 19/09/2013. Esse é, provavelmente, o período mais documentado de minha criação artística. Em uma conversa com Estela após submeter a composição para audição eu dizia:


   Naquele tempo eu ainda não havia definido o que significaria o HMK. Recordo que o retirei da personagem Hilde Møller Knag d’O Mundo de Sofia. Uma vez que a própria Kariny era conhecida como Hilde do período em que trabalhou com uma grande companhia aérea, parecia um passo lógico. Já tendo refletido a composição por mais de um mês, comentei com Fabíola que "a letra poderia funcionar de duas formas, se escrita sem a declamação a segunda estrofe poderia ser uma segunda voz dentro do texto. Numa apresentação ao vivo - que, óbvio, nunca aconteceria - o 'invisible madame' poderia ser uma chamada para a entrada de poemas diferentes."   Esse comentário acerca da apresentação me faz crer que a ideia do Duo não teve seguimento. Em outubro, inclusive, eu havia inscrito a letra “como poema” para tentar uma vaga na coletânea A Palavra em Prisma, realizada com autores guarulhenses... sem sucesso.
   No fim das contas, acabei por não atribuir significado oculto ao acrônimo e ficou apenas HMK mesmo. No dia 23/09/2013 comecei a trabalhar para a editora Saraiva e, apesar de ainda ter as manhãs livres pelos três meses seguintes, o fôlego para compor começou a se esvair e só retornaria ao fim de 2016. Algo que notei enquanto escrevia este texto é que não encontrei registro de ter encaminhado essa gravação para a própria Kariny (!) ao menos não via e-mail ou Messenger, será que o fiz por algum número outro de whatsapp? Este é um dos males de compor e deixar na gaveta, passado algum tempo, fica parecendo que nunca existiu. Seja como for, posto estas essas reminiscências hoje, quando, para ela, amanhã já é.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Todas as Cores que Você Quiser

"A música tem sempre sido um catalisador para mim, tal, um processo de purificação. Sempre funcionou para mim, vem sendo uma forma de cura e de lidar com as coisas. Nem tudo o que escrevo é autobiográfico, mas, há aspectos que são. Para mim sempre foi curativo cantar, fazer música, compor e escrever sobre certos assuntos." - Sharon den Adel em entrevista para o site francês United Rock Nations


         
         Talvez, haja uma questão geográfica na música. Digo talvez simplesmente por não ser capaz de argumentar de forma completa esta questão. Já a partilhei para muitos "gosto de artistas do Rio Grande do Sul" ainda que diversos deles (Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, Vitor Ramil) chamem minha atenção não quer dizer que toda a produção musical dessa região me atinga da mesma maneira (Papas da Língua perde meu interesse já começando pelo nome, por exemplo) apenas que é um assunto que me chama atenção a ponto de ser até mencionado na canção Notas fora do lugar. A questão de se tornar parte do texto introdutório é que, também eu, no período de composição da canção estava prestes a mudar de cidade. Após sete anos de composições rondando pela cidade de Arujá, lá estava eu: há poucos passos de partir para Guarulhos. Talvez, ter começado a pensar na letra próximo a divisa das duas cidades seja um fator importante neste caso. O que sei eu? 
            Sei que naquele período vivenciava a tentativa de imersão em partes de obras que eu não me dedicara antes: Leoni e Within Temptation. Foi sob esta influência que a canção iniciou com um acorde ré maior e o solo é uma tentativa de emular as linhas melódicas do refrão de Memories. Elementar, isso não é necessariamente perceptível. Muito menos o é que a frase "o mundo está caindo disfarçado de chuva" não seja de minha autoria mas haja uma alusão a ela. Mesmo "a pedra dos sonhos" é o mesmo título de uma animação que eu não me lembrava de ter visto e me fora contado acerca de. Tentar caminhar pelo universo referencial de outra pessoa é estar, também, propenso a erros, afinal, tudo não passa de minha própria ótica sobre o que torna estas dileções significativas. No final, a canção se torna um retrato que, talvez, não seja capaz de mostrar as cores da foto para qual eu olhava. Tendo a mesma pessoa me falado dos temas discorridos na letra, seria esta letra capaz de esbarrar, minimamente, no universo dela? Ou seria minha dileção apenas outra peça de um quebra-cabeça que eu não entendo? O que sei eu?
         
Todas as cores que você quiser (2013)
(Memories - música incidental)
Letra e música: Thales Salgado

Luzes não há mesmo frente ao fogo
Até o ar pareceu fugir
Qual foi a trilha a te trazer aqui
Assistindo a realidade partir?

Se disfarçado de chuva
Você viu seu mundo cair
Saiba que depois da curva
Há um arco-íris surgindo

E todas as cores que você quiser
Estão no caleidoscópio de tua pedra dos sonhos
Quando a estrela nas sombras fulgir
Eu sei que o mundo vai te ver voltar

"All of my memories keep you near. 
In silent moments imagine you here.
All of my memories keep you near.
Your silent whispers, silent tears."


E todas as cores que você quiser
Estão no caleidoscópio de tua pedra dos sonhos
Quando a estrela nas sombras fulgir
Não deixe a centelha se apagar


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Milonga de Partida

"Conheci um paulista que disse que depois que leu “A Estética do Frio” ele se deu conta de pensar nas coisas dele, de São Paulo, de como ele se via dentro do Brasil, dos preconceitos que ele tinha em relação a isso ou aquilo. Essa coisa de tu tirar o centro do lugar é muito legal, essa coisa do “não, não estou à margem do centro, isso aqui é um centro”. Tu pode determinar o teu centro em qualquer lugar: se tu é do Piauí, tu pode enxergar esse centro. Eu acho que todo mundo que cria, por mais que tu esteja ligado com o mundo — e eu acho que tu tem que estar ligado com o mundo, sabendo tudo — tu tem também que saber o que está acontecendo na tua rua; o universo passa na tua rua. Tu tem que estar ligado plenamente nas coisas." - Vitor Ramil em entrevista para o site Screamyell em maio de 2017

Gravação feita em 2013:

Milonga de Partida (2013)
Letra e música: Thales Salgado 


O rio que nunca cruzei 
Caudaloso vi findar 
Um fantasma do que sou 
A noite vem me lembrar 
Quando criança fui
O hino me fez jurar 
Que eu ficaria ali 
Por tanto amar o lugar
E agora que cresci 
Acabei por me mudar
Quanto de mim ficou 
Nas terras de Arujá? 

Estrelas, girassóis
E tulipas nos jardins 
A primeira canção 
Já é mais de uma em mim
Sem falsa modéstia
Eu penso em visitar
Numa memória distante
Me transportei para lá 
E hoje quem ficou 
E não mais me vê passar 
Apaga tudo o que fiz 
Das terras de Arujá


        Quando olho para as composições feitas entre 2007 e 2013 percebo não haver marcas geográficas aparentes. Ainda que, no início, o transporte das canções entre as cidades de Arujá e Itaquaquecetuba tenha sido representativo para o que viria depois, não houve necessidade para refletir sobre isso. Em 2007 Memórias Distantes menciona emprestar palavras “de algum lugar” mas não esclarece. Em 2008, Canção para ti versa “as asas multicoloridas da joaninha refletem pela mata o brilho dos vagalumes” ainda assim é mais um reflexo do deslumbramento com a faixa de abertura do álbum Matizes de Djavan.
Arujá é a cidade natureza mas, a mata na canção seria a mata arujaense? Teria o inseto sido avistado na estrada da P.L., nos arredores do ginásio no Jardim Rincão ou até mesmo nas proximidades do Macaxeira antes de erguidas suas grades? Apacresce, de 2009, inicia com “Eu a vejo passear graciosa, pela estrada vai sozinha” e, embora esse avistar tenha se dado em algum lugar entre a Santa Catarina, a Amapá e a Piauí o fato não influencia a letra.
         A letra de Meio-dia (2010) menciona um velho deitado no banco próximo à fonte na praça do coreto, alguém realmente avistado mas num espaço em comum com uma série de outras memórias. A questão de endereços foi parte do que constitui a letra de Pode Ser em que um eu-lírico declara “a cidade é nossa, nada se perdeu”. Morando numa cidade pequena, coincidências são lugar comum. Certamente alguém se esbarrará no centro.



       A mudança de cidade criou a necessidade de pontuar uma canção com algo mais concreto: quanto de mim ficou nas terras de Arujá? Assim, sem me valer de acrósticos era premente mencionar o rio Baquirivu, e o hino da cidade, composto por Toninho da Pamonha e oficializado em 1985. Em agosto de 2017 enquanto lia o livro Arujá: Cidade Natureza de João G. Machado talvez me tenha passado pela cabeça o Encontro das Nações e minhas interações com a festa. Primeiro a criança tomando noção da existência de outras culturas, passando pelo adolescente buscando estar “onde todos da cidade estavam”, mais tarde como músico se apresentando junto a meus amigos por dois anos seguidos e, hoje em dia, como o visitante da cidade vizinha. Assim, foi um alento saber no início da semana que a festa, como patrimônio municipal, não deixaria de ocorrer em eco resultante da greve dos caminhoneiros que a postergou.
         É provável que o espaço e o lugar influenciem o desenvolver da arte individual. Em 2013 ouvindo e lendo sobre a Satolep de Vitor Ramil fui tomado da vontade de escrever sobre onde era a casa, é por esta influência sulista que me veio a ideia de nomeá-la "milonga". A cada visita encontro algo novo por lá. Arujá é cidade mutante, mutável e até o que nasceu memória tem fim. Mas ela também vive em quem, por lá, passou.

sábado, 14 de abril de 2018

A Idade da Alma

"Os objetivos que perseguimos são sempre velados. Uma garota que anseia pelo casamento anseia por algo do qual nada sabe. O garoto que intensamente deseja a fama não tem ideia do que ela seja. Aquilo que dá a cada um de nossos movimentos seu significado é sempre totalmente desconhecida para nós." - Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.


Funerais e Sepultura e o Modo de Chorar os seus Defuntos
 Jean de Léry

A Idade da Alma (2013)

Mas era outono:
Palavras em gravidade
Amargas horas sôfregas de Ser
Na chuva, sem nome
Sobrevoo a cidade
Uma sucessão de silêncios azuis
Tuas velas, tão serenas
Adornavam nuvens de Razão

A Idade da Alma desafia Cronos
Sem lastros transmuta a seu bel prazer
E o que é preciso é aceitar
O que é preciso?

Mas já me enganara:
Estranho na própria rota
Desenho sons em gotas de sabão
Nas trevas, sementes
Florescem minha tragédia
Indigno do tento almejar
Tantas pressas ladeavam!
Claro o pensar mas turva a ação;

sábado, 25 de novembro de 2017

Notas Fora do Lugar

"Imagine que você tenha vivido num mundo em que não existissem espelhos. Você teria sonhado com seu rosto, o teria imaginado como uma espécie de reflexo exterior daquilo que se encontra em você. E depois, suponha que com quarenta anos tenham lhe estendido um espelho. Imagine seu espanto. Teria visto um rosto totalmente estranho. E compreenderia nitidamente aquilo que recusa a admitir: seu rosto não é você. " Milan Kundera, A Imortalidade
Otarterrotua


Notas Fora do Lugar (2013)

A Carta
Já foi escrita
E eu a postei
"tudo em mim mesmo"
Verdades movediças
A areia escorre
E somos nós
Escolhi uma máscara
Sem perceber
Que a peça mudou

Sempre digo as mesmas coisas
Que sejam o oposto da vaidade
E quem há para dizer?
Nunca breve nem conciso
Sou só o retrato impreciso
Deste eterno retorno

A poesia
O desafia
Ela cativa
Ao castigar
Quando ninguém
Viu sua morte
O seu viver
Inacabou

Ele chegou atrasado pra vida
Ele não lia jornais
Há mil palavras que unem os versos
Será que alguém sabe quais?

Sempre digo as mesmas coisas
Que sejam o oposto da vaidade
E quem há para dizer?
Nunca breve nem conciso
Sou só o retrato impreciso
Deste eterno retorno
De mim

Esta é só uma canção
Indo pra destino algum
Notas fora do lugar
Sons tão distantes do Sul
Esta é mais uma canção
Voz de alguém que nada é
Notas fora do lugar
Tempo leva pra nascer!


         Mantive a gravação caseira de 2013. Não por não querer um registro melhor e sim por representar a forma como enxergava o ato de gravar após praticar as canções de Vitor Ramil em seu songbook Foi no mês que vem. A ideia do "sul" rondava meu imaginário por muitos anos e compositores. Humberto Gessinger, Thedy Corrêa, Adriana Calcanhotto... Em 2017 pude visitar Porto Alegre pela primeira vez, ainda tenha sido apenas um final de semana era como saber que precisava respirar o ar do Sul. Tomar a frase descoberta no livro Satolep era a única forma de encerrar uma letra que falasse de mim. O conceito de "eterno retorno nietzschiano" com o qual tomei contato na obra de Kundera. O desconhecimento da morte como possibilidade de existência contínua nas expectativas de familiares é de um filme de Linklater (em que parte da trilogia do Antes está?). Coisas que ficaram muito tempo por dizer, agora parecem não encontrar lugar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Apesar de Nós

“Ter uma memória autobiográfica involuntária é tomar consciência de uma experiência passada sem qualquer tentativa consciente prévia de a evocar” (Berntsen & Hall, 2004)
         No Ano passado esteve em cartaz a peça Havemos de Amanhecer, inspirada na obra de Carlos Drummond de Andrade. Quando me deparei com o título minha reação inicial foi espanto. Anos antes compus Padam, uma música contendo referência ao mesmo poema. Até que eu associasse o fato, no entanto, fiquei ali me sentindo meio autor do título.  Acho que todo mundo tem esse sentimento de se apossar de algo a ponto de diminuir a relevância da autoria. Em família temos o hábito de inserir frases de filmes e séries enquanto dialogando amenidades. Ninguém se detém a imaginar o roteirista nessas horas.
        Quando em 8 de agosto de 2013, Kariny postou a imagem que ilustra esse post eu não imaginei que teria aulas com Carpinejar anos depois, conhecia seu trabalho pela repercussão de frases no twitter e depois pelo programa A Máquina, mas ainda não tinha tocado num livro de sua autoria. Fiquei ruminando suas palavras, tentado a mesclar esse 'apesar de nós' n’alguma melodia. Antes que chegasse a qualquer conclusão veio o dia seguinte e mais um post:
Decidi que o mote da letra seria me deixar conduzir pela ideia da felicidade de outrem. A partir disso consolidei diversas referências, começando pelo filme Luzes da Cidade, de Chaplin. Até chegar a O Vento do Los Hermanos. Já o "quadro de saudade" é inspirado na obra do Ituano, Almeida Junior. Na imagem do moleskine é possível perceber o método para cifrar a canção, que utiliza afinação drop-D e capotraste na quarta casa. Até hoje não faço ideia do nome dos acordes usados. Fui colocando de acordo com os sons, influenciado pela leitura do songbook de  Vitor Ramil - sempre referência. Como notado na foto há apenas duas estrofes um pré-refrão e o refrão e o outro, definido pela palavra FIM. Outra estrofe foi escrita para não se valer do recurso de repetição total do texto.
        Muitas referências se perderiam sem o registro, por exemplo, no momento em que vejo "como uma brisa leve" o primeiro pensamento é que se trata de uma referência ao cavaleiro de ouro Afrodite de Peixes ao receber a Tempestade Nebulosa de Shun: - como pode chamar isso de tempestade? Não é sequer uma brisa matutina. Poderia ser também da canção Quero Mergulhar nas Profundezas que conheci com o Pe. Marcelo Rossi no longínquo 1998 e possui o verso "brisa leve tão suave doce espírito" e no final das contas trata-se do título de um poema de Fernando Pessoa!
         Os versos finais, quando interpretados literalmente, podem remeter à eterna rainha da Floresta Encantada, Regina, e seu hábito de retirar corações para os mais diversos fins. Sendo que a retirei do cabeçalho do blog http://meulivrodepoesia.blogspot.com.br/. Inserindo o Não digas nada! de Pessoa como anacoluto. A parte do diário de bordo mostra que a canção foi gravada no dia anterior à entrega de meu currículo na Editora Saraiva. Nada é mais simples, não há outra norma. Nada se perde, tudo se transforma. Diria Jorge Drexler.





Apesar de Nós (2013)

As luzes da cidade
Te dando esperança
Um quadro de saudade
A fazer chover
Se não é mais “pequeno”
Será providencial?
Rasgando a amargura
Em mil pedaços

Apesar do que se crê
Apesar do que se quer
Como a vida pode ser melhor
Quando você sente-se plena?

Com uma brisa leve a te levar
Á eterna inocência
De esquecer a cor da mágoa
Com o que vem
Apesar de nós

O sol daquelas tardes
De vento na lembrança
Um sentimento imenso
Que só faz crescer
Se não é passageiro
E tampouco acidental
Nova surpresa em risos
Partilhados

Apesar do que se vê
Apesar de quem se é
Como a vida pode ser melhor
Quando caminhas tão serena?

Com uma brisa leve a te levar
Á eterna inocência
De esquecer a cor da mágoa
Com o que vem
Apesar de nós

Se te arrancassem do peito o coração
No vazio ainda existiria...
Não digas nada!