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terça-feira, 1 de maio de 2018

As Faixas Instrumentais

"Quando componho ou apresento músicas, o faço por ser o que está em minha alma. Nunca penso se as pessoas vão gostar ou desgostar de minha música, apenas componho e apresento a música que faz sentido para mim, a música que está dentro de mim. " Yanni em entrevista à revista NeeHao em 2014
Nuit celtique (Saint-Patrick): musiciens Foto: F.de la Mure

         A primeira lembrança que me vem quando penso em músicas instrumentais, é a de, com uns dez anos, talvez? Assistir às fitas VHS dos concertos de Yanni. Live at Acropolis e Tribute. Eram as músicas favoritas de minha mãe para trabalhar com seus diários escolares. Ainda que, num primeiro momento, eu não gostasse, com o passar dos anos e subsequentes audições do musicista grego ampliaram minha ideia sobre a música. Não era apenas sobre poder observar o grande compositor grego, e sim, a reunião de artistas engendrada por ele como a violinista norte-americana Karen Briggs, os sopros do multi-instrumentista  venezuelano Pedro Eustache, o tecladista taiwanês Ming Freeman, entre outros. Cada um com sua expertise em destaque em algum momento e somando para um todo que os ouvintes não podem imaginar ao ouvir as gravações em estúdio. Mencionei destaque para a nacionalidade de cada um, pois, Yanni é conhecido como "O Verdadeiro Artista Global". Então, assistir com meus pais a uma de suas apresentações em março de 2014 foi como fechar as pontas com a infância.
          Adotei o  hábito de realizar atividades ao som de música instrumental, primariamente, para leituras. Trilhas sonoras de filmes como as de Hans Zimmer costumam surgir. Ou o álbum Rasura do grupo curitibano ruído/mm. O problema em falar de música instrumental é a falta de entendimento teórico. Por conta de suas letras é mais fácil analisar o peso das canções. Com musicas instrumentais é diferente, elas também fazem sentir, remetem à outros eventos: um momento, um filme. Tomar emprestados os versos das canções como linha guia para a narrativa é uma forma de tentar me colocar no lugar do artista, se os versos mencionam poetas, se fazem referência às letras dos álbuns anteriores, outros artistas. Nem sempre é possível traça-las, por mais esforços e audições, mas parece concreto. Algo que não ocorre com faixas instrumentais.
         O fato de ser capaz de apreciar faixas instrumentais, no entanto, nunca permitiu que eu as compusesse. A primeira vez que utilizei uma melodia sem a letra foi em 2007. "A Última" nada mais era que Um Conto no Jardim sem a voz. Naquele momento, estava surpreso com as possibilidades de gravação caseira, sobreposição de faixas, efeitos. Ainda que a sincronia não estivesse perfeita.

     Levou alguns anos até que eu decidisse tentar algo inteiramente instrumental, Nothingless foi pautada por um cavaquinho fora de afinação e uma meia lua. Ao final, busquei aplicação de uma flauta de pan. Seria preciso um metrônomo para que ela funcionasse direito. A linha melódica realizada pelo violão foi pensada para uma letra. Não pude intuir o que seria possível dizer, então, assim ficou.

         No mesmo ano (2009) enquanto tentava praticar o uso do aplicativo Acid Pro passei a experimentar as possibilidades dos plugins VST num teclado virtual. A intenção, dessa vez, era a de preparar uma série de faixas mais eletrônicas com o intuito de serem a trilha antes/após uma apresentação da banda. De modo a tornar todo o conteúdo autoral. Quase sempre há uma trilha ambiente quando a apresentação não toma parte. 

      Um amigo apreciador de música eletrônica disse que ela não possui dinâmica suficiente para esse intento. Isso demonstrou que é preciso conhecer mais de um estilo musical antes de tentar se aventurar a ele. Após junho de 2009, a Falsa Modéstia não se apresentou mais então acabei por engavetar a ideia.

         Para Mosaico de Estrelas, em 2011, a cada duas faixas há um intervalo instrumental. Interregno 8689 poderia ter letra. Nazar Boncuk (mencionada no texto sobre Lives) é outra das composições sem letra desse ano. Passiflora Edulis leva o nome científico do maracujá e foi a primeira composição feita com a craviola de doze cordas. Foi apenas ao fim de 2016, com Vita Brevis que completei uma composição com ela e letra. Aqui, havia o interesse em tentar traduzir sensações.

        Se você chegou até este ponto na leitura, comente se sentiu alguma coisa. Em minhas leituras já reparei que há artistas que fazem uma cama sob a qual a voz se encaixará. Para alguns, é comum trabalhar desta maneira. Até onde vi. Desde que comecei a compor em 2007 essa atividade nunca foi realizada. A palavra. É sempre ela a motivadora dos textos, composições... Meus cadernos também não possuem letras aguardando por melodia. Será que um dia terão? 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Lives - Daron Malakian and Scars On Broadway

"Eu ainda escrevo. Tenho muito material. Tenho uma namorada, com família. Eu ainda estive focado em música nos últimos anos. Eu fiz uma música com o Linkin Park há alguns anos, também. Quando algo vem ao meu caminho, eu faço, mas meu foco ainda é a escrita. Só aconteceu de eu não ter lançado nada, principalmente por estar incerto sobre o que estava ocorrendo com a System. Acabei sem hesitante. No entanto, me ocupo escrevendo. Sou o tipo de cara que, mesmo se ninguém ouvir o que faço, ainda me divirto escrevendo, então eu faço." Daron Malakian em entrevista à revista Rolling Stone, abril 2018.
– Cara, você já ouviu a música nova do Scars on Broadway? 
– Hmm, não sei se lembro dessa banda não.
– É a outra bandado Daron Malakian, o guitarrista do System...
– Ah! Agora eu lembro, já faz uns anos, né?
– Sim, mas dá só uma olhada nisso.

Ele pega o celular, e em um movimento rápido ativa a visualização horizontal, pede que o amigo dê play para não perder nada.

 

– Esse cara é muito louco, adorei o visual e as danças.
– Isso que estou falando, estou mostrando a todos que encontro. Embora, a recepção ao novo material não parece tão partilhada assim, será que em 2008 foi assim?
– Provavelmente, eu também ouvia muito o som desses caras na época escolar mas não segui acompanhando. Nem sei como você ainda vai atrás. De onde vem essa vontade, interesse, curiosidade, não preguiça?
– Acho as melodias criativas, o peso das guitarras tem classe e aquele charme nas referências harmônicas do Oriente Médio. Tudo soa único e ao mesmo tempo familiar. Além do mais, há aquela mescla entre o surrealismo non-sense e o posicionamento político. Eu até tentei fazer uma instrumental com essa influência, ouve isso:



– Acho que se você colocasse umas vocalizações à la Serj, seria mais fácil a conexão.
– Até pensei em fazer algo assim, mas quando gravei não tinha conseguido fazer. Os anos foram passando e eu não revisitei o material, enfim.
– É, até gostei da música, mas você entrou num ponto sobre o Daron que me chamou a atenção. Essa questão política é um ponto. Tomar partido, sabe? Em 24 de abril O Grande Mal completou 103 anos. As manifestações em memória continuam.
– O Daron falou numa entrevista para a Rolling Stone que sua ideia era fazer uma música animada para impulsionar a moral do povo armênio. Algo como "respeitemos os que morreram, mas muitos sobreviveram e quão longe chegaram."
– Em São Paulo mesmo, há milhares de armênios e descendentes. Minha mãe já trabalhou com um. Na real, nem sempre prestamos atenção às origens de quem nos rodeia. A Aracy Balabanian é uma atriz de origem armênia. Os pais dela vieram para cá fugindo daquele sofrimento...
– Quando olhamos assim realmente faz sentido que o Daron tenha se unido com o Linkin Park justamente para uma canção cuja letra dizia que "nós somos os afortunados que nunca encararam a arma da opressão".
– Já faz uns trinta anos que trocaram o nome da estação de Ponte Pequena para Armênia, você é jovem para lembrar disso, mas a ação foi em homenagem e agradecimento aos imigrantes armênios em São Paulo.
– Eu achei o clipe hipnotizante. Vai ter mais?
– Pelo que li, o Daron já estava com essas músicas gravadas desde 2012. Ele levou foi tempo para lançar, parece que foi sua experiência gravando todos os instrumentos.
– É meio o que o Serj fez para o Elect the Dead, não? Gosto da versatilidade desses caras, você deveria investir tempo em outros instrumentos também. Se ele tivesse lançado antes não ficaria essa impressão de vazio composicional tanto tempo.
– Na mesma entrevista que te falei, ele disse que esperou por não saber se o SOAD voltaria a gravar. A banda poderia aproveitar esse material. Algumas músicas do Dictator soam como System.
– Então a banda não volta? Não li nada sobre.
– Difícil dizer parece que no momento os quatro não chegaram a um acordo para se comprometer com esse evento. Tocar juntos é uma coisa,a banda não está brigada, não rolou uma  rusga ou coisa assim. Mas, preparar um álbum novo requer outra especie de compromisso e, atualmente, o Daron é quem está investido na ideia de compor/gravar. Os outros tem outras prioridades agora.
– Vai escrever sobre o Dictator quando o álbum sair?
– Está nos planos. Em 2018 acho que só falei de um álbum. Vamos ver no que dá. Por enquanto é difícil dizer qualquer coisa concreta.

domingo, 22 de abril de 2018

Podia ouvir Drexler

"Então, (sobre Despedir a los glaciares) eu diria que essa e uma das canções mais duras que já escrevi. Porque ela fala sobre uma coisa que já não tem solução, sobre o que vai embora e o que vai se derreter. Quando você perde algo ou uma pessoa é preciso dizer adeus, e não deixar que o medo e a dor façam você esquecer de que também é importante se despedir. Mas há muitos sentimentos ali." - Jorge Drexler em entrevista à Nathália Pandeló Corrêa, para o Tenho Mais Discos que Amigos.

Jorge Drexler em foto postada em sua página no Facebook
Guarulhos, 22 de abril de 2018

         Era ano do macaco a última vez que nos vimos. Nos conhecemos num ano da serpente então, se houver janelas de oportunidade instituídas pelo ano chinês, pode ser nos vejamos em 2025. Dias atrás eu estive num show do Jorge Drexler. Acho que te falei dele no mesmo período em que vimos o Kevin Johansen. Há alguns anos, o Moska me colocou na cabeça que, brasileiros, costumamos dar as costas para nossos hermanos. Passei a ouvir alguns de seus parceiros: Nano Stern, Pedro Aznar... Em conformidade com isso meu pai chegou uma vez me perguntando de um cara ouvido na rádio dizendo hay tantas cosas yo solo preciso dos, mi mi guitarra y vos. Ali conheci o trabalho desse uruguaio, acho que já te falei isso. Pra tentar complementar algo posso dizer que busco essa autossuficiencia. O violão e a voz nunca me bastaram, será que eu demonstrei?
         Mas eu estou escrevendo, pois, creio você podia ouvir Drexler, teria gostado dessa apresentação seja quando calcado no violão ou com a banda completa. Ele contou várias histórias e interagiu com o público sempre que pode. Se ouvir os álbuns você consegue captar o bom humor, enfim, a Casa Natura fica bem próxima ao metrô então não haveriam aquelas longas caminhadas que você acabava fazendo, lembra? Eu gostava de irmos fazendo nosso mapa sem o auxílio veicular. Estávamos sempre em movimento.
    Mais de uma das músicas remeteu a conversas nossas. A música de abertura fala sobre sermos todos pais, netos e bisnetos de imigrantes. Falávamos do resultado da mistura dos lisos cabelos indígenas com o orgulho alemão ou meu sobrenome português e a falta de acesso ao sobrenome espanhol por ausência de documentação comprobatória. Assim como aquela vez à Bragança, poderíamos ir ao Uruguai de ônibus. Já ouviu falar do Cabo Polônio? Ele leva doze segundos para a luz fazer a volta completa, imagina só andar nestas condições numa noite!.. É, estou falando em andar de novo né? Que cabeça a minha. Espera, posso mudar de assunto. O Tó Brandileone do 5 a Seco subiu ao palco também. Eles cantaram Todo se Transforma. É meio Lavoisier a ideia, embora eu tenha dificuldade com isso de "nada se perde" quando a transformação não é do meu agrado. Ainda assim, falando do show, ele me deu vontade de ver algum filme de Eric Rohmer. Sempre víamos filmes mais agitados. Era escolha ou imposição do cinema hollywoodiano? Até vimos longas franceses, japoneses, nunca eram a maioria, todavia.
    Teve algo dito, não recordo se antes ou depois de Pongamos que hablo de Martinez, relativo a essa questão com o tempo levado para agradecer/homenagear alguém ser imposto pelas próprias canções. Ele levou cerca de vinte e dois anos  para desabrochasse uma. No meu caso não levei tanto tempo assim mas é inconveniente mesmo assim, afinal, você já havia mudado de cidade. Custava ter conseguido versos três meses antes? O Carpinejar disse que se não esquecemos alguém é por não termos sido sinceros quando deveríamos, o que você acha? Ter usado nosso nomes verdadeiros naquele texto não significaria nada. Você já informara de sua vida nova no dia de Iemanjá. Tem uma outra música, ele diz que embora todos creiam ter inventado algo seguem sendo as mesmas canções. É o tipo de insight que eu não alcanço. Isso me leva a assistir esses artistas que contam com seu empenho e sua pluma voadora. Inspiração, projeção, um pouco dos dois, creio. Te indicaria ouvir Telefonia mas há mais de um ano não vejo seu nome nas chamadas recebidas, vou tentar amar a trama mais que o desenlace.
     Se você se permitiu chegar aqui, podia ouvir Drexler. 
Beijos,         

domingo, 25 de março de 2018

O Amor Virá

Love Will Come Through foi o terceiro single lançado pela banda escocesa Travis para divulgar seu quarto álbum de estúdio: 12 Memories. O single estreou em 22 de março de 2004. Foi composta por Fran Healy. Ainda que conhecesse os singles Sing e Side, foi apenas quando conheci a faixa Re-Offender transmitida pela MTV Latina que a banda capturou minha atenção. Mesmo minha intenção de um dia conhecer algo de canto gregoriano no mosteiro de São Bento cresceu após ouvir a canção J. Smith. O Amor Virá surgiu de minha vontade de versionar uma das canções que tem uma alegria autocontida. Gosto muito das melodias dessa banda e é uma forma de poder homenageá-los à minha maneira.




O Amor Virá
Versão para Love Will Come Through da banda Travis

Se te conto um segredo
Você guardaria pra si
Sem dizer a viv'alma?
Está a me consumir
Não consigo dormir
E mentir, levou a minha calma

Pois então,
Pegue pra si
Só cuidado 
Com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

Mesmo na encruzilhada
Em meio a estradas
Eu sinto que certo está
Se o que sinto é verdade
Não há faz de conta
Na pomba que ouço voar

Olhe o céu, e tome pra si
Só cuidado com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

O amor virá...


segunda-feira, 12 de março de 2018

Síntese - 5 a Seco

"Sou muito fã não só de 5 a Seco, mas de uma geração de criadores que está espalhada. Em São Paulo está muito evidente, tem uns dez ou doze de uma mesma geração compondo lindamente, fazendo uma música bacanérrima e tal, e isso está espalhado pelo Brasil, em todos os cantos, por isso que eu não acredito quando alguém reclama da música brasileira - a música brasileira vai muito bem, minha gente, eu tenho ouvido tanta coisa bacana, cara. O danado é que, com essa coisa do digital, tudo foi pulverizado, então não existe mais essa coisa de poucos que falam pra milhões. Não, agora é milhares falando pra milhares, é assim. Então, você tem uma dificuldade maior de achar as coisas, mas a tecnologia foi acessível demais pra todo mundo fazer seus trabalhos. Tem muita gente ali fazendo, o negócio é saber procurar” Lenine, em entrevista à André Medeiros para o Monkeybuzz em 2015


         Quando conheci o trabalho do 5 a Seco, minha primeira lembrança foi o show "Os 5 no palco" de 1998. Em que Chico César, Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Marcos Suzano reuniram suas individualidades musicais em uma série de apresentações declarando a força de uma, então, nova MPB. Cerca de uma década depois, a música brasileira apresentava outra renovação, essa, consolidada com Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni. Todos, cantores, compositores e instrumentistas. Cantautores na melhor definição, de modo que, não haja um centro, uma força que responda acima dos outros.
         Eles chegam em 2018 declarando a "Síntese" dos elementos que compuseram suas obras anteriores Ao Vivo no Ibirapuera (2012) e Policromo (2014). Se o primeiro trazia um repertório construído na estrada e calcado nos violões, instrumento de origem de cada um deles, o segundo, gravado em estúdio flertava mais com as possibilidades do estúdio, dos timbres, das guitarras. O que sobra ao terceiro? Extrapolar a construção dos arranjos de maneira minimalista, apostando teclados em teclados e sintetizadores inquietos nos quais os ouvintes (re) descobrem as líricas e o pensamento lógico nas letras dos cinco autores.
Várias das treze canções que compõe Síntese vinham sendo apresentadas pelo grupo, tanto nas apresentações, quanto em vídeos em que os protagonistas munidos de seus violões performavam as composições em seu mínimo múltiplo comum. Olhando a repercussão do álbum em comentários no YouTube, pode se notar, que isso causou um estranhamento para parcela dos ouvintes. Para aqueles que se deixaram surpreender com o lançamento pode haver reações mistas, ainda assim, o resultado é satisfatório.
         O álbum abre com a parceria de Leo Bianchini e Vinicius Calderoni: Na Onda. Com uma letra na qual a estrofe desabrocha como numa matroska triangular (Será/Será você/Será você a sucursal do céu) pode ser cantar o lado positivo de topar com alguém que te dá sorte na vida, e aí, você agarra e não larga. O preenchimento da bateria é um destaque aqui. Pelas tantas a palavra "pasmaceira" tem um quê de Não Tem Paz, do Policromo. Um dos grandes destaques vem em seguida: Ventos de Netuno (Pedro Altério e Pedro Viáfora). A primeira estrofe "Pra poder viver o amor/Tem primeiro que se amar/Se for de verdade/Há de prosperar" já carrega significados com múltiplos, partidas que não se desejam mas nos surpreendem na vida. A guitarra, as palmas e a programação transportam para o turbilhão dessa ventania. Há pesquisas científicas apontando que as rajadas de vento em Netuno podem alcançar velocidades mais de dez vezes mais fortes que as encontradas na Terra. Quantas vezes uma pessoa pode ter uma presença igual?
         Ela, Ele e Eu é uma balada de Ricardo Teté e Tó Brandileone aos moldes de Pra Você dar o Nome. Soa a hit. Brisa é Composição de Vinicius Calderoni que versa sensível sobre a "brisa" de uma companhia de tornar feliz sem motivo. A faixa solo de Pedro Viáfora, Lua Cheia, traz uma das letras mais atuais, sobre a importância de partilhar o bem em tempos que muros são levantados e há medo, falta de alegria e ódio. É um tema presente no cancioneiro brasileiro, talvez com proeminência no rock dos anos 80, a diferença é que a proposta feita ao final (Vem cá, a lua tá cheia, vamos contar histórias...) é carregada de uma boa intenção que pode soar inocente em tempos cínicos, mas é o contraposto preciso.
O Mar Dentro da Concha vem com Leo Bianchini à frente é um groove animado com uma letra com um eu-lírico que se atrasa ao olhar "coisas extraordinárias", tais, o ato de espirrar, o gelo derreter, um clips de papel. Como quem afirma que a tecnologia das presilhas para cabelo é tão impressionante quanto a física moderna ou o mito da caverna.
         De Pedro Altério e Tó Brandileone é a sétima canção: Pensando Bem. Canção discorrendo as faltas e os "se". (Me fez pensar em O Sonho, do Policromo, e é bom constatar que, as canções evocam composições do mesmo coletivo). Tempo de se Amar carrega o assobio da canção anterior e, conceitualmente, pode trazer uma elaboração de Lua Cheia quando o eu-lírico diz que quando enfim saltou no cais e ao invés de muros viu quintais vislumbrou a felicidade. Coisas Demais, de Leo Bianchini, Pedro Altério e Pedro Viáfora é outro ponto de alto do álbum, com uma letra concisa. Dá a impressão de ter sido criada como poema e músicada posteriormente. Discorre, sobre a solidão contemporânea de multidões e silêncios e a vida que nos escapa. Depois, canção de pai e filho, Celso e Pedro Viáfora vem O Dia de Encontrar Você. (Ou muito me engano ou há ecos de Épocas?) curiosamente tensa "Eu sei que era só chamar/Só que não sei seu nome/Tem vezes que ouço assim/Tão tim tim por tim tim/Seu passo atrás de mim/Mas quando eu me viro você some" a faixa tem o trabalho vocal característico e um instrumental que instiga. 
         A trinca final começa com Maneiras e Maneiras, uma canção que me lembrou a produção do álbum Despertador de Léo Cavalcanti, pela forma como trabalha com as intervenções eletrônicas. Tem um riff de guitarra com aquela cara de Ecos do Ão de Lenine. A bateria leva muito bem até o momento do pico com o falsete. Deve ser interessante de observar como é o andamento dela ao vivo. Outra faixa com às guitarras à frente: Antídoto é uma parceria de Pedro Altério e Vinicius Calderoni e também se coloca como Lua Cheia as malezas que nos cercam "Por onde começar, não sei/Simbora descobrir/Um antídoto pra dor feroz/Que quer nos consumir". A meu ver, essa canção é o verdadeiro final do álbum. Com o brado "onde o sonho estiver, estarei". Dessa forma, Canção de Lá, de Léo Bianchini e Vinicius Calderoni soa mais como um epílogo com seus versos construídos apenas com palavras soltas. Melodicamente, é claro, ela é capaz de acalmar os ânimos e concluir a Síntese.
         A soma final é positiva, embora, em primeiras audições, alguns elementos eletrônicos soem fora de lugar, a intenção dos integrantes era renovar um som que, não fosse a inquietude, poderia ficar apenas como uma reprise do primeiro trabalho em estúdio. Quando consideradas outras bandas com uma ou duas forças criativas, o 5 a Seco aparece praticamente como uma banda de "greatest hits". Cada um dos cantautores se potencializa no crescimento conjunto e permite que a identidade do som seja pautada pela mutação. Depois de tese, antítese e síntese, o que virá?

segunda-feira, 5 de março de 2018

Vanguart em Santos

O mês de março está movimentado para a banda Vanguart. No dia 14 de março participarão de  m"Sessions 89" no Z Carniceria. Dia 17 estarão no Teatro Lauro Gomes em São Bernardo do Campo e dia 23 a banda tocará pela segunda vez no Lollapalooza Brasil, um evento com potencial para apresentar o trabalho para um novo público. Essa movimentação teve início no primeiro sábado do mês com um acústico na Arena Club na cidade de Santos. Diferente dos outros shows comentados, repassarei as canções por álbum, do último ao primeiro. Em tempo: Os títulos das composições levam à um clipe.. 
Foto de Renata Custódio @minutodoshow


Faz o que você não fez pela primeira vez

        Beijo Estranho fará um ano em abril. Com o lançamento do clipe Todas as Cores no fim de fevereiro esta se torna a terceira faixa do álbum a ganhar maior exposição. Após tocá-la, a banda relembrou de quando participaram da Virada Cultural Paulista em 2012. Àquela altura, contavam ainda dois álbuns em estúdio. Momentos dessa apresentação podem ser encontrados no YouTube. Em Eu Preciso de Você, Hélio tocou seu trompete com surdina para abrir e encerrar. Ele pontuou a presença de referências à poetas como Drummond, Walt Whitman e Hilda Hilst - se alguém souber qual é a de Hilda me contem, fiquei curioso* - e dedicou aos novos poetas que estivessem presentes. Fernanda Kostchak assumiu o microfone para agradecer a presença do público explicando as Felicidades de poder apresentar as músicas como elas surgiram. As "canções como a banda toca entre eles". Ou mesmo em Lives nas redes sociais como a recente Não Tá no Setlist ou uma em que Fernanda chegou a indicar compositores como Johannes Brahms e Gustav Mahler.
      Quando tocaram E o Meu Peito Mais Aberto Que o Mar da Bahia, houve grande comoção do público que percutiu cada um dos refrões com suas palmas. N'alguns momentos do canto, Hélio emulou um grave no melhor estilo Tim Maia. O quarteto admitiu que o "laralara", tão característico, foi a última coisa que gravaram para o disco e apenas depois de muitos conflitos sobre se deveria ou não entrar. Beijo Estranho encerrou a apresentação cantada à plenos pulmões. Com dois violões, violino e trompete a banda se mostrou em grande momento. A versão de estúdio tem um piano bem forte, no entanto, sua ausência não foi sentida. O violino seguiu causando arrepios coletivos numa música que ainda terá muito tempo de estrada.

O Que Seria de Nós?

         O álbum "divisor de águas" foi representado em peso. Muitos fãs de outrora acharam estranho o calor presente nas canções, outros tantos conheceram ali e se apaixonaram. Fato é, que em maior ou menor grau, muitos se renderam à Muito Mais que o Amor. A abertura foi com Estive. No pré-show, sucessos dos Beatles tomavam a casa. De acordo com a banda, a intenção era que entrassem no clima. O multi-instrumentista David Dafré foi apresentado como o músico que mais trocaria de instrumentos no show e com a sofisticação habitual (bandolins, violões de seis e doze cordas, lapsteel, clarinete, meia-lua, além de backing vocals! Versatilidade define). Quando tocam Demorou Pra Ser fica fácil perceber como essas canções lançadas em 2013 seguem angariando público. As letras evocam emoções identificáveis de cara. Como um casal em início de relação trocando juras: antes que eu soubesse já estava com você ou você é a vida da minha vida, por exemplo. Eu Sei Onde Você Está é sucedida por uma versão exclusiva de Reginaldo para a romântica Mesmo de Longe e ao final de Olha pra Mim, Hélio aconselha ao público guardar algumas fichas para apostar em si mesmos e não colocar todas as fichas no "outro alguém". Pelo Amor do Amor entregou à Santos dois grandes momentos. Um quase incidente no palco com Fernanda rendeu o alongamento do solo, como ouvido abaixo:


         As versões ao vivo são construções vivas e isso as torna um modelo ideal. Por mais a ouçamos nos discos, LP's ou streamings é no palco que as coisas se transformam. Como o poema declamado por Hélio em seguida:

"Um sinal do céu. Um telefone que podia tocar.
Como um dia em que, pela porta de trás da casa vazia,
Você ingressaria e me veria confuso por te ver.
Noites sozinho. Noites sozinha, lembra?
Tudo antes de ser. Eu tinha outro nome, você também.
Até que um dia te vi na rua e algo reconheci."

A menção à Valsa Brasileira de Chico Buarque dá mostras de quão abrangentes são as influências dos integrantes. Fechando os trabalhos do terceiro disco, entrou outra composição que figura na memória afetiva de muitos: Meu Sol.

O Que eu Não VIvi, eu Tô Indo Ver!

         No público, as mais diversas histórias. Haviam moradores da cidade ansiosos para rever o grupo. Havia quem estivesse à trabalho. Até mesmo quem já vivera na cidade e encontrou, no show, motivo para fazer as pazes com o lugar. Havia gente das proximidades: Itanhaém, Cubatão. Gente que precisaria correr para chegar à Praia Grande. No meu caso? Estava pela primeira vez na cidade que conhecia apenas por conta de Roberto e Erasmo, Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr. A questão é que centenas de pessoas estavam reunidas em virtude de admirar a arte daquele divertido quarteto no palco da Arena.


Proximidade da Plateia
         Outra parte da apresentação foi representada pelas composições do álbum Boa Parte de Mim Vai Embora. Para uns obra máxima do grupo, para outros "o disco deprê", que não deve ser nomeado.Começou com ...Das Lágrimas, primeira composição com as cintilantes linhas de Fernanda. Passando pela visceral Nessa Cidade que, como sempre, me colocou a refletir. Reginaldo comentou que no período "a gente não sofre mais nem por antecipação nem por amores que não valham a pena". Essa é justamente a questão.
        Quando se faz o juízo desse valor agregado? É preciso traçar rotas outras, forjar novas memórias em caminhos desconhecidos por aqueles que já não são dois? Além de divagar, talvez, me repito: quando do lançamento do segundo disco ela se mostrou uma das favoritas na apreciação melódico-poética. Anos depois, situações descritas na letra faziam parte de minha vida de forma que, mesmo presente no show de abertura da turnê atual no Teatro Paulo Autran, fui incapaz de escrever o que fosse relativo. Por ser, naquela noite, afetado emocionalmente. Já em Santos, o violão de doze cordas me manteve atento à nuances da música fluindo. 
         Numa matéria de Marie Eliis publicada no Medical News Today em 2013 dizia que pesquisadores no Japão concluíram que a audição de canções tristes pode levar os ouvintes a experimentar emoções ambivalentes. Uma vez que, a emoção induzida pela música, não é como a induzida por eventos pessoais. Esse pode ser um dos motivos para alguns artistas deixarem algumas composições de lado: uma vez que sua relação é direta e se entregar em canções surgidas de experiências traumáticas pode causar desconforto contrário ao êxtase do momento da criação. Voltando à Santos:
         Faixa melancólica contra a apatia generalizada Se Tiver Que Ser na Bala, Vai e ela responde muito bem ao formato, uma vez que a leveza do arranjo ressalta os três atos poéticos. As canções do segundo álbum tem daquela noção morriseyana de Rubber Ring e isso se amplifica a cada reencontro. Penúltima canção do show. Mi Vida Eres Tu é o caso da canção de melodia upbeat esperançosa e um refrão em espanhol de uma conclusão, não necessariamente, positiva. Um doce-amargo simples apenas se analisado superficialmente. Os versos de A Noite Mais Linda do Mundo de Odair José sempre surgem para nos colocar os pés no chão. Nem tudo são mágoas, tampouco flores.

O Que Importa é o Que te Faz Abrir os Olhos de Manhã

         O homônimo de estreia contou com apenas duas canções em meio ao repertório, mas não por isso menos significativas. Para Abrir os Olhos (o link é para uma gravação de 2007 do canal de Ricardo Spencer, que, entre outras afinidades dirigiu os clipes de "Mi Vida Eres Tu" e "Meu Sol".) e Semáforo. Sobre a última, Helio comentou ter sido a primeira canção que compuseram em português, antes, tinham mil motivos para não dizer a verdade. É isso. A verdade está em sempre seguirem seu caminho em frente. Como se olhar para trás os fosse transformar em estátuas de sal. A banda poderia ter investido num projeto revisionista pensando nos dez anos do primeiro de estúdio em 2017, entretanto, na contramão disso, comemoraram o pulsar da banda com um álbum que reuniu expoentes dos três primeiros e apontaram novas possibilidades sonoras. Terminar o evento em conversas informais com os integrantes da banda e do Sindicato, conhecer outros fãs (até uma próxima, Douglas) só tornou o evento mais especial. Naquela manhã todos os presentes abriram os olhos de manhã e aguardaram o anoitecer como fosse a noite do primeiro encontro. E, mais uma vez, era. 


Da Esquerda para a Direita: Reginaldo Lincoln, Claudia Almeida, Fernanda Kostchak, Thais Dias, David Dafré, Thales Salgado, Hélio Flanders e Renata Custódio

*Fui informado posteriormente pela Cláudia que o trecho de Felicidades faz menção à Do Desejo, uma série de dez poemas, lançada por Hilda em livro homônimo em 1992. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Kafka à beira-mar

"Kafka à Beira-mar contém uma série de enigmas, mas não provê soluções. Em vez disso, diversos desses enigmas se combinam, e por meio de sua interação a possibilidade de uma solução toma forma. E a forma que a solução tomará será diferente para cada leitor. Para colocar de outra forma, os enigmas funcionam como parte da solução. É difícil explicar, mas esse é o tipo de romance que eu me disponho a escrever." Tradução de trecho de uma entrevista originalmente publicada no site do autor.
Haruki Murakami (Divulgação)
        Faltam poucos minutos para o fim do dia 12 de janeiro. Aniversário do autor Haruki Murakami. Me pego a pensar: que eu tenha lido um autor japonês pela primeira vez apenas com vinte e dois anos me é até estranho. Tendo o primeiro contato com obras nipônicas por meio dos animes da finada TV Manchete e o contato com a cultura japonesa por meio da proximidade com a instituição religiosa Perfect Liberty na infância, talvez eu devesse ter buscado esse tipo de leitura antes. Certa vez passava pela LIvraria Cultura à procura de algo distinto e me deparei com essa capa:
Edição da Alfaguara, exemplo de um belo projeto de design gráfico.
         Nunca ter ouvido falar em Murakami, naquele momento, me fez pensar se tratava de um ensaio relacionado à Franz Kafka. Algo como qual seria a influência em sua literatura caso vivesse num local mais ensolarado - afinal, sabemos o que Meursault foi capaz de fazer por conta do sol. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma narrativa que misturava corvos, profecias edipianas, universos paralelos, pessoas que conversam com gatos e até mesmo Johnny Walker e o Coronel Sanders (!). Esse último se tornou ainda mais relevante, pois, recém inaugurado o Mooca Plaza Shopping em São Paulo, era um dos poucos locais na cidade em que se podia encontrar um KFC então criava um senso de proximidade com a personagem histórica.
     Indo além, conhecer o "garoto de quinze anos mais corajoso do mundo" inspirou reflexões de um passado de tempestades em copo d'água - tá na cara, que esse copo é meu e é minha a tempestade. - tão simples se identificar com esse tema. O livro carrega intertextualidades que nunca me abandonaram, tais, responsabilidades tem início em sonhos, de Yeats. Um dos pontos da leitura a que mais detive minha atenção foi a canção composta pela Srta Saeki que carrega o mesmo título do livro. Uma canção descrita como capaz de comover muita gente. Aos dezenove, uma tímida garota interiorana pensa no namorado distante e escreve um poema, depois compõe uma melodia para si mesma. Buscando aquecer o próprio coração... quantas vezes me vi no lugar dessa personagem? quantas vezes quis ser eu mesmo a compor uma melodia para tal poema? Perdi as contas.
       Ainda eu não toque piano, o ponto mais forte para me impedir de tentar compor a melodia descrita no livro são os dois acordes existentes na transição de temas. Nunca me decidi como soariam. Até já encontrei no YouTube vídeos de pessoas que se lançaram ao desafio e compuseram melodias sólidas. Mesmo assim, ainda queima a esperança de que um dia, seja eu a alcançar meu próprio ideal estético para essa canção. Murakami teve um insight de que poderia escrever aos vinte e nove anos. Ainda tenho tempo. Ele está apenas quarenta e um anos na minha frente (#41). Que venham mais livros, e muitos anos de vida!

Kafka à beira-mar (2002)

Você se situa na beira do mundo
E eu, na cratera de um vulcão extinto;
E em pé à sombra da porta,
Perfilam palavras cujas letras se perderam.
Lagarta adormecida que a lua ilumina,
Peixinhos que chovem do firmamento,
E do lado de fora da janela
Soldados de espírito decidido.

(Refrão)
Numa cadeira à beira-mar, Kafka
Pensa no pêndulo que move o mundo.
O ciclo espiritual se completa,
E da esfinge que não vai a lugar algum
A sombra em faca se transforma
E trespassa seus sonhos.

Os dedos da menina que se afogou
Tateiam e buscam a pedra da entrada.
Ela arrepanha a barra do vestido azul
E contempla Kafka à beira-mar.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Victor & Leo - 25 Anos de Sucessos

"Beleza, juventude e vozes bonitas, que não agridem e penetram em espirais delicados em nossos ouvidos. Ouvindo Victor e Leo ninguém se sente abandonado nem constrangido porque a sensação é boa para todos. Nada é feio. (...) Percebo também um certo “espírito de Gonzagão” que ronda deliciosamente muitas das canções da dupla. Estão ali a estrada, o sertão, o fogão rústico, a lagoa e sempre alguém a esperar. (...) Victor e Leo é pra quem está de bem com a vida ou para quem está querendo chegar lá. “Boa Sorte Pra Você” é para as novas gerações de brasileiros que buscam os valores que definirão a estética dos próximos muitos anos.
Canções de felicidade são e sempre serão o melhor caminho."  Excertos do texto de Renato Teixeira sobre o álbum Boa Sorte Pra Você, 04/11/2010
Victor & Leo (foto da página oficial da dupla no Facebook)
          Se o texto passado ( Amor Infinito) falava de uma canção inspirada num personagem do livro No Colo dos Anjos de Leo Chaves, nada melhor que falar um pouco do show que permitiu que eu conhecesse o livro. Sem mais delongas:
         Qual a melhor forma para começar um show comemorativo que usar o material novo? Foi assim que a dupla Victor & Leo iniciaram o primeiro de dois shows realizados no Citibank Hall. A introdução instrumental, presente até em dvds da dupla, colocou o público em expectativa até surgirem os primeiros acordes de Senhorita, lançada em maio de 2017, e a maior parte da platéia passou a cantar na mesma energia nas canções seguintes. Com uma letra que se passa na imaginação do eu-lírico é interessante como a faixa mantém o clima 'pra cima'. Hoje não há como usar a palavra senhorita sem imitar a letra, ao menos no meu caso.
         A balada de Marcelo Martins e Sérgio Porto, Na Linha do Tempo, veio em seguida. Seu título caberia muito bem para essa nova tour. Há algo no arranjo dela que remete a Where is the Love? Sucesso do Black Eyed Peas de 2003. Com Fotos, a banda salta para 2007 e em seguida está em 2009 com Não Mais. Ainda que existam diferenças de direcionamento nos álbuns de estúdio, as composições da dupla transitam entre si tranquilamente, um atestado de sua  assinatura musical. De seu terceiro DVD ao vivo vem as canções seguintes: Quando Você Some e Não me Perdoei. Sempre me perguntei se Victor compôs a primeira tendo em mente que a gravaria com Zezé de Camargo e Luciano, afinal, a canção Dou a Vida por Um Beijo tem em seus versos "morro de saudades quando você some". A segunda teve um dos bons solos de guitarra na apresentação.

        As canções seguintes Nada Normal, O Jogo da Vida, Não Precisa (que em 2011 fez parte da trilha sonora da novela Morde e Assopra) trouxeram atmosfera próxima à do primeiro álbum ao vivo. Leo aproveitou Lembranças de Amor para cantar um refrão com a letra em espanhol como lançada em 2009. Sob os acordes introdutórios de Meu Eu em Você, Leo cumprimentou o público expressando sua gratidão pelo momento especial. "Obrigado São Paulo! Cantem, dancem. Quebrem tudo, no bom sentido.". A apresentação contava então pouco mais de meia hora. A maior parte dos álbuns de estúdio da dupla tem a duração de cerca de quarenta minutos. Dessa maneira era como ter ouvido um CD inteiro.
         Na tradição de coveres de canções de fora do universo sertanejo a dupla tocou Só Hoje, uma das mais famosas baladas da Jota Quest. As composições seguintes foram de Na Luz do Som: O Beijo que Eu Mais Quis tem um arranjo que remete ao acústico presente em Razão do Meu Astral. A letra carregando uma terna declaração de amor, retratando um eu-lírico tão tocado pelo sentimento real que pensa ser uma ilusão. A faixa que leva o nome do álbum e é seu segundo single tem um grande trabalho de guitarras e seus versos "na luz do som da sua voz/ em paz meu coração se vê/ a noite vem na escuridão/ de não ter você aqui outra vez" são um ótimo exemplo da sensibilidade artística da dupla para traduzir situações complexas sem pesar no drama. Isso também é percebido no medley de Boa Sorte pra Você e Ao Vivo e em Cores. Quando tocam um pequeno trecho de Tem que Ser Você há a comoção da platéia que tem o prazer de poder cantar junto com os ídolos, como quando tocam Fada. Logo depois, Leo saca seu smartphone perguntando se pode gravar um vídeo - claro que ninguém se opôs. Essa dinâmica de instagramar instantes permite uma identificação do público com os artistas num momento divertido do show.
         O Granfino e o Caipira surge no repertório em versão reduzida o que é uma pena por conta da narrativa da letra que vai evoluindo uma história. A seguir vem Anunciação, de Alceu Valença, num trecho do show capaz de transportar a todos para a atmosfera dos bares. Começando com Boteco de Esquina e seus "causos" sobre a vida de quem canta na noite e tem em sua letra a melhor deixa para trazer a canção seguinte: "Desligamos o som eram cinco pras seis, e um bebum pediu Fio de Cabelo outra vez. Vamô atender! Quando a gente ama qualquer coisa serve para relembrar." Depois da parceria de José Marciano e Darci Rossi vem os sucessos Telefone Mudo, 60 Dias Apaixonado e então Estrada da Vida de Milionário e José Rico. Outra homenagem da dupla às suas referências é com Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira. Curiosamente essa canção foi gravada por Gal Costa também quando ela comemorava vinte e cinco anos de carreira em 1990.
        Belo blues em homenagem à cidade em que cresceram (Abre-Campo, MG) Momentos traz uma bela mensagem para reflexão. Quando pesquisamos acerca das diferenças entre a música caipira e a sertaneja, a falta de variação temática da segunda sempre surge como um de seus pontos fracos. Por toda obra de Victor & Leo se pode perceber que vão além do "pop romântico". Várias de suas composições como Deus e Eu no Sertão, Vida Boa, Vou pra Roça, Lem Casa, Sem Trânsito, Sem Avião, Tudo Bem e, mais recentemente, Valsa do Vento tratam de temas rurais e existenciais sempre com qualidade. Falando em qualidade, ela já era perceptível para críticos de música, como nesse excerto do texto de Marcus Vinicius do Blognejo em outubro de 2008:
"As maiores críticas dos profissionais da música contra os sertanejos giram em torno das características mercadológicas do estilo. Nos anos 90, a música sertaneja era feita para dar dinheiro, acima de tudo. Qualidade não era o principal objetivo, apesar do talento dos cantores, que era fenomenal. O diferencial de Victor & Leo é o fato de que eles não fazem músicas boas para serem sucesso, mas são sucesso porque fizeram músicas boas."
      A divulgação recente da composição Cantor do Sertão segue a linha bucólica e aumenta a expectativa para o DVD de mesmo nome que tem previsão de lançamento para 2018. A assinatura musical da dupla permanece seja quando agregam elementos de reggae, rock ou eletrônica em sua música. Entre Deus e Eu no Sertão e Vida Boa, Victor assumiu o microfone para falar do período turbulento vivido no primeiro semestre e como foi acolhido por amigos próximos na travessia.
         O segundo blues da noite veio em outra composição do álbum mais recente: Louco por Você, que além de contar com mais um solo de guitarra inspirado tem em sua letra uma bela descrição de alguém apaixonado a ver seu amor dormindo. "E então você solta aquele sorriso seu/ se desperta pra mim/ E quem começa a sonhar/ Sou eu". O último cover da noite é o sucesso da dupla goiana Chrystian e Ralf: Nova York. Com direito a uma jam instrumental e Leo surgindo de chapéu para a interpretação enquanto o caminhão da letra era projetado no telão ao fundo. A parceria de Leo e Marcelo Martins, 10 Minutos Longe de Você vem e faz pensar se um show sem mesas não seria mais propício para as faixas mais dançantes. Apesar do número de execuções no decorrer dos anos, um de seus primeiros sucessos continua gostoso de ouvir, Amigo Apaixonado antecede a faixa de abertura do álbum Viva por Mim: Tudo com Você.
         Em meio às guitarras da introdução, Leo agradece ao Citibank Hall e à Gazeta FM , que divulgou o show em promoções, e seguiu apresentando a banda de apoio que recebeu os aplausos da platéia calorosa. Nas guitarras, Beto Rosa. Alexandre de Jesus na percussão. Thiago Correia no contrabaixo. Teclados e Sanfona, André Henriques e Jander Paiva, respectivamente e na bateria André Campagnani. O grupo acompanha a dupla há anos e dão o suporte essencial para os arranjos. Fechando a noite, uma das canções mais emblemáticas da dupla: Borboletas. Música que, entre outros feitos, recebeu o Prêmio Musica Digital na categoria música pop mais vendida. Ganhou uma versão da banda holandesa Kim e foi a cifra mais buscada nos vinte e um anos do site de música Cifraclub. O que demonstra o grande número de pessoas interessadas em aprender à tocá-la.
         Esse foi um ótimo show, a dupla passou por sua discografia, apresentou canções do novo trabalho, homenageou influências e ainda deixou dezenas de sucessos de fora. Tocar mais de trinta músicas em duas horas e ainda deixar um gosto de quero mais não é para qualquer um.

A arte de Victor & Leo e eu:

        Os irmãos criados em Abre-Campo (MG) estão unidos em música há um quarto de século. Embora, eu os tenha conhecido há dez anos. Em 2007 eu trabalhava numa banca de doces no terminal rodoviário de Arujá, com o ponto embaixo da caixa de som da loja de cds. Por conta disso os dias eram passados a ouvir as escolhas dos funcionários dela. Muitas das vezes o álbum Em Foco de Amado Batista, O Forró Cintura de mola. Mesmo o álbum Lovy Metal vol. II dificilmente era tocado além das primeiras faixas (Is this love? e Wind of Change). O álbum que era tocado na íntegra, era o primeiro Ao Vivo que havia sido relançado pela Sony BMG à época. 
         É importante salientar isso justamente por Victor & Leo ser um ponto fora da curva em minha apreciação musical. Naquele mesmo ano, haviam lançamentos de bandas que eu já ouvia como Capital Inicial (Eu Nunca Disse Adeus) e Engenheiros do Hawaii (Acústico Novos Horizontes) e também álbuns de artistas que eu passaria a acompanhar: Lobão (Acústico MTV), Nação Zumbi (Bossa Nostra) e Vanguart (o primeiro álbum, homônimo). A música sertaneja nunca fora foco de uma apreciação contínua. Haviam, sim, canções de Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano, Edson e Hudson que eu conhecia. No ensino médio uma das canções que os colegas cantavam com maior empolgação nas rodas de violão era Deixa (Bruno e Marrone). A proximidade com canções caipiras, mais próximas à raiz, era feita apenas ao assistir programas como o de Raul Gil e o Viola, Minha Viola. Dessa forma, meu maior referencial sempre foi a matriz romântica do estilo.
         O site oficial descreve os irmãos como uma dupla folk brasileira, com um estilo que mescla música sertaneja de raiz, pop e rock. Essa união provavelmente foi o que chamou atenção, unida a enorme carga autoral presente em seus álbuns. Depois do lançamento de
Borboletas - ainda hoje um de meus álbuns prediletos - tive certeza de que eram uma referência musical para mim. Além de servirem como porta de entrada para um estilo musical que carrega muito preconceito pela associação estigmatizada do termo caipira. No talento de ambos reside a universalidade da música e isso é inspirador.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Amor Infinito

"Os verdadeiros artistas não são somente aqueles que estão em cima do palco, mas também aqueles que se aventuram pela vida." No Colo dos Anjos, Léo Chaves
Foto: Andree_Nery (iStockphoto)
         No Colo dos Anjos (Editora Gente, 317 p.) foi uma grata surpresa descoberta no show de Victor & Leo no Citibank Hall dia oito de dezembro. Pude ver a dupla com meu pai graças à rádio Gazeta FM - e as ligações de meu pai, claro. Ao adentrar o espaço me deparei com um estande do primeiro livro de Leo Chaves. "Puxa! Ele escreveu um livro?! Preciso tê-lo". Estava convicto de que Crônica do Pássaro de Corda seria minha última leitura do ano, abri uma exceção pela curiosidade crescente e, não me arrependi. 
        A narrativa é envolvente. De cara, conhecemos a situação do jovem astro Bruce Vilanova e a cada capítulo vamos conhecendo mais dele enquanto refletimos acerca de nossas próprias escolhas e conceitos. Bruce é um artista no auge que vive um momento delicado de sua carreira e nos depararmos com ele favorece nossa empatia. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, diria Caetano. Martin é um artista renomado que surge para mostrar ao jovem que sempre é tempo de renovação. Através de uma série de treinamentos que o ajudarão a utilizar o poder de sua mente e conhecer melhor a si mesmo, à sós e em sua relação com os outros.
           Para os fãs de Lost, a dinâmica de Bruce e Martin pode ecoar ao episódio sete da primeira temporada em que Locke explica a Charlie sobre a luta que a mariposa precisa realizar para se fortalecer e sair de seu casulo. Leo é capaz de conduzir a história sem soar apelativo, seja com os efeitos da fama ou da abstinência. O fato de ser um artista renomado o permite desmistificar os bastidores da fama e, por isso, as personagens serem uma dupla de artistas favorece em muito a construção de alguns dos conflitos.
          São vinte e oito capítulos que podem ser encarados como um álbum duplo. Sem spoilers: para aqueles que já ouviram o álbum Na Luz do Som o livro conserva uma bela surpresa. Então, vocês se perguntam: qual a razão do post se chamar Amor Infinito? Em determinado ponto da o título é mencionado como uma das canções de Bruce Vilanova. Lia no ônibus e experimentei cantar uma visão desse sentimento. Quase instantaneamente os primeiros versos surgiram com o que viria a ser o refrão. Mesmo desafinando, esse foi o resultado que alcancei, dá para ter uma ideia:
Amor Infinito (2017)

Vejo seu rosto nas fotos
Um riso que poderia ser nosso
Ah! Se eu tivesse uma chance
De escrever nosso romance

Te mostraria, o futuro
Feito dos sonhos feitos a dois
Te apoiaria em tudo
Sei é tão fácil falar

O sol em nosso anelar, é tão bonito
Enlaçamos mãos temos um lar
E o amor é infinito
Pressinto um beijo doce de se flutuar
Nada é capaz de segurar
Um Amor Infinito

Assim será nosso mundo
Pelos caminhos o petricor
E em cada gota de chuva
Um arco-íris de dou

O sol em nosso anelar, é tão bonito
Enlaçamos mãos temos um lar
E o amor é infinito
Pressinto um beijo doce de se flutuar
Nada é capaz de segurar
Um Amor Infinito
         ALERTA DE SPOILERS!: Num momento terno do livro, Leo mostra a letra de música. Não pude deixar de pensar que, sendo a ansiedade o mal do século, eu fora acometido por ela. Tivesse eu aguardado algumas dezenas de páginas teria conhecido a verdadeira Amor Infinito. Que reproduzo aqui:

Amor Infinito
(Composição de Bruce Vilanova presente em No Colo dos Anjos, de Leo Chaves)

Lobos internos me devoram
Mastigando sonhos, fome de amor!
No escuro, caminhando sem chão
Um caminho pra dois corações!

E nessa estrada bem distante
Se arrastam minhas emoções!
Não aprenderam a dizer não!
O amor vem na mesma direção!
Uma nova jornada adiante!
Eu não me refiro a ilusões!
A luta é por você e com você!
Pra então o dia nascer bonito
Num toque de mágica,
Num amor infinito!
Amor Infinito

Me agarro apenas em sonhos!
Seria real em nosso mundo?
Eu não deixaria você partir!
Minha felicidade iria junto!

E nessa estrada bem distante
Se arrastam minhas emoções!
Não aprenderam a dizer não!
O amor vem na mesma direção!
Uma nova jornada adiante!
Eu não me refiro a ilusões!
A luta é por você e com você!
Pra então o dia nascer bonito
Num toque de mágica,
Num amor infinito!
Amor Infinito


       Ainda assim, por já ter composto minha própria versão. Fiquei contente com as palavras de Martin Blumer na p.124. Quantos livros inspiradores vocês leram neste ano? Há várias portas para reflexão nas páginas do livro de Leo Chaves. Tenho a impressão de que o revisitarei esses personagens de tempos em tempos.
"- Bruce, já sei que você escuta, na maioria das vezes, canções ligadas a seu gênero musical. Entendo que existe um mercado, já vivi tudo isso, mas comece a experimentar de outras nascentes e veja se elas, de alguma forma, poderão acrescentar algo a seu universo artístico. Eu acredito que sim, pois aqui tem muita essência. É importante conhecer as raízes de outros estilos. Sua música pode ficar extremamente rica e ganhar ainda mais identidade."