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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Ikiryou EP

“Esse tipo de fantasma é chamado de ikiryou, ou seja, “espírito vivente”. Não sei quanto aos demais países, mas no Japão há muitos exemplos disso na literatura. A história de Genji está povoada de Ikiryou. Nesse período Heian (séculos IX a XII d.C), ou seja, no universo espiritual do povo desse período, as pessoas eram capazes de se transformar em espírito ainda em vida, viajar pelo espaço e realizar seus desejos.” Kafka A beira-mar de Haruki Murakami, capítulo 23, p. 276, tradução de Leiko Gotoda 
Ilustração: Thales Salgado

     Deparei-me com o conceito de “espírito vivente” pela primeira vez quando lia Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami e neste ano em que o distanciamento social é essencial ele me veio a mente. A metamorfose em espírito para pairar, intangível, sobre os pensamentos de outrem e retornar a mim pintado por outras vozes. Estas composições em voz e violão sempre estiveram sob o título Ikiryou EP. 
     O E.P. - Extended Play - no título surgiu em vontade de imitar os ídolos (como o Abbey Road EP dos Red Hot Chili Peppers) e sentindo, à época, que não passaria de cinco ou seis faixas. No decorrer de sete meses, o conceito foi fechado com as onze faixas a seguir, com links para cada uma delas: 

1. Beleza Parasita (letra de Fabíola Passos Almeida) 
2. Tudo Outro Agora (letra de Anderson Bezerra) 
3. Silêncio (sobre poema de Kariny Camargo) 
5. Ofício das Horas (sobre poema de Renato Bicudo) 
6. Concreto-Confronto (montada com um conto de Daiany Pontes)*
7. Identidade (letra de Fabíola Passos Almeida) 
8. Muitas em Mim (letra de Fabíola Passos Almeida) 

     No início, trabalharia apenas com textos com que tive contato de 2019 para cá, entretanto, quando me deparei com o poema de Kariny de 2011, não resisti musicá-lo. É sempre um exercício musicar versos de pessoas que conheço, independente do nível de intimidade. Mesmo se conheço os gostos musicais das pessoas com quem estou fazendo a parceria, não tenho como emulá-lo. A canção sempre se imporá como bem entende e caberá a mim, tentar traduzir uma parte na outra parte, como diria o poeta. 
  O pensamento para a capa era de mostrar uma alma pousando no corpo de um personagem deitado, como acabasse de retornar. No fim das contas, ainda que haja, no primeiro plano, uma figura deitada, a figura ao fundo, mesmo antropomórfica, ficou feia e em nada refletia o que eu tinha em mente (já subconscientemente, eu já não sei).

*As faixas marcadas contém ilustrações da artista Isabella Proença que emprestou sua sensibilidade para transpor ideias das canções em imagens. Por vezes, extrapolando o conceito inicial, todas elas são obras que merecem ser vistas mesmo sem a letra ou música.

sábado, 26 de dezembro de 2020

A Equação do Hiato

“Você não pode medir a afeição recíproca de dois seres humanos pela quantidade de palavras que trocam.” – Milan Kundera, A identidade

A Equação do Hiato (2020)
Letra e Música: Thales Salgado
Baixo: bob

Esta conversa começou
Somente há treze anos
Tenho para mim, não acabou
E, para isso, não há planos
Longe de mim, tentar prever
A sucessão dos fatos
Com o tempo, estamos à mercê
Urgir? É descompasso
Notícias quase disponíveis
Hiatos mezzo calculados
As redes, nem sempre, são críveis
Só iluminam um dos lados
Ilham segundos aprazíveis
Legam os gritos, enjaulados
Vem e vai: procrastinação
À morte digo: Hoje não"


     Uma mensagem em 26/08/2020 me fez começar a pensar em uma letra que comentasse “impossibilidades quânticas” dentro de minha visão no presente. 
     Já ouvi falar que qualquer previsão é falha (seria Kundera novamente?) e, seja quem for o autor, deve ter acertado. Como o verso “hoje eu sei só a mudança é permanente” que conheci com a Engenheiros do Hawaii. 
    Podemos acreditar que há certas verdades pétreas e, de repente, perceber que alguma chuva paulatinamente a esculpiu em formatos contrários à nossas intenções. Ainda assim, como criado pela ficção e me preparando para uma (possível, provável?) decepção com o próximo Matrix, me pego me ancorando também em alguns de seus temas como a “escolha” e a “crença”. Escolho acreditar que algumas coisas podem não ser eternas, mas nem por isso precisam acabar durante uma vida. 
     No dia 02/09 compus em minha craviola a melodia. Isso facilitou para que pudesse tentar encaixar os versos posteriormente. Como em 26/09 ainda me faltavam doze versos me coloquei a pescar referências na linha do tempo de uma rede social azul. 
    Terminei de escrevê-los na noite do dia 1/10 e, quando mostrei os versos a bob, ainda não tinha nome. Estruturalmente, os enxergo como um espelho/continuação temática de Canto de Duas Cidades De uma conversa com Kariny, veio a sugestão de chamá-la Hiato. Já havia musicado um de seus poemas de sugestivo nome Referência mas uma palavra apenas não bastaria para esta canção que viria a fechar o Ikiryou EP. Até haveria sentido, o álbum já continha uma Silêncio e uma chamada Identidade. 
Ilustração de Isabella Proença 
Sobre uma foto de 2011
(tempos pré-isolamento)

     No dia 03/10 me decidi por A Equação do Hiato, forma de homenagear conceitualmente ao compositor, produtor e multi-instrumentista Arjen Anthony Lucassen, criador de The Human Equation. A referência a frase de Syrio Forel surgiu na letra como uma negativa ao fim de uma conversa. Se pode se dizer “Hoje não” ao deus Morte, também se pode escolher que uma conversa vai continuar, enquanto seja de comum acordo de ambas as partes. 
    Sem acesso à melodia, a psicóloga Fabíola Passos comentou que a letra “sintetiza muito bem essa experiência que a gente vem vivendo de contato fragmentado, mediado pelas redes”. Foi curioso pois, só assisti ao Dilema das Redes finda a composição, no dia 04 de outubro. De todo modo, vinha conversando sobre as reações das pessoas a ele já há algum tempo. Sendo este um ano que praticamente obrigou os contatos a serem realizados na esfera virtual, todo este conceito do digital já vinha escoando em algumas letras como a de Tempo (que tem entre seus versos: Algoritmos sem verão/Algoritmos passarão/Darei vazão: A vida é um átimo!). 
     Ainda que eu tivesse intenção de manter a melodia em segredo por alguns meses (ela só seria postada em dezembro) a cantora e compositora Paula Lima pode ouvir uma versão voz e violão e, obviamente, bob teve acesso para que pudesse desenvolver a linha de baixo. 
     A ideia era, como vem sendo com as tirinhas, fazer um trabalho ‘just for fun’, a música fica no mesmo ciclo por praticamente sua duração total, saindo apenas no acorde final. Poucas horas depois ele veio com uma linha fluída, que não se fincava nas cabeças das notas que eu estava tocando. Sem essa experiência coletiva a música não existiria como se apresenta, afinal, coube a bob o trabalho não só de criar a linha de baixo como editar e sincronizar as duas faixas no vídeo de apresentação. Essa foi, provavelmente, a primeira união formal deste duo desde em onze anos, quando cometeram um cover de 3x4 que está perdido na rede.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Basta olhar bem

 “É fácil prever depois que aconteceu, mas a moral da escrita, para mim, é que quando você está se sentindo amedrontado e nervoso sobre algo e você está bastante convencido de que pode ser um grande desastre, é exatamente a ideia que você deve seguir.” – Damon Lindelof, em entrevista para Emily Zemler, da Esquire, em 7/05/2014

De volta à ilha em arte de @isabellaproencart

 

Basta Olhar Bem (2020)
Letra e Música: Thales Salgado

Boa noite meu amigo
Como vão seus sonhos?
Ainda que te veja em vídeos
Parte, só suponho
Que, por vezes, é corrida a vida
Divididas vias, sei

Gosto de ver-te assim, feliz
E sem amarras
Mesmo sem objetivos
Ou imensos planos
Que possamos estar sempre além
De um sinal fechado

Eu sei
Que a saudade é só uma palavra
Talvez
Ainda nos vejamos numa estrada
De som...

Mesmo a gênese oculta
Já que todos vem de algum lugar
Saiba: mesmo sem perguntas
Que seja natural falar

Copiamos os sentidos
Para falar de amor

   O embrião de Basta Olhar Bem surgiu ao fim de 2016. Á época, estava retomando as composições após um hiato criativo de quase três anos. Não deve ser coincidência que, após ouvir a composição de Bob: Como pode ser verdade? Alguns pensares começaram a ebulir. Ainda assim, há sempre mais ideias que canções.

   Aconteceu quase da mesma forma que Canto de duas cidades levou tempo para tomar forma. A diferença? Por qualquer razão, o registro foi feito fora do moleskine habitual. Encaminhei via WhatsApp e a canção, aí com cerca de 1 minuto, cumpriu sua primeira função. Mas ela acabou não fazendo parte do que veio a se tornar o “Nada há de novo sob o sol”.

    Com o passar dos anos, veio a intenção de retomar e reouvir a canção, eu me lembrava apenas que ela começava com “Boa noite meu amigo, como vão seus sonhos” e que terminava dizendo “talvez ainda nos vejamos nessa estrada de som”.

 

Resquício dos versos originais

Decidi então anotar os versos de que me lembrava e escrever outros versos que completassem a letra e ainda fizessem sentido. Ali ela ficou por alguns dias, até que, na noite em que ouvi sobre a triste partida de Chadwick Boseman e, motivado pelo fantasma de nossa finitude, decidi me debruçar com o violão, escrevê-la e enviá-la.

   Enquanto escrevia, a minha ideia é que seria uma composição contrária à narrativa de Sinal Fechado de Paulinho da Viola. Aqui, existe a possibilidade de contato e ela é aproveitada das maneiras que são possíveis. Sejam vídeos, textos, lives, vlogs. É muito fácil deixar o sinal abrir e partir. Às vezes, não há outra opção, mas, se for possível manter a ligação, e não for um problema para ninguém, o que impede? O final da letra referencia à canção Tributo aos sentimentos

   Quando entrei em contato com a artista Isabella Proença para falar sobre o conceito da arte que ilustra este post, falei sobre Paulinho da Viola, falei um pouco sobre a história da letra, mas, mais do que isso? Falei um pouco sobre Lost e como “nem tudo era o que parecia ser” na série - mesmo na ilustração este conceito se aplica, basta olhar bem. Além disso, não é surpresa para ninguém que a pessoa que escreveu 108 Minutos e Constante pensa na série sempre que acorda às 8h15. O voo 815 da Oceanic Airlines está na ilustração para Identidade mesmo que o “evento” tenha acontecido no dia 22/09. Há citações à quinta temporada na letra de Fim e quase surgiram em outras letras, troque algumas palavras comigo e a probabilidade de me ouvir falar em Lost alguma vez, é grande, portanto, ouvir sobre ela é um risco que minhas amizades correm. Hoje, faz 16 anos que a série estreou. Em maio fez dez que ela acabou. Seja como for, imagino que citações a ela podem escassear, mas não acabarão. Se não pudermos viver juntos, nós vamos morrer sozinhos. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Outra versão de nós

"Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito". Kafka à beira-mar, Haruki Murakami. (Tradução de Leiko Gotoda)

Arte de @isabellaproencart 


Outra Versão de Nós 
Letra: Thales Salgado (escrita em: 25/01/2019)

Cai outra madrugada
E pela estrada até
Pensei em te contar
Tenho visto ponteiros
Tão certeiros nas veias
Na pele e mais
“Também vês?”.

Tantas pontes queimadas
Inocência vitimada
E quero mais
Do que for bom.

E todo o mal que eu causei
Direcionado a mim, eu sei
Ninguém mais pode expiar.

Agora alvoreço
Pesa o preço
De nunca cair em si
Bem e mal são acasos
Espelhados aos caminhos
Do sentir.

Ninguém será sempre feliz
Vivendo a vida sem matiz
Quando o contraste nasce de sofrer.

Cada tempestade
Quando invade
Vem para nos fazer
Viver outra versão de nós



No moleskine usado entre 2011 e 2012
Entre John Frusciante e Vitor Ramil

     A foto acima é importante pois pontua o Tempo que levou para finalizar esta composição. Ela começou em algum momento de 2011 e estagnou em 2012. Imagino a faísca inicial tenha queimado na segunda quinzena de julho, após o lançamento do single The Adventures of Rain Dance Maggie do Red Hot Chili Peppers.

    Sendo o primeiro lançamento após a segunda saída de John Frusciante, havia, então, um estranhamento em como a banda prosseguiria – após ter tido a possibilidade de ver três shows da banda no Brasil com Josh Klinghoffer é impossível dizer que não foi para melhor, uma vez que, sendo fã da banda até então, não havia visto nenhum – o que me levou a me debruçar na carreira solo do músico. Shadows Collide With People, To Record Only Water in Ten Days, The Empyrean… apenas para citar alguns. Me chamava a atenção como suas composições fluíam e eram capazes de mostrar diversas facetas, muitas vezes no mesmo momento. Haveria possibilidade de tentar replicar um pouco disso? Alguns bends, um pré-refrão, um refrão! Nasceu uma melodia que foi chamada por nove anos apenas de RHCP, pela relação que ela guardava com a banda.

     O que impedia a letra de nascer, então? Podia ser a influência de Vitor Ramil. Em sua obra Satolep, um personagem comenta “nascer leva tempo” (em 2013 eu viria a referenciar este verso em Notas fora do Lugar mas não sabia disso naquele momento).

      Algumas de suas letras conservavam a característica de repetir trechos melódicos, mas não repetir a letra, elas não necessariamente “espelham” a estrofe anterior até o refrão, muitas vezes apresentando uma narrativa ou mais. Minha intenção era fazer algo dessa forma. Algumas ideias para a letra estavam ali desde o início: “ninguém nasceu para ser feliz/sentir a vida sem matiz/cria o contraste é o sofrer...” mas criar uma narrativa que conduzisse a isso, estava em um beco sem saída; como John ou Vitor fariam?

        Lendo e ouvindo suas entrevistas, descobri que ambos possuíam, cada qual a seu modo, uma série de fundamentos que guiavam suas composições. Enquanto Frusciante comentava sobre “ideias, visões, formas, cores, arte, anjos da guarda, religião e espiritualidade”, Ramil delinerara sua Estética do Frio, ancorando ou encontrando em suas composições “rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia”. Se pensarmos o conjunto “religião e espiritualidade” como uma coisa só, podemos pensar que ambos estavam próximos ao número sete.

      Sete artes, sete maravilhas do mundo antigo, sete maravilhas do mundo moderno, sete sábios gregos, sete virtudes, sete propriedades da matéria, sete pecados capitais, sete dias da semana, descansar ao sétimo dia, sete anões, sete léguas, sete vidas de um gato. Sete mares, Sete Cidades. Sete notas musicais. Sete mentiras, multiplicadas por sete, multiplicadas por sete outra vez. Sete anjos com sete trompetes... sete e sete são quatorze com mais sete vinte e um, Zazá sumiu ficou um zum zum zum. Tantos setes por aí, mas nenhum para chamar de meu.

OITO ANOS DEPOIS

        No décimo sexto dia participando do desafio de escrever 100 palavras por dia professor proposto pelo professor de Escrita Criativa Tiago Novaes me peguei em um longo congestionamento na marginal Tietê enquanto me dirigia ao trabalho.

        Ali, ilhado sem enchente, decidi revirar os arquivos antigos e me deparei com o arquivo intitulado RHCP. Poucas pessoas a tinham ouvido o instrumental até então, entre estas pessoas o artista, baixista, designer, e amigo Bruno “Bob” Barduchi Oliveira –  basta olhar bem, normalmente ele está envolvido nestas empreitadas – mas não havia muito a dizer: nada mais eram que alguns murmúrios e vocalizações aleatórias. Até que a letra surgiu.

       É difícil falar sobre ela, pois, ela foi construída apenas pela vivência de anos e a necessidade de reunir cem palavras. Nada além. Não contando o título, a letra é composta por esta centena.

       Posso dizer com alguma certeza que as pontes queimadas podem ter sido inspiradas em Burning in the Skies da Linkin Park (estou nadando na fumaça das pontes que queimei, então, não se desculpe, estou perdendo o que não mereço). “Expiar” tenho certeza que tirei da cena em que Kanon de Gêmeos recebia a Agulha Escarlate de Miro para provar sua fidelidade à deusa Atena. Assim como o conceito da tempestade pode ter sido influência inconsciente de Murakami, por isso ela inicia este post.

PINTURA PARA UMA CANÇÃO SEM NOME

      Quando encaminhei para Isabella a proposta de parceria para fazer esta ilustração, ela ainda não tinha nome. Imaginei que tendo uma data prevista para escrever, ele viria. A pintura que ela realizou trouxe uma série de outros significados para a canção. Eu sabia que precisava ter roxo, mas, por ter escrito enquanto estava em um ônibus, tinha dificuldade em imaginar a história fora do transporte. As soluções e traços que ela apresentou me levaram a diversos lugares: Meia Noite em Paris, Estúdio Ghibli, se fizer à praça do coreto de Arujá, pensei até mesmo em Vanguart, pelo Semáforo. Artes assim amplificam os sentidos.

sábado, 12 de setembro de 2020

Muitas em mim

“A afirmação de Aaron Copland de que “cada nova obra traz consigo um elemento de autodescoberta. Devo criar a fim de me conhecer, e, já que o autoconhecimento é uma busca sem fim, cada nova obra é apenas uma resposta parcial à questão ‘quem sou eu’, e traz consigo a necessidade de continuar a busca de outras e diferentes respostas parciais” é uma maneira diferente de expressar a mesma necessidade. Pessoas conscientes de uma divisão aguda dentro de si são impulsionadas a criar de forma recorrente, em parte pela necessidade de curar a divisão e em parte a fim de formular ou descobrir sua própria identidade.” – Anthony Storr – A Dinâmica da Criação, Benvirá, 2013, p.409 (Tradução de Ana Cláudia Fonseca e Claudia Gerpe Duarte)

Representação de diversas faces de Katy Perry em uma.



Muitas em mim (2019)
Letra: Fabíola Passos Almeida
Música: Thales Salgado

Povoada pelas contradições
Persigo a luz
Sem notar que caminho
No escuro

Escolhi o que é verdade
Reduzi o resto a uma farsa
Neguei minha multiplicidade

Neguei minha humanidade
Nem por isso sentei à mesa
Com os deuses

Afinal, quem sou eu?
Eu sou muitas em mim




A PIRAMIDE

    Identidade e Beleza Parasita formam uma pirâmide quadrangular em Ikiryou EP.  
Considero que, conceitualmente, Muitas em Mim, junto a
     As três canções foram compostas sobre versos da psicóloga Fabíola Passos Almeida, de modo que ela representaria “a base”.  A face lateral direita, o Leste, seria a composição deste post, “o início”. Identidade, seria a face oposta, frente ao poente. A face frontal, é Beleza Parasita, melodicamente, a composição mais diferente desta safra. Eu, enquanto compositor, represento a face contralateral, oculto como o ‘homem atrás da cortina, o mágico de Oz’.

O artista Bob Barduchi representou visualmente
o conceito que permeia a "trilogia"
    Ajo como receptor das palavras e as transmuto em melodia, mas evito fugir dos temas ou alterar versos, mesmo que todas estas canções tenham sido compostas sem avisar a autora previamente. Há, de todo modo, uma troca.

O PAPEL DA FACE OCULTA

    Recebida em seis de dezembro de 2019, a composição estava pronta já no dia 7. Se me permito uma influência para esta melodia foi a canção Furo 2 (Sangue do Paraguai) da banda carioca Baleia.
Minha sensação foi a de tentar, em seus versos iniciais, passar a lentidão. Assim, optei por alongar determinadas sílabas. Tal como ela inicia “poooooovoada peelas contradiçõõões...”.
O manuscrito que precedeu a canção
Em algum momento surgiu um “é” ao cantar a estrofe, em que posso ter pensado? ‘O papa levou um tiro a queima-roupa é, é’ ainda assim, foi um incidente. Mas... foi mesmo?
    Afinal, se há em mim o interesse pelo trabalho de outras bandas, como evitar que isso “vaze” para minha própria criação? Talvez, essa influência não seja Thanos, mas seja “inevitável”.
    Carece de fontes, mas já ouvi – e posso até ter utilizado em um texto anterior – que desenvolvemos nosso estilo emulando nossos ídolos. Na didática da invenção o poeta Manoel de Barros afirma “repetir, repetir – até ficar diferente” em Mar Deserto, Moska canta “repetir, repetir, repetir... até ficar diferente”. Você, leitor ou leitora ainda está aí? Os parágrafos passados parecem caóticos demais? Para mim, parecem, mas são importantes no sentido de informar que, se há uma essência em mim, ela não é poesia, mas prevalece.


FRAGMENTOS

    Por algum tempo, pensei encontraria uma chave referente aos conflitos entre identidades mencionado nas letras nos estudos do psicanalista Erik Erikson, e, após consulta inicial por alguns comentadores, é provável que resida algo que apenas um mergulho propriamente dito possa trazer à tona.
   Contrariando minha expectativa, uma das frases que fez sentido para mim foi proferida pelo profº Neil Mackinnon em uma matéria para a Universidade de Guelph há cerca de dez anos, quando ele publicara com David Heise o livro Self, Identity and Social Institutions.:

"A influência pós-modernista nas ciências sociais têm questionado se as pessoas possuem um "eu" coerente e estável. Alguns argumentaram que um mundo fragmentado leva a uma fragmentação do eu. Mas demonstramos que, de fato, as pessoas podem ter um eu nuclear que é coerente e estável mesmo em nossa sociedade pós-moderna".


FRAGMENTOS EM IMAGENS

    Foi, também, devido a esta frase, que entendi que a imagem a ilustrar o post deveria ser essa. Elaborada por uma sugestão de Mariana Licori, que, em fins de julho comentou que o Portal Katy Perry abriria inscrições para o The Smile Museum. Assim que ela comentou, uma arte surgiu “um retrato frontal, dividido em seis faixas verticais com detalhes de cada uma de suas fases, por meio do cabelo e maquiagem” As matrizes escolhidas foram:
   Hello Katy – 2009, California Dreams – 2011-2012, Prismatic World Tour -2014-2015, Witness World Tour – 2018 e Smile – 2020. Representando a Katy Perry “ortônima” me inspirei em seu visual clicado no tapete vermelho do iHeartRadio Music Awards em 2019.
    As transformações visuais da artista valem publicações inteiras, por isso, decidi por, na maior parte, ater-me apenas no aspecto de divulgação das turnês. A silhueta que serviu de base é inspirada na foto que consta em uma matéria de Petra Gulielmetti em julho de 2013 para o site glamour.com.
   Para que a ilustração não se resumisse à cronologia, os estilos foram colocados aleatoriamente. Muitas faces, em uma pessoa só.

domingo, 6 de setembro de 2020

Identidade

“Escritores estão entre os mais sensitivos, mais intelectualmente anárquicos, mais representativos, mais exploradores artistas. A habilidade do escritor para imaginar o que não é o eu, familiarizar o estranho e mistificar o familiar – tudo isso é um teste para o poder dela ou dele. As linguagens que ela ou ele usam (imagética, estrutural, narrativa) e o contexto social e histórico em que essas linguagens são indiretas e diretas revelações desse poder e suas limitações.” Toni Morrison – Conferências Massey em Harvard, 1990


A LETRA


Identidade (2020) 
Letra: Fabíola Passos Almeida
Música: Thales Salgado

Passei um tempo acreditando ser você
Me acostumei com seus desejos
Cumpri suas metas e te levei alto

Passei um tempo fugindo de mim
Escondi minha história e cicatrizes
Dessensibilizei meus sentidos e adormeci

Até que despertei

Mas já faz tanto tempo
Que o meu corpo não parece mais meu
Que a minha voz mudou o tom
Que não reconheço esse lugar

Despertei no escuro

Passei um tempo sem identidade
Procuro maneiras de juntar os pedaços
Será possível criar uma nova forma?

Que pareça tanto com você quanto comigo?


PENSANDO IDENTIDADES

     No livro A Dinâmica da Criação, o psiquiatra Anthony Storr buscou analisar mecanismos da criatividade. Nele, são discutidos motivos e condições que levam a atividade criativa a se manifestar. Seus últimos capítulos são dedicados à “busca por identidade” e “integração” e auxiliaram em minha elaboração sobre a composição.
A autora dos versos
     Em determinado ponto Anthony afirma que “É fácil uma pessoa criativa, produzindo uma obra depois da outra – obras talvez tão distintas umas das outras como a Sétima e a Oitava sinfonias de Beethoven –, possa ter dúvidas sobre a continuidade de seu ser, mesmo que um observador isento possa perceber tal continuidade com absoluta clareza.” 
     O trecho acima é importante para esta composição, pois, foi apenas ao ler uma narrativa em prosa escrita pela psicóloga Fabíola Passos Almeida 5 meses e 28 dias após a letra, que a faísca de interesse para musicá-la surgiu para mim, diferente de versos como os de Beleza Parasita e Muitas em Mim que respondi com uma melodia horas depois de visualizar os versos. Na primeira leitura que fiz, ainda em fevereiro, pontuei que me parecia uma “despersonalização do eu-lírico” como se o mesmo estivesse “despersonalizado, se enxergando em terceira pessoa” e ela replicou que mais seria mais um “eu fragmentado” uma vez que, na psicologia, a “despersonalização” pode ser diferente.

A MÚSICA

     Para esta composição meu interesse foi traçar uma linha coerente na narrativa de meu cancioneiro. Assim como a primeira composição que fiz em vida (Um Caminho para o Céu, com letra de Bruno Barduchi Oliveira) contava apenas com os acordes “Gm F Cm Eb D” utilizei em Identidade “Eb7 Dm Gm (Gm7) F Cm A7” não é meu interesse aqui debater questões teóricas. Apenas pontuar que, mesmo em tons diferentes, houve uma procura consciente mais de intermediar minhas próprias composições que transmitir uma emoção específica.
     Na experiência do músico e terapeuta transpessoal Arthur Belino “os principais lugares que a música ocupa (para ele) são de cura e de integração com o mundo e com o outro”. Ele explica que no processo de composição ele vai se compreendendo e que “as melodias que surgem neste processo de composição expressam bastante do que há naquele momento.”Sobre esta continuidade na identidade criativa, Storr pontua:

“Repassando anos de trabalho, um homem pode se surpreender ao descobrir o fio escarlate de sua identidade ao longo de uma série de obras que lhe pareciam muito diferentes na época em que foram concebidas. Ele também descobre com frequência que ideias que a ele pareciam ter ocorrido apenas ontem já estavam implícitas em trabalhos anteriores, e tiveram precursores óbvios que ele deixou de notar. Na verdade, pessoas criativas geralmente são seres mais contínuos do que pensam.” p.383

     Quando comentei com a autora acerca das conexões ela mencionou que realmente há uma conexão entre os textos, mas que ela mesma já não tinha o primeiro em mente. Dessa forma, pode se dizer que há continuidade tanto para a obra dela, quanto para a minha. Ainda que, no meu caso, tenha sido uma escolha consciente.
      Fiz o possível para manter o texto na íntegra, salvo inserções ou omissões pontuais a fim de manter o verso na melodia. Um dos pontos mais difíceis foi encaixar “dessensibilizei”, além de ser um ponto importante na letra, queria ter uma composição com a palavra, pensando em “Desensitized by TV” presente em Boom! da banda System of a Down. 

IDENTIDADE EM PROSA
(Fabíola Passos Almeida - 2/08/2020)

Acordei e me dei conta: algo transtornou meu quarto.
Olho ao redor na tentativa de me situar, todas as coisas estão fora do lugar, só as paredes permanecem.
(Paredes cinza, ciano e pêssego).

Logo percebo: eu também permaneci aqui. Não com as roupas que eu lembro, não com os cabelos penteados, mas estou aqui ilesa. 

Ilesa? Ilusão. O quanto de mim se quebrou nesse quarto? Sinto o corpo exausto, a cabeça pesada, dores. 

Sobramos eu, as paredes, as dores, a bagunça e a dúvida: o que aconteceu?

Manuscrito da letra, 03/02/2020
Procuro um espelho, encontro. Inteiro, mas no chão. Coloco-o no lugar (ou melhor em algum lugar em um ângulo mais adequado). Encontro uma figura pouco nítida, preciso apertar e esfregar os olhos até chegar ao foco possível. 

O tremor das minhas mãos anuncia o assombro que me causa olhar para a figura que avistei. Em "um milímetro de um segundo" uma incômoda constatação aterriza em minha lembrança... pelo estômago começo a congelar até os ossos, tremor, calafrios, confusão mental. 

Olho para o espelho, mas não me vejo. Na verdade, revelada no reflexo está ela com seus olhos cintilantes de energia, o sorriso aberto exagerado, e sua obsessão de ser vista. Fecho os olhos, abro, observo minhas mãos com a sensação que elas não me pertencem. Mais calafrio, náusea, angústia.

Angústia que vira água, grito e que tenta sair de mim. Mas quanto mais tenta sair maior fica. 

De volta ao espelho eu respiro. "Calma, calma, calma, volte". Olho e encaro. Aos poucos a nitidez revela minha boca, meu queixo, nariz, meus olhos. Ela se foi. Culpa e alívio me ajudam a fazer a lista mental de como vou arrumar essa bagunça. Mais um recomeço.~

FRAGMENTOS DA IMAGEM

     A leitura do segundo texto também me informou uma possível chave de interpretação para preparar a ilustração que acompanha este post. Após a visualização de animações que fãs de Hamilton criaram nos últimos anos – quando, apesar do sucesso, o acesso a gravações do espetáculo era mais restrito – pensei em, também, fazer uma animação. 
    Assisti alguns tutoriais, verifiquei até o número de frames necessários para um vídeo de três minutos com uma movimentação, que eu julgasse, minimamente agradável. 195 quadros. Foi apenas quando comecei a recortar o canson da primeira gravura que me dei conta das horas que isso exigiria. Decidi realizar, então, uma colagem em papel fotográfico.

A ilustração original teria mais referências à Björk
Curiosidades: 

Os cabelos foram inspirados na obra Uzumaki, de Junji Ito, e as cores em Sunny, um dos quatro reis celestiais em Toriko, de Mitsutoshi Shimabukuro. A máscara da personagem foi inspirada levemente nas maquiagens da drag queen alemã Hungry, responsável por diversos dos make-ups de Björk.


Outros elementos, como o voo 815 da Oceanic Airlines ao fundo, vieram por, quando finalmente consegui tocar e cantar a canção, um avião ter passado e estar registrado na canção.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Concreto-confronto

"Tem que acreditar. Desde cedo a mãe da gente fala assim: 'filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.' Aí passado alguns anos eu pensei: Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como? Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez. E sempre foi assim. Você vai escolher o que tiver mais perto de você, O que tiver dentro da sua realidade. Você vai ser duas vezes melhor como? Quem inventou isso aí? Quem foi o pilantra que inventou isso aí? Acorda pra vida rapaz" – A Vida é Desafio, Racionais MC’s
Arte de @isabellaproencart



Concreto-confronto (2019/2020)
Música: Thales Salgado
Letra: Livre adaptação do conto Muro Mundos de Daiany Pontes

Concreto-cinza-inerte
Na cidade cinza
Onde ela resistia
A caminhar
Forçando um sorriso
Duro pela vida
Dobrando a esquina
Para enfrentar
A vizinha que lhe nega o olhar
todo o dia apressada.

Entre o preto e o branco
Tantos muros para quebrar
Mar-navio-negreiro
Quanto mais vai atracar?

Beirando o cruzamento
Rosto, um vento cinza
Vizinha não hesita a se murar
Mesmo os muros altos
A deixam perdida
Ainda não tem forças
Para escalar
De passagem para nenhum lugar
Vê as vistas cansadas

Encostou-se a um canto
Para, as janelas, divisar
Mas só viu outros muros
E a inércia a alastrar

Entre o preto e o branco
Tantos muros para quebrar
Mar-navio-negreiro
Quanto mais vai atracar?


    No ano de 2019, o foco de minha produção se concentrou no Instagram. Esse distanciamento do blog descentralizou possíveis composições e ideias, mas forçou outros desdobramentos: devido ao limite de um minuto para os vídeos do feed, decidi seguir compondo canções que se resolvessem nestes sessenta segundos.
A autora do conto que originou a letra
        Uma das canções surgiu inspirada na leitura de um conto que Daiany Pontes havia me enviado alguns dias antes. Nascida em Porangatu-Goiás, ela é atriz e poeta. Integrou a cia Âmago de teatro em Campinas-SP e hoje integra o coletivo Teatro de Pólvora. Formada na área da saúde, trabalha com cuidados de enfermagem. Cursa a Formação de atores e atrizes na escola livre de teatro Santo André e paralelamente está pesquisando a escrita voltada para dramaturgia e contos.
     Essa canção ressurgiu para mim enquanto organizava esses fragmentos em uma coletânea que alcunhei, com o perdão do trocadilho, Solo un minuto. Pensei: “será possível organizar estes minutos todos em um medley como o no lado B de Abbey Road?” mas outra ideia me tomou: a letra que eu escrevera contemplava apenas parte da narrativa. Eis que no dia 28/07/2020 tornei a ler e reler o conto e compor uma estrofe que espelhasse a primeira, mas levasse a letra à diante. No conto, que se encontra na íntegra abaixo, estão destacados trechos que utilizei na adaptação.
        O olhar de Isabella Proença traz a protagonista do conto, Aina, ao centro da história que percorre e perpassa sua carne e pele que vai tornando concreto-pedra. Os quadros retangulares me parecem um ótimo toque, dando a impressão de ser a janela de um edifício. A ilustração mescla possibilidades interpretativas para os dois textos.

MURO MUNDOS
(Daiany Pontes)

Aina caminhava pelos bairros daquela cidade observando os muros, eles sempre a impressionaram.
Dona Edith tinha um muro tão alto, o mais alto do bairro. Aina visava o muro de Dona Edith, pareava com o dela e comparava-os. O que as separava era o tamanho, Aina não conseguia vê-la de seu muro, mas ela conseguia ver a menina. Imperceptivelmente via.
Aina, ainda menina entendeu que havia algo. Seu muro era uma espécie de tablete cinza, um concreto-cinza-inerte. As piores dores nascem de cores-dias- cinza. E hoje ela reside na cidade cinza. O fato é que o muro dela era tão baixo que bastava levantar seus pés um pouquinho que já conseguia avistar a rua. Não entedia o porquê de Dona Edith nunca a ter visto. Das vezes em que elas cruzavam a mesma esquina, Dona Edith olhava fixamente seus cabelos, suas vestes e rapidamente procurava saídas para o olhar não se repetir. Saia, como se Aina não estivesse ali na sua frente.  Saia em sua pressa, como a pressa daquelas palavras que saem de um computador de escritório.
Na manhã seguinte a menina de doze anos colocou sua roupa mais bonita, encheu os cabelos de creme que escorria feito as águas do mar-navio-negreiro em suas costas. Foi, dobrou a esquina e lá estava ela mais uma vez. Olhou-a, precisava enfrentá-la. No fundo do cinza é doloroso adentrar, é um espaço de cores que há entre a cor cinza, um adentrar entre o preto e o branco.

Impressão do post original no Instagram onde compus o espelho
Na visão de lá, passos à frente. Aina não conseguia ver a trajetória e isto lhe causava espanto. Do lado de cá, passos atrás, a visão é dolorosa, a luz é forte e ela consegue detalhadamente ver todos os passos e passados. Dói. Os passos atrás doem. Estava na frente do muro cinza, inerte ao cinza. Chegara, e nos próximos passos terá que enfrentar no rosto, o vento cinza, mesmo sem saber como conduzi-lo. É. Já faz parte dela, no fundo, não há outra direção-condução a não ser enfrentar. Seu rosto está se desfazendo agora, ele vem se transformando em cinza. Coisas transformam-se.  E agora veja o rosto de Aina transformando-se em um rosto-abstrato-cinza. Ela tenta sorrir caminhando e o traço que finaliza teu sorriso, está se desfigurando. De longe a abstratividade da figura se faz larga e sorrindo. De perto, no fundo do cinza a abstratividade se mostra em uma larga e longa força para não abandonar. Aina em um estado-limite, em uma contração com a vida, em uma contração com face, que naquele momento fazia um tremendo esforço para desenhar um sorriso-face. A força usada fora tão grande naquele dia, que chegou a machucar.  Forçar se a sorrir machuca. Os olhos esbugalhados tentando manter-se enxutos. No peito-duro-pela-vida não passava nada naquele dia.
A imagem que vinha era a menina mais uma vez dobrando aquela esquina, que apontava para tantas outras esquinas. Desgovernada, estava à beira do cruzamento com os olhos dela. Queria ser vista pelos olhos de Dona Edith. Chegou de frente, na frente dela, e mais uma vez ela negou-a. Não a olhou. Passou reto, passou por ela, em cima dela.
Aina seguiu para as esquinas, que davam para outras esquinas, passava por placas que tinham letras que não conseguia ler. Estava perdida, sendo levada para um destino em que eu não sabia onde seria, mas que em algum momento teria um fim. Será? O muro é alto, teus braços não alcançam e das vezes em que tentou subi-lo. Caiu.
A queda do muro machuca. A força necessária para subi-lo, Aina não tem no momento. Muros altos ignoram-a.
Quando o ônibus virou à esquina Aina entrou, o ônibus tinha como destino, destino nenhum. Ela passou rapidamente pelo motorista que estava entediado com a manhã, acenou um bom dia e ele respondeu-a apertando os olhos, que já estavam tão cansados. Era manhã e o encontro dos olhos da menina com o dele, já mostrava cansaço. Pode? Olhos tão cansados nas primeiras horas do dia? Atravessou o corredor e encostou-se a um canto que dava para a janela. No canto, em direção, sem direção.
O ônibus seguia e chocalhava tanto a cada acelerada, que todo seu corpo estremecia em uma sonoridade-barulho-ruído, que arranhavam teus olhos.  Histórias soltas nos assentos-ônibus. No trajeto passou por tantos muros, iguaizinhos aos que dividiam sua casa. Aina seguia dentro do ônibus, com os pés fixados no chão para não cair, a paisagem-muro movimentando-se e ela procurando compreensão. Via nos passageiros-vida, olhos acostumados, inertes diante da paisagem-visão-muro. 

domingo, 9 de agosto de 2020

Ofício das Horas

"Acho que nós precisamos ser instigados a valorizar as nossas vidas e eu procuro fazer isso com meus textos. Costumo usar uma boa metáfora que é a seguinte: sempre que compro uma peça de roupa, todas as outras passam a ser novas também. Pois, por causa dela eu arrumo todo o guarda-roupa para potencializar as combinações e assim todas passam a ser novas. Eu penso que a crônica ou o poema são como uma nova roupa que acabam remoçando todos os nossos pensamentos." - Fabrício Carpinejar em entrevista para a Contato VIP em fevereiro de 2016

Acervo de Renato Bicudo

Ofício das Horas (2019)
Letra: Renato Bicudo
Música: Thales Salgado

No lânguido dourado
Da tarde
Nas vésperas de minha reclusa
Solidão
Estão a mirar-me anjos e demônios
Uns querem-me em vida
Outros vaticinam Caronte
Levando em minhas mãos

Eu voo lépido para as estrelas
Talvez em Vênus esteja
Minha tão aspirada
Salvação


      Conheci o poeta Renato Bicudo em uma oficina com Carpinejar. Em sua autobiografia ele menciona que "Lê compulsivamente, muito mais do que escreve" interessante saber já que, acompanhando seu trabalho, noto, por vezes, uma série de criações diárias - descontextualizando um verso de Lin-Manuel Miranda: "Como você escreve como se estivesse ficando sem tempo?". 
     Compus a melodia para o poema reagindo à sua leitura, no mesmo dia ou no seguinte a sua publicação original em 23/07/2019 e só fui mostrar ao autor uma versão rudimentar alguns meses depois. Quando ele me disse que o poema é "como se fosse uma oração, uma súplica de alguém que busca um Porto Seguro, um amor, algo assim…". Para conhecer mais sobre sua obra, é possível ler alguns poemas e comprar seu Chá de lírio (editora Patuá), aqui.
    Há sempre algum receio ao versionar - sem permissão, obviamente - as palavras de outrem. A exemplo das canções compiladas em Nada Há de Novo Sob o Sol a maioria das  composições no Ikiryou EP tem sido, de algum modo, coletivas. Por mais que, em canções como Canto de duas cidades eu escreva e componha tudo, outras como Beleza Parasita tem letra de Fabíola Passos, Tudo outro agora conta com a letra de Anderson Bezerra e Silêncio foi feita baseada em um poema de Kariny Camargo. Mais que isso, futuras postagens pautadas nesse conceito que conheci na obra Kafka à Beira-mar de Haruki Murakami seguirão essa linha, como Concreto-confronto que tem a letra inspirada em um conto da atriz e poeta Daiany Pontes.
      Um ano após a composição é difícil precisar se eu vinha ouvindo algo da banda ZERØ,  de todo o modo, sempre que canto o trecho "eu voo lépido…" me vem a voz de seu vocalista: Guilherme Isnard. Sei que, em 2020, ouvi uma série de vezes o segundo álbum da banda Quinto Elemento, lançado em 2007, antes de realizar a gravação do que veio a se tornar o primeiro vídeo do @fmodestia para o IGTV  na série "Canto no jardim" (trocadilho com uma de minhas primeiras composições Um conto no jardim) Com os créditos a meu irmão Ulysses Salgado que enquadrou e dirigiu a gravação e a minha mãe Lúcia Salgado, dona do jardim e quem confeccionou a calça que estava usando.


sábado, 1 de agosto de 2020

Canto de duas cidades

“Apesar de reflectir as preocupações do sonhador, o curso do sonho é quase sempre imprevisível. A lógica dos eventos é fluida e errática em comparação com a realidade. A sucessão de imagens caracteriza-se por descontinuidades e cortes abruptos que não experimentamos quando acordados. Nos sonhos, um personagem ou lugar pode transformar-se noutro com uma naturalidade incrível, revelando o poder de transmutação das representações mentais. O encadeamento entrecortado dos símbolos determina um tempo caracterizado por lapsos, fragmentações, condensações e deslocamentos, dando origem a camadas de significado múltiplas e até mesmo díspares. O leque de possibilidades do sonho é vastíssimo, roçando o insólito, o inverosímil e o caótico.” – O Oráculo da Noite, Sidarta Ribeiro
Arte de @isabellaproencart

Canto de duas cidades (2020)

Estava outra vez ao portão
Só para saber, se estavas bem
Tinha uma caixa nas mãos
Esperanças, quem não as têm?
Lá se vai a paz dos vizinhos
A gritar teu nome estou

Caem folhas com minhas palmas
Uma voz qualquer diz: silêncio!
Natural que fosse assim… não? não
Hesitarei antes surja silhueta pela cortina
A ocultar o teu semblante

Saudades, dizem ser,
Intraduzíveis sons,
Lotus em vendavais,
Vertigem axial
Acabam se você sair.


   No dia seguinte a escrever estes versos, 16/07, entrei em um debate com uma poeta amiga minha. Sem sequer mostrá-los, comentei como me senti inspirado no dia anterior e decidi escrever sobre um sonho que se tornou canção. Disse ela: “que bom, não é? Não pensa muito o porquê isso aconteceu, senão pode não acontecer de novo “. Repliquei que não era apenas uma questão de levantar-se cedo e fazer, era uma questão de ter, também, algo a dizer e conseguir dar forma. “Então foi sorte (...) se não foi sorte foi inspiração. Não tem como ser nada, só ‘do nada acordei e veio essa música, ou sorte ou dom, porém, com o dom vem a inspiração para ajudar”.
  Discordei veementemente – nesse assunto isso ocorre constantemente. Apesar de concordar que, sim, a inspiração existe, penso que uma canção, tal qual uma refeição para o Duque Leopold Mountbatten, é resultado de reflexão e estudo.
   Afinal, não é estranho reduzir a algo externo todo o repertório, as horas pensando os versos, em silêncio, tentando criar uma melodia que não existia antes, as consultas aos dicionários. A Revisão de textos e matérias que tenham o contexto para descrever a cena da forma como a imaginei? Todos sonham, como comentou o psicanalista Christian Dunker em matéria para o Viva Bem do UOL: "No sonho, parte do presente vai ao passado e depois se projeta o futuro. Voltamos ao nosso baú de lembranças, repleto de desejos pendentes do passado, imagens, cheiros, momentos bons, ruins, desejos de infância. E assim resolvemos pendências em forma de um cinema privado. É o trabalho do sono: acertar contas com nossos desejos e também com nossas angústias". 
   A questão maior, nesse caso, é como a pessoa traduzirá estes sonhos? Uma prosa em um “sonhário”, comentando em meio a uma refeição familiar ou o esquecimento? Traduzir um sonho pode não ser questão de vida e morte, mas requer trabalho. Não há nada de novo nesse pensamento, é a velha história da razão entre inspiração x transpiração.No caso desta letra, o sonho poderia ser uma representação do passado ou do futuro, ao despertar na quarta-feira, recordei versos que escrevi na noite de 3 de outubro de 2016:

Foto de registro do moleskine em dezembro de 2016
    Apesar de tê-los pensado com melodia, nunca consegui dar seguimento a ideia que eles carregavam. Decidi diluí-los nos versos novos. No dia 18 aproveitei um breve deslocamento de carro com o intuito de levar a letra ao ponto de sua gênese! Ao fazê-lo notei que não descrevia o futuro, afinal, ninguém saiu, não vi silhueta e os gritos também não fizeram com que os habitantes adjacentes se manifestassem. Diferente da canção, hesitei e parti. Afinal, as canções existem n’outro espaço-tempo.
   Para ilustrar o post pensei em fazer um desenho, afinal, não é minha intenção criar fractais para todos os posts (muito abstratos) tampouco revirar os arquivos do domínio público (o faço de quando em vez, mas é inespecífico demais) mas conhecendo os locais, como criar distanciamento suficiente para retratá-los de forma outra? Eis que, no mesmo dia seguinte a escrita dos versos, no grupo de Facebook do projeto VIVIEUVI, liderado por Vivian Villanova, conheci o trabalho de IsabellaProença. Mais que isso, naquela mesma noite ela comentara o lema “feito melhor que perfeito” frase esta que foi um dos motivadores para que eu iniciasse as postagens no blog de uma vez. Gostei muito de sua interpretação visual para os versos, uma vez que sequer havia a gravação da demo que acompanha esta postagem para que se ancorasse. Ressignificou-se a composição.
    Diferente de outras composições feitas em 2020 como Tudo Outro Agora e Silêncio, Canto de duas cidades foi composta no campo harmônico de Dó Maior. Enfim, outras diferenças ficam para o futuro. Por hoje é só.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Silêncio

“Eu comecei a gravar a maioria de minhas partes para o By The Way em fevereiro. Na verdade, eu provavelmente gosto mais de estar em estúdio do que em um palco, mais por você poder pegar um momento e captura-lo pela eternidade apenas por pressionar o botão ‘Gravar’. Esse é um maravilhoso e poderoso sentimento para mim.”  John Frusciante em entrevista da banda para o site www.loudersound.com em 2002

Ilustração fractal gerada para o blog

      
      Hoje o álbum By the Way completa 18 anos e, ainda que eu tenha consciência de nunca não ter criado algo tão harmoniosamente contundente, tenho uma sensação referente ao registro similar à do John de 32 cuja frase inicia esse texto.
        Tanto que, na madrugada do dia 5 de julho, peguei minha craviola e decidi tentar fazer uma música. Sem pensar se possuía algum verso despido de canção, decidi que retornar ao Meu Livro de Poesia, de Kariny Camargo, e revisar se, ali, haveria algum poema autoral de que eu pudesse utilizar. Fui lendo por alto um a um, entre os que foram postados durante 1866 dias e, entre eles, escolhi um de nome “Silêncio”
      Por alguma coincidência, o poema foi postado no dia anterior a postagem de Fotografia, que musiquei em 2013. Desprendi por volta de 1h30 junto ao violão tento a intenção de manter palavra por palavra como encontrei. A única ousadia foi, quase sem querer, inserir o verso final de “Hermético como Memória”, uma composição de 2017: “É só silêncio”. Obviamente, parece conveniente que este parágrafo traga descaradamente a coincidência e o acidente, foi como se sucedeu, todavia.


Versos como encontrados originalmente

      Assumi que as palavras sejam de Kariny, tanto por estarem em seu blog, quanto por não contarem, como pode ser visto no print, nenhuma outra identificação. Há lá, além de Florbelas, Pessoas, Drummonds, Vinicius, uma série de autores outros: Mago, DDN, HDP... Eles surgem para mim como um tipo de mistério à prova de Google. De modo que, em respeito, não tomaria suas palavras sem consentimento, como é meu hábito vez ou outra com palavras escritas por amigas e amigos, com quem, mesmo que ilusória, teço uma ideia de possibilidades melódicas concretas a partir de alguém “real”.
     Poderiam os versos pertencem a outrem? Sem dúvidas. Até o fechamento desta edição, não recebi dela uma confirmação de autoria ou algo mais referente à composição, deixo, então, esta ressalva. Abaixo, "a letra" mais por questão 

Silêncio (2020)
Letra: Kariny Camargo (?)
Música: Thales Salgado

Eu não lamento,
Não lamento por te ter como um amigo.
Há um amor que encerra liberdade
E uma paz,
Uma paz de te amar somente aqui
Comigo.

Uma paz que por vezes me atormenta,
Que me faz rir e que não mais me faz chorar.

Não te quero pois não sou digna do amor.
Porém há um amor de sincera eternidade...

(Certa de que vai como veio...)

“É só silêncio”

       Parei, pensei, filosofei se seria prudente fazer o upload dessa composição conforme foi realizada, com um arranjo de baixo e bateria feitos no Mixcraft 9 e concluí que, sim. Não por estar bom ou por soar bem, afinal, minha aproximação com elementos percussivos de forma ativa ocorreu tão paulatinamente quanto é possível, mas, justamente por isso. Ter capturado as horas em que batuquei, às cegas, pelas teclas do teclado, sem a menor coordenação para tal.
       Como se eu estivesse escrevendo uma carta para o www.futureme.org será que, daqui à cinco anos, ao me deparar com este texto notarei como evoluí ou serei testemunha de outra abismal estagnação? Se eu viver, verei.