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sábado, 17 de outubro de 2020

O tudo que digo

“Deuses Americanos tem cerca de 200.000 palavras, e eu tenho certeza que há palavras que simplesmente estão lá pois eu gosto delas. Eu sei que não poderia justificar cada uma delas.” – Neil Gaiman 
   A frase que inicia este texto é atribuída a Neil Gaiman. De acordo com a página da wikiquote em inglês ela foi dita em resposta a uma entrevista para a HarperCollins.com. Apócrifa? Talvez. Em minha breve pesquisa pela rede, encontrei diversas menções à frase, mas não a entrevista. Ela faz sentido com a letra presente neste post, assim como a frase de Gaiman que encontrei no site brainpickings.org e não consegui verificar a fonte: 
“Se você vai escrever apenas quando está inspirado, você pode ser um poeta bastante decente, mas você nunca será um romancista – pois você precisará atingir sua contagem de palavras hoje, e essas palavras não vão esperá-lo, esteja inspirado ou não. Então, você precisa escrever quando não está “inspirado.” (...) E o estranho é que seis meses depois, ou um ano depois, você irá olhar para trás e não vai conseguir lembrar quais cenas você escreveu quando você estava inspirado e quais cenas você escreveu porque elas precisavam ser escritas”. 
   Este é um texto que “precisava ser escrito”: há seis meses, emprestei o título do 73º episódio de Lost para falar que o blog estava n'O Início do fim por esforço ou serendipidade, pelo menos dez posts seguintes
foram sobre músicas que não estavam “na programação”, afinal, não foram escritas entre 2007 e 2013. 
    No entanto, falar sobre estas composições deste período ainda é parte da razão de ser deste blog e O tudo que digo, foi escrita em 2009.



O tudo que digo (2009)
  
Elite de toda inspiração 
Constante em minha canção 
Menina, napolitano talismã 
Bela tela em meu ateliê 

Tudo o que sinto por ti é lei 
E o que digo por ti é lei 
Tudo o que sinto por ti é lei 
Tudo o que digo por ti 

Altiva moça a me observar 
Etílico elixir, vou tomar essa 
Lícita emoção, tulipa 
Em porta de meu coração 

Tudo o que sinto por ti é lei 
E o que digo por ti é lei 
Solitude de mim afastou-se 
Quando encontrei você 

Que não gele, não vele, me zele 
Embeleze, me leve, tua imagem me anuvia 
Sina, amor, minha menina, sorriso 
Anjo a cuidar de mim

  Esta é uma letra das letras que “sei que não poderia justificar cada palavra”. Conceitualmente, ela é parte da safra inspirada pelo monólogo aliterativo da personagem título de V de Vingança, como é um trecho de Para Contato (Marte), de 2007 e AcaryeCarina também de 2009. 
   Outra influência parte das letras de Zeca Baleiro que tinha lançado os dois volumes d’O Coração do Homem Bomba em 2008. Há exemplos como Pastiche com rimas tais “Tive uma oficina de desmanche/No carnaval saio na tribo apache/Fiz uma ponta no filme ‘A Revanche’/Contracenei com a Irene Ravache”. 
    Essa composição não carrega o mesmo bom humor. A diversão, no geral, é um aspecto pouco abordado em minhas composições, talvez, por eu ser o tipo de pessoa que “se leva a sério” demais. Ainda assim, há palavras que eu simplesmente quis usar: elixir, anuvia, sina, talismã, napolitano. 
     Esta última palavra, inclusive, se deve a um termo mal-entendido da canção Shooting Star, primeiro encerramento da série Cybercops, cantada por Mika Chiba e com letra de Shun Taguchi, e composição e arranjos de Yuji Toriyama. No pré-refrão, é cantado ‘Mamoritai’ (守りたい), quero proteger, em livre tradução. Ouvindo com meus irmãos na transmissão da Rede Manchete nos anos 90, entendíamos “napolitaki” ou algo similar, o que criou um vínculo com essa palavra devido a repetição, e a posterior vontade de usar o termo. 
    A tulipa surgiu da ideia de ampliar o conceito floral nas letras. Se em 2007 havia girassóis, em 2008 a tulipa entrou no panteão, posteriormente surgiriam orquídeas e azaléas. Cada qual surgindo ou representando algo distinto. 
   Isto posto, é uma das canções com a qual tenho algum atrito hoje. Não que todas as composições precisem contar uma história, ter uma narrativa, mas uma canção construída ao redor de ‘palavras soltas’, me parece vazia. 
     Uma canção, não é apenas a letra é a melodia e há um motivo cíclico repetido de formas diferentes durante a melodia. A mão direita dita muito o tom. Talvez, este seja um dos motivos que levaram bob a descrevê-la em setembro de 2020 como tendo “uma pegada animal” com uma “parte rap/mpb”, mesmo que eu, o próprio compositor, não seja capaz de enxergar isso. Talvez, as músicas se construam pelo olhar e perspectiva “do outro”, “do receptor” e não do emissor. Seja como for, agora esta canção está aqui, no registro de voz de meus dezenove anos. 

P.S. O registro foi mantido mais pela dificuldade que tive em ensaiar o canto que por motivos históricos, é sempre bom lembrar. Como componho algo que não consigo cantar? Há mistérios não tão doces.

sábado, 10 de outubro de 2020

AcaryeCarina

“A ocarina é um instrumento de sopro em formato oval ou oviforme (expressão web-dicio,) feito, geralmente de porcelana, terracota, madeira ou pedra. A ocarina pertence ao segmento instrumental das flautas e é um dos instrumentos musicais mais antigos do mundo. Possui geralmente a forma oval tendo de quatro a doze furos para os dedos Um tubo chamado de passagem de ar (airway ou windway, em inglês) projeta-se de seu corpo servindo de bocal. Normalmente é feito do mesmo material da ocarina, mas pode ser feito de um material equivalente.” – Definição presente na Wikipedia



 

AcaryeCarina (2009)

Acary de Iracá arcanjo tocava ocarina
Carina ouvia a ocarina e amava Acary
Acary tocava a ocarina não via Carina
Carina sonhava todo o santo dia com Acary

Toque, toque Acary
Não deixe de tocar
Pois amor de ocarina
Faz Carina sonhar

Carmesim era o vestido que para a festa ia Carina
Acary em seu caritózinho não sabia o que vestir
Carina tinha carisma de menina bailarina
Acary não era caribenho muito menos carijó

Toque, toque Acary
Não deixe de tocar
Pois amor de ocarina
Faz Carina sonhar

Acary, meu caro, carece do amor de Carina
Carina carece das caricias que daria Acary
Em Iracá Arcanjo disso tudo o povo já sabia
Carina e Acary em cárcere platônico estão

Toque, toque Acary
Não deixe de tocar
Pois amor de ocarina
Faz Carina sonhar

Acary Carina carmesim a ocarina
A ocarina cárcere arcanjo Acary Carina

    Em um faixa a faixa escrito em 30/01/2010 eu dizia que “a faculdade me fez escrever coisas diferentes, e o que faltou de jogo de palavras na música anterior (O tudo que digo) entrou nessa. Um reggae sobre Acary de Iracá Arcanjo sua ocarina e o amor de Carina. Algo que eu pretendo transformar em conto futuramente. O refrão veio de um conto que minha mãe contava pra mim quando criança “La flor de Lirolay” e que dizia em algumas partes ‘Toque toque pastorzinho nunca deixe de tocar, os meus irmãos me mataram pela flor de Lirolay’.”
    É curioso ter este breve registro escrito há dez anos, por alguns motivos. Por exemplo, nunca escrevi o referido conto. Olhando hoje, inclusive, vejo encontro grande dificuldade em entender qual seria o seu conteúdo. Quem é Carina? O que ela faz? Além de sonhar com Acary todos os dias? Não sei hoje, tampouco sabia na época. Meu interesse era puramente estético, brincar com palavras. O que se destaca nos últimos versos em que se repetem “Acary, Carina, Carmesim, Ocarina, Cárcere, Arcanjo”, mas se encontra em maior ou menor grau por toda a letra. 
   A própria cidade “Iracá” nasceu de “Acari” lido ao contrário. A ocarina surgiu como referência ao jovem Tapion, personagem surgida no décimo terceiro filme de Dragon Ball Z: O Ataque do Dragão, lançado em julho de 1995. Me admira que haja tão poucas menções à animes ou mangás nas letras que escrevi, sendo mídias com as quais tenho muito contato há, pelo menos, vinte e seis anos.
     Quando adquiri o livro de Celina Bodenmüller e Fabiana Prando “A flor de Lirolay e outros contos da América Latina” lançado em 2015 pela Panda Books, qual não foi minha surpresa ao perceber que minha citação ao conto estava errada? A tal flauta cantava “Não me toque pastorzinho, apenas me deixe contar” e não “Toque, toque pastorzinho, nunca deixe de tocar”. Como a memória confundiu-se assim?

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Mais Nada

“Porque alguém escreve é uma questão que posso responder facilmente, tendo perguntado a mim frequentemente. Acredito que alguém escreve por necessidade de criar um mundo em que possa viver. Eu não podia viver em nenhum dos mundos oferecidos a mim – o mundo de meus pais, o mundo da guerra, o mundo da política. Eu tive que criar um mundo meu, como um clima, um país, uma atmosfera em que eu pudesse respirar, reinar e recrear a mim quando destruída pela vida. Essa, acredito eu, é a razão para todo trabalho artístico.” – Anaïs Nin, fevereiro de 1954 em O Diário de Anaïs Nin vol. 5 (1947-1955), como citado em Mulher como Escritora (1978) por Jeannette L. Webber e Joan Grumman, p.38

         
        Quando decidi que escreveria sobre essa música, contava ainda o 31º em quarentena (hoje é o 105º à título de comparação) queria me utilizar de uma composição melódica solar e esperançosa, algo que ocorre pouco em meu universo enquanto “compositor solo”, escolhi, então, uma melodia que não me pertence. É um dos lados agregadores das parcerias, você se deparar com caminhos que pertencem ao universo particular do outro e sua bagagem e forma de perceber o mundo.
        Retrabalhei, então, trechos da letra para retratar, então, essa ideia de reencontro após a distância, em que um eu-lírico sente que a sensação de completude virá ao poder reencontrar outra pessoa. Passei, inclusive, a pensar como há versos ou frases que ficam no imaginário, como “um coração a palpitar” que também reside em Falta, escrita por Anderson Bezerra.
        No “refrão” há brincadeira orbitando “as respostas certas para as perguntas erradas/as perguntas certas e só respostas erradas” como fosse um círculo perfeito de imperfeições, coincidência ou não, minha letra de Baseado em Fatos, também escrita em 2009, possui um trecho em que os versos brincavam “E as diferentes formas de sermos iguais/São iguais maneiras de termos diferenciais”. Qual era a influência de versos assim? Fernando Anitelli? Capital Inicial? É difícil traçar e, no fim das contas, isso não importa.
       Na análise da psicóloga Erika Mendes, o refrão não seria repetido tanto, a menos que a intenção fosse deixar gravado na cabeça, o que ocorreu com ela, mesmo assim, ela sentiu o resultado como o tipo de música que se ouviria cantando enquanto preparava o jantar.


Mais Nada (2009/2020)
Letra: Bob Barduchi Oliveira e Thales Salgado
Música: Bob Barduchi Oliveira

Só que isso não é mais um jogo de azar
A dose errada de amor vai me matar
Entenda, me dê sua dose certa
Posso ir mais devagar se precisar

Mas, na hora, devagar não vai chegar
Vou dar um tempo, uma pausa para cantar
Esquecer da vida, abrir os braços e voar
Estar nas alturas sem o ar para respirar

As respostas certas para as perguntas erradas
As perguntas certas e só respostas erradas
Qual é o lado verdadeiro, da verdade?

Basta viver para rimar
Se tenho voz para cantar
Talvez alguém por quem lutar
Um coração a palpitar
Minha alma vai saltar
Se eu puder me declarar
Quando a gente se encontrar
Sei que não vai me faltar
Mais nada.

Lembranças de um tempo pré isolamento social.

       Refletindo um pouco mais sobre o período de criação, encontrei um faixa a faixa escrito em janeiro de 2010 em que eu comentava que “Bob decidiu que eu deveria cantar e ajuda-lo a montar, para relembrar os velhos tempos das primeiras composições”. 
Considerando que o marco zero de nossas composições ocorreu em 2007, me admira que eu já estivesse falando em “velhos tempos”. Assumirei, com isso, que o exagero era uma característica bem mais aparente em mim naquela época do que é agora.
      Tentando delimitar melhor as datas, encontrei um e-mail de 23/07/2009 em que compartilhava uma gravação preliminar da música, então, ela não deve ter ficado pronta muito antes. A gravação original fora realizada no quarto da casa em que ele morava à época, lugar em que, podemos referir carinhosamente como “Rua do Baixo”. Não faz muito tempo, comentávamos sobre esse lugar no tempo-espaço em que éramos vizinhos.
Milan Kundera escreveu em A Ignorância que “Em grego, retorno se diz nóstos. Álgos significa sofrimento. A nostalgia é, portanto, o sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar.” 
         Há alguma nostalgia, então, se pensamos em lugares nos quais não podemos estar novamente. Não podemos visitar e apontar um dos lados para o novo dono e dizer “ali Tributo aos Sentimentos tomou forma” e receber de retorno um olhar confuso ou um “Ah! Entendi” de alguém que não faz ideia do que ela vem a ser.
Enfim, aí está, a história viva.

domingo, 24 de junho de 2018

Dom Casmurro!

"Estilo, meus senhores, deitem estilo nas descrições e comentários; os jornalistas de 1944 poderão muito bem transcrevê-los, e não é bonito aparecer despenteado aos olhos do futuro." - Machado de Assis. "A semana". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1895.
 


         A gravação que acompanha este texto é a feita em 2009, com os erros e acertos no limite do que eu no alto de meus dezenove anos era capaz de fazer. Gravei primeiro o violão e tentei cantar de fôlego com alguma dificuldade. O "Ah Capitu" soa antinatural por ter sido inserido depois. Á época me era difícil cantar tocando a letra inteira. Letra essa que surgiu em meio à rota das cobranças como office-boy. Num dia inespecífico comecei a cantar "De minha infância lembro muito meu tio, minha mãe, o quanto isso hoje me diz é pouco" depois os jogos de palavras "quem captava a linha direta de minha rotina, por quem meu corpo perto optava por parar, tu captas que diziam: ela é coisa do capeta. Teus olhos de ressaca: Capitu". Algumas brincadeiras como o "europou" eram influência dos neologismos de Guimarães Rosa. Autor que só me lembro de ter prestado atenção à existência por influência dos professores na universidade. Mas pensemos na música.
       Dom Casmurro! surgiu no mesmo ano em que compus A Hora da Estrela. Não é coincidência. 2009, para efeitos deste texto, ficou marcado por dois eventos: minha incursão na faculdade de Letras e o fim da banda Falsa Modéstia.    
        Ambos eventos parecem carregados de coincidências. Desenho, então poderia ter feito Artes Plásticas. Navegando o sonho de perder a timidez e me libertar no palco poderia fazer Artes Cênicas. Compondo há alguns anos e já tendo a indicação de um técnico em estúdio para aprender a tocar com metrônomo, Música era a escolha certa. O gosto pela análise interpessoal parecia sugerir trilhar o caminho da Psicologia. Apreciando escrever, Jornalismo era para mim. Por menos opinativos fossem os textos naquele período - ou em qualquer um posterior. Memorialista que sou, poderia ser me desse bem estudando História. Por crer a Língua Portuguesa base para quaisquer estudos que fizesse acabei optando por Letras. 
           A banda também poderia ter seguido? Sim, de certo modo, ela o fez. Se durante um período a troca de um integrante era capaz de gerar uma banda com conceito completamente distinto (Falsa Modéstia/Cangaço) a banda Vacina seguiu com os integrantes levando a música, energia e vibração para todos os lugares e segui com as composições de dentro de meu quarto. Diria Anitelli: as claves na gaveta. Algumas como Para o Adeus (tributo a Michael Jackson) já tinham parte desenvolvida. Outras como Dom Casmurro! já estavam prontas e eram ensaiadas buscando um arranjo que as vestisse bem. Seguindo o exemplo d'O Teatro Mágico em Cidadão de Papelão comprei uma escaleta num passeio com Fabio pela Rua do Seminário enquanto levávamos os instrumentos para uma revisão com o luthier Erlon Alves.
        O caráter memorialista teria sido herdado de Machado? Os textos de 2007 ficaram conhecidos pelos poucos que os viram como "Memórias de um doceiro". Seguindo o exemplo das Póstumas de Brás Cubas, do Memorial de Aires, do próprio Dom Casmurro. Notei no último sábado, enquanto lia sobre a narrativa de Bento Santiago como há relação entre o momento em que ele vê os olhos de Capitu pela primeira vez com a forma descrita na narrativa de Sobre um dia de junho. Este blog, em si, são memórias. Mal se fala do futuro, senão, aquele vivido enquanto presente. A banda Falsa Modéstia flutua de memória em memória.

Dom Casmurro (2009)
Letra e Música: Thales Salgado

De minha infância lembro muito
Meu tio minha mãe
O quanto isso hoje me diz é pouco
Quem captava a linha direta de minha retina
Por quem meu corpo perto optava por travar
Tu captas que diziam:
Ela é coisa do capeta
Teus olhos de ressaca Capitu

O Pádua ficou louco
José Dias não europou
Mesmo com todos os superlativos
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana obliqua e dissimulada Capitu

Fui para o seminário
Pra São Paulo me mudei
Voltei formado como advogado
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana obliqua e dissimulada Capitu

Ah Capitu...

Ezequiel meu filho
Era a cara de Escobar
Os movimentos, o furor o brilho
No funeral Capitu
Dama negra desaguou
Chorava mais que a perda de um amigo

Ah Capitu...

Viajou para a Europa
Tão mais logo não a vi
Guardei em mente só uma certeza
Escobar meu amado amigo
Em nado naufragou
Fui traído pela cigana obliqua Capitu

Cigana Obliqua e Dissimulada Capitu

Ah Capitu...


          

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Hey Menina

"Para uma pessoa com alguma imaginação o passado está em constante mudança. Você acha que o presente nasce do passado, mas é o contrário. O presente cria o passado. Uma pessoa com imaginação não fica presa ao passado e muito menos a fronteiras." José Eduardo Agualusa - A Sociedade dos Sonhadores Involuntários

Seu instrumento, seu território.


Hey Menina (2009)
Letra e Música: Fábio Kulakauskas

Hei menina!
Passa devagar
Pra eu contemplar
Teus passos

Aqueles passos
Que me fazem
Viver o passado.

Alguns passos,
Alguns passam.
Mas, você não ficou
Só no passado.

Hei guria!
Ah! Eu lembro
Do teu caminhar,
Leve feito pena.

Más não há “penas”,
Pois, sobre mim
Tu irás passar
E alcançar...

O teu futuro.
Pois, é esse
O destino
De nós dois.


         Foram-se os dias após o natalício e a canção não vinha à tona. No dia dez, enquanto conversava com Kariny ela comentou acerca do contraste entre minha versão (suave, breathy, raspy) e a gravação original (forward placement) de Fabio, com direito à um arranjo de violão clássico digno de Pachelbel.
         Assim como Desejo de um Rio, minha versão da música é pautada nos arranjos de Bill Callahan em seu álbum Sometimes I Wish We Were An Eagle. A delicadeza da execução das cordas desse álbum tornaram-se um norte. Você precisaria ouvir apenas Jim Cain para perceber a maneira como a voz de Bill percore os acordes como quem não se preocupa com o tempo. Por vezes me pego a pensar em quanto os arranjos poderiam ser modificados ou não. Esse pensar também esteve presente numa outra canção de Fabio de que falei: Noites Esfrias em que o foco foi na utilização da craviola de doze cordas.
      Esses contrastes não são forçados. Podendo analisar muito tempo após tudo ter ocorrido fica a noção das abordagens composicionais distintas e, por mais soe repetitivo, é um fator que agrega quando se pensa na Falsa Modéstia como a entidade coletiva de outrora. Algumas de minhas composições poderiam trazer os 'passos' como foco, e, ainda assim, seriam outros passos. Como um de meus rascunhos perdidos em tudo o que não foi e que dizia lá perto do ribeiro onde segui seus passos. A letra de Fabio é concisa e ao mesmo tempo evocativa e esse é um ótimo ponto. Não é preciso discutir acerca. Apenas sentir.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Felinos

"O teu dorso condescende à morosa
Carícia da minha mão. Sem um ruído
Da eternidade que ora é olvido. 
Aceitaste o amor desta mão receosa. 
Em outro tempo estás. Tu és o dono 
de um espaço cerrado como um sonho." 
A um Gato, Jorge Luís Borges 

Gato e Rato, por Maurício Nascimento

 

Felinos (2009)
Música: Bruno Oliveira

As vezes sinto pena dos caninos
Que passam noites uivando
Seguindo seus instintos lupinos
Mas vejo a situação assim:
"É tão melhor para quem é felino"
E eu não sei. Eu não sei quem sou

Mas se felina for tua intenção
De encarcerar meu coração
Eu sou felino teu
No meio das marchas da noite
Entregar-me-ei

Venha com presas avassaladoras
No fim das contas eu não vou lutar
Domine-me que seja nas masmorras
Faça-me um gato daqueles que uivam pro luar



       Há muitos gatos na História, os vistos como divindades, como objetos de sacrifício. Outros simplesmente domesticados, em parte, por seus donos. Nunca tive gatos, longe de mim mencionar algo relativo e errar completamente. Se você leu até aqui e é apaixonada (o) por gatos, comente quais são os maiores predicados desses animais. Será ótimo conhecer mais. A literatura de Haruki Murakami está repleta de gatos. Na trilogia 1Q84, há uma parte dedicada ao conto de uma cidade dos gatos, por exemplo.Em 2009, eu ainda estava longe de conhecer a obra de Murakami. Tampouco havia lido Relatos de um Gato Viajante da escritora Hiro Arikawa, uma de minhas leituras mais espirituosas de 2017. Então o que me levou a escrever um poema chamado Felinos?
       A ideia era tentar criar o senso de uma paixão tão forte que, um dos lados, não se importa em ter a própria natureza trocada. Eis aí a brincadeira entre lupinos e felinos. (I'm talking about spectacular, consciousness-altering love). A questão é, escrevi. Dediquei. E as palavras ficaram ali. Num de meus cadernos (eis a era pré-moleskine 😮) até o momento em que Bruno enviou uma linha de baixo melódica e, enquanto buscava os acordes as palavras surgiram e, como adoro dizer, foram calçadas feito luva. Apenas dois acordes se repetem por toda a canção, o que a torna perfeita para jams.




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Noites Esfrias

"O futuro era argila, para ser moldada dia a dia, mas o passado era um rochedo, imutável."  Sidney Sheldon, O Reverso da Medalha





Noites Esfrias (2009)
Composição de Fábio Kulakauskas

É uma pena ter que dormir
Principalmente naquelas noites lindas
Há tantas estrelas para contar
Para que desligar a mente
E acordar na rotina?

São os dias quentes
De noites frias

E quando o sol do meio dia
Lançar seus raios perpendicular
À superfície da Terra
Onde estará a noite fria?
Onde estará a noite mais linda?

É assim o tempo todo
É assim que a Terra gira
São os dias quentes
De noites frias


         Ainda que Augusto Cury afirme que a capacidade de se colocar no lugar do outro é uma das funções mais importantes da inteligência, por vezes, leio um poema ou letra de música e tento encontrar em mim o estado de espírito passado por outrem no momento de manipular as palavras artística e estilisticamente. Nem sempre sou capaz de fazê-lo. Como já mencionei antes no blog, já me impus a atividade de completar composições de pessoas próximas. Isso aconteceu, por exemplo, em Uma Nova Viagem e Mar de Mim. Ambas composições que partiram do imaginário de Fabio KulakauskasNo caso de Noites Esfrias, minha única contribuição foi o nome. Uma brincadeira com a sonoridade dos versos. O período da faculdade era prolífico nisso. Via um recurso estilístico em aula, em seguida tentava replicar. Daí vieram os neologismos Solipátria e Apacresce, por exemplo.
       Lembro de Fábio em sua garagem mostrando sua canção num ensaio. O verso falando do sol do meio-dia lançando seus raios perpendicular à superfície da Terra me chamou atenção. Há palavras com as quais não estamos habituados a atribuir ritmo e musicalidade. Essa construção me é cara até hoje. A letra remete a uma série de imagens bucólicas, mas, com estilo. De que noite ele se refere? Me imagino a contar estrelas sem instrumentação apropriada, com os telescópios guardados brinco de criar constelações e me perdendo em pareidolias... Ora direis ouvir estrelas! e sem perder o senso. Se em minhas canções até luas choravam tristes num dia claro, quão revigorante era encontrar uma letra em que se personifica "a noite" e se tenta traçar seu paradeiro quando o sol se espalha. Canções cálidas. Há alguns meses realizei esse registro da canção com a craviola de doze cordas. Diria Anitelli: difícil é ser tão simples.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Baseado em Fatos

"Nós que ouvimos vozes e seguimos visões temos que negociar o dia a dia com pessoas que vivem sem intensidade uma felicidade burocrática (ou um ranço automático) e repetem com boca frouxa: pega leve, nada é tão sério, relax... Como se fosse uma opção ter as mãos cheias de calos ou tê-las de alface, de manteiga." Humberto Gessinger, DISC(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 47 (01 de maio de 2012)
  

Baseado em Fatos (2009)

E falarei sobre verdades
Eu fugirei da ficção
De quase todas as teorias
Esperando não ser vão

E falarei sobre verdades
Esperando não ser vão
De quase todas as teorias
Eu fugirei da ficção

Complico tudo sem querer
Com as pontas soltas faço nós
Você tão solta em seu jeito de ser
Está tão tranquila a sua voz

Complico tudo sem querer
Está tão tranquila a sua voz
Você tão solta em seu jeito de ser
Com as pontas soltas faço nós

E as diferentes formas de sermos iguais
São iguais maneiras de termos diferenciais

Onde estão as provas? Onde estão os fatos?

          Ter as palavras de Humberto Gessinger iniciando esse post tem um objetivo simples: a garantia de haver algum conteúdo concreto neste post. Pensando bem, há mais dois motivos. O primeiro é que os acordes do refrão G A Bm são os mesmos usados em Refrão de Bolero, da mesma forma que se encontram no Acústico MTV da Engenheiros do Hawaii, lançado em 2004. Essa versão fez parte do repertório de coveres da Falsa Modéstia e esteve em, quase, todas as suas apresentações. De tanto usar a progressão em ensaios me senti compelido a emulá-la. O que eu de dezenove anos fui incapaz de perceber era a necessidade de uma letra forte e que fizesse jus à homenagem. O ingresso à faculdade de Letras tinha a intenção de ajudar a expandir os horizontes literários, ali, no primeiro semestre, a percepção era a de que a criatividade e os pensamentos escasseavam. A letra traduz bem esse estado de falta de conteúdo. Tanto a estrofe quanto o pré-refrão são repetidas tendo apenas a ordem dos versos alterada. Não era intenção estilística e sim vontade de preencher espaço para que a canção alcançasse os três minutos.
       Alguém disse que o bloqueio criativo nada mais é que palavras e intenções represadas: o escritor sabe quais seus temas, provavelmente, tem um esqueleto delineado para novas composições e histórias e reluta em trazê-las à tona. Essa sobrecarga impede qualquer criação posterior por tempo indeterminado. Queria dizer que quem me disse foi Fabrício Carpinejar - Aprendi o mínimo com Enrique Vila-Matas acerca de citações apócrifas e fantasias do cotidiano, porém, não me sinto apto a trazê-lo ao texto - mas, a verdade é que esse ensinamento fica me acenando de algum lugar sem apresentar a autoria. Só. 
          Então, esse era mais um período de bloqueio. Seria o primeiro? Talvez eu já tenha mencionado algum nesse pouco mais de um ano de postagens. A ideia da letra era ser direto, deixar de firulas, de confusões narrativas. Coisa que nunca consegui deixar de lado. Há uma busca constante por um verniz poético, pelo medo de tudo o que é simples seja insuficiente ou não denote erudição. Acho belo quando as pessoas fazem citações precisas acerca disso ou daquilo, como comentaristas que recordam com precisão aquele passe feito pelo zagueiro reserva num campeonato de várzea, num universo de três passes bem concretizados naquele ano, há pelo menos quatro décadas atrás. Ou os professores e doutores que sabem em que página autor X usou frase Y com a intenção de obter efeito Z. Não sou um desses, todavia, mas farei minha parte: a terceira razão para ser útil ter Gessinger ancorado nessa postagem é que o verso "As diferentes formas de sermos iguais são iguais maneiras de termos diferenciais" foi inspirado no refrão de Ninguém = Ninguém.
           Sim, qualquer pesquisa leva ao óbvio; Gessinger tomou os versos do sétimo mandamento da Revolução dos Bichos de Orwell: Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros. Diferenças, similaridades. Um tema que abre muitas portas nas letras de outrem acaba por ser tratado de maneira superficial nessa breve letra paradoxal, em que se cria a ficção que negada logo no início.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

...Era Uma Vez

"Nas últimas décadas, muitas facções da crítica literária têm definido a necessidade de se considerar o texto literário em relação ao contexto em que o mesmo se encontra inserido, por considerarem que, de alguma forma essas instâncias estão irremediavelmente interligadas. No que se refere à posição social da mulher e sua presença no universo literário, essa visão se deve muito ao feminismo, que colocou em evidencia as circunstâncias sócio-históricas entendidas como determinantes na produção literária." - Lúcia Osana Zolin, 


         Confesso! A postagem dessa semana não foi nomeada com o título da música pois Apacresce sendo um neologismo poderia afastar potenciais visitantes; ou pode ser para tentar capitalizar audiência na esteira do iminente retorno da sexta temporada de Once Upon a Time, de forma que a hashtag #Eraumavez possa, com algum esforço, alcançar fãs ávidos por notícias e spoilers saídos do forno. Coisas que, desde já, me não proponho a fazer. Mas divago. Acaso  você leitora ou leitor fique um pouco mais poderei falar de uma música composta no ano de 2009. Influenciado pela leitura de Guimarães Rosa todos os títulos precisavam ter um neologismo - era o mesmo caso de Solipátria - e o da vez era uma junção de "cresce e aparece". Simples e direto.
           Faço questão de reiterar o ano da composição justamente pela série de Kitsis & Horowitz ter estreado apenas em 2011, portanto, não podendo servir como inspiração. Transcrevo o texto que me instigou, partindo de Daiane Suzuki ,a seguir:
"Hoje eu acordei mulher. Não há mais lobo-mau, bruxas ou vilões, meu tempo sou eu quem faz.O príncipe não tem mais cavalo e já não é mais tão encantado assim. A bruxa má virou rotina e o lobo mais um flerte. Não existe mais frutinha que me faça dormir e o encontro com o príncipe ao pôr-do-sol tornou-se apenas uma conversa corriqueira durante uma pausa na rotina.A fada-madrinha virou sorte e há muito deixei de contar com ela. Exauriram-se os bailes reais e as festas. O livro de feitiços virou um grosso livro de Resistência dos Materiais.Troquei o vestido por jeans e os sapatinhos de cristal por salto-alto. A ingenuidade tornou-se frieza, a pureza, perfeição e a inocência, uma lenda.O "felizes para sempre" virou meta, ou talvez só mais uma metáfora. A madrasta agora é aluna e o espelho um objeto de desejo.As bonecas agora são enfeites ou brinquedos para as traças. O castelo virou casa e o cavalo branco o carro do ano. Já não há mais magia, sorte, coincidência ou acaso.A maçã envenenada agora é minha fruta favorita. O conto de fadas passou a ser mito e o tempo se tornou implacável.Cada dia a responsabilidade aumenta e a princesinha agora dorme um sono profundo e sem culpa, talvez um dia ela retorne de seu sono, mas enquanto isso a mulher toma seu lugar e segue seu caminho mostrando-se cada vez mais capaz e mais forte porque o tempo não para e sua vida é um verdadeiro milagre."
         Conversando com Anderson Gonçalves à época, a crítica feita por ele era a de que a letra poderia agregar mais referências a outros contos de fada. Salta aos olhos facilmente a presença de Chapéuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, A Bela e a Fera e A Bela Adormecida. Histórias encrustadas no inconsciente coletivo. Observando o texto-inspiração, talvez o impacto fosse mais forte com a menção de uma leva diferente de princesas, tais Mulan ou Tiana. Indo de acordo com o parágrafo nono do tomo I do documento SZK demonstrando um tipo de princesa que não quer ser tratada diferente, tampouco ser o sexo frágil e nem regalias. Sem menção direta a estes fatos, se pode argumentar que a letra da canção é pueril e rasa. Repleta de reducionismos - será?. Mesmo assim, à porta de meus dezenove anos falar da vida em tom maior parecia o caminho a seguir. Uma curiosidade acerca da música é que detratores inferiam que a melodia não passava de um plágio de Eduardo e Mônica.



Apacresce (2009)

Eu a vejo passear graciosa
Pela estrada vai sozinha
Em suas mãos uma maçã
Ela mesma faz seu tempo
Acho nunca vai mudar
Mesmo que a meia-noite vá embora

Para ela um lobo é só parte do jogo
O príncipe não passa de um menino bobo
E a fera não assusta como dizem por aí

Era uma vez
Uma menina que dormia
Abraçada com ursinhos
Era uma vez
Um dia levantou de supetão
E que deixou tudo para trás
De uma vez
Uma menina que dormiu menina
E que acordou mulher

A fada madrinha ficou para trás
Não tem bruxa nem madrasta
Que a façam parar
Ela não dorme para sempre

Hoje ela paga para ver

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Solipátria

"São tempos sombrios, não há como negar. Nosso mundo jamais enfrentou ameaça maior que a que enfrenta hoje." Rufo Scrimgeour

        Textos guardados, uma série deles. "Nunca tantos quantos se poderia ter." Parafraseio Sampa no Walkman, dos Engenheiros do Hawaii, como quem não quer nada. Assim como Lost, qualquer um que converse algum tempo comigo ouvirá alguma menção à banda gaúcha. Pra ser sincero esse texto já começou e acabou de uma série de formas. Ele já foi uma prosa poética acerca dos valores do país, já se tornou um roteiro com cenas em que um jovem eu conversava na banca de jornal acerca de quais valores eram possíveis ou plausíveis do alto de seus doze anos de idade, também rascunhada foi a ideia de falar acerca de artistas com temas políticos em suas letras. Agora, como transmitir a mensagem de modo a não soar como estivesse a colocar minhas próprias palavras à altura de meus "mestres" por assim dizer? 
         Essas narrativas em primeira pessoa sempre me fazem pensar em quão confiável é a voz do texto, principalmente quando envolve o resultado de uma série de diálogos. Tudo é sempre uma ficção; Pode ser influência da segunda temporada de Mr. Robot, ainda que não esteja tão contente com os rumos da trama que parece patinar sem rumo, a ideia de dupla personalidade sempre me chamou atenção desde que me deparei com o trágico destino de Saga, o geminiano. Diga o que quiser, fui conhecer a obra de Robert Louis Stevenson só muito tempo depois, fico com o referencial nipônico. Seja como for, no final, despida de todo o requinte que se buscava cá estamos no segundo parágrafo e, na falta de ideia melhor para ele, sugiro que passe ao terceiro:
         Síntese sem tese ou antítese agora, retomemos parte do que compunha a intenção original do texto. Aos doze, eu estava na banca de jornal próxima à E.E. Esli Garcia Diniz, suponho eu estivesse conversando com Alcebíades quando os acordes de uma música diferente começou a tocar na rádio. Gm F Dm não seria mera coincidência que minha primeira composição teria um pouco disso. A questão é que quando ouvi os versos "Sinto um imenso vazio e o Brasil que herda o costume servil, não serviu pra mim" não deixei escapar a surpresa. "Esse cara tem a voz parecida com a do Paulo Ricardo". Fui corrigido pelo colega da banca: "Mas é ele, está voltando com a banda dele, o RPM". Curioso, até então, para mim, ele era apenas o judeu Samuel na novela Esperança e o cantor de hits tais Como se fosse a primeira vez e Dois.
           Foi um choque bem vindo, eu sabia que letras podiam ser politizadas, refletir algo do mundo "real". Conhecia Ideologia de Cazuza, e uma serie de pensamentos de Renato Russo envolvidos nas letras da Legião Urbana, como Que país é esse? e Geração Coca-Cola. Mas Juvenília representou a ruptura do que se podia dizer ou não. Então, no terceiro ano do ensino médio era o que eu tinha em mente quando a profª Marize dividiu a sala em grupos e propôs que cada um compusesse uma canção sobre o país, e que tivesse o meio ambiente, também, como norteador. Foi surgindo o que viria a ser Solipátria suponho segui o tema até o segundo verso. Como o grupo em que eu estava já possuía um compositor com uma verve "popcêntrica" deixei de lado a primeira estrofe por alguns anos. Textos guardados. Uma série deles. 
          Corta para o RPM de novo. Em sua versão de Alvorada Voraz para o disco ao vivo em 2002, Paulo Ricardo atualizou sua letra. O que era "O caso Morel/O crime da mala/Coroa-brastel/O escândalo das jóias/e o contrabando/um bando de gente importante envolvida" tornou-se "O caso Sudam/Maluf, Lalau/ Barbalho, Sarney/ E quem paga o jornal?/ É a propaganda, pois, nesse país é o dinheiro que manda." Em 2009 a série de escândalos no senado acabaram por me fazer retomar a letra pensando na situação do país, e, o hino nacional já estava no DNA da letra que nasceu na escola. O tema na faculdade rondava as intertextualidades, e a Canção do Exílio de Murilo Mendes uma ponte. No último momento a melodia se deixou influenciar pelo folk cuiabano do Vanguart. De tanto ouvir comentários acerca de Guimarães Rosa era preciso utilizar neologismos, apenas no título faria sentido: A pátria solitária, solitária pátria, solipátria. Os protestos de 2013 viriam a contradizer o primeiro verso da segunda estrofe, o povo já não estava calado. Hoje, mais que arroubos parnasianos, estudantes ocupam suas escolas em atos que deixariam V orgulhoso. Ideias são à prova de balas e o país pode avançar sem temer.



Solipátria (2009)

Quando o verde louro torna rubro
E o som do mar traz gritos incontáveis
Quem parar para olhar para o céu
Não verá o sol da liberdade
E sim decepção por toda a corrupção
Que agora reina e se espalhou

O povo heroico está calado e já não liga mais
O espelho está quebrado e se nega a refletir
Pois que não há grandeza a ser espelhada em futuro aqui

O berço esplêndido virou caixão
E ninguém já se deu conta
Que alguém apagou a luz
Entre outras mil fomos nós mesmos
Os que cortamos o cruzeiro que resplandecia
E agora vocês sabem
Sabem que somos nós

Que vamos permitindo a um outro mundo
Vir até aqui e fazer pouco caso de nossas verdades!
Da pátria amada hoje só restou saudade
Saudade restou só hoje amada pátria
Tenha dó de mim