terça-feira, 7 de setembro de 2021

Somos Resistência ou (ainda é Sete de Setembro)

 “Não tenho muito o que dizer. A primeira é crítica mesmo, para demonstrar a indignação com tanta injustiça e impotência de ser mulher nesse país, que não importa o quão errado e absurdo sejam os escândalos políticos, nada muda.” – Paula Lima em 04/12/2020

 



Somos Resistência (2020)
Letra: Paula Lima

Fomos lutar em Brasília
Pôr a tapa, o nosso rosto
Nossa briga por justiça
Sair do fundo do poço
Vamos expor o inimigo
Revelar nosso rancor
Confunde cérebro com intestino
Pátria armada e louvor

Somos a resistência
Mudamos o mundo ao nosso redor
Vivemos nessa decadência
Esperando que tudo seja melhor

Como pode ser culposo
Se viola outro corpo
Como pode o retrocesso
A Terra plana ser sucesso
Essa vida bagunçada
Desrespeito pela cor
Vítima estraçalhada
O show ao vivo do horror

Somos a resistência
Mudamos o mundo ao nosso redor
Vivemos nessa decadência
Esperando que tudo seja melhor
 

“Enquanto reflete a situação do país e sua tristeza com o último lançamento de Leoni, o single Sete de Setembro, outros versos que encapsularam uma série de situações distintas surgiu na mente de Thales. Ainda que ele os tivesse visto pela primeira vez nove meses e doze dias antes, sentiu que seguiam atuais. Mais relação ainda havia: Paula a escrevera durante o curso da oficina de composição ministrada pelo próprio Carlos Leoni Siqueira Junior. Ele decidiu que era hora de trazê-la ao blog.” - Prefácio por Jorge Luís Barros

    Em apenas algumas horas, a canção Sete de Setembro, de Leoni, alcançou mais de mil execuções. Considerando a população brasileira com mais de duzentos milhões de pessoas, dos quais, pelo menos trezentas mil o seguem no Facebook e sua carreira já contar com mais de quarenta anos, o número é expressivo, mas não impressiona. “Ain, mas você está falando sobre o que não sabe, hoje é feriado nacional, em um país cada vez mais polarizado. Há mais que música na vida, sabe? Duvido você lançar qualquer coisa e alcançar  de gente.” Antes mesmo eu pudesse replicar, você, leitor ou leitora tão perspicaz quanto voraz complementaria: “você já lançou algo repercutido pelo jornalista Mauro Ferreira? Ele comenta música desde antes você ter sequer nascido!” Diante de tais comentários, tudo o que eu poderia fazer seria dizer: “Sim, mas eu não estou escrevendo por despeito e sim por sentir que devo. Antes que você diga que perdi uma grande chance de ficar calado, são só palavras e o que eu sinto não mudará.

    O problema, claro, pode ter sido expectativas descompensadas:  quando vejo o artista compartilhando a coluna de José Eduardo Agualusa em que o jornalista compara o bolsonarismo ao talibanismo, projeto um alinhamento. Quando dias depois ele comenta acerca de que o Rio de Janeiro pode tornar-se um epicentro da pandemia por seus recordes de infecção, penso em bom-senso. Já ao ler, parafraseando “esse Sete de Setembro parece ameaçador no Brasil. Para quem vai ficar em casa, para não se arriscar (política e sanitariamente), tem o lançamento do meu novo single. Composta há uns 30 anos, com os Heróis da Resistência” meus sinais de alerta não despertaram naquele momento, primeiro pelo próprio compositor ter mudado neste período, e também pois, o cancioneiro brasileiro tem composições como Que País é Este, 1978, a qual fui apresentado formalmente quando a canção já tinha completado maioridade. A teatralidade ou, como diria Gessinger “o nome unidimensional e heroico” do título da banda me iludiu. Naquele momento não me veio a mente que um dos maiores sucessos deles era, justamente, “Só Pro Meu Prazer”, 1986, é claro que o compositor é especializado em pop, isso não está em discussão.

 

“O primeiro ato de violência que o patriarcado demanda dos homens não é a violência contra a mulher. Em lugar disso, o patriarcado demanda de todos os homens que se envolvam em atos de automutilação psíquica, que eles assassinem todas as partes emocionais deles. Se um indivíduo não tem sucesso em aleijar-se emocionalmente, ele poderá contar com homens patriarcais para pôr em prática rituais de poder que irão atacar sua autoestima.” A vontade para mudar: Homens, Masculinidade e Amor (2004), p.66 (tradução livre)

    Também não pensei na conturbada saída do Kid Abelha que em 1987 lançou Tomate, primeiro álbum sem Leoni, e que abre com Paula Toller cantando “Me Deixa Falar”, canção com versos tais “Brasileiros, marcianos/Fazem tanto pra agradar/Mas querem muito, querem tudo/Só não querem me escutar/Me deixa falar, me empresta um ouvido/Me deixa falar, me presta atenção” e que parecem uma indireta direta. Os relatos acerca do incidente que serviu como propulsor para a separação, inclusive, mencionam que houve mais de uma possibilidade de violência no dia. O escritor Jorge Wakabara descreve toda a situação e contexto com fotos, áudio, links e o que mais você quiser em O incidente no Estádio de Remo da Lagoa, publicado em novembro de 2020. Paula ainda iria compor uma série de sucessos, como Grand’ Hotel e Amanhã é 23 e mesmo pérolas lado B como Paris, Paris sem a sombra do compositor.

    Não quero com isso dizer que a música é ruim (sim, mesmo que se possa ouvir Oswaldo Montenegro cantando “embora não pareça”) foi curioso descobrir que ela foi inspirada no filme Não Amarás, 1988, dirigido pelo diretor polonês Krzysztof Kieslowski. Como uma série de outros dele, o filme pode ser visto atualmente no Telecine, mas, uma vez que não o assisti, parafrasearei a sinopse: “jovem espia sua vizinha pelo telescópio, lê suas cartas e faz chamadas anônimas... a música corresponde sua “tímida forma de demonstrar o amor” e passa a provocá-lo.” Sem querer problematizar – uma vez que não assisti AINDA – mas o próprio Telecine coloca: “o relacionamento entre os dois toma rumos complicados.” Se os rumos complicados forem os mesmos de As Duas Faces da Felicidade, 1965, de Agnés Varda, não sei não. De todo modo, descobri o filme devido ao lançamento, logo, não há como dizer que não aprendi nada com a canção.

“Aspirante a engenheira física e amante do mundo musical. Ainda no engatinhar da composição, do cantar e do tocar. Busco transparecer no que escrevo o que vivi, o que gostaria de ter vivido, minhas frustrações e revoltas.” Paula em minibiografia, 19/07/2021

    Mas, para mim, aprendi mais com os versos de Paula. A imagem que, temporariamente, ilustra esta postagem foi feita por mim em 2018, para redirecionar a um texto de 2016, discorrendo acerca de uma composição que ficou pronta em 2009, mas foi iniciada em 2007: Solipatria. Se você já viu o texto sobre Pequenas Conversas Levando ao Real, sabe que sou dado a saltos no tempo. Mas me recordo da empolgação que tive, alguns minutos depois de ler e reler os versos que Paula escreveu depois de ruminar as coisas em água quente e montar algumas frases com rimas. Ela comentou que, durante a aula, rascunhou no caderno e saiu a letra que encabeça a postagem.

    Ainda eu não soubesse durante a leitura qual era o ritmo que ela havia desenvolvido, a melodia que minha mente tocou para mim era um punk rock. Ainda eu pudesse citar nominalmente uma série de casos, tive a impressão de que, ao não o fazer nos versos, ela a tornou atemporal: os problemas estão além dos noticiários atuais, são chagas estruturais, frutos do patriarcado, do racismo... e ainda assim, há esperança nos versos do refrão; há mensagem. No fim das contas, conhecer as criações de pessoas que eu conheço é muito mais satisfatório.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

A segunda dose da Vacina

"É uma máxima universalmente admitida na geometria, e de fato em cada um dos ramos do conhecimento que, no processo de investigação, nós devemos proceder dos fatos conhecidos para o desconhecido. ... Desta maneira, de uma série de sensações, observações e análises, um sucessivo trem de ideias surge, tão conectadas, que um observador atento poderia rastrear de volta a um certo ponto a ordem e conexão de toda a soma do conhecimento humano." Elements of Chemistry, pp. xv-xvi., 1790, Antoine-Laurent de Lavoisier (tradução livre)

A Vacina planejando o pós show, salvo melhor juízo, em 28/08/2010

Você pode reviver outros momentos da banda aqui

   Há alguns meses, escrevi acerca de uma de minhas composições chamada Vacina. Embora possa parecer um nome incomum para uma canção que não versa sobre a saúde pública, ela fora encomendada por bob em 2013 para celebrar um de seus projetos musicais. Naquele momento eu ainda não havia sequer tomado a primeira dose da vacina então era um espaço mental de muita especulação e expectativa, de modo que acabei não discorrendo acerca de outros pormenores que envolviam àquela composição. Um deles era a breve história daquela banda que eu tinha a intenção de registar por aqui:
"Depois de várias tentativas, com outros personagens e outros nomes, nasceu a Banda Vacina. No entanto, apesar das variações ao longo do tempo, sempre existiu uma base representada pelos integrantes Fábio Kulakauskas e Bruno Oliveira, vulgo Bob. A última versão antes da atual formação foi a chamada banda “2 na Base”, apresentando uma duração “relâmpago” em meados de 2008. Sua constituição era a seguinte: Bruno Cortês na bateria, Fábio Kulakauskas na guitarra e voz e Bruno Oliveira no baixo.
Após essa experiência, que durou apenas alguns poucos eventos, foi criada a banda Vacina, tendo como integrantes: Cláudio França na guitarra, Bob no baixo, Fábio na voz e violão e mais um baterista. Pode-se dizer que dois bateristas (Clever e Saulo) foram “Vacinados” até chegar ao baterista atual: Lincoln, que também atua como backing vocal. Desta forma, os “Vacinados efetivos” são: Bob, Fábio, Cláudio e Lincoln."
    Tanto a banda Falsa Modéstia quanto eu estamos contidos naquele primeira frase "outros personagens e outros nomes". Ou muito me engano, mas me recordo de uma conversa com bob no Windows Live Messenger, em que ele mencionava como se deu a impossibilidade de fazer a menção nominal. O que faz todo o sentido: a Vacina sempre foi uma banda que acompanhei como público. Uma vigilância ativa da agenda da banda? Sim. Mas uma conduta expectante no sentido de que eu não fazia parte das discussões de repertório, não sabia o horário ou se os rapazes haviam ensaiado. A responsabilidade era apenas a de estar no local e hora certos. Se eu tivesse sorte, teria a companhia d'A Menina em Sépia. O que mais eu poderia querer?
     Afinal, há muita diferença entre a troca de um elemento humano em um conjunto. Um dia desses num desses encontros casuais estava ouvindo a enxuta discografia da Audioslave. Três álbuns, dos quais, apesar do sucesso do primeiro, prefiro os dois últimos, pensemos então como fosse um triângulo isósceles: o primeiro, com pérolas como Like a Stone e Show me How to Live é a base e os sucessores são os lados congruentes. Ainda que conte com quatro álbuns de estúdio e 3/4 do Audioslave a Rage Against the Machine é uma criatura completamente diferente. A visão política revolucionária de Zack de la Rocha é diametralmente oposta à potência melódica existencialista de Chris Cornell. Assim também era com diversas bandas em Arujá (ou qualquer lugar, essa parece uma constante no livro de Guga Magfra Como Ser um Rockstar) um elemento poderia alterar completamente a dinâmica de um grupo.
     Ainda assim, enquanto acompanhava enquanto fã, me perguntava como o nome da banda poderia ser empregado em uma canção. Foi assim que nasceu a "Vacina" original, com uma melodia que tentava emular Djavan e uma letra com referencias que iam de Saint Seiya à Interpretação de Sonhos de Freud passando pelos sacos de pão francês. Ela nasceu primeiro e, por muitos anos, ponderei se o post contaria a história das duas, o que não aconteceu. Assim, anacronicamente, surgiu a segunda dose:

Vacina (2011)

Letra e música: Thales Salgado


Acaso haja as escadas mar de rosas

Eu te carrego sem que precise pedir

Vou com teus olhos em prosa silenciosa

Se sirvo bem é para pra sempre te servir


Tudo na vida é sem medida

Tu andavas tão distraída

Não via nascer feridas

Nem as brasas que passou

Agora isso não importa

Vem, fecha atrás a porta.

Que a ânfora de anseios se quebrou


De tua vacina sou conhecedor

Sei do remédio que afasta-nos do tédio

Deste insuspirado amor

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Texto de 4 cm

"Quais foram as grandes lições que você aprendeu com esse período conturbado até o momento? Acredito que foi essa travessia para dentro de si. A gente se vê sozinho para não continuar vivendo sozinho. Para recuperar os laços. É um paradoxo." - Fabrício Carpinejar em entrevista para Jocé Rodrigues, Cândido - Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, 30/11/2020
Print do site do escritor Rodrigo Mutuca
Antes de seu site ser aposentado
Colega na oficina de crônicas de Carpinejar
Foi o primeiro a publicar um texto meu
(fora deste blog)

     Um dos aspectos que me interessavam nos tempos pré-pandemia era a possibilidade de realizar cursos/workshops por aí. É possível fazê-los em casa? #simecomcerteza mas não é a mesma coisa. Datando este post: estou vivendo a expectativa para o Tradução de literatura japonesa: reflexões e debates pela plataforma Momonoki, com a profª Rita Kohl. Mas não creio que haverá espaço para conversas paralelas entre colegas que me levem a descobrir que alguém no Centro Cultural b_arco, está ligado a mim por menos de seis graus de separação, como ocorreu com a escritora Valéria Rezende que já conhecia uma das pessoas mais recorrentes em menções neste espaço: o designer baixista bob que recentemente fez sua estreia enquanto roteirista, colorista, montador e diretor com o clipe para a canção Ressaca dos Olhos, parceria de Luan Magustero e Pedro Santos.
   As reuniões via Microsoft Teams e Google Meet são ótimas para momentos expositivos ou para conversas entre um conjunto pequeno de pessoas, mas, ou muito me engano, ou não favorecem a interação ao pensarmos em um grupo com algumas dezenas - é, sabe aquela coisa de cutucar a pessoa que está a seu lado apenas para mencionar algo, ou utilizar o bom e velho "msn paper" (citar MSN é cringe, gente? é noia minha? 😅) para fazer um comentário à caneta. As vozes não vão se sobrepor, é um outro tipo de interação e, se você tem aulas com algum modal virtual e acha que estou falando bobagem e há outras possibilidades, como usar o chat ou o WhatsApp Web na aba do lado, fique à vontade para mencionar nos comentários. Afinal, como é de costume, divago. O assunto deste texto é o mesmo da foto que ilustra o post, sim, tem a ver com o Danoninho mesmo.
   Em 2017 decidi repetir a dose em um curso com o escritor, jornalista e professor universitário Fabrício Carpinejar,

Spoilers do texto no Moleskine
A versão em 2016, Mentiras Libertárias, havia sido um tour-de-force-emocional-mezzo-terapêutico que levou do silêncio até pequenos versos e, como diria Forrest Gump "é tudo o que eu tenho a dizer sobre isso". A presença do autor já se fazia mostrar em minhas composições timidamente, como em Apesar de Nós, de 2013 e acompanhar seu programa A Máquina na TV Gazeta foi um programa familiar por algum tempo quando chegamos à Guarulhos.
     A segunda experiência foi bem menos intensa, mesmo considerando ter começado Escrito à luz de velas/Quase na escuridão/Longe da Multidão com um apagão em Pinheiros no dia 22/02. Talvez por eu já ter uma noção do que esperar. Mas gerou um texto que, à época, não veio para o blog. Diferente do "Nerdcast Proibido", minhas palavras encontraram um lar temporário no site de Rodrigo. Ainda o editor deste blog seja eu mesmo - antes eu pudesse criar um heterônimo ou outra personalidade para tal - parecia não ter relação com a "linha editorial" que eu buscava alcançar: composições autorais, entremeadas por relatos de shows ou pensares sobre álbuns de artistas conhecidos. Crônicas, nunca foram a minha praia nem mesmo como gênero para consumo e fruição pessoal, o interesse no curso era justamente sair da zona de conforto.
     Não consigo recordar qual foi a indicação do professor para a atividade, mas lembro que o subtítulo, por muito tempo era "sem meter a colher". Mas optei por Texto de 4cm para tentar obter uma característica cinestésica e, fica por isso mesmo, não é como cada frase tivesse sido escolhida com uma intenção específica. Chegamos ao quinto parágrafo não planejado e, em momento algum, minha intenção era investir tanto tempo no introito. Fica um salve para a escritora dançarina Jolie Cardoso, que ao comentar ter se inscrito no curso Escrever Cura, de Carpinejar, me colocou em mais um capítulo da "Saga das memórias involuntárias" que teve sua primeira parte em: Letras sobre decepções zodiacais. Se você chegou até aqui... fique com o texto:

Texto de 4 cm

(Escrito por Thales Salgado em 23/02/2017)


Rompo o lacre e me deparo com aquela perfeição rósea. Salivo indeciso com a ideia de pressionar com o indicador para sentir a consistência. Meter uma colher no Danoninho de morango é uma ofensa!
Alumínio, madeira, plástico, o material que for: subterfúgios violentos. É o sabor da colher e ninguém gosta disso. Há coisa melhor que o eco de um queijo francês - É um queijo mesmo, acredita que tem quem confunda com iogurte? - aromatizado artificialmente de morango na intimidade de seu músculo mais forte? Controlar os movimentos deveria ser a única linha de ação.
Cada potinho é um universo do alto de seus 4cm. Ninguém precisa da língua de um integrante do Kiss: não haverá resistência, por isso mesmo, comer Danoninho com a língua é uma arte da lentidão.
Conheço quem prefira usar os dedos, opção até digna; Haverá pele e unha, todavia. A língua veste todos os sabores, abandonar colheres é intuir a essência.

sábado, 31 de julho de 2021

Letras sobre decepções zodiacais

 "Você gosta de anime?" - A pacífica Aggretsuko de Oz, 29/07/2021

     Quando me disse estas palavras, ela certamente não pensou que colocaria uma série de lembranças em movimento. Ainda aquela pergunta despretensiosa tivesse a intenção de comentar a série homônima a ela, presente na Netflix desde 2018 a minha resposta foi para um rumo distinto: "Minha vida mudou no dia 1 de setembro de 1994 quando Cavaleiros estreou na Manchete. Quando reestreou em 1 de setembro de 2003 na Cartoon Network, eu fui atropelado enquanto corria da escola para casa para ver". Estas duas histórias poderiam ser alongadas, ou mesmo o dia em que, enquanto criança, caí em um golpe dos garotos do bairro que ofereceram um boneco original. Esta história foi transformada em diálogos em um exercício de escrever 100 palavras por dia proposto pelo escritor e professor de escrita criativa Tiago Novaes, em 2019:

- Última chance, você não quer?
- É claro que...
- Então! cinco reais, só.
Ficou olhando o amigo. Iam sempre para a escola juntos. Ele estava trazendo uma oferta de além dos portões. Fora da aula, ele não podia sair.
- A gente veio falar com você primeiro, tem um menino na rua de baixo que também quer.
- Tá bom! Eu já volto.
Desceu as escadas, atravessou para a casa da vó. Tirou do Budinha as moedas que vinha guardando. Teria, enfim, um boneco do desenho japonês. Sem perceber já estava no portão entregando sua fortuna.
- Espera aí que a gente já traz.

    O meu ano de 2019 guardou uma série de questões com a série. Não consigo me lembrar o que motivou isso. Reli o mangá, revi a animação, vi Saintia Shô, além da versão produzida pela Netflix para tentar renovar o público abarcando de uma só vez os norte-americanos, que não haviam vivido uma febre da série como o Brasil e outros países da América Latina. Aquele também foi o ano em que o Podcast Saint Seiya viria a publicar um programa com uma entrevista com o dublador Francisco Brêtas, e que vale cada minuto, afinal Sonhar é Fundamental. Durante o período em que estava acompanhando os vídeos do canal Katsu X regularmente, ouvi falar pela primeira vez acerca de um evento que parecia ser a epítome de toda aquela efervescência com a obra de Masami Kurumada a:

               
    Em comemoração aos 25 anos da estreia da animação na rede Manchete, o evento prometia ter tudo o que os fãs se acostumaram em duas décadas: música ao vivo, cosplay, meet & greet dubladores, exibição de longas-metragens da série, exposição de itens raros, palestras com os responsáveis por um game, enfim, o suficiente para que eu aproveitasse o cupom limitado disponibilizado ao final do vídeo e comprasse a minha credencial para visitar durante o final de semana inteiro. Conforme ainda pode ser visualizado no site da Sympla, ela dava direito a:
    
    De todo modo, pelo título desta postagem e a primeira história em que fala de minha ingenuidade infantil, algo não correu bem. Não por coincidência (elas existem mesmo?) o melhor resumo para a situação também nasceu em 2019:

O texto a seguir foi retirado ipsis literis de um comentário que fiz em uma postagem de Mara, do Mais de Oito Mil, sobre o evento e como, em uma bela analogia, ele foi o Fyre Festival dos fãs de Cavaleiros do Zodíaco. Essa postagem pode ser visualizada aqui. Sem mais delongas, as impressões de minha versão de 29 anos.

FLASHBACK

   Fiquei sabendo sobre o evento vendo o código promocional no canal Katsu X. Qual não foi minha expectativa? Eu que não tive interesse em ir às convenções renomadas, fiquei super empolgado ao ver que teria a possibilidade de conhecer o grande Gilberto Baroli. Todos os outros também, claro. Letícia Quinto, Élcio Sodré, Francisco Bretas. Nesses 25 anos de Cavaleiros na Manchete, foi esse elenco da Gota Mágica (posteriormente Álamo e Dubrasil) que fez muitos de nós conhecermos os artistas por nome e valorizar aquele trabalho. Decidi comprar de cara: credencial Big Bang! Ter acesso a tudo que tivesse direito ao mesmo tempo incentivando tal ação a ocorrer de novo. O sábado pareceu promissor, vi de longe, as dez da manhã um jovem Hyoga de cisne. Gosto quando o cosplay já chega ao evento agindo o personagem. (Imagino fosse Ronaldo seu nome). Rapaz divertido, contava na fila histórias sobre como tinha aproveitado o sono de Athena para levar seu báculo. Enquanto se via alguns calculando ascendentes, os minutos passavam. O atraso foi encarado com bom humor “talvez precisemos absorver os raios solares e entrar porta a dentro!”. Ah! As referências, Capitão América estaria orgulhoso (antes que perguntem a razão de colocar a Marvel no meio do santuário, lá na frente fará sentido).

   Quando finalmente pudemos entrar, houve alguma bagunça com credenciais (recebi a minha mas em momento algum o seu QR foi bipado, por exemplo) o importante era entrar: o térreo parecia promissor, o @woodxguitar desfilava vários sucessos, Pegasus Fantasy, Soldier Dream. O ponto mais alto foi quando chegou um pequeno Seiya com a caixa da armadura nas costas e ficou a dançar ao som da guitarra. Nem o próprio Saga, do alto de seus galácticos grisalhos diria algo contra. Ao fundo um artists alley com versões, mangas, sketches. Boa para os futuros mangakás brasileiros. Também havia um acervo pessoal de obras do Kurumada, sorte do colecionador. Mas era interessante olhar, fiquei me perguntando a que momento alguém viria para comentar o que fosse. Mas… Nada.

    Não haviam indicações precisas do que ocorreria no primeiro andar, então o fã ia tateando às cegas pela escadaria (ao fim de uma escada, nem mesmo uma decoração como fosse a casa de Áries, o simples, fãs de cavaleiros sabem apreciar uma boa e velha escadaria). A programação dizia que as 10h começariam as exibições dos filmes na dublagem clássica mas já passava muito e não parecia haver sinal. A palestra sobre Saint Seiya Online também não agregou muito, a maior parte dos presentes conhece as diferenças entre o mangá e o anime, e por mais a história seja cíclica, contar spoilers do jogo também tirou um pouco a graça.

"O interesse nas referências de Kurumada era tanto que, em agosto, cheguei a desenhar Mankichi Togawa da obra Otoko Ippiki Gaki Daishô, de Hiroshi Motomiya. O criador de Cavaleiros já comentou que, sem sua influência, talvez não se tornasse mangaká. Imagino que, sem Cavaleiros, no mínimo, meu entusiasmo pela mitologia grega seria menor."

   Quando finalmente pudemos assistir À Grande Batalha dos Deuses, qual não foi a surpresa ao ser apenas a exibição de um vídeo do YouTube (isso mesmo, não houve nem o trabalho de obter um .MKV HD!) mas o público tentava se satisfazer revendo a pose de deboche de Seiya ante os guerreiros deuses. Falando em dublagem Gota Mágica, como é bom ouvir Carlos Campanile como Durval. A questão é que todos já viram e não havia nenhuma reverência a forma como o material era apresentado. Antes de a armadura de sagitário surgir, os alto falantes comentam que os kits estão disponíveis. Isso mesmo, o desrespeito não era apenas com quem estava presente, com quem tinha se deslocado para a comemoração, era com a própria obra (!). Não custa esperar um vídeo acabar. Se a internet tivesse caído, o programa tinha acabado? As horas foram passando e nada de palestras ou dubladores. Era preciso se contentar com episódios de Lost Canvas. Bela animação, bom trabalho de dublagem mas… Sério? Eventualmente chegou ao ponto do concurso de Cosplay e foi bem legal. Revi o Hyoga da fila, vi um Poseidon que tinha realmente aura divina e, confesso, vi uma Shun que me fez pensar que a mudança era bem-vinda. Os cosplayers pareciam se divertir muito, as poses, as fotos, a sensação de ser um personagem querido é muito forte e eu (que já tive meus tempos como Joker há uns onze anos) fiquei contente em poder bater palmas para cada um ali. O prêmio maior era poder ser prestigiado. Mais uma vez parabéns a todos os cosplayers (até para o pequeno Harry Potter que se meteu no evento).

Com a palavra, Hyoga de Cisne

    Faltava o principal: palestras e dubladores. Em algum ponto da história, talvez até antes do desfile, o organizador apareceu e pediu desculpas, aí entra o que eu falei: estava lá com a camiseta da Marvel! (Nada contra, vi Ultimato três vezes no cinema) quando o próprio organizador não ‘veste a camisa’ de seu evento, você percebe que algo de errado não está certo. Houve uma falha no planejamento, ele concentrou tudo sozinho e dificultou a entrega, coisas saíram foram do controle. Até aí, tudo bem. Finalmente Ulisses Bezerra, Letícia Quinto e Élcio Sodré subiram ao palco. Não houve tempo para palestras e eles não poderiam ficar muito tempo, o Élcio tinha um avião para pegar, sabemos quão exigente é a profissão. Ao menos quem estava lá poderia pegar o autógrafo da Saori e o Shun. Ou isso era sonhar demais? Sabe quando você está zapeando a tv a cabo e, de repente, passam para o filme seguinte? “Por premissa de tempo passamos à frente em nossa programação”. Foi bem isso que aconteceu. A Letícia muito educadamente explicou que não poderiam atender a todos e iam delimitar um ponto x na fila. Pude sentir Athena falando comigo, aqueles momentos em que a deusa fala algo e todos os cavaleiros se prostram a ouvir. Algo nessa linha. Eu nem tinha levantado, um cosplay de grande mestre chegou, mas era tarde demais para ele. Ao menos conseguiu algumas fotos com fãs. Élcio, baita profissional que é, levantou e gritou seu característico CÓLERA DO DRAGÃO! Todo o santuário tremeu: o Shiryu, amigo.

Um dos desenhos que fiz em 2019, sinais da febre
    A questão é que já passava das 17h. A programação seguiria. O organizador pedia para que as pessoas se apressassem em pegar seus autógrafos, era só um sem tempo de foto. Quem pagou para o privilégio de conhecer os profissionais não pode. Então quando um soldado gritou “quero o meu dinheiro de volta” e ouviu a contraproposta de devolver todos os benefícios em troca, entendo a raiva. O cosmo dele estava borbulhando em nome da justiça. De que não havia como o pôster A3 ser controlado, de que faltava o carregador personalizado, faltavam os adesivos, faltavam palestras, vídeos, autógrafos. A reunião dos cavaleiros de Athena se mostrou mais decepcionante que vilão de seriado que aparece para morrer com um báculo no peito. Saí do local sem nem ao menos saber se o show chegou a se concretizar. O aluguel do palácio do trabalhador custava tanto assim? Depois do fiasco, alguém terá coragem de usar a camiseta do evento? Já era tarde demais. A ver três horas de vídeo do YouTube, podia ver em casa. Amizades se firmaram, diversos se reuniram, tudo em nome de Athena. Mas a que preço? R$180? Tomara que tenha valido a pena para quem embolsou. Não me dei ao trabalho de retornar no dia seguinte.

domingo, 18 de julho de 2021

Letras acerca de quem ilustrou algumas das canções

"A imaginação é uma ferramenta pessoal. Digo assim: a experiência humana passa pelo saber, conhecer, acreditar, imaginar e sonhar. Você não sabe, não conhece tudo o que você vivencia. Você não está ali tomando fazendo, tomando atitudes, decisões e coisas práticas com a ciência total do que você está fazendo. Você está, em parte, acreditando, algumas coisas você sabe, conhece, estudou, entendeu. Algumas coisas você faz pois alguém falou que é a coisa certa. Você confia por hábito. E, as vezes, você imagina, você sonha. Acho que todas as pessoas passam por isso, algumas com maior intensidade em um dos aspectos que em outros. Imaginamos muito na vida." - Augusto Licks em entrevista com Luiz Felipe Carneiro para o canal Alta Fidelidade, 04/07/2021
Arte de @ellaproenca 16/07/2020

   Há um ano me deparei com uma obra em um grupo de arte no Face. Não lembro quanto tempo levei para comentá-la. Sei que quis saber os materiais (aquarela, guache, digital) e se a artista aceitava encomendas. Não que o "como" fosse o mais importante naquele instante: havia (e há, afinal, a ilustração existe) algo nos olhos da figura retratada, em como o cabelo e o fundo se misturam como um rio e raminhos brotavam aos poucos - como ela fosse a rainha de maio.
  Ruminei a ideia de ter uma perspectiva diferente sobre minhas criações desde 2018, quando o blog estava prestes a fazer dois anos. Cheguei a iniciar contato com alguns artistas mas a conversa não evoluiu. Os problemas podem ter variado, desde a falta de interesse, grande número de encomendas, suspeitas de pedidos para permuta, ou mesmo não ter identificação com o que eu conseguia entregar. Quem sabe? Com o passar do tempo, pareceu mais fácil seguir recorrendo à fotos do acervo dos integrantes da banda, cliques tirados durante trajetos, desenhos próprios ou mesmo o domínio público. Quando me deparei com este post, o blog havia completado quatro anos há pouco mais de um mês e havia algum tempo eu não pensava mais nisso. Algo na obra me chamou atenção mais que o normal - a título de ilustrar as estatísticas do grupo dizem que no último mês foram feitas 710(!) - e foi esse algo que me levou a, como relatado há pouco, comentar.
   Lembro como o receio das tentativas anteriores pairava em minha mente. No inbox tentei relatar para onde eu postava com uma verborragia assaz verbosa. Durante a tarde do dia seguinte começamos a trocar ideias sobre possíveis ilustrações. E em menos de seis dias, ela havia finalizado um trabalho ilustrando uma canção que eu havia sonhado naquela semana e que, neste mês de julho, também fez aniversário: Canto de duas cidades.
   No decorrer deste ano outras parcerias vieram: Concreto-confrontoOutra versão de nós,Basta Olhar Bem,Lhe Escreveria,A Equação do Hiato,ÁguiaTributo aos SentimentosP.C.L.R.Vacina... assim como, além da aquarela, a descobri no graffiti, violão, canto, ao piano, com crochê em fio de malha… uma multiartista!
     Assim que percebi a data se aproximando, pensei em como pontuar esta troca artística. E a forma como achei foi esta:


   Meus desenhos não seguem diretriz nenhuma, quando começo, nunca sei como serão: Posso mirar o ultrarrealismo e acertar o nikayou ou falhar miseravelmente em retratar seja o que for, mesmo assim, tentei desenhar a ilustre ilustradora @ellaproenca afinal, quem desenha os desenhistas?

*Texto expandido de uma publicação feita para Instagram em 16/07/2021
**Para a publicação original, tirei uma foto, para este post, digitalizei a ilustração. Variações de um mesmo tema.

sábado, 10 de julho de 2021

Letra sobre um evento lembrado.

 “Nascer leva tempo”.  Satolep, de Vitor Ramil, Editora Cosac Naify, 2008

No Banana’s (2020)
Letra e música: Thales Salgado

Três mil
Duzentos e noventa dias
Nos separam
Daquela fotografia

Instrumentais
Canções, assim se dizia
E o cantar
Com a melhor companhia

Era só vida
Se enlouquecia
Ao suco de maracujá

No Banana’s

“¡Los brasileños le gustan Banana’s!”

    Horas atrás, vi surgir em uma de minhas timelines uma foto foi adaptada pela multiartista Isabella Proença na ilustração para A Equação do Hiato em 2020. Ela retrata um evento ocorrido há dez anos e dois dias atrás, uma pequena reunião no karaokê de, como diria Lenine: gente bacana, amigos e o pretexto era fazer cantar música.

    Entre os registros visuais de tal dia, também surgiu a foto que utilizei para ilustrar o texto sobre a canção Solipatria, isso para manter tudo em apenas dois exemplos. Foi também inspirado nesse evento que nomeei, para o Mosaico de Estrelas, uma faixa instrumental Passiflora Edulis.

    A foto me colocou a pensar nas memórias episódicas, termo que ganhou popularidade após o início da pandemia. Coincidência ou não, esta semana ouvi o décimo episódio do Podcast Todavia em que entrevistam a doutoranda Glaupy Fontana acerca do tema. O programa me levou a seu texto “Continuísmo e Descontinuísmo em Mental Time Travel: A relação entre Memória e Imaginação” na esperança de encontrar um trecho que eu pudesse usar para abrir este texto, o que, apesar dos conceitos curiosos para alguém que lida com o tempo apenas na esfera do tempo comum, não aconteceu.

    Pensei, então, no livro O perigo de uma história única, de Chimamanda Adichie, adaptação da primeira fala da autora em um TED Talk em 2009. Sob o prisma de que posso falar apenas de meu lado da história. Não imagino quem foi que decidiu criar o evento, se a elucubração demandou muito tempo, como decidiram quem seria convidado, se os convidados poderiam estender o convite etc. Meu conhecimento se deu bem pouco tempo antes, como fica demonstrado no registro que pode ser encontrado em meu e-mail:

    Olhando hoje, ainda seja um episódio marcante, não consigo lembrar sequer uma música que eu tenha cantado na ocasião. Caso eu me ancorasse apenas nas palavras de minha versão dez anos mais jovem e não tivesse registros fotográficos empunhando um microfone eu poderia crer que sequer o fiz. De posse do Moleskine utilizado na ocasião, posso até transcrever palavra por palavra de alguns dos pensamentos que tive durante parte do evento. O que não quer dizer que eu me reconheça nestas palavras. Digamos que seja uma tentativa fugidia para citar a Autopsicografia de Pessoa e paremos por aí.

    Tendo apenas a história única de minha memória episódica, lembro como, ao ver a foto no ano passado, fui tomado por um impulso de compor uma música que encapsulasse a sensação daquele dia, com uma alegria que, naquele ano, eu não conseguia manifestar. Ainda que Estela tenha replicado em um chiste que a música foi composta apenas para jogar na cara dela a passagem de tempo em que ela não havia escrito, para mim, não se tratava disso e, tenho aqui para mim, que ela lá já soubesse disso. 

    O tema “canções alegres” sempre orbitou nossas conversas quando passamos a dialogar regularmente e, por razões que me escapam, sempre foi uma área na música em que não consegui atuar com desenvoltura. Como a melodia surgiu de improviso, não parei para pensar em que encadeamento de acordes estava trabalhando, é capaz até que ela seja um arremedo de parte da canção Plain Letters, da cantora e compositora americana Madison Cunningham.

    Hoje, já são três mil seiscentos e cinquenta e cinco dias após a letra, de modo que, posso dizer que, como muitas composições que fiz, está “datada”. Mesmo assim, e, ainda mais, se tratando de uma canção com ares de vinheta, composta para replicar a um comentário, penso em como é uma memória importante. Ainda mais em um período que as memórias episódicas estão tão prejudicadas por não termos uma marcação nítida de tempo e espaço pela semelhança dos dias. Quem sabe no futuro, possa haver outras fotos dignas de promessas para recorrência? O tempo dirá... ou, como costuma fazer, não dirá nada.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Letras refugadas

"Enquanto combatia gigantes imaginários, Dom Quixote estava apenas representando um papel; mas, quando realmente mata alguém, ele se agarra a suas fantasias com toda a sua força, pois elas são a única coisa que dão significado a esse crime terrível. Paradoxalmente, quanto mais nos sacrificamos em benefício de uma história imaginária, mais forte ela se torna, porque desesperadamente queremos dar um sentido ao sacrifício e ao sofrimento que causamos." - Homo Deus, de Yuval Noah Harari, tradução por Paulo Geiger, Companhia das Letras, 2016.

    Em outubro de 2010, encaminhei um e-mail para bob com uma série de Letras. Nele, além de pedir uma avaliação delas, eu comentava como uma, Árvore da Solidão, referenciava um conceito que ele havia criado alguns anos antes, o do o som das motosserras. Ainda que vez ou outra ele comente como não gosta das coisas que escreve. Acha que não tem vida. Os textos soam forçados,  sem poesia e sem conteúdo, para mim é justamente o contrário: vejo seus versos como o momento em que virei uma chave. Escrever publicamente, mesmo que para consumo de pessoas próximas, era possível. Compor canções? Podia ser um bicho-de-sete-cabeças mas poderia ser desconstituído uma cabeça por vez. Revendo a mensagem, percebo como nenhum dos outros versos ali se tornou nada - até o momento, é bom lembrar. Estou preso à falácia dos custos irrecuperáveis?

    Nos últimos anos, conheci pessoas que tratam as próprias palavras de uma forma muito distinta: escrevem para não esquecer, levam para a terapia e depois jogam fora. É um exercício de desapego e minimalismo curioso. Perdi as contas de quantas vezes revirei um dos moleskines ou e-mails dos últimos dez anos procurando imagens que ilustrassem o processo de alguma letra, faíscas criativas, o que seja. Se eu levasse as ideias de composições para a terapia, as músicas deixariam de existir? Ou tornar-se-iam uma terceira coisa? Óbvio, há textos e papeis passíveis de descarte, mas, se uma ideia de 2012 pode se tornar uma canção em 2021, o que impede os versos abaixo... qualidade?

IV
Me abraço
Pode ser que oculte
O embaraço
Querer é estar errado
Mundo falso
O poente treme já
os próprios passos
Que não tem
por flutuar

V
Disse um certo poeta
Que era preciso crer
Pra tornar
Lagrima doída,
Melodia
Esse era um milagre que fazia.
Desconheço o que acredito
Mas evoco a luz agora
para me impulsionar
Destilado refletiu estranho brilho
E se partiu dentro de mim
Queimando ao redor
Deste lado caiu do papel, fitilho
E lá dentro o que eu vi
Era só ar e pó.

VI
Implantar falsas memórias
É futuro que demora
Reserve um espaço
Que quero de volta
Alguma paz
Pouco já é demais
àquele sem nenhuma grama
E deixarei de ser
O que faz perceber
Cada segundo a mais
Sempre um a menos
E deixarei de ser
De sempre a morrer
Vou respirar então
com meu sorriso mais ameno

P.S.: Apenas ao reler os poemas antes da postagem, notei que um trecho do IV se partiu em um verso da letra que fiz para: Fim.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Vacina

"Quanto a ser um bom pai, prossegue a freira, ele vai descobrir que não é difícil. É bem simples. Tem que ensinar a criança a amar a vida. Isso é tudo. Amar a vida e todas as criaturas que existem, do homem até as coisas mais pequenas e frágeis. Passam por sua cabeça todas as razões pelas quais o desafio não é tão simples quanto diz a freira. Um grande estrago à sociedade e à existência de incontáveis criaturas, do homem às mais pequenas e frágeis, está sendo sancionado neste exato momento, tem vontade de dizer. Um estrago que pode levar anos, quem sabe uma vida inteira, para ser remediado. Que talvez seja irreversível. E que não raro é justificado por seus perpetradores nesses mesmos termos de amor à vida." - O deus das avencas: Três novelas, Daniel Galera, p.62-63, Companhia das Letras, 2021.

Arte por @ellaproenca


Vacina (2013)
Letra e música: Thales Salgado

De tantos caminhos escolhemos o mesmo
Na onda de um bonde chamado desejo
De recriar o dia a dia outra vez
Cheio de notas de acordes e arpejos
Fazendo o mundo girar num festejo
Ninguém a se arrepender do que fez

Com meus amigos prosseguindo na estrada
Seja com risos ou nas várias roubadas
Em noites eternas trazendo à vocês...

A Vacina
Pra todos os males da vida
Que já anda muito sofrida
Pra quê se deixar abater?
A Vacina
O amor que nos salva a vida
Toda a pessoa é bem vinda
A achar novas formas de ser

    Quando bob surgiu com a encomenda para esta composição, eu contava 24 anos recém-feitos (à título de comparação, contava 31 e alguns meses quando escrevi este post) e nem em um pesadelo, haveria uma pandemia. De 2020 para cá, ressurgiram web afora matérias de periódicos antigos que descreviam os acontecimentos atuais com grande fidelidade. Pode ser que eu tivesse até folheado um deles sem dar muita atenção. Recordo até não ter recebido bem o filme Contágio (2011), de Steven Soderbergh, apesar de seu elenco digno das calçadas da fama. Você a ler reviu o filme recentemente? Se sim, diga se vale a reprise. Enfim, divago. Não é muito difícil encontrar dados sobre como, por exemplo, 86,3% do público alvo, 26 milhões de pessoas, haviam recebido a vacina contra a gripe em 2012.
      Naquele período, não havia como pensar que, em poucos anos, o país passaria por uma crise sanitária e hospitalar com as proporções que passamos hoje. É claro, com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, era certo que passaríamos por tempos sombrios, sua necropolítica é aplicada em declarações como dizer que o efeito do novo coronavírus seria "uma gripezinha", que ele "não era coveiro", ou que o Brasil deveria "deixar de ser um país de maricas". Como comentou ao G1 o médico sanitarista e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão: " O governo federal rejeitou a ciência, rejeitou a saúde pública, brigou contra as evidências. Nós nunca tivemos uma política de comunicação pesada, orientando, esclarecendo, mobilizando. E o resultado macabro e dramático é essa crise humanitária que nós vivemos hoje". No meio desse turbilhão, 2021 veio como um ano em que perdi minha avó paterna devido a complicações da COVID 19. Conheço outras pessoas que perderam pais, avós, tios, primos... seus vizinhos, conhecidos, seus amores, mais de 500 mil pessoas. Tendo seus lutos e elaborações interrompidos na impossibilidade de despedirem-se com respeito e dignidade. Como bem resumiu uma pacífica amiga em outubro de 2020: "Isso me deixa triste, puta, irritada, tô muito chateada". Tudo ao mesmo tempo.
      Ainda que existam movimentos antivacina desde as primeiras campanhas de vacinação, é ainda mais revoltante quando, ao mesmo tempo em que o presidente passeia pelo país sem mascara e aglomerando apoiadores, as timelines são brindadas com uma série de agremiações, coletivos, brindes, como se nada estivesse acontecendo e já fosse mais que esperado retornar às ruas. Admiro quem tenha saído das redes sociais para conservar a saúde mental.
      Apesar dos pesares - segundo a Folha de São Paulo, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, representante da empresa Davati Medical Supply no Brasil, afirmou ter recebido do diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, um pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina em troca de assinatura de um contrato - a pandemia vem sendo controlada na Europa e nos EUA e temos acompanhado um aumento no número de doses de imunizantes contra a Covid-19 em nosso país. Na última terça-feira, 29, por exemplo, um avião com 528,8 mil doses da vacina da Pfizer/BioNTech chegou pelo Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas. Pensando nas notícias positivas (nunca me identifiquei tanto com a letra de Notícia Boa, da Nenhum de Nós) é que voltei a pensar nessa composição, pensada em um período tão distinto.
Em conversa com Estela,
provável primeira ouvinte em 2013

      Como eu dizia no primeiro parágrafo, a ideia era representar o significado de uma banda. A banda Vacina. Como bob comentou comigo no início de junho "Não existe uma cura definitiva para as coisas que te jogam para baixo, mas se você estiver se remediando, se cuidando, tomando a sua vacina, talvez você consiga se proteger melhor. Só que você precisa descobrir qual é a sua, já que o "mal" que você sofre é diferente do meu. A nossa vacina 'Preto, Fabio e bob', ao menos na época, era a banda, a música. Tocar." Como disse o psicólogo e doutor em saúde coletiva da Unicamp, Bruno Emerich, em matéria publicada na revista ComCiência do Laboratório de Jornalismo da Unicamp: "Há uma parte grande da sociedade brasileira que não tem o hábito de consumir cultura porque não consegue. Porque é caro, porque a cultura nem sempre está ao acesso, não está disponível em todos os bairros. A grande questão é como vamos aproveitar esse momento. E também temos que entender que tem gente que não está consumindo cultura neste momento, não porque não gosta ou não sabe, mas simplesmente porque está em uma situação muito difícil para sobreviver". Voltamo-nos para os filmes e séries em nossos streamings, e também à música (!) aos desenhos, pinturas... Cada um vai do jeito que pode, diria o poeta.
      A banda Vacina segue em hiato por tempo indeterminado, bob complementou: "Decidimos deixar mais parada ainda para não parecermos oportunistas. E tinha uns querendo show da Vacina ou Live, justamente por isso." nesse cenário, uma vez que havíamos trabalhado a composição pela primeira vez em 2021, houve algumas conversas quanto a se seria o momento certo para trazer uma canção com esse nome durante este período. E, ao fim, concluiu-se que sim: as vacinas, mais que palavras, são um compromisso coletivo de saúde pública visando o controle e erradicação de doenças. A ilustração da multiartista Isabella Proença conserva com delicadeza um pouco de tudo o que envolve a Vacina no antes e no agora: tanto a esperança e expectativa para um dia em que poderemos, novamente, sentir a música vibrar em nós, quanto uma homenagem para enfermeiras, técnicas de enfermagem, médicas, e todos os demais profissionais de saúde que seguem o combate incessante contra o vírus em todas as linhas possíveis. Convido à conhecer mais do trabalho dela em sua página no Instagram:

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Sem um nome

A segurança é sobretudo uma superstição. Ela não existe na natureza, nem os filhos dos homens a experienciam como um todo. Evitar o perigo não é mais seguro, a longo prazo, que se expor abertamente. A vida é uma aventura ousada ou então não é nada. - Hellen Keller
Distorção baseada na Grande Onda de Kanagawa
(de Katsushika Hokusai) -

 

     Há cinco anos atrás, em uma noite de sábado, me decidi por postar no blog pela primeira vez. Imagino tenha sido uma data arbitrária. Uma rápida pesquisa na Wikipedia não me informa. Tivesse sido forma de homenagear Michael Jackson, eu teria postado Para o Adeus. Afinal, já estava pronta. Por outro lado, eu poderia simplesmente estar desenvolvendo um texto sobre o recém lançado álbum de Zeca Baleiro Era Domingo e, por seu título, acreditasse que devesse ser postado no dia seguinte. Seja como for, o blog nasceu e a ideia de comemorar esta data nunca fez muito sentido. As lembranças do Facebook me mostraram um post feito em 2018 em que eu comemorava os, então, dois anos do blog. Foi muito difícil colocar hashtags como "gratidão" ou "obrigado", afinal, para quem eu estava agradecendo que não a eu mesmo? Hoje, sigo sem saber a resposta. Quando comecei, não esperava ainda estar aqui.

Sem um nome (2010)
Letra e Música: Thales Salgado

Pode a poesia, do nada
Atracar nas aguas frias
Da mente do mar
Mar que me confunde
Em conceitos iguais
E me faz tergiversar

Anti-taciturnamente
Em rimas proletariadas
Lembro você obliterando o nada

Você
Minha filosofia
Que afasta a fobia
Óh! Luz que cala o dia

Você
Je ne sais pas mais
Viver sem tua companhia

     Procurei por meus moleskines e e-mails algum registro do momento em que escrevi esta composição, ou alguém que a tenha ouvido pela primeira vez, sem sucesso. Lembro-me de me atrasar para um compromisso enquanto a gravava mas... só. Foi a primeira vez em que me rendi à preguiça de intitular a composição. O título, diversas vezes, me parece mais complicado. Ele pode ou não dar uma noção do que os versos dirão ou pode até mesmo ser um deles. Nesta, não. Não ter um nome pode significar qualquer coisa. Minha intenção inicial era até que este texto falasse acerca de alguma forma de luto simbólico. O eu-lírico da letra diz "je ne sais pas" viver sem a companhia de um destinatário da mensagem mas... e se essa escolha não for dele? Se esse não saber apenas pressupor a necessidade de aprender? Ter uma outra pessoa como "filosofia" é muito perigoso. Além de ser uma responsabilidade muito grande para colocar em outro ser humano. O "amor" provavelmente não tem a ver com isso, ele não aparece na letra, mas é cantado. Uma tentativa de tornar a canção uma melodia tolamente alegre. Uma tentativa falha, mas ainda assim, uma tentativa.

terça-feira, 15 de junho de 2021

P.C.L.R.

"Durante vinte anos só pensara em seu retorno. Mas, ao chegar, compreendeu, surpreso, que sua vida, a própria essência de sua vida, seu centro, seu tesouro, encontrava-se fora de Ítaca, nos vinte anos de suas andanças. E, esse tesouro, ele havia perdido e só voltaria a encontrá-lo contando (...) A um desconhecido perguntamos "Quem é você? De onde você vem? Conta!". E ele tinha contado. Durante quatro longos cantos da Odisseia, diante de atônitos feácios, relembrara os pormenores de suas aventuras. Mas, em Ítaca, ele não era um estrangeiro, era um deles, e por isso a ninguém ocorria dizer: "Conta!". A Ignorância, Milan Kundera, Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, Companhia de Bolso.

Arte de @ellaproenca


P.C.L.R. (2021)
Letra e música: Thales Salgado

O que você tem feito?
Como foi sua vida?
O quanto desconheço
Do mundo que te habita?

Tanto ignoro de sua odisseia
Você foi cachoeira ou ainda é?

Refrão:
Quem é você, agora,
De onde veio? Conta!
Se quiser cantar.

Décadas passam lentas
Foram incalculáveis
Todos os fraseados
A perpassar o seu rocar

Ainda ri com olhos de escudo
Ou avistou sereias em Araruama?

Refrão

Tu és protagonista em uma história
Vejo tuas mãos nas cordas
Cantar rosa do futuro.

Refrão

    Esse texto conversa com o da semana anterior, Interescolar, não apenas por ter sido redigido pela mesma pessoa, claro, mas por ter na cidade de Arujá um ponto de convergência. Mesmo assim, não o pautarei pela psicogeografia, tampouco o considero um retcon, mesmo que a amizade que catalisou esta letra tenha surgido em minha infância, muitos anos antes de eu sequer tocar violão.

    Tendo o primeiro afastamento ocorrido com o fim do Ensino Fundamental 1, que eu fosse bater em sua porta cerca de mil dias depois, como fazia quando éramos crianças, deve ter sido estranho, para dizer o mínimo. Com isso, não me eximo da responsabilidade, todavia, confesso sempre ter tido a tendência a aparecer sem avisar. Teria o hábito nascido naquele 2004?

    Forçando a memória, me pergunto se o Orkut teve alguma relação com o evento, afinal, tendo sido lançado naquele ano, abria-se a possibilidade para manter todas as pessoas com quem já se tinha falado na vida ao alcance de um clique. No entanto, minha memória animal é falha. Mesmo consultando a Wikipédia, o máximo que descobri foi que a versão em português surgiu apenas em abril de 2005. Nada, além da falta de convite, impediria o uso da versão em inglês. Divago.

    Fomos nos encontrar novamente alguns anos depois e, mesmo que indiretamente, Paula Lima estava presente em algumas histórias de textos neste blog: em sua garagem, ouvi Segredos em Sussurros pela primeira vez. Na mesma rua que a sua, fiz parte da composição de Tributo aos Sentimentos, em outra visita à garagem, compus minha primeira melodia, que veio a se tornar Um Caminho para o Céu. Assim como também foi na praça em frente a sua casa que germinaram os versos que tornaram-se Madrugada. Isso para ficar em poucos exemplos. A distância não afasta, por exemplo, o sabor de um belo brigadeiro de panela...

    Treze anos depois, ela não apenas me dá um vislumbre de como soam composições que ela viu nascer com voz feminina, como a que ela mais gosta, Um Conto no Jardim, como me mostrou em primeira mão as letras de suas próprias composições, que pretendo comentar futuramente no blog, ambas contendo uma verve de consciência tanto social quanto sentimental de um modo que eu mesmo não alcancei em anos de ofício. Além disso, se em Um Conto, o eu-lírico falava em "quase um ano se passou", hoje, um outro eu-lírico pode constatar: "décadas passam lentas".

    Esse último salto na cronologia, tem um ar Floydeano "e então, um dia você percebe que dez anos ficaram para trás" mas conserva um aspecto das amizades que me chama a atenção, a possibilidade de elas desdobrarem-se de acordo com a vida. Enquanto refletia esse tema, me deparei com o artigo How Friendships Change in Adulthood (Como Amizades Mudam na Idade Adulta, em tradução livre) publicado em 2015 por Julie Beck, editora sênior no The Atlântico, falando sobre a estrutura das amizades, suas categorias, características, circunstâncias que levam ao fim etc. Nele, destaco um trecho que traduzi mencionando o trabalho de William Rawlins, professor emérito de Comunicação Interpessoal da Universidade de Ohio:
"Os entrevistados por Rawlins tendiam a pensar em suas amizades como contínuas, mesmo se eles passassem por longos períodos em que estivessem sem contato. Essa é uma visão um tanto positiva demais - você não assumiria estar em bons termos com seus pais se não tivesse notícias deles por meses. Mas a suposição padrão com amigos é que vocês ainda são amigos."
    Voltando às composições dela, foi justamente no dia seguinte a trabalhar na harmonização de uma delas, um forró, em janeiro deste ano, que P.C.L.R. nasceu. Eu não tinha intenção de fazer, mas ela começou a se delinear. Eu havia acabado de reler A Identidade, de Milan Kundera, e o trecho encabeçando este post voltou a me chamar a atenção. Me perguntava como teria sido a vida dela durante estes períodos, por onde ela andara? Coisas que, como diz o trecho, não perguntamos a pessoas que conhecemos. Até para destacar a influência da obra na composição, tarantinei seus versos no refrão "Quem és tu? De onde vens? Conta!".

    Afinal, podemos até procurar nos informar por postagens nas redes, ver as localizações,  mas nunca saberemos quais foram/eram as percepções das pessoas durante as vivências a menos que… elas nos contem, uma foto não informa se quindins foram ao forno ou não(!). Por estar acompanhando seu canto durante esse período de isolamento, decidi que o verso funcionaria melhor contemplando cantar em lugar de contar.

    Entre as conversas que tínhamos, ela me falou de como amava a bateria, tocava tocar, arranhava tamborim e surdo de terceira. E, ali, abria-se um outro mundo dentro da música, já que nada entendo de percussão. Era certo que o rocar deveria fazer parte dos versos.

A letra já organizada com as referências
    Pensando nas influências que surgem sem que estejamos plenamente conscientes, o termo 'protagonista' surgiu após ter assistido a Tenet pela segunda vez - na vã tentativa de gostar do filme para além de seu conceito. Musicalmente, meu pensamento flutuou por músicas como Todo o Tempo do Mundo, versão de Zeca Baleiro para a composição de Rui Veloso, Omission de John Frusciante e até Promessas de Navegação, da Vanguart, no sentido de que a música começa sem muitos rodeios.

    Considerando como as conversas já faziam parte de minha base para a letra, me admira que, apenas em fevereiro, tenha me ocorrido o título: Pequenas Conversas Levando ao Real, ao mesmo tempo em que o acrônimo guardava mais que lima e a rosa.

    Eu pensava em tudo isso quando, na noite de aniversário de Arujá, entrei em contato com a multiartista Isabella Proença para pedir a ela emprestar seu talento para ilustrar esta canção. Fiz o possível para resumir o encadeamento que me levou aos versos e deixei a critério dela a existência, ou não, de uma figura humana. A meu ver, o essencial na cena era o céu rosa e o pé de laranja lima (sem relação alguma com o livro de José Mauro de Vasconcelos ilustrado por Jayme Cortez, o filme de Aurélio Teixeira ou o de Marcos Bernstein) em que um rocar repousaria.

    Foi uma escolha dela, tanto seguir com a figura a observar a cena, criando, a meu ver, uma segunda camada de contemplação, quanto deixar tudo no mesmo tom do céu, criando a sensação de unidade, algo que eu sequer me passou pela cabeça durante a proposta mas, concluída a obra, sinto que não poderia ser de outra forma, quase como a areia fosse rica em minerais como cálcio, magnésio e potássio. Mais uma vez, sua arte traduz uma parte na outra - questão de vida ou morte diria Gullar - bastando-se por si, mesmo para quem jamais pouse os olhos em meus versos.

    Tão logo terminei de gravar a demo da canção, encaminhei para Paula via WhatsApp e, assim como Nando Reis, não tive resposta. Não que seja necessário, mas não podia deixar esta referência passar.