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domingo, 29 de julho de 2018

C.P.T.M., da letra

"O mundo não quer saber do espírito. Ao egoísmo do homem é odiento todo ideal que dele exija mias do que uma máscara hipócrita." Para ler e guardar, Hermann Hesse
A estação deserta após noite de festa.

C.P.T.M - 2018
(Caminham Pelos Trilhos do Mundo) 
Letra e música: Thales Salgado

Mesmo após sair dos sonhos
Ela embarca em outro dia
Tem nos olhos o verão
Refletindo o lado avesso
O oposto a gravidade

Transitada em suas mãos 
Resoluta ela parte
narcisos imprecisos
Mal a vêem sair do chão

Os operários de Tarsila na estação da Luz
Caminham pelos trilhos do mundo
Buscando a quem conduz
E que nunca vem
Não vem!

Quanto se deixa em estações?
Nenhuma esfinge saberá 
Os sentimentos em nudez
Contrários a qualquer talvez 

Não salte! De branco.
Não salte! Só olha.
Vejo as mãos, ao vento
Só a trajetória

Tanta emergência nos desvãos
Os emergentes, sem ação
Rompa o silêncio em avidez
Tudo só acaba uma vez

         Das composições que fiz desde 2007 C.P.T.M, é, até o momento, a que mais levou tempo para ser desenvolvida. Ainda que tenha sido finalizada em 25/05/2018, seu embrião surgiu em 2011. Após assistir o coletivo Bootworks Theatre falando de seu espetáculo Black Box no teatro do Sesi, fui abordado na linha verdade do metrô se "ver todas aquelas pessoas na estação" não me inspiravam a escrever e, até então, a verdade era que não. Ali, aos 21, o máximo de exposição que tinha ao metrô eram passagens pontuais enquanto alcançava a UniSant'Anna ou algum evento no Sesc.
         N'algum ponto entre 2014 e 2015 conheci o trabalho da dupla Onagra Claudique; por meio de seu álbum Lira Auviverde. Entre as narrativas presentes em sua lírica, há a letra de Arrebol. Nela há versos como "Na catraca do metrô querem passar três/É tão desolador o anhangabaú/Depois das seis" e "Na parcela do imposto não contém/O desgosto de encarar duas conduções, um trem?". Era possível, então, inserir elementos do cotidiano de forma elegante numa letra de música. Mas, o que eu poderia dizer acerca do tema?
         Foi apenas em 2016, na primeira aula que tive com o escritor Fabrício Carpinejar, que algo passou a realmente tomar forma. Enquanto passava pela estação da Luz, tive a impressão de enxergar o quadro de Tarsila do Amaral, a tela Operários:
      Na pintura de 1933 podemos enxergar uma pirâmide de trabalhadores exibindo feições que são variações de cansaço (uma pequena parcela do que, no futuro, Byung-Chul Han definiria como a Sociedade do Cansaço). A intersecção nesta estação me trouxe alguns dos versos:

Os operários de Tarsila
Na estação da Luz
(...) algo que os conduz

        Conduz surgiu para rimar com luz, e, não havia nada além disso. Uma brincadeira com o maquinista/condutor estava implícita, mas, o que mais? Tudo o que foi escrito no texto conduziria a este ponto. Foi apenas em 2018 que me veio a mente uma história que ouvi quando criança. Uma moça com vestes brancas olha fixamente aos olhos de uma testemunha antes de saltar rumo aos trilhos. Algo chocante, sem dúvidas. Uni uma possível narrativa do que seria este momento com a ideia de "narcisos imprecisos" que já estava num dos textos do blog deste novembro de 2016 "Mesmo assim ainda pode causar estranheza ver as pessoas banhadas pela luz das telas. Narcisos imprecisos? Quando o display esmaece, sobra o reflexo." Era uma brincadeira com Black Mirror, claro, mas, ainda assim, permitia mostrar algo que vemos todos os dias: a utilização indistinta de celulares enquanto estamos entre lugares. Não me excluo disso, obviamente.
     Tinha então quase todas as peças em lugar, uma possível suicida, operários caminhando na estação, pessoas com seu celulares dando atenção a seus universos digitais particulares... eis que, num dia de maio concluo que seria interessante ter um acrônimo para o título. Surge "Caminham Pelos Trilhos do Mundo" e, após isso, concluo que a melhor forma para começar a letra seria usar, como tantas outras vezes, um acróstico. Desta vez para Metrô e Trem. Objetos inanimados tomando parte de uma canção. Que, até o fim de julho, não foi gravada. Mas o será, em breve.

domingo, 6 de maio de 2018

Escarlate Saudade

"Os sonhos, ah, os sonhos! Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver, mas sem a grande mentira que é a vida. Talvez seja isso. Talvez seja o contrário disso. Nem sei. Acontece-me, por vezes, acreditar numa determinada ideia e no oposto dela com idêntica paixão, ou sem paixão nenhuma. Nos últimos anos, aliás, venho perdendo cabelos e paixão. Também venho perdendo ideias e ideais. Talvez seja a velhice, talvez seja o nirvana. O que você acha?" A sociedade dos sonhadores involuntários, José Eduardo Agualusa
Foto: LumineImages (iStockphoto)

Escarlate Saudade (2018)

Toda manhã
Sou despertado por sua canção
Dizendo quase poder ver
O sonho de sua escalada.
Passo o café
Do jeito que tu costumavas fazer
Não digo "eu lembro"
Pressupõe esquecer
E eu não me esqueci de nada.

Confesso que, às vezes,
Logo ao abrir a porta
A vejo ali, sentada,
Será Inês é morta?
Mas não vivo num filme
Aqui não é Hollywood!

Cada amanhã
Alimentando uma antiga paixão
Morrendo sem se perceber
Ilhando-me em sua morada
Lágrima, até
Avança a face
Dissipando meu ser
E já são tantas que se nada

Confesso que,às vezes,
Retraço nossas rotas
Você, já no futuro.
Será que ainda importa?
Quem dera estar num filme
Um final de Hollywood!

Mesmo não fosse assim
O orgulho impediria outra
Reação qualquer de nós
Agora, há tempos, não há par.
E as metades, desiguais.
Saudades são excessos.

O que se faz com o amor que sobrou?


         Se me fosse permitido usar o título de uma canção que desgosto para iniciar o texto, certamente seria "quase sem querer", afinal, a locução define bem a maneira como essa canção surgiu. Experimentava a afinação D-D-D-A-D-F# e decidi mantê-la desde o mês de abril. É quase como reaprender o violão. A menos eu enjoe, as próximas serão feitas nesse mesmo esquema.

       Escarlate Saudade é a primeira composição solo de 2018, uma vez que Enquanto Fizer Sentido iniciou com as palavras de Barbara Barduchi e Is This Poetry foi a musicalização de dois micro-poemas do perfil no Instagram @poetry_131 (veja aqui: https://youtu.be/yvxRwfk4aZg), e sua letra funciona como continuação de CCCLXV. A música funciona isolada? Provavelmente. A intenção da letra era fugir um pouco do críptico poético inserindo elementos cotidianos, como passar o café. 
Foi por um triz que alguma menção à Hollywood não permaneceu no título. As primeiras pessoas a ouvirem a música levaram a crer esse é o trecho mais marcante - talvez pela repetição?. Manter a palavra escondida era forma de seguir hermético como memória. Se uma década atrás se falava em paixões de cinema, abismos que, por amor, são superados, Escarlate Saudade aborda a questão sob outro ângulo: que importa a evocação de um cotidiano anterior? Estando alheio a ele. 
         Mesmo se canções favoritas "do outro", são mencionadas (leia-se The Climb de Miley Cyrus e  Alma Gêmea de Peninha eternizada por Fabio Jr.) a vida não segue uma estrutura de três atos, por mais sonhemos em emular a Trilogia do Antes (clique para um texto de Larissa Padron para o Cinema de Buteco). Até aí nada há de novo sob o sol. Essa canção só ilustra o que a poeta Joni Mitchell afirmara em seu primeiro álbum em 1971: todos os românticos encontram o mesmo fim algum dia: cínicos, amargos e chateando alguém na penumbra de uma cafeteria... Ei, você ainda tá aí?

domingo, 25 de março de 2018

O Amor Virá

Love Will Come Through foi o terceiro single lançado pela banda escocesa Travis para divulgar seu quarto álbum de estúdio: 12 Memories. O single estreou em 22 de março de 2004. Foi composta por Fran Healy. Ainda que conhecesse os singles Sing e Side, foi apenas quando conheci a faixa Re-Offender transmitida pela MTV Latina que a banda capturou minha atenção. Mesmo minha intenção de um dia conhecer algo de canto gregoriano no mosteiro de São Bento cresceu após ouvir a canção J. Smith. O Amor Virá surgiu de minha vontade de versionar uma das canções que tem uma alegria autocontida. Gosto muito das melodias dessa banda e é uma forma de poder homenageá-los à minha maneira.




O Amor Virá
Versão para Love Will Come Through da banda Travis

Se te conto um segredo
Você guardaria pra si
Sem dizer a viv'alma?
Está a me consumir
Não consigo dormir
E mentir, levou a minha calma

Pois então,
Pegue pra si
Só cuidado 
Com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

Mesmo na encruzilhada
Em meio a estradas
Eu sinto que certo está
Se o que sinto é verdade
Não há faz de conta
Na pomba que ouço voar

Olhe o céu, e tome pra si
Só cuidado com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

O amor virá...


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Enquanto Fizer Sentido

"Sabemos todos, por experiência, quão fácil é nos apaixonar e quão difícil e belo é amarmos realmente. Como todos os valores reais. não se pode vender o amor. Há prazeres que se vendem; o amor não." Hermann Hesse, Para Ler e Guardar.






Enquanto Fizer Sentido (2018)
Letra: Barbara Barduchi e Thales Salgado

Gostaria que pudesse ver
Através de meus olhos
A extensão desse amor
Que os anos passassem me fez ver
Ainda sinto um arrepio
Banhado de ardor

Sei minhas palavras
Foram setas a te lacerar
Mesmo em fúria, "eu fiquei"
Apesar das dores que passei
Não me arrependi
Do que fiz pra estar aqui

Te quero comigo
Enquanto fizer sentido
Enquanto você inteiro
Nomear meu riso
Te amo por hoje
Se fossem pedaços
Menos da metade
Te deixava ir

Foi Deus
Quem te trouxe
Pra mim

"Gostaria que pudesse ver através dos meus olhos o tamanho do meu amor por você. Posso dizer que não sabia o que era este sentimento até te conhecer. Quis você a partir do primeiro beijo. Acredito eu, que foi pela sensações que me causou: como coração acelerado toda vez que pensava em você. Depois de quase dois anos juntos e um ano casados ainda me causa frio na barriga quando me beija com paixão.
Sei que o casamento nos fez amadurecer muito e ainda fará muitas mudanças na gente. Sei que já o feri com palavras pela dor que sentia no momento. Sei que você e eu ainda vamos errar muito durante toda nossa vida. Mas posso garantir que, da minha parte, sempre terá toda minha sinceridade e meu respeito, mesmo em meus dias de fúria.
Apesar das dores que meu coração já passou, eu não me arrependo de nada que fiz pra estar com você. Viver este sentimento me fez viva até aqui. Agradeço a Deus por ter te colocado no meu caminho, assim como pedi a ele inúmeras vezes. Antes de você chegar eu era muito menos.
Acredito que haverá um tempo que seremos tão um do outro que nada nos separará e tudo será tão mais fácil. Mas também te amo o suficiente para te deixar partir se um dia não for o motivo do seu sorriso e tua vida não fazer mais sentido ao meu lado. Te quero comigo, mas mereço você por inteiro, assim como me dou por inteira para você. Quando tiver metade e pedaços será a hora de deixar você partir. Por hoje, eu amo você." - Barbara Barduchi
         
         Seria um clichê dizer "eu nem sei bem o que é o amor". Praticamente qualquer frase tirada das gravações ao vivo da Legião Urbana se torna um clichê pela repetição. Comentei em 2016 acerca de um álbum de Moska e, nele, a última faixa transborda numa poesia falando do amor. Dentre os versos, ele diz que a morte do amor é quando, diante do seu labirinto, decidimos caminhar pela estrada reta. Cronista da ternura, Fabrício Carpinejar diz que uma linha de costura prende mais o casal do que uma corrente ou uma corda. A possibilidade de romper o nó sensível permite que os dois se olhem a todo momento para verificar se permanecem juntos. Onde quero chegar com isso?
         Há formas de amor pouco expressadas culturalmente. Um amor maduro o suficiente para considerar o próprio fim, não se enxerga todos os dias. Há uma honestidade bruta. Eis um sentimento como costuma ser renegado no cotidiano. Queremos viver as grandes histórias de amor, sentimentos que nos ponham num êxtase infindo. Quando é que nos esquecemos do famoso ditado sobre o excesso? Shakespeare que me perdoe, mas Romeu & Julieta, como diria o menestrel, perderam a noção do juízo e isso os impediu de encapsular a paixão em pílulas cotidianas. Essas sim, eternas.
         Já não me lembro quanto tempo passei ruminando as palavras de Barbara. Ela me mostrara na intenção que me inspirasse. Engraçado como as coisas são, não? Se ao falar de seu casamento inseri uma composição de seu esposo, e ela foi a pedra sob a qual erigi Nada Há de Novo sob o Sol. Certamente suas palavras me trouxeram mais próximo do que busco em Hermético como Memória. Sim, pois, ainda que a desconhecer os pormenores que a levaram a escrever, no momento em que peguei o violão tentei respeitar as palavras. Uma madrugada insone e me apropriei daquelas palavras. Se um de meus receios recorrentes é saber onde termina o sentimento e começa a ourivesaria. Nesse caso eu sabia residiam cálidos sentidos nas sentenças. 

      Qual a influência de São Valentim para nós, na América do Sul? Mesmo para historiadores sua origem é controversa. Há vários homônimos, para uns ele foi santo pois soube amar, para outros ele abençoava uniões contrariando um imperador. Mesmo a igreja católica retirou Valentim do calendário dos santos em 1969. A tradição de trocar cartões, e votos, no entanto, perdura até hoje em grande parte do mundo. Faz sentido que as palavras da esposa para o esposo venham à tona nesta data. Mais do que faria num mês de junho.
        "Enquanto Fizer Sentido", musicalmente, vem de fontes diversas. Enquanto compunha pensei em Fran Healy, Viva por Mim (de Leo Chaves). A repetição de "eu fiquei", é um eco do "quero sim" em Uma Noite e Meia, de Marina Lima. O que mais? Há sempre um mistério que me escapa. Um poeta que morreu jovem de amor e fumaça dizia que n
ão existem amores perfeitos, existem amantes acomodados. E, de acomodados, este casal de músicos não tem nada. Que cada dia contenha um brinde à eles.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Hermético Como Memória


"Anseios temperados com receios, paranoias e outras duvidas.
Nada além de esconderijos"
Nada Além - Los Porongas
Hermético Como Memória (ou HCM) é uma composição-irmã de Tudo Depende de Conforme For - Em algum ponto até de CCCLXV. Qual a razão de surgir apenas neste 2018? Diferente do conceito elaborado na coleção de composições anterior (Nada Há de Novo Sob o Sol) em que cada faixa surgia cronologicamente à feitura, o surgimento de Amor Infinito após a leitura do livro de Leo Chaves trouxe algo com um tom diferente do que foi desenvolvido até a mezzo-ramiliana Da Escolha. HCM traz tanto uma série de questionamentos, envoltos numa atmosfera de "arte pela arte". Se a palavra "nefelibata" fora aprendida nos tempos de faculdade, "temperança" é reflexo de fazer uma longa maratona do seriado Bones, em que a protagonista se chama justamente "Temperance". Mesmo o termo "azinhavra" surgiu de observar o evento na vida real, a prata perdida para efeitos químicos...
Nada para dizer que não esteja na letra. Imagino. Desconheço o paradeiro de Raul, tampouco imagino o que Júlia está fazendo. A última vez que ouvi dele, me desejava ano novo dizendo que William o havia ameaçado caso insistisse em fazer contato. Eu disse a ele que de Nelson Rodrigues conhecia apenas a fama, seria impossível criar narrativa em cima disso, ao menos por enquanto. "Tudo são sonhos maus, no final, e, apesar de vencer, eu perdi." Há um algo na composição da trilha do Homem de Aço de Hans Zimmer e também de Luís Alberto 'El Flaco' Spinetta, falecido dia 8 de fevereiro de 2012, grande artista argentino que vim a conhecer apenas por seu registro pregresso. As influências estão aí. Nada surge sem ser, de alguma forma, resposta aos que se foram.



Sombras: sobras de Raul e Júlia


Hermético Como Memória (2017)

Pode um raio cair duas vezes
Nos jardins da alma?
Apontando apenas o "preciso"
E preenchendo o nada
Com algum aroma bem melhor
Que o crepitar de cartas

De meus sonhos, onde não hesito
Sentimento, lá não azinhavra
Que delírio! Ser nefelibata

Enquanto há vida
Há de haver mudança
Mas em nenhures
Encontro segurança
Será que elido
De vez a esperança?
Para imergir 
Em vasta temperança.

"É só silêncio."

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Kafka à beira-mar

"Kafka à Beira-mar contém uma série de enigmas, mas não provê soluções. Em vez disso, diversos desses enigmas se combinam, e por meio de sua interação a possibilidade de uma solução toma forma. E a forma que a solução tomará será diferente para cada leitor. Para colocar de outra forma, os enigmas funcionam como parte da solução. É difícil explicar, mas esse é o tipo de romance que eu me disponho a escrever." Tradução de trecho de uma entrevista originalmente publicada no site do autor.
Haruki Murakami (Divulgação)
        Faltam poucos minutos para o fim do dia 12 de janeiro. Aniversário do autor Haruki Murakami. Me pego a pensar: que eu tenha lido um autor japonês pela primeira vez apenas com vinte e dois anos me é até estranho. Tendo o primeiro contato com obras nipônicas por meio dos animes da finada TV Manchete e o contato com a cultura japonesa por meio da proximidade com a instituição religiosa Perfect Liberty na infância, talvez eu devesse ter buscado esse tipo de leitura antes. Certa vez passava pela LIvraria Cultura à procura de algo distinto e me deparei com essa capa:
Edição da Alfaguara, exemplo de um belo projeto de design gráfico.
         Nunca ter ouvido falar em Murakami, naquele momento, me fez pensar se tratava de um ensaio relacionado à Franz Kafka. Algo como qual seria a influência em sua literatura caso vivesse num local mais ensolarado - afinal, sabemos o que Meursault foi capaz de fazer por conta do sol. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma narrativa que misturava corvos, profecias edipianas, universos paralelos, pessoas que conversam com gatos e até mesmo Johnny Walker e o Coronel Sanders (!). Esse último se tornou ainda mais relevante, pois, recém inaugurado o Mooca Plaza Shopping em São Paulo, era um dos poucos locais na cidade em que se podia encontrar um KFC então criava um senso de proximidade com a personagem histórica.
     Indo além, conhecer o "garoto de quinze anos mais corajoso do mundo" inspirou reflexões de um passado de tempestades em copo d'água - tá na cara, que esse copo é meu e é minha a tempestade. - tão simples se identificar com esse tema. O livro carrega intertextualidades que nunca me abandonaram, tais, responsabilidades tem início em sonhos, de Yeats. Um dos pontos da leitura a que mais detive minha atenção foi a canção composta pela Srta Saeki que carrega o mesmo título do livro. Uma canção descrita como capaz de comover muita gente. Aos dezenove, uma tímida garota interiorana pensa no namorado distante e escreve um poema, depois compõe uma melodia para si mesma. Buscando aquecer o próprio coração... quantas vezes me vi no lugar dessa personagem? quantas vezes quis ser eu mesmo a compor uma melodia para tal poema? Perdi as contas.
       Ainda eu não toque piano, o ponto mais forte para me impedir de tentar compor a melodia descrita no livro são os dois acordes existentes na transição de temas. Nunca me decidi como soariam. Até já encontrei no YouTube vídeos de pessoas que se lançaram ao desafio e compuseram melodias sólidas. Mesmo assim, ainda queima a esperança de que um dia, seja eu a alcançar meu próprio ideal estético para essa canção. Murakami teve um insight de que poderia escrever aos vinte e nove anos. Ainda tenho tempo. Ele está apenas quarenta e um anos na minha frente (#41). Que venham mais livros, e muitos anos de vida!

Kafka à beira-mar (2002)

Você se situa na beira do mundo
E eu, na cratera de um vulcão extinto;
E em pé à sombra da porta,
Perfilam palavras cujas letras se perderam.
Lagarta adormecida que a lua ilumina,
Peixinhos que chovem do firmamento,
E do lado de fora da janela
Soldados de espírito decidido.

(Refrão)
Numa cadeira à beira-mar, Kafka
Pensa no pêndulo que move o mundo.
O ciclo espiritual se completa,
E da esfinge que não vai a lugar algum
A sombra em faca se transforma
E trespassa seus sonhos.

Os dedos da menina que se afogou
Tateiam e buscam a pedra da entrada.
Ela arrepanha a barra do vestido azul
E contempla Kafka à beira-mar.

domingo, 31 de dezembro de 2017

CCCLXV

"Eu acredito que há uma mão que nos guia. E ela nem sempre é gentil. Ou uma que pareça justa no momento. Mas eu não sei, eu tento confiar nela agora. Quando surto, eu apenas tento... merda, acho que tento confiar nela. Pois, no fim do dia, o que mais se pode fazer? As escolhas só nos levam a um determinado ponto. O raciocínio e o planejamento também. O resto... depende de alguma outra pessoa. Onde vamos parar, quem conhecemos, o que acontece com as pessoas que amamos... não temos muito controle sobre nada disso." - J.R. Ward, Amante Liberto
Araucária de Bragança Paulista - 2016



CCCLXV (2017)

Da janela do hotel, eu vejo o porto 
E procuro alegria. Quem diria? 
Outro ano se põe.
Contrariando a expectativa
Eu b
usco o lado bom
Da retrospectiva. Quem diria?
Há o "novo" amanhã

Tudo dependia
De conforme fosse a vida
Agora o que é já foi
Também o que há de ser
Tamanha incerteza
Quando acasos se harmonizam
Na alquimia das distâncias
De um futuro que antevê

Harpas de anjos tocadas
Em uma estranha canção
Lume dos sonhos perdidos
Em meio a uma explosão
Neon cobrindo os céus

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Amor Infinito

"Os verdadeiros artistas não são somente aqueles que estão em cima do palco, mas também aqueles que se aventuram pela vida." No Colo dos Anjos, Léo Chaves
Foto: Andree_Nery (iStockphoto)
         No Colo dos Anjos (Editora Gente, 317 p.) foi uma grata surpresa descoberta no show de Victor & Leo no Citibank Hall dia oito de dezembro. Pude ver a dupla com meu pai graças à rádio Gazeta FM - e as ligações de meu pai, claro. Ao adentrar o espaço me deparei com um estande do primeiro livro de Leo Chaves. "Puxa! Ele escreveu um livro?! Preciso tê-lo". Estava convicto de que Crônica do Pássaro de Corda seria minha última leitura do ano, abri uma exceção pela curiosidade crescente e, não me arrependi. 
        A narrativa é envolvente. De cara, conhecemos a situação do jovem astro Bruce Vilanova e a cada capítulo vamos conhecendo mais dele enquanto refletimos acerca de nossas próprias escolhas e conceitos. Bruce é um artista no auge que vive um momento delicado de sua carreira e nos depararmos com ele favorece nossa empatia. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, diria Caetano. Martin é um artista renomado que surge para mostrar ao jovem que sempre é tempo de renovação. Através de uma série de treinamentos que o ajudarão a utilizar o poder de sua mente e conhecer melhor a si mesmo, à sós e em sua relação com os outros.
           Para os fãs de Lost, a dinâmica de Bruce e Martin pode ecoar ao episódio sete da primeira temporada em que Locke explica a Charlie sobre a luta que a mariposa precisa realizar para se fortalecer e sair de seu casulo. Leo é capaz de conduzir a história sem soar apelativo, seja com os efeitos da fama ou da abstinência. O fato de ser um artista renomado o permite desmistificar os bastidores da fama e, por isso, as personagens serem uma dupla de artistas favorece em muito a construção de alguns dos conflitos.
          São vinte e oito capítulos que podem ser encarados como um álbum duplo. Sem spoilers: para aqueles que já ouviram o álbum Na Luz do Som o livro conserva uma bela surpresa. Então, vocês se perguntam: qual a razão do post se chamar Amor Infinito? Em determinado ponto da o título é mencionado como uma das canções de Bruce Vilanova. Lia no ônibus e experimentei cantar uma visão desse sentimento. Quase instantaneamente os primeiros versos surgiram com o que viria a ser o refrão. Mesmo desafinando, esse foi o resultado que alcancei, dá para ter uma ideia:
Amor Infinito (2017)

Vejo seu rosto nas fotos
Um riso que poderia ser nosso
Ah! Se eu tivesse uma chance
De escrever nosso romance

Te mostraria, o futuro
Feito dos sonhos feitos a dois
Te apoiaria em tudo
Sei é tão fácil falar

O sol em nosso anelar, é tão bonito
Enlaçamos mãos temos um lar
E o amor é infinito
Pressinto um beijo doce de se flutuar
Nada é capaz de segurar
Um Amor Infinito

Assim será nosso mundo
Pelos caminhos o petricor
E em cada gota de chuva
Um arco-íris de dou

O sol em nosso anelar, é tão bonito
Enlaçamos mãos temos um lar
E o amor é infinito
Pressinto um beijo doce de se flutuar
Nada é capaz de segurar
Um Amor Infinito
         ALERTA DE SPOILERS!: Num momento terno do livro, Leo mostra a letra de música. Não pude deixar de pensar que, sendo a ansiedade o mal do século, eu fora acometido por ela. Tivesse eu aguardado algumas dezenas de páginas teria conhecido a verdadeira Amor Infinito. Que reproduzo aqui:

Amor Infinito
(Composição de Bruce Vilanova presente em No Colo dos Anjos, de Leo Chaves)

Lobos internos me devoram
Mastigando sonhos, fome de amor!
No escuro, caminhando sem chão
Um caminho pra dois corações!

E nessa estrada bem distante
Se arrastam minhas emoções!
Não aprenderam a dizer não!
O amor vem na mesma direção!
Uma nova jornada adiante!
Eu não me refiro a ilusões!
A luta é por você e com você!
Pra então o dia nascer bonito
Num toque de mágica,
Num amor infinito!
Amor Infinito

Me agarro apenas em sonhos!
Seria real em nosso mundo?
Eu não deixaria você partir!
Minha felicidade iria junto!

E nessa estrada bem distante
Se arrastam minhas emoções!
Não aprenderam a dizer não!
O amor vem na mesma direção!
Uma nova jornada adiante!
Eu não me refiro a ilusões!
A luta é por você e com você!
Pra então o dia nascer bonito
Num toque de mágica,
Num amor infinito!
Amor Infinito


       Ainda assim, por já ter composto minha própria versão. Fiquei contente com as palavras de Martin Blumer na p.124. Quantos livros inspiradores vocês leram neste ano? Há várias portas para reflexão nas páginas do livro de Leo Chaves. Tenho a impressão de que o revisitarei esses personagens de tempos em tempos.
"- Bruce, já sei que você escuta, na maioria das vezes, canções ligadas a seu gênero musical. Entendo que existe um mercado, já vivi tudo isso, mas comece a experimentar de outras nascentes e veja se elas, de alguma forma, poderão acrescentar algo a seu universo artístico. Eu acredito que sim, pois aqui tem muita essência. É importante conhecer as raízes de outros estilos. Sua música pode ficar extremamente rica e ganhar ainda mais identidade."