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sábado, 1 de julho de 2017

Enquanto as Crianças Dormem - Teatro Aliança Francesa


"O esforço de ser empregado inclui não só a incerteza quanto a duração do emprego, mas também a humilhação de se submeter a muitas práticas e dinâmicas de trabalho. Como a maioria das empresas tem a formação de pirâmide , em que uma base ampla de empregados abre caminho a uma ponta estreita de gerentes, a questão de quem será recompensado - e quem ficará para trás - em geral, torna-se uma das mais opressivas do local de trabalho e, como todas as formas de angústia, alimenta a incerteza." Desejo de Status, Alain de Botton


         Chegando ao trabalho Raul fazia questão de colocar seus fones de ouvido. Ainda se afirmasse contrário à toda sorte de rituais, lá estava ele. A trilha sonora tem a função de desviá-lo de um cotidiano medíocre e repetitivo. Sente vibrando em si das trilhas de Zimmer às baladas de Zimmerman e cada faixa vencida carregava cada um de seus atos com um peso invisível aos colegas que o cercavam. Dessa maneira, era natural que ele se identificasse com aquela moça avistada quase sem querer no fundo da lanchonete. A lanchonete mais imunda da cidade, é verdade. Mas, sendo os clientes velocistas contumazes, quem notaria sabores espúrios no cardápio? Raul, por exemplo, não se importava. Desde pequeno acostumara-se a ouvir falar de hambúrgueres feitos com minhoca. "Desde que seja saboroso! Por mim poderiam ser como as tortas da Sra. Lovett em Sweeney Todd". A moça cantava a existência de algum lugar em que os sonhos podiam mesmo se tornar realidade. Nessa hora ele a viu como aquelas pessoas que imaginavam a vida como um musical dos anos trinta. Salvo melhor juízo, o nome dela era Kelly. Raul fora atendido por ela vezes demais para deixar de reparar seu nome no crachá. Era aquela relação en passant. Provavelmente, fora do estabelecimento ele mal a reconhecesse. Mas divago.


O preço que se paga às vezes é alto demais

       Kelly (Carol Hubner) nutre o desejo de se tornar uma estrela dos musicais da Broadway. Da mesma forma que a Alice de Paris-Manhattan tinha como seu confidente um cartaz de Woody Allen, Kelly tem como seu norte inspirador Fred Silveira (Narração em off) e costuma conversar com ele quando se encontra em sua casa vazia. Casa que permanecerá vazia mesmo quando seu colega de trabalho Tom (Haroldo Miklos) a visita. A relação dos dois não é clara, ou talvez o seja: a pura falta de opção. É fácil se ver torcendo pela protagonista, para que ela saia da lanchonete e alcance um ponto mais alto do que o que lhe é oferecido por seu gerente (Juan Manuel Tellategui) e o funcionário puxa-saco Nick (Diogo Pasquim). Uma visita ao supermercado pode obter a surrealidade de um filme de Michel Gondry turbinado com anfetaminas, é a espetacularização magnética do consumo. Zeca Baleiro já advertira: lugar de ser feliz não é supermercado. Diria Gessinger: satisfação garantida! A benfeitora Ellen (Carolina Stofella) surge em meio a um turbilhão de tristezas como uma luz no fim do túnel. Ou seria um trem na contramão?
          Dos méritos da peça estão como seus personagens são palpáveis. Nossas redes sociais gritam as mortes de porcos, a tortura de assassinos e, muitas vezes, nos encontramos passivos diante de colegas esboçando um riso sanguinário diante da maldade. Então, ao vermos uma personagem empunhar a câmera do celular diante do inevitável, vemos um reflexo de nossa própria vida. É como a ironia da capa do livro de Yaël Gabison (Benvirá, 2017) ter o nome de Seja o Herói de sua Vida e em sua capa ostentar ilustrações de Walter White, Frank Underwood, Dexter e Tywin Lannister. Quem são nossos heróis hoje em dia? Malparidos como Pablo Escobar? Estamos cínicos a esse ponto? Seja como for as horas nesse espetáculo passam e nem percebemos, há poder maior da arte que nos fazer mudar nossa perspectiva temporal e social ao mesmo tempo? 

Ficha Tecnica:

Texto e direção: Dan Rosseto
Assistente de direção: Diogo Pasquim
Elenco: Carol Hubner, Carolina Stofella, Diogo Pasquim, Haroldo Miklos, João Sá, Juan Tellategui e Samuel Carrasco
Direção de produção: Fabio Camara
Produção executiva: Roque Grecco
Trilha sonora original: Fred Silveira
Figurinos: Kleber Montanheiro
Cenário e adereços: Luiza Curvo
Desenho de luz: César Pivetti e Vania Jaconis
Preparação de elenco: Amazyles de Almeida
Direção de movimentos: Alessandra Rinaldo
Sapateados: João Sá
Operador de luz e som:Bob Lima
Fotos: Leekyung Kim
Assessoria de Imprensa: Fabio Camara
Realização: Applauzo e Lugibi Produções Artísticas


Até 27/07 - Quartas e quintas às 20h30
Duração: 110 min
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia-entrada)
Bilheteria aberta 2h antes do início do espetáculo.
Ingressos à venda também no Ingresso Rápido.
Classificação indicativa: 14 anos


Teatro Aliança Francesa - Rua General Jardim 182 – Vila Buarque.
Capacidade: 226 lugares + 4 PNE.
Estacionamento conveniado em frente.
Informações: (11) 3572-2379

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Forever Young - Fecomercio SP

"Eu não entendo. Nos musicias, por que começam a cantar e a dançar do nada? Quero dizer, eu não começo... a cantar e dançar." Jeff - Dançando no Escuro
         
         Ao fim de 2050 completarei sessenta e um anos! Não havendo nenhuma divergência drástica no caminho, claro. Até onde sou capaz de idealizar as sensações? Sabe, quando alguém te pede para visualizar onde você se enxerga nos próximos dez anos? Conseguir traçar esse projeto nunca foi meu forte. Então, quando me tornar uma criatura de três pernas ao entardecer creio minha única certeza é a de que tentarei estar cercado de música... bem, se minha audição permitir! Enquanto assistia a peça Forever Young, o pensamento de minha mãe seguiu uma outra linha: será que estarei aqui? Mas não se preocupe! A peça é, sim, uma comédia musical. A seu modo ela insere uma série de reflexões de forma leve e bem-humorada mas não menos poderosa por exemplo: estando as personagens num "retiro dos artistas", onde estariam seus filhos ou familiares? Não há visitas, para além da supervisão da enfermeira, desse modo os seis personagens funcionam como uma família e isso dá espaço para momentos emocionantes em meio aos risos da platéia. 
         A peça pode ser apreciada como um show de piano e vozes em que as interações entre as personagens fazem as vezes daquela conversa intimista com o público em que se aprende mais sobre os ídolos. Instrumento representante do rock por excelência, a guitarra faz parte do show desde a flying V fazendo as vezes de ípsilon na tipografia do título, passando pela Summer Song de Joe Satriani, até o solo performado por um idoso Carmo Dalla Vecchia - e cabe um parentese, mesmo o ator tendo suas duas décadas atuando, a primeira vez que o vi foi na minissérie A Cura como o inescrupuloso José Silvério de Andrade e é incrível ver como o Carmo de 2050 é um velhinho tão boa praça, essa é uma das graças do teatro: a proximidade com as nuances da atuação.
       As personagens são carismáticas e despertam o interesse. Quantas histórias não carregam o par de enamorados? O hippie caladão? As lembranças vão se construindo aos poucos. Transportar o nome dos atores para a ficção é uma decisão acertada por auxiliar, desde a apresentação das personas, na identificação com os dramas propostos. O repertório passeia por décadas de música e nisso há espaço para todos de Smells Like Teen Spirit a hinos como I Will Survive e I Love Rock 'n' Roll, além, é claro, da faixa da banda Alphaville que dá nome à peça. Um ponto à parte é o repertório da enfermeira responsável por trazer doses homeopáticas de realidade. Suas canções não partem do cânone "roqueiro" e, por serem em português, tem capacidade de transmitirem as mensagens a um número mais amplo de pessoas. 


Ficha Técnica

Autor: Erik Gedeon
Direção Geral: Jarbas Homem de Mello
Supervisão Artística/tradução/adaptação: Henrique Benjamin
Direção Musical e canções adicionais: Miguel Briamonte
Elenco: Vanessa Gerbelli,  Carmo Dalla Vecchia, Fred Silveira, Paula Capovilla,
Fafy Siqueira e Drayson Menezzes
Piano: Miguel Briamonte
Stand In:  Naíma
Supervisão Cenográfica: Luís Rossi
Produtora de Objetos: Rosa Berger
Figurino: Paulette Pink
Visagismo: Hugo Daniel
Preparação corporal: Renata Mello
Designer de Luz: Fran Barros
Designer de Som: Rafael Caetano
Assessoria de Imprensa: Morente Forte
Produção Geral: Henrique Benjamin e Sandro Chaim
Lei de Incentivo à Cultura Proac
Realização: Tricicle, Coisas Nossas Produções, Benjamin Produções, Chaim XYZ Produções, Governo de São Paulo, Secretaria da Cultura e Ministério da Cultura, Governo Federal

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Antígona - Sesc Consolação

"Eu começo escrevendo a primeira frase - e confiando em Deus,Todo-Poderoso pela segunda."
A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, Laurence Sterne
     
Antígona pela lente de Guga Melgar (Divulgação)


         "Repetir, repetir até ficar diferente." o poema de Manoel de Barros cabe bem quando nos deparamos com a reinvenção de uma peça com mais de dois mil anos de idade. No Sesc Consolação temos a Antígona reencarnada no vigor físico e interpretativo de Andrea Beltrão. Uma personagem polivalente, aqui, multiforme. O monólogo permite a ela converter-se em Antígona, Creonte, o Oráculo,  Ismênia, Édipo... Num primeiro momento estranhei a personificação do trágico rei tebano até que, após a peça, li o texto de Luiz Felipe Reis para O Globo em 2016, quando a peça estava no Rio de Janeiro.  Há um trecho com a fala do diretor Amir Haddad o qual reproduzo aqui: "— Quando os gregos assistiam às tragédias, conheciam toda a história, a linhagem familiar. Sabiam o que deuses e deusas haviam feito, e as pessoas e entidades citadas eram do cotidiano, assim como nós em relação à “Paixão de Cristo”, com Jesus, Maria, Judas... — diz o diretor. — Oferecemos esse contato com a história e a ancestralidade para chegarmos em Antígona com essas informações."
         Desta maneira, é justo que o ancestral surja. É questão de contexto. Tendo em vista o senso-comum o "Complexo de Édipo" é amplamente difundido mas com um distanciamento. Antígona, a peça, busca realizar uma aproximação com os conflitos daquela família, seus deuses, sua maldição atávica. O programa da peça apresenta textos do diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, e destaco um trecho: "Ainda que exista um elemento de desobediência civil e um desejo cego na protagonista, deflagra-se em seu dilema o quanto certas normas sociais podem trair sua própria razão de existência ao postular um castigo dessa natureza, posto que visam um processo civilizatório". A personagem título busca honrar a morte de seu irmão Polinices com os rituais funerários. Estes, no entanto, foram proibidos por seu tio Creonte por considerá-lo um traidor de Tebas. Neste conflito de convicções não há como ceder. Millôr Fernandes em 2007 afirmou "Se o céu fosse azul, o pão bem distribuído, a escola aberta, o amor proclamado, o riso permitido, a fé diversificada, o mérito reconhecido, Antígona estaria morta e enterrada entre milhões de alfarrábios que perderam força na literatura dramática de todos os tempos. Mas não. A personalidade quase viril da última filha de Leio, está tão viva quanto estava há 2 mil e 400 anos e ai!, quanto estará daqui a 2 mil e 400? Os cães ladram, a caravana parou no tempo." 
          Andrea trabalhou na pesquisa, na escrita, e sua paixão pela obra transparece em sua interpretação, em cada variação de gestos e tons. O público percebe quem está em cena a cada conversão. Parte mais curiosa do programa da peça é uma linha do tempo que consolida eventos como o nascimento de Sófocles, as "Antígonas" do professor George Steiner, o assassinato de Pinochet, a Ditadura Militar no Brasil, "o papa levando um tiro à queima-roupa". Também como a jovem paquistanesa Malala Yousafzai (Nobel da paz em 2014) e sua luta pelo acesso universal à educação. O espírito de Antígona prossegue em sua amorosa luta contra a injustiça, em nossos tempos.


Ficha Técnica:
De: Sófocles
Tradução: Millôr Fernandes
Dramaturgia: Amir Haddad e Andrea Beltrão
Direção: Amir Haddad
Com: Andrea Beltrão
Iluminação: Aurélio de Simioni
Figurino: Antônio Medeiros
Direção de Movimento: Marina Salomon
Cenário e Projeto Gráfico: Fábio Arruda e Rodrigo Bleque (Cubículo)
Mídias Sociais: Rosa Beltrão de Farias
Operação de Luz: Vilmar Olos
Desenho de Som: Andrea Zeni
Apoio Sonorização: Áudio Cênico
Montagem Cênica: Ricardo Rodrigues
Camareira: Conceição Telles
Administração: Sérgio Canizio

Desenvolvimento Turne Nacional: Trigonos Produções Culturais

Produção: Boa Vida Produções

quinta-feira, 9 de março de 2017

Constelações - Sesc Santana

Foto: Divulgação - Sesc Santana

"Não serei seu
você não será minha?
Serei sempre só
você sempre sozinha?
Ou de outro modo
muda-se a crença
A gente se junta
e dança na diferença"
Grafite Diamante - Lenine


      O ponto mais alto de Constelações é instigar reflexões existenciais por meio da simplicidade. O ponto de convergência entre a cosmóloga Marianne e o apicultor Roland é a diferença. Quando pensamos numa escala macro podemos lembrar a frase de Gessinger: "a diferença é o que temos em comum". O texto de Nick Payne se apoia na atração de iguais e opostos para se desenrolar em meio ao multiverso.
     E se, em lugar de Lenine, eu tivesse começado este texto com What If da Coldplay? Talvez eu o tenha feito num universo paralelo, e você, leitora ou leitor, tenha se cansado do texto antes do fim do primeiro parágrafo. Por Zeus! Não pense que estou a zombar de ti, consideremos brevemente o seguinte caso. Uma psicóloga e um professor de português decidem ir ao cinema juntos pela primeira vez, compram a pipoca e aproveitam os prazeres do lugar-marcado. Em meio à ficção o que acontece?
1. Ela decide ficar com toda a pipoca.
2. Ele dorme o filme inteiro.
3. Ambos esquecem da tela quando os lábios se encontram.
4. Ela consulta o celular esperando palavra do crush distante.
5. Ele é gay e só procura uma amizade.
6. Ela decide não querer mais sair com ele.
7. Outra opção escolhida por você.
      Diferente dos livros-jogo da Ediouro, em Constelações, todas as opções podem estar ocorrendo ao mesmo tempo e esses bilhões de possibilidades fascinam. A peça se torna um jogo de identificação, a cada flash somos tomados por uma sucessão de acontecimentos e nossa memória seletiva se encarregará de criar sentido para todas as histórias. Qual o enredo tecido? Há uma tentativa de segurança pelo conceito de um Ser permanente, não importa em qual das linhas paralelas Marianne estará: sua fixação pela ideia da impossibilidade de lamber os cotovelos será constante. Assim como para Roland melhor seria que os humanos tivessem sentido concreto como as abelhas das colônias, a objetividade o ancora a qualquer realidade. Independente do desenrolar, somos capazes de vivenciar apenas um resultado de cada uma de nossas ações, a ficção torna possível enxergar além, enquanto o casal se encontra, desencontra e estrelas explodem ao redor.

     Talvez, mais fácil fosse simplesmente copiar a frase presente no programa da peça: Não existe uma explicação lógica. E se, for mais que cósmica teoria? E se.

Ficha técnica:
Texto: Nick Payne.
Tradução: Marcos Daud.
Direção: Ulysses Cruz.
Assistente de direção: Leonardo Bertholini.
Elenco: Marília Gabriela e Caco Ciocler. Sergio Mastropasqua (alternante).
Cenário: Verônica Valle.
Figurino: Theodoro Cochrane.
Trilha: Composta Miguel Briamonte.
Iluminação: Domingos Quintiliano.
Cenotécnico: FCR/Rossi.
Produção: Morente Forte.
Realização: Sesc SP

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Teatro Mágico

"O falso e infeliz conceito de que o homem seja uma unidade duradoura já é conhecido pelo senhor. Também já sabe que o homem é formado por um número incalculável de almas, por uma multidão de egos. Dividir a unidade aparente do indivíduo nessas numerosas figuras é algo que passa por loucura; a ciência encontrou para esse fenômeno a designação de esquizofrenia. A ciência está certa, até certo ponto, quando afirma que nenhuma pluralidade pode conduzir-se sem uma direção, sem uma certa ordem e agrupamento. Mas, por outro lado, não tem razão ao imaginar ser possível somente uma ordenação única, encadeadora, perpétua, para a multiplicidade dos egos subordinados. Esse erro da ciência acarreta conseqüências desagradáveis; sua única vantagem reside na simplificação do trabalho dos mestres e dos educadores a serviço do Estado, poupando-lhes os trabalhos do pensamento e da experimentação. Em conseqüência desse erro, muitos homens que passam por ‘ ‘normais”, e até por valiosos membros da sociedade, são loucos incuráveis, e, por outro lado, muitos que passam por loucos são verdadeiros gênios. Por isso é que completamos aqui a imperfeita psicologia da ciência com o conceito a que denominamos a edificação da alma. Aqui demonstramos aos que experimentaram a destruição de seu próprio eu que podem a qualquer instante reordenar os fragmentos e com isso conseguir uma variedade infinita no jogo da vida." - Hermann Hesse, O Lobo da Estepe

Palhaços (1920), de José Gutiérrez Solana

        E quando uma série de amigos diziam e reiteravam: ouça O Teatro Mágico, meu "eu" do passado se manteve por algum tempo impassível. Um dos temas recorrentes em mim seria a resistência ao novo, ou mais, a vontade de se jogar ao tempo que tento manter raízes e convicções advindas de algures. Decidi seguir o caminho contrário. O que, a primeira vista, era encarado como um punhado de músicas alegres, apenas. Seria vivido até uma opinião surgisse. Simples assim. Aficionado que sou por Humberto Gessinger, não havia me passado em mente o versos da canção de 2003 Segunda-Feira Blues I Onde está o teatro mágico só para iniciados? Tampouco a relação entre a banda Steppenwolf - para mim sempre uma one-hit-wonder com sua Born to be Wild - e o autor alemão Hermann Hesse, pra ser sincero, nunca ouvira falar de Hesse até então.
        Fui surpreendido ao saber que Entrada para Raros era um álbum de 2003. Só ouvi falar da banda quatro ou cinco anos depois. É quase como Kulakauskas mantivesse canções desse período em seu repertório pessoal desde sempre. No meu caso, duas faixas se sobressaíam: Uma parte que não tinha e A Fé Solúvel, esta em especial fez com que me aproximasse da alma poética de Quintana em seu Poeminho do Contra: "Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/Eles passarão.../Eu passarinho!" Talvez por conta disso estas canções me acompanhavam quando carregava cidade afora um vaso de túlipas regadas a agua salgada. Talvez seja a ancoragem emocional, nunca cheguei a me conectar com o primeiro disco.
        Recém lançado em 2008, O Segundo Ato saltou a meus olhos a participação de Zeca Baleiro na faixa Xanéu nº5 (prima-irmã de Televisão dos Titãs, amante de Tv a Cabo de Otto) O ar era distinto do que eu imaginava encontrar, também não era difícil perceber que o titulo da canção não se referia ao perfume campeão de vendas da estilista francesa Coco Chanel. A trupe estava chegando à cidade e com ela lidando com toda sorte de problemas da vida contemporânea. Tentando entender a atmosfera de fascínio busquei assistir uma série de vídeos no YouTube enquanto me preparava psicologicamente para experimentar um show, afinal, o circo nunca teve um papel intenso em meu imaginário infantil repleto de obras nipônicas, então, mergulhar simplesmente na fantasia me parecia um passo maior que meus pés. Haviam faíscas surgindo aos poucos, quando, ao comprar uma escaleta, o primeiro reflexo foi tatear as notas de Cidadão de Papelão.
        A inadequação com a estética do primeiro disco me levou a embates ideológicos com a parcela de fãs que afirmava que o som era "só para raros", ao passo que, pelo que via, a ideia do idealizador do projeto, Fernando Anitelli era de que todo ser humano é raro em suas particularidades. A questão conceitual, o nome retirado de uma passagem do livro de Hesse me passava a ideia de que ali residia algum mistério maior. A fascinante inadequação de Harry Haller me levou também a adaptação do livro, conduzida por Fred Haines em 1974.  Não apenas isso, a outras obras tais Sidarta e Demian, nesta última, também pensei na poética d'O Teatro Mágico. Quando li A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir um mundo. Imediatamente lembrei do trecho presente em O Mérito e o Monstro: Pra dilatarmos a alma/temos que nos desfazer/Pra nos tornarmos imortais/A gente tem que aprender a morrer/Com aquilo que fomos/E com aquilo que somos nós.
         Anitelli encontrou na figura do palhaço a representação da pluralidade do ser. A falar disso, bastaria a citação de Hesse. Acaso minhas palavras não se sustentem tanto a obra de Hermann quanto a de Fernando permanecerão. A poesia prevalece! Também o ímpeto de falar en passant da minha relação com a obra desta banda.
          No ano de 2011, Fernando lançou seu primeiro álbum solo. Ali não se mostrava o palhaço trovador. Ao cair a maquiagem permaneceu o requinte poético. Quando ele tirou As Claves da Gaveta teve a possibilidade de reformular uma série de composições já conhecidos dos fãs em versão "voz & violão" que circulavam a grande rede por anos. Letras dignificadas em arranjos de ares sutis do jazz mais brasileiro, se assim se pode dizer. O receio de que a trupe desmantelaria feneceu com o surgimento d'A Sociedade do Espetáculo, agora disseminando o conceito de Guy Debord em meio a referências pop. Mesmo a capa tinha um quê de Sgt. Peppers. O fim da trilogia trazia de uma parceia com Leoni a uma composição baseada em sugestões dos fãs por meio do Twitter. Água mole em coração de pedra, o saldo parecia positivo: agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente vencida a batalha contra si mesmo. Amava o Grande Irmão. Realmente apreciava O Teatro. Não todas as canções, mas a proposta de amplificar como num sarau o discurso humano de semear o amor. Havia versos, que ressoariam melhor num poema. "Essa heterointolerância-branca te faz refém", por exemplo, era incensada por diversas reviews sem que sua forte mensagem encontrasse as melhores cores. No entanto, apenas o fato de a mensagem lá estar, é louvável nesses dias de excessos em excesso.
          Correndo o risco de beirar o ficcional - considerando que descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais - cheguei à hipótese de que as engrenagens da transmutação do som da banda que tomaria parte nos álbuns seguintes tinham começado a se mover em 2010, quando a trupe recebeu a oportunidade de abrir um show de um dos heróis de Anitelli, Dave Matthews. Além de, ter a participação do saxofonista da DMB, Jeff Coffin na faixa Transição; "Se aprendermos a olhar para nossos sonhos, veremos quão perto estão", parafraseando o próprio Fernando antes de tocar Sonho de uma flauta numa versão elementar. Há quem diga que a introdução da faixa Quermesse, em Sociedade, ecoa Pantala Naga Pampa. Era exagero pensar que essas aproximações anunciavam o fim de um ciclo? Talvez. Se milagres acontecem quando a gente vai a luta, estar em contato com nossos ídolos pode ser transformador até em relação a nossas próprias criações. Divago. Fato é que, depois desse álbum não me deparei com nada que envolvesse O Teatro Mágico.
Pelo menos até visitar a exposição Picasso e a Modernidade Espanhola no CCBB de São Paulo. Quando me deparei com o quadro a ilustrar essa postagem enxerguei Anitelli num dos palhaços de Gutiérrez Solana. No melhor estilo místico acreditei ser um sinal para descobrir o que eu perdera. Descobri que em 2014 havia sido lançado O Grão do Corpo. Nome que me chamou atenção juntamente a sobriedade da capa. No som não se encontrava o violino ou o DJ. Não haviam vinhetas, uma faixa com um poema, uma instrumental calcada no piano e percussão. Soa o álbum mais urgente e ao mesmo tempo coeso. Um novo ato! E essa reformulação merecia ser vista ao vivo. Ainda que não tenha mencionado no terceiro parágrafo, fez parte de minha 'experiência social' pegar o pancake que eu usava para fazer as vezes de Coringa e me maquiar como um integrante da trupe. Além disso, completei meu estudo de caso vendo diversos shows, na Academia Brasileira de Circo, no Carioca Club e também na primeira edição do SWU, por exemplo. Cada qual com um humor distinto e algumas vezes a fazer companhia dos mesmos amigos e amigas que faziam a indicação do primeiro parágrafo. Agora, eram apenas dois, eu e minhas circunstâncias.
         Não resisti passar na Lojinha para comprar camisetas, canetas, um adesivo para o carro de meu pai, etc e tal. Usara minha camiseta d'O Segunto Ato até puir. Agora era a hora de um arco-íris no logo e da estampa de Partilha, amor à primeira audição. Nas prateleiras pequenos frascos coloridos saltavam aos olhos entre os souvenires. Não ousei perguntar o que seriam. Me peguei torcendo para ouvir todas as músicas do disco novo no show. Foi assim? Sem ter um diário tal memória me escapa, também não quero procurar resenhas do evento. Os motivos antitéticos estavam ali, "morrer de vontade de viver", "a vida anuncia que renuncia a morte". Como de praxe, as letras apresentavam muito material para se discorrer de maneira existencial. Ou era o momento que eu vivia? Fica a abertura ao diálogo. Você está aí? A menção a acontecimentos em O Sol e a Peneira era como sucessora espiritual de Amanhã...Será? Travar contato com a manifestação e indignação em meio à festividade de uma canção popular tem o caráter de internalizar a reflexão. Assim, quando Anitelli explana ao público presente no Citibank Hall que o líquido em exposição na loja era a "essência do Teatro Mágico" não pude deixar de sorrir. Quantos dos mais apegados ao lado lúdico sentiam sua preciosidade esmaecida? Incontáveis, o caráter coletivo e camaleônico da trupe sempre estivera em voga, a vontade de buscar uma nova característica caracterizava o trabalho de Anitelli e, consequentemente, de todos os que o cercavam, leia-se: banda, dançarinas, sua família. Só a mudança é permanente. 
          Por conhecer o álbum de 2014 apenas em 2015, qual não foi a surpresa ao tropeçar este ano, 2016, em Allehop. Enquanto buscava referências para discorrer o álbum Era domingo de Zeca Baleiro em junho fui tomado de surpresa com o quinto registro da banda , detentor de uma alegria contagiante. Duran Duran, Oingo Boingo, Tears for Fears, ouvir é quase como estar num especial temático dos anos 80 - trilha sonora perfeita para a leitura de Armada de Ernest Cline? ao mesmo tempo nada soa fora do lugar, não é necessariamente um revival. A faixa sete, Cada Caso, me parece Undisclosed Desires da Muse. Como não poderia deixar de ser, a bagagem cultural do ouvinte vai guia-lo quanto ao que poderá encontrar. Se o disco anterior era mais politizado, esse é mais leve. Apresenta, também, campo lírico para análise. Se considerar que o disco abre já com versos como "no fundo somos todos sós" em tom de constatação. As interações do "eu" na busca de entendimento e de uma posição no mundo perpassam as letras. Frases de longa data no universo de Anitelli como "os opostos se distraem, os dispostos se atraem" se expandem na letra de Quando se distrai. Há mais de dez anos Anitelli dizia "eu não sei na verdade quem eu sou", hoje afirma que é "tudo o que faz para ser". Ainda que pareça despolitizado, o álbum soa coeso com a proposta de reinvenção. A última faixa fazer parte do "baú de Anitelli" (Num chat para o UOL em 2007 o compositor confirma a música já existia nove anos antes, o que data meados de 1998) também não parece gratuito. É quase como acenar, mais uma vez, para o passado, enquanto se permite pintar o futuro. Quase todos os registros, sejam cd's ou dvd's, d'O Teatro Mágico apresentam novas fantasias para antigos sonhos guardados. Existe, claramente, uma busca por explorar o potencial de cada uma das claves escondidas. Me identifico com essa incessante procura. Quanta bagagem cultural obtive simplesmente por querer me posicionar contrário a quem me pedia que ouvisse a banda? Hoje, sou eu quem indica: a vida convida pra se viver!!!

sábado, 30 de julho de 2016

Fluxorama ou (Todo mundo é uma Ilha)

“Exercitar a si mesmo ao máximo, dentro de seus limites individuais: essa é a essência da corrida, e uma metáfora para a vida” Haruki Murakami, maratonista.
ANTES DOS ATOS

- Sim, creio será a melhor maneira de agir. Estarei no meio de um dos corredores aguardando a passagem de Ciocler, depois que os fãs mais afoitos o tiverem abordado vou me aproximar e fazer minha pergunta; Digo ao menos se deixarem algum espaço. Nunca estive numa noite de estreia. Quem sabe eu devesse falar com a Marjorie Estiano ou ainda Luiz Henrique Nogueira e a Juliana Galdino. Depois de conversar sobre as atuações e a peça em si acho estarei mais confortável para realizar minha pergunta. Estarei? Pensando bem não mais sei. Não conheço o trabalho de Jô Bilac quais são seus temas, sua abordagem? Quem é Monique Gardenberg e quais seus predicados como diretora? Como falar sobre autores que não conhecemos? Sinto como o grande Outro me negasse o direito ao não saber. Nemo tenetur se detegere! Maldita hora para não ter certezas, ou melhor: bendita! Ainda estou longe do Sesc Ipiranga e suponho a coragem até lá surja. A coragem surge ou é construída? Se fosse líquida bebê-la-ia? Há anos quero saber o que aconteceu com o Dr. Luís Camillo quando foi ao encontro de Dimas Bevilláqua no final da temporada d'A Cura. A série não voltaria nunca mais? Ai de mim! Triste destino que me foi atribuído em vida acompanhar tramas em aberto. Caco estava envolvido, ele, melhor do que ninguém, saberá cobrir com verniz de veracidade os boatos que rondaram o fim da série. No final das contas quem é que vai para um ponto meticulosamente pensando chegar a outro? O assunto definitivamente não é a série e meu nome nem mesmo é Frances!!!

As portas se abrem e ele, atônito, percebe estar na estação errada. Mal sabia ele: tinha embarcado na linha errada.

OS ATOS EM SI

...se começar a chorar aqui de repente vai manchar tudo e eu vou ficar horrível e só vou notar quando já estiver atravessado toda a avenida com cara de palhaça e ficar assim rindo com a cara borrada abraçando meus amigos que deixei de ver há muito tempo, mas isso agora nem faz diferença pois a cada encontro os aperto como se pudesse dissolvê-los em meus braços de tão forte o abraço, de tão forte que quero senti-los, de tão forte que tudo isso me toma, de tão forte que meus sentimentos me inundam, de tão forte que essa dor no meu peito explode como uma napalme nuclear, de tão afetuosa e de tão querendo e de tão absoluta essa loucura que é o amor... Juliana Galdino

Quem é o outro? Quem somos quando privados da interação com o outro? Privados da audição, estamos a sós com nossos gritos e idiossincrasias. Demandamos por atenção, queremos ser vitrines, disseminar preocupações, receios, anseios. Quanto nos permitimos abrir este espaço para o que está fora de nós?! Podemos, por vezes, apenas estar habituados a determinadas cadências, tons, flexões. AMANDA sofrendo de uma doença misteriosa decide manter a perda dos sentidos em segredo. A aterradora situação não a força a quebrar o ciclo. Sinais, palavra escrita? Nada! É preferível não abrir diálogo algum. Prosseguir o monólogo. Quem sabe dar-se conta de que essa escolha já fora tomada bem antes de o problema surgir. Ou não.

A pior coisa do mundo é morrer deprimido. Vale morrer de raiva, morrer de medo, morrer de rir, morrer de inveja, morrer de tesão, morrer de vergonha, morrer de dor de cabeça, morrer atravessado por um arpão...Pode. Pode tudo. Deprimido não. Luiz Henrique Nogueira

Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia? Não. Algumas horas, minutos, segundos? E se o filme de sua vida fosse o retrato cínico do carma inexistente, resultado de nossa opressora liberdade? Há cheiro de morte e não se quer saber o gosto do sangue, nunca. A dor de LUIZ GUILHERME é ver se aproximar a última certeza. Ele, como o maluco beleza, imaginou que ela viria no meio do copo de uísque, ou teria sido conhaque desta vez? Certamente o brandy. Aquilo naquele instante não importava.  Ele, como muitos, pode se ter vestido dum manto de invencibilidade, o #nuncavaiacontecercomigo e quem há para dizer? Agora, unido com seu cavalo de aço reflete. Encontra humor. Melhor seria negar a dor. Ah! Se ele pudesse tomar apenas mais uma dose. Estamos anestesiados de nossas próprias tragédias ourobóricas.

A culpa não é sua, é um desgaste natural e tudo é descartável, incluindo você. Incluindo o que você sente. Pensa. Quer. Pode (...) Você pode, pode. E quem não pode? Se sacode onde? Como? Com que dinheiro? Você pode tudo tudo, só não pode arregar! Marjorie Estiano

No meio do caminho há asfalto. Nada mais. Pouco importam câmeras e transmissões. A multidão se projeta, alguns almejam assistir o beijo no piche quente... Padres irlandeses podem estar a espreita, mas os passos se sucedem. Há uma série de atos interrompidos no cotidiano, planos desfeitos. Inspira. A linha de chegada é um objetivo concreto, palpável. Expira Chegar. Vencer também não está em jogo e sim não deixar o corpo perder - os sentidos? a vida? - O início e o fim estão além do alcance de VALQUÍRIA. A vida é sempre, sempre percurso-travessia de datas-dias-pessoas-passos. Há asfalto no meio do caminho e, diria Gessinger, a única certeza é que o último dia de dezembro é sempre igual ao primeiro de janeiro.

o porco/ morrendo/ esquece o bicho que se apavora tanto/
esquece o grito do bicho que se apavora tanto/
esquece esse grito/ esse grito/
esquece esse grito de quem mesmo vivendo
na merda/ na lama/ quer ficar...
Caco Ciocler

Você pode pensar, jejuar ou esperar, no entanto, preso em um banheiro pode alcançar o nirvana? Sim?! Acrescente então uma série de ofídios com consciências singulares em sua cabeça, a existência se torna MEDUSA e o ato de meditar se torna uma impossibilidade prática. Afogamo-nos todos em informações de nossos pluripercursos. A busca pelo não-pensar é procurar o stop do pensamento que é dinâmico. Possuímos, enfim, um fio condutor ou tudo são tentativas de chegar ao fim? Cada monólogo suscita diálogos seminais. Expectativa de convergência dos solos, retrato de nossos tempos, assonância política. Fora Temer! roteiro-ator-inconsciente coletivo?. Se tudo é referencia, viciosos ciclos de inércia, eternos retornos, todos os pensamentos são presa de alguma besta.


Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranquilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio