quarta-feira, 14 de setembro de 2016

The Beatlemania Experience

‘Why did the apple fall to the ground? Where have all the flowers gone? Who fired the shotgun when love was all around? Where we only sleeping? I don’t know. But I do know Something About The Beatles’ - The Korgis
      
Foto: Helen Moraes
       No dia sete de setembro decidi, finalmente, visitar o Shopping Eldorado para conhecer o evento que prometia ser “a maior e mais interativa exposição dos Beatles já vista”. Para todos os efeitos, ela é! Ainda não tivesse visitado nenhuma outra exposição tendo os Fabfour como foco a experiência do título é realmente imersiva, não devendo nada para as itinerâncias do circuito de museus de São Paulo.
      Já na fila, se enxerga uma reprodução imensa de uma fotografia de outubro de 1965 em que fãs ensandecidas tentam furar um bloqueio policial em frente ao Palácio de Buckingham, onde os membros da banda receberiam condecorações da Rainha Elizabeth II. Olhando ao redor, era possível observar a abrangência de público. Havia desde idosos comentando admiráveis tempos idos, curiosos procurando descobrir quem eram “os tais dos Beatles” e até mesmo crianças que teriam seu primeiro contato com a obra de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. A canção In spite of all the danger, única creditada a Paul e George e uma das primeiras gravadas pelos The Quarrymen, já dava o tom do que viria a seguir.
       Antes de rasgar seda na descrição do percurso, convém salientar que, ao menos no dia em que lá estive, não foi possível obter o guia em inglês para apreciação. Funcionários confessaram que “o número de estrangeiros no feriado de Independência superou as expectativas” e “o fato do conteúdo estar quase que completamente em português dificultou um pouco para os visitantes estrangeiros que ficaram sem o guia impresso”. Como meu interesse pelo objeto era mais questão de um souvenir não afetou minha experiência. Por último, não menos importante, todavia, pude encontrar tremas em textos da exposição. Supondo o visitante não seja um gramar nazi, elas passarão batidas. Agora, sem mais delongas, o roteiro.

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS

       Ah! Mas é para isso mesmo que estão aqui? Perdoe, cara leitora ou leitor, eu sempre quis usar essa frase. Mas divago! As únicas regras que foram transmitidas: para não comprometer o fluxo de visitantes não é permitido retornar para a ala anterior, no entanto, a permanência nas dependências é livre. Fotografias são permitidas desde que tiradas com dispositivos móveis. Câmeras profissionais não são permitidas.
Tudo começa com um vídeo apresentando as datas de nascimento dos integrantes e o contexto histórico da Inglaterra. Em seguida, você se depara com a recriação de um caminhão em que os, então, Quarrymen, tocaram numa quermesse, e John e Paul se conheceram. Essa primeira ala conta com uma série de itens, como o diploma de Lennon. Há, também, um grande painel exibindo as mudanças de integrantes desde que a banda se chamava The Quarrymen até se tornaram The Beatles, com a supracitada formação clássica.
Foto: Helen Moraes
No livro As letras dos Beatles, o biografo oficial da banda, Hunter Davies comenta que, certa vez, num momento de tédio se colocou a estudar os rostos famosos na capa do álbum Sgt. Pepper (1967) e se surpreendeu ao constatar que haviam nove escritores e apenas quatro músicos. Essa inclinação literária é interessante em se considerando o quanto os rapazes zombavam de sua boa formação e de seus professores. O academicismo, por si, não significa muito despido do interesse individual. Seguindo o trajeto há uma série de fachadas, pôsteres e foto. Um expediente para manter o visitante sempre entretido com alguma informação ou detalhe. A recriação cenográfica do Cavern Club, em que os Beatles tocaram cerca de 300 vezes, remete aos clubes de rock ou ambientes que seriam recriados em programas como o Acústico MTV. Nas paredes pequenas biografias dos poucos que tiveram oportunidade de fazer parte do círculo íntimo da banda, como Brian Epstein, Klaus Voormann, Mal Evans e Neil Aspinall. Forma de se perceber que além dos criativos uma série de protagonistas são necessários em outras frentes para a consolidação do mito.
       Um exemplo do aproveitamento criativo do espaço está no corredor que simula uma cabine de trem britânica. Detalhes como as malas e a paisagem da janela fizeram com que eu me sentisse no Expresso de Hogwarts. O desembarque é realizado na “Beatlemania” em si. O frisson causado pelo grupo no mundo, em especial, nos EUA. A “Invasão Britânica” foi capitaneada pelos quatro garotos de Liverpool mas contou com uma série de outros nomes como o The Kinks, The Animals, The Hollies, The Who e, claro, The Rolling Stones. O episódio seis do minidocumentário The Sixties (2013), com produção executiva de Tom Hanks, se aprofunda no aspecto histórico desse momento. Nesse sentido, não importa ‘gostar ou não’ dos Beatles. O efeito que tiveram, e tem, na cultura pop e no estilo de produção musical que é seguido até hoje é inegável. Até mesmo Matthew Weiner, criador da aclamada série afirma que não teve problemas em pagar US$250.000 em taxas de licenciamento para utilizar a faixa Tomorrow Never Knows na quinta temporada da série (2012) uma vez que, no comando de uma série que tomava parte nas transformações vivenciadas nos anos sessenta, sentia estar faltando autenticidade por não haver nenhuma música do grupo que era o estandarte de diversas transformações.

        Voltando a ala em si: ao centro, dezenas de televisores antigos transmitem imagens de arquivo da banda. Ao redor? Vitrines com todos os artigos que você puder imaginar. Agasalhos, quebra-cabeças, lancheiras, bonecos... você escolhe! Há também um espaço dedicado a alguns dos efeitos da febre no Brasil. Num vídeo, Beto Bruno da banda Cachorro Grande fala das decisões que motivaram as mudanças nas coletâneas tupiniquins. Há um trecho em que Caetano Veloso comenta que quando os Beatles apareceram no Brasil não diferiam muito do que seria, hoje, um Justin Bieber. Odair José – que tem uma canção chamada "Eu Queria Ser John Lennon" –  afirma que quando estreou o filme Os reis do Iê Iê Iê (A Hard Day´s Night, no original, mostrando como desde sempre os brasileiros possuíram criatividade ímpar para adaptação dos títulos) ele chegou a assistir vinte vezes. Ronnie Von explica que seu pai conseguia os discos com cerca de seis meses de antecedência e ele chamava Rita Lee para ouvir junto, e como, a partir disso viu surgirem Os Mutantes. O Iê Iê Iê brasileiro ecoou de Roberto Carlos à Arnaldo Antunes.
      Além dos instrumentos utilizados no período há uma coleção de capas dos lançamentos ao redor do globo e a biografia daquele que é considerado o 5º Beatle: o produtor musical George Martin. O apoio do Spotify como o player oficial se reflete em uma série de totens espalhados por todo o espaço da exposição em que os visitantes podem pegar fones de ouvido e apreciar a discografia completa dos Beatles, além de playlists dedicados a suas primeiras influências, como o skiffle. Chega então um dos momentos mais interessantes, a recriação de um trecho do show no Shea Stadium, NY, em 1965, em um filme de realidade virtual. O visitante se vê como uma das 55.600 pessoas do público. A tecnologia é realmente promissora e, de cara, já se mostra superior à utilização do 3D tradicional, por exemplo.
      Após o show há dois quadros interativos com linhas do tempo. Muitos dos presentes afirmavam se sentir como Tony Stark manipulando a tela. Há também os figurinos de John para uma apresentação no Japão e depois uma explicação daqueles que são considerados os três maiores problemas externos que a banda enfrentou: a descontextualização da infame frase de John Lennon sobre ‘serem maiores que Jesus’, o desentendimento com o ditador das Filipinas Ferdinand Marcos e sua esposa Imelda, e a explosão de uma cherry-bomb próxima a uma apresentação, coisa que, logo, deixariam de realizar.
     Bem próxima à fachada da EMI, há um mural com as capas de diversos álbuns gravados no estúdio Abbey Road. Como o The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, em 1973. O homônimo de Duran Duran em 1993 e a trilha sonora do filme O Senhor dos Anéis composta por Howard Shore. Já na “EMI” há material promocional da animação Yellow Submarine, fotografias do tempo em que estiveram no retiro espiritual com o guru Maharishi Mahesh Yogi na ìndia e as vestes da Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Falando em submarino, logo depois, o visitante tem a oportunidade de navegar, ao céu azul e ao verde do mar, no submarino amarelo com escotilhas animadas e o vídeo falando do disco visualizado por meio de periscópios.
Foto: Helen Moraes
       O telhado da sede da gravadora Apple é o cenário reproduzido de modo a passar a impressão de que o visitante está presente no Rooftop Concert ouvindo Don’t let me down. O que foi a última apresentação da banda, um ano antes da separação prepara o terreno para o fim. Como que para melhorar os ânimos há a reprodução cenográfica do exterior do estúdio com a faixa de pedestres de Abbey Road, em que os visitantes, pagando uma taxa de R$18, tem um fotografo para conduzi-los ao melhor lugar e guardar de recordação sua própria versão da capa do último disco a ser gravado, e penúltimo lançado. As pessoas que quiseram entrar na brincadeira não hesitavam em descalçar os sapatos à Paul. Jornais da época esboçam a perplexidade com a separação do grupo. E enfim o epílogo: há uma pequena ala dedicada aos integrantes em suas empreitadas solo. Variadas peles da bateria de Ringo Starr, a relação do repertório de cada visita de Paul McCartney ao Brasil, As amizades musicais e o Sitar de George Harrison e também uma réplica do piano branco que John Lennon utilizou no vídeo de Imagine. A exposição, conduz, então a uma grande loja com tudo o que beatlemaníacos de todas as idades e nacionalidades poderiam querer: cd’s, dvd’s, vinhs, camisetas, biografias, bottons, etc. Ao sair, você vai se deparar com os portões de Strawberry Fields e virá a vontade de voltar ao início para ver tudo de novo. Experenciar os dez anos mais prolíficos na história da música, uma mágica e misteriosa viagem num sonho sem fim.


domingo, 11 de setembro de 2016

Onde você estava em 2001?

"Como os artistas lidam com a questão da memória? Nas artes, a evocação das memórias pessoais implica a construção de um lugar de resiliência, de demarcações de individualidade e impressões que se contrapõem a um panorama de comunicação à distância e de tecnologia virtual que tendem gradualmente a anular as noções de privacidade, ao mesm      o tempo que dificultam trocas reais. É também o território de recriação e de reordenamento da existência - um testemunho de riquezas afetivas que o artista oferece ou insinua ao espectador, com a cumplicidade e a intimidade de quem abre um diário." Katia Canton, Tempo e Memória
Memorial do WTC por Denise Gould

          Havia quem estivesse em casa apenas esperando o horário da aula. Teve quem dissesse: "nem sei o que estava fazendo, sério, talvez no trabalho". Para uma série de pessoas o expediente foi encerrado no momento em que ouviram as primeiras notícias, correram, então, para casa, afim de acompanhar as notícias. Também houve quem estivesse no cassino dos oficiais, servindo o melhor vinho do quartel a um dos generais. "Como em muitos dias, eu estava a varrer o chão esperando a hora dos desenhos, pelo menos até a vinheta do Plantão da Globo começar". A música, de autoria de João Nabuco recebeu o maior número de menções nas respostas, ainda que tenha passado a ser exibida apenas em 1991 as pessoas parecem tratá-la como um som que sempre existiu no imaginário. Outro prossegue em um riso curioso "Eu estava trabalhando na hora, sei que o João Gordo estava dormindo e então um cara ligou para avisar a ele", é uma entrevista? De certa forma era.
             E motivada por uma curiosidade recorrente, em abril de 2013 numa troca de virtuais cartas com Kariny Cristina ela havia, também, surgido. Naquele momento, sem maiores repercussões. "Estava na Marquês de São Vicente aquele dia. Podíamos trabalhar com um daqueles radinhos, sabe? então todo mundo acabou sabendo ali, por volta das dez da manhã.", outra pessoa complementou "nessas horas que a gente confirma como notícia ruim chega rápido, lembro que era uma terça, nesse dia o carteiro sempre fazia as entregas, foi ele quem nos disse. Ficamos apavorados, teve quem dissesse ser a terceira guerra mundial". Para alguns a repercussão dos ataques chegou apenas no horário da tarde. "Bem, não é difícil, eu estava vivenciando a mesmice, trabalho há vinte e cinco anos no mesmo lugar, sei lá, acho que eu trabalhava apenas em uma sala diferente." Outras pessoas iam além, não se tratava de intuir que estava no trabalho, e sim de tentar lembrar em qual estágio profissional estava.
             A sensação de deslocamento do tempo, foi a impressão que recebi de muitos com quem falei na última sexta-feira, 9 de setembro. Não se tratava de relativizar a importância global do fato, mas buscar a esfera de reação pessoal de uma série de brasileiros de idades variadas. Em meio a tumultos diários muitos esquecem de desmecanizar a própria vida. A tragédia foi um meio indireto para que cada entrevistado focasse, por alguns instantes, em si mesmo. Numa esfera mais ampla me peguei pensando: Para quantas pessoas o momento da queda do WTC não foi o nascimento da atenção para o panorama-cartão-postal de Lower Manhattan que passaria a ser visto em uma série de filmes, retroativamente? Naquele dia, minha maior preocupação era assistir a um episódio de Dragon Ball Z que, por conta da cobertura dos ataques, nunca chegou. As aulas de geografia, ministradas pelo profº Isaac de Carvalho, salvo melhor juízo, levaram a discussão para as aulas em que fiz uma ilustração do rosto de Osama Bin Laden para a capa de um trabalho escolar.

             E você, onde estava em 2001?

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Solipátria

"São tempos sombrios, não há como negar. Nosso mundo jamais enfrentou ameaça maior que a que enfrenta hoje." Rufo Scrimgeour

        Textos guardados, uma série deles. "Nunca tantos quantos se poderia ter." Parafraseio Sampa no Walkman, dos Engenheiros do Hawaii, como quem não quer nada. Assim como Lost, qualquer um que converse algum tempo comigo ouvirá alguma menção à banda gaúcha. Pra ser sincero esse texto já começou e acabou de uma série de formas. Ele já foi uma prosa poética acerca dos valores do país, já se tornou um roteiro com cenas em que um jovem eu conversava na banca de jornal acerca de quais valores eram possíveis ou plausíveis do alto de seus doze anos de idade, também rascunhada foi a ideia de falar acerca de artistas com temas políticos em suas letras. Agora, como transmitir a mensagem de modo a não soar como estivesse a colocar minhas próprias palavras à altura de meus "mestres" por assim dizer? 
         Essas narrativas em primeira pessoa sempre me fazem pensar em quão confiável é a voz do texto, principalmente quando envolve o resultado de uma série de diálogos. Tudo é sempre uma ficção; Pode ser influência da segunda temporada de Mr. Robot, ainda que não esteja tão contente com os rumos da trama que parece patinar sem rumo, a ideia de dupla personalidade sempre me chamou atenção desde que me deparei com o trágico destino de Saga, o geminiano. Diga o que quiser, fui conhecer a obra de Robert Louis Stevenson só muito tempo depois, fico com o referencial nipônico. Seja como for, no final, despida de todo o requinte que se buscava cá estamos no segundo parágrafo e, na falta de ideia melhor para ele, sugiro que passe ao terceiro:
         Síntese sem tese ou antítese agora, retomemos parte do que compunha a intenção original do texto. Aos doze, eu estava na banca de jornal próxima à E.E. Esli Garcia Diniz, suponho eu estivesse conversando com Alcebíades quando os acordes de uma música diferente começou a tocar na rádio. Gm F Dm não seria mera coincidência que minha primeira composição teria um pouco disso. A questão é que quando ouvi os versos "Sinto um imenso vazio e o Brasil que herda o costume servil, não serviu pra mim" não deixei escapar a surpresa. "Esse cara tem a voz parecida com a do Paulo Ricardo". Fui corrigido pelo colega da banca: "Mas é ele, está voltando com a banda dele, o RPM". Curioso, até então, para mim, ele era apenas o judeu Samuel na novela Esperança e o cantor de hits tais Como se fosse a primeira vez e Dois.
           Foi um choque bem vindo, eu sabia que letras podiam ser politizadas, refletir algo do mundo "real". Conhecia Ideologia de Cazuza, e uma serie de pensamentos de Renato Russo envolvidos nas letras da Legião Urbana, como Que país é esse? e Geração Coca-Cola. Mas Juvenília representou a ruptura do que se podia dizer ou não. Então, no terceiro ano do ensino médio era o que eu tinha em mente quando a profª Marize dividiu a sala em grupos e propôs que cada um compusesse uma canção sobre o país, e que tivesse o meio ambiente, também, como norteador. Foi surgindo o que viria a ser Solipátria suponho segui o tema até o segundo verso. Como o grupo em que eu estava já possuía um compositor com uma verve "popcêntrica" deixei de lado a primeira estrofe por alguns anos. Textos guardados. Uma série deles. 
          Corta para o RPM de novo. Em sua versão de Alvorada Voraz para o disco ao vivo em 2002, Paulo Ricardo atualizou sua letra. O que era "O caso Morel/O crime da mala/Coroa-brastel/O escândalo das jóias/e o contrabando/um bando de gente importante envolvida" tornou-se "O caso Sudam/Maluf, Lalau/ Barbalho, Sarney/ E quem paga o jornal?/ É a propaganda, pois, nesse país é o dinheiro que manda." Em 2009 a série de escândalos no senado acabaram por me fazer retomar a letra pensando na situação do país, e, o hino nacional já estava no DNA da letra que nasceu na escola. O tema na faculdade rondava as intertextualidades, e a Canção do Exílio de Murilo Mendes uma ponte. No último momento a melodia se deixou influenciar pelo folk cuiabano do Vanguart. De tanto ouvir comentários acerca de Guimarães Rosa era preciso utilizar neologismos, apenas no título faria sentido: A pátria solitária, solitária pátria, solipátria. Os protestos de 2013 viriam a contradizer o primeiro verso da segunda estrofe, o povo já não estava calado. Hoje, mais que arroubos parnasianos, estudantes ocupam suas escolas em atos que deixariam V orgulhoso. Ideias são à prova de balas e o país pode avançar sem temer.



Solipátria (2009)

Quando o verde louro torna rubro
E o som do mar traz gritos incontáveis
Quem parar para olhar para o céu
Não verá o sol da liberdade
E sim decepção por toda a corrupção
Que agora reina e se espalhou

O povo heroico está calado e já não liga mais
O espelho está quebrado e se nega a refletir
Pois que não há grandeza a ser espelhada em futuro aqui

O berço esplêndido virou caixão
E ninguém já se deu conta
Que alguém apagou a luz
Entre outras mil fomos nós mesmos
Os que cortamos o cruzeiro que resplandecia
E agora vocês sabem
Sabem que somos nós

Que vamos permitindo a um outro mundo
Vir até aqui e fazer pouco caso de nossas verdades!
Da pátria amada hoje só restou saudade
Saudade restou só hoje amada pátria
Tenha dó de mim

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Roberta Campos: Todo caminho é sorte (Sesc Carmo)

"Pense em algumas de suas canções favoritas. Já tentou imaginar como elas nasceram? Em quais circunstâncias, em que ambiente e sob quais inspirações surgiram? Eu costumo fazer isso frequentemente. Talvez pelo fato de também compor, fico a imaginar em que estado psicológico e em que paisagens outros compositores se encontravam ao escrever suas músicas. Assim, quando ouço uma canção que me agrada, logo tento me transportar para a mente de seu autor na tentativa de banhar-me um pouco na criatividade alheia." Jair Oliveira, Sambazz p.20
          Chegar a uma apresentação em que não se conhecesse o repertório pode criar a sensação indefinível de não saber o que esperar. Confesso que, excetuando Amiúde e De janeiro a janeiro, não me lembrava de ter ouvido as canções de Roberta Campos. Sabendo que Helen é uma grande admiradora dopa trabalho da cantautora mineira tratei de conseguir um par de ingressos para esta noite, já no fim de agosto. Para minha sorte conhecer suas músicas ao vivo foi ter a oportunidade de me sentir flutuando em ternas nuvens.
       Os instrumentos no palco sugeriam uma apresentação intimista, o violão acompanhado pela voz sempre causa esse efeito, ao mesmo tempo demonstra a força das canções em seu formato mínimo. A apresentação começa com Ensaio sobre o amor o público a acompanha, fiel. Como construísse uma narrativa entre cada ato, Roberta, agradece o convite recebido pelo Sesc para realizar o show em um dia tão especial. A felicidade real da artista foi seguida por Casinha Branca. Em Aqui, Ali ela canta a partida da solidão. "a vida me fez para ser feliz". Em seguida, ela explica a razão da felicidade no dia: uma das canções de seu último disco é a abertura de Sol Nascente, a nova novela 'das seis'. Ela entoa Minha Felicidade como um mantra para gerar a energia a todos que estejam precisando. Um dos maiores orgulhos para um artista é ver sua música chegando ao maior número de pessoas e a novela será esse estandarte mais uma vez.
       Tendo o repertório em mãos, noto que Amiúde foi riscada em favor de uma música que ela não tocava há algum tempo. Felicidade, de seu álbum Varrendo a Lua (Deckdisc, 2010). Deixando o violão de lado, empunha a guitarra e apresenta o momento rock 'n' roll com sua faixa favorita do álbum lançado ano passado: Libélula e sua doce declaração "Me leva com você/Um doce suspirar na curva/Não dá para esquecer/Pois tudo que eu olho tem você." Antes de mais um rock, ela narra a história de uma composição que fez com a paulistana Nô Stopa. "A Nô me mostrou a letra e faltava um refrão, assim que ela foi embora fiz uma melodia e fiquei super empolgada para mostrar, quando tive oportunidade ela ficou meio: - a melodia ficou bem bonita, mas ela já tinha uma." Risos de todos na platéia. A mineira continua que essa é a razão de Sinal de Fumaça possuir duas melodias diferentes, ainda manifesta o interesse de realizar, eventualmente, mais shows em parceria como realizaram o Da cor do vento. A composição termina com a homenagem ao U2 com versos de With or without you. 


        Novamente de posse de seu violão é a vez de Diário de um dia. Depois, levemente arruma seus óculos, afina, rapidamente, o instrumento para anunciar que, na gravação da canção seguinte, teve o prazer de cantar junto a Nando Reis. De janeiro a janeiro e na ausência do ruivo, o público da sinais de que poderia cantar até o mundo acabar. Roberta narra que certa vez estava em Brasília para realizar duas apresentações. Chegou um momento ocioso e ela pegou o violão enquanto sentia saudade de todo o mundo. A janela do quarto de hotel era de madeira, como uma moldura das entrelinhas do horizonte. Não passava nem vento em seu Porta Retrato. Depois surge o blues E eu fico em que os sonhos pintados nas paredes ficaram para trás. Com acordes que remetem a um ukelele vem Mundo Inteiro. A cantora explica que a canção seguinte sempre pensou ser de Milton, e, um dia, descobriu se tratar de composição de Lô e Márcio Borges. Quem sabe isso quer dizer amor. Lembrei de um caso parecido que me acontecia quando ouvia Um girassol da cor de seu cabelo crente de que era uma composição da Nenhum de Nós.
        Ela transporta o público para Minas Gerais quando conta que nos anos noventa enviou uma carta à Pato Fu falando sobre suas composições e como gostaria de mostrá-las a eles. Fernanda Takai respondeu a carta à mão afirmando que ela poderia mandar. Roberta ficou tão feliz com o contato que nem respondeu. Anos depois pode acertar contas com o passado quando pegou amizade com o baixista Ricardo Koctus e em seguida com o restante da banda. É a vez de Abrigo, composta com Takai. Muito gentil, a cantora agradece a presença de todos, afirma que o sonho de viver de música só se torna possível por ter pessoas que acreditam e curtem o som, e que espera que todos possam se reunir mais vezes. Com Pra morrer de amor ela se retira por instantes. Chega a hora do bis.
            A artista não precisa pedir ao público que entoe os versos de Marinheiro Só. Que dá lugar a Pro dia que chega. Vem a confissão "Ainda não tinha dito mas dediquei esse show ao Vander Lee que nos deixou há pouco tempo." como que enviando energias o público cantou baixinho com Roberta, Iluminado. Roberta agradece então ao Sesc, toda sua equipe e ao público. Conta que, não faz muito tempo, seus amigos a levaram ao karaokê. Ela convida o público a  acompanhá-la em Varrendo a lua. Ao fim do show ela realiza uma selfie com o público para o Instagram e o Spotify. No meet & greet depois que Helen consegue o autógrafo de Roberta, me aproximo dela e não resisto a perguntar algo que me representa uma busca pessoal: "Como você compõe canções tão alegres?". Ela sorri replicando "eu não sei". A busca prossegue. Os caminhos da suave voz de Roberta são repletos, sim, não de sorte, de talento.