domingo, 27 de maio de 2018

Referência

"Eu sou a soma de tudo o que vejo" - Meu Reino, Biquíni Cavadão




Referência (2011)
Letra: Kariny Cristina de Camargo
Música: Thales Salgado

De amores fui atenta
E por viver essa tormenta
É que sofri meus ais
Para trás na poesia
Augusta fui um dia
Flor bela, nunca mais!
Se mau agouro tive em vida
Hoje morro renascida 
Sem barcos no meus cais



         "Poderia ler esta insignificância que segue e me dizer que relações, intertextualidades, figuras de linguagem e poetas você encontra ao ler?" Com estas palavras Kariny iniciou uma conversa ao final de junho de 2011. A faculdade chegava em sua reta final e com ela o primeiro vislumbre do que viriam a ser as composições de 2013. Aquela altura poderia tomar como minhas as palavras de Lenine em Castanho: o que eu sou eu sou em par. Tirando o fato da composição ter saído em seu álbum de 2015. Ainda assim, uma consciência também já vista na convivência com a banda. A interação permite alcançar patamares não visíveis sozinho. Enquanto respondia, muitas das referências que encontrei em nada correspondiam às que ela tinha em mente ao escrever o poema. Quando o musiquei tinha em mente Shine on You Crazy Diamond. Embora, despida de solos a minha é uma canção curta. Algo que também seria explorado em De Amor Pequeno.

domingo, 20 de maio de 2018

Nos Olhos do Tempo

A MIRAGEM NO CAMINHO
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco,
(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).
Helena Kolody

Foto cedida do acervo de Kariny Camargo


Nos olhos do tempo (2011)
Letra e música: Thales Salgado

Olhou para trás e não se tornou
A estátua de sal que desejou
E ao deitar o que sonhou
O fez raiar, o exasperou

Viu um jardim de nuvens
E cisnes de papel
Esculpida em lava
Uma alada cascavel
Fênix de neblina
O caos da criação
Deparou-se com o tempo
Vindo em sua direção

Viu sua vida nos olhos do tempo
Num arrebol com poeira de estrelas
Viu tantos astros, tantos elementos
Unindo-se a seiva de luzes e trevas
Não se lembrava de nada quando acordou

         "De todos os mistérios da noite, os que mais me espantam são os vaga-lumes e os sonhos" essa frase do filme Fica comigo esta noite permanece desde a primeira vez em que assisti ao filme num longínquo 2006. As frases de posts anteriores tendo sido d'A Sociedade dos Sonhadores Involuntários de José Eduardo Agualusa me deram a impressão de que voltaria a trazê-lo aqui. Os sonhos sempre foram um tema de interesse. Dias atras, mesmo, sonhei em encontrar refúgio numa espécie de seminário ou mosteiro. Pouco recordo dos pormenores mas, enquanto eu sonhava, parecia tudo palpável e concreto. Como se o mero fato de despertar fosse uma afronta ao encontro propiciado pelo idílico. Melhor seria esquecer?
          As canções de Nada Há de Novo Sob o Sol traziam menções ao Eclesiastes. Nos Olhos do Tempo traz menção óbvia à esposa de Ló, numa das passagens que mais me assustavam na infância. Lembro de 2011 ser o ano do lançamento do álbum Chão de Lenine com sua circularidade concreta inconvencional, no entanto, não consigo me atinar a que me levou a escrever essa letra numa tentativa simbolista. "arrebol" é uma palavra que retirei do cancioneiro de Djavan, assim como a Fênix é uma forma delicada de inserir Ikki, uma de meus cavaleiros de bronze favoritos em canção. A alada cascavel é o Quetzalcóatl da cultura mesoamericana... Há uma série de alusões, e a espinha dorsal são os sonhos. Aqueles dos quais se acorda sem saber de nada.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Hey Menina

"Para uma pessoa com alguma imaginação o passado está em constante mudança. Você acha que o presente nasce do passado, mas é o contrário. O presente cria o passado. Uma pessoa com imaginação não fica presa ao passado e muito menos a fronteiras." José Eduardo Agualusa - A Sociedade dos Sonhadores Involuntários

Seu instrumento, seu território.


Hey Menina (2009)
Letra e Música: Fábio Kulakauskas

Hei menina!
Passa devagar
Pra eu contemplar
Teus passos

Aqueles passos
Que me fazem
Viver o passado.

Alguns passos,
Alguns passam.
Mas, você não ficou
Só no passado.

Hei guria!
Ah! Eu lembro
Do teu caminhar,
Leve feito pena.

Más não há “penas”,
Pois, sobre mim
Tu irás passar
E alcançar...

O teu futuro.
Pois, é esse
O destino
De nós dois.


         Foram-se os dias após o natalício e a canção não vinha à tona. No dia dez, enquanto conversava com Kariny ela comentou acerca do contraste entre minha versão (suave, breathy, raspy) e a gravação original (forward placement) de Fabio, com direito à um arranjo de violão clássico digno de Pachelbel.
         Assim como Desejo de um Rio, minha versão da música é pautada nos arranjos de Bill Callahan em seu álbum Sometimes I Wish We Were An Eagle. A delicadeza da execução das cordas desse álbum tornaram-se um norte. Você precisaria ouvir apenas Jim Cain para perceber a maneira como a voz de Bill percore os acordes como quem não se preocupa com o tempo. Por vezes me pego a pensar em quanto os arranjos poderiam ser modificados ou não. Esse pensar também esteve presente numa outra canção de Fabio de que falei: Noites Esfrias em que o foco foi na utilização da craviola de doze cordas.
      Esses contrastes não são forçados. Podendo analisar muito tempo após tudo ter ocorrido fica a noção das abordagens composicionais distintas e, por mais soe repetitivo, é um fator que agrega quando se pensa na Falsa Modéstia como a entidade coletiva de outrora. Algumas de minhas composições poderiam trazer os 'passos' como foco, e, ainda assim, seriam outros passos. Como um de meus rascunhos perdidos em tudo o que não foi e que dizia lá perto do ribeiro onde segui seus passos. A letra de Fabio é concisa e ao mesmo tempo evocativa e esse é um ótimo ponto. Não é preciso discutir acerca. Apenas sentir.

domingo, 6 de maio de 2018

Escarlate Saudade

"Os sonhos, ah, os sonhos! Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver, mas sem a grande mentira que é a vida. Talvez seja isso. Talvez seja o contrário disso. Nem sei. Acontece-me, por vezes, acreditar numa determinada ideia e no oposto dela com idêntica paixão, ou sem paixão nenhuma. Nos últimos anos, aliás, venho perdendo cabelos e paixão. Também venho perdendo ideias e ideais. Talvez seja a velhice, talvez seja o nirvana. O que você acha?" A sociedade dos sonhadores involuntários, José Eduardo Agualusa
Foto: LumineImages (iStockphoto)

Escarlate Saudade (2018)

Toda manhã
Sou despertado por sua canção
Dizendo quase poder ver
O sonho de sua escalada.
Passo o café
Do jeito que tu costumavas fazer
Não digo "eu lembro"
Pressupõe esquecer
E eu não me esqueci de nada.

Confesso que, às vezes,
Logo ao abrir a porta
A vejo ali, sentada,
Será Inês é morta?
Mas não vivo num filme
Aqui não é Hollywood!

Cada amanhã
Alimentando uma antiga paixão
Morrendo sem se perceber
Ilhando-me em sua morada
Lágrima, até
Avança a face
Dissipando meu ser
E já são tantas que se nada

Confesso que,às vezes,
Retraço nossas rotas
Você, já no futuro.
Será que ainda importa?
Quem dera estar num filme
Um final de Hollywood!

Mesmo não fosse assim
O orgulho impediria outra
Reação qualquer de nós
Agora, há tempos, não há par.
E as metades, desiguais.
Saudades são excessos.

O que se faz com o amor que sobrou?


         Se me fosse permitido usar o título de uma canção que desgosto para iniciar o texto, certamente seria "quase sem querer", afinal, a locução define bem a maneira como essa canção surgiu. Experimentava a afinação D-D-D-A-D-F# e decidi mantê-la desde o mês de abril. É quase como reaprender o violão. A menos eu enjoe, as próximas serão feitas nesse mesmo esquema.

       Escarlate Saudade é a primeira composição solo de 2018, uma vez que Enquanto Fizer Sentido iniciou com as palavras de Barbara Barduchi e Is This Poetry foi a musicalização de dois micro-poemas do perfil no Instagram @poetry_131 (veja aqui: https://youtu.be/yvxRwfk4aZg), e sua letra funciona como continuação de CCCLXV. A música funciona isolada? Provavelmente. A intenção da letra era fugir um pouco do críptico poético inserindo elementos cotidianos, como passar o café. 
Foi por um triz que alguma menção à Hollywood não permaneceu no título. As primeiras pessoas a ouvirem a música levaram a crer esse é o trecho mais marcante - talvez pela repetição?. Manter a palavra escondida era forma de seguir hermético como memória. Se uma década atrás se falava em paixões de cinema, abismos que, por amor, são superados, Escarlate Saudade aborda a questão sob outro ângulo: que importa a evocação de um cotidiano anterior? Estando alheio a ele. 
         Mesmo se canções favoritas "do outro", são mencionadas (leia-se The Climb de Miley Cyrus e  Alma Gêmea de Peninha eternizada por Fabio Jr.) a vida não segue uma estrutura de três atos, por mais sonhemos em emular a Trilogia do Antes (clique para um texto de Larissa Padron para o Cinema de Buteco). Até aí nada há de novo sob o sol. Essa canção só ilustra o que a poeta Joni Mitchell afirmara em seu primeiro álbum em 1971: todos os românticos encontram o mesmo fim algum dia: cínicos, amargos e chateando alguém na penumbra de uma cafeteria... Ei, você ainda tá aí?